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Publicado em 07 de Fevereiro de 2016 às 12h:50

Entrevista: Willian "Baby Face" Silva

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Autor Luigi F.

Willian Silva - Imagem: Mary Ann Owen/Top Rank.

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Ele é um dos mais talentosos boxeadores brasileiros da atualidade. Dono de um cartel de 135 vitórias e 5 derrotas como amador, e de 23 vitórias, sendo 14 nocautes, na invicta empreitada como profissional, Willian “Baby Face” Silva é o entrevistado de hoje no Round13.

Confessamos que essa entrevista está no radar há algum tempo, afinal, não é de hoje que Willian se destaca no cenário nacional. O paulista, ex-campeão latino como profissional nas categorias leve e meio-médio, vem de uma família totalmente envolvida com a nobre arte nacional, tendo seu pai, Aluísio Silva, como treinador, além do irmão Michel Silva como pugilista profissional.

Após assinar com a Top Rank e ter sucesso em suas duas exibições sob a tutela da companhia de Bob Arum, Willian terá pela frente o maior desafio de sua carreira profissional até o momento. No próximo dia 27 de fevereiro, ele enfrentará o porto-riquenho Felix Verdejo, considerado como uma das maiores promessas do boxe mundial, em luta a se realizar no místico e tradicional Madison Square Garden, em Nova York, nos EUA.

Falando diretamente de Las Vegas, EUA, onde se prepara com o auxílio do treinador Gabriel de Oliveira, Willian conversou com exclusividade com o Round13, contando sobre sua carreira, as perspectivas para o combate contra Verdejo, e muito mais. Com vocês, Willian “Baby Face” Silva!
 

Round13: Você começou cedo no boxe, tendo iniciado ainda criança. Poderia comentar um pouco sobre seu início e sua carreira no boxe amador?

Willian Silva: Comecei na academia com uns 8, 9 anos de idade, meu pai dava aula e eu praticava para me divertir. Aos 10 anos eu comecei a treinar diariamente, mas não tinha expectativas de lutar pois era muito novo. Um tempo depois, surgiu o campeonato infantil organizado pelo Newton Campos, em 2001, e foi o primeiro campeonato que eu disputei, sendo campeão. Entrei no esporte pelo instinto e pelo pedigree da família mesmo, já que tanto meu pai, quanto meus irmãos, lutavam. O boxe está no meu DNA. Depois disso, fui campeão duas vezes no Infantil, me destaquei em algumas competições e em lutas casadas pela Confederação Brasileira de Boxe, até que fui chamado para fazer parte da seleção aos 14, 15 anos. Fui o primeiro atleta na história do Brasil a representar nosso país num Campeonato Mundial de Cadetes, para atletas de 15 e 16 anos. Nesse campeonato, venci duas lutas e perdi na terceira. Depois segui para competições internacionais representando o Brasil no México, Porto Rico, Chile, Venezuela e outros países. Cheguei a me consagrar Campeão Sul-Americano Juvenil, aos 17, 18 anos, no Chile. No Brasil, venci todas as competições tradicionais, como a Forja de Campeões, Torneio das Estrelas, Copa Antonio Carollo, Cinturão de Ouro. Tive uma carreira bem regular no amador, com 140 lutas e 135 vitórias, disputei tudo que podia exceto as Olimpíadas, pois me profissionalizei 2 anos antes dos Jogos Olímpicos de Pequim.


Willian Silva. Imagem: Mary Ann Owen/Top Rank

Round13: Sua profissionalização veio aos 19 anos, no ano de 2006. Como foi tomada a decisão de se profissionalizar?

Willian Silva: Foi uma decisão minha e do meu pai. Decidimos abandonar o sonho da medalha olímpica mesmo eu sendo titular absoluto da minha categoria na seleção para correr atrás de um novo sonho: ser campeão mundial profissional. O principal motivo foi a minha idade. Nós sabíamos que, no Brasil, passar para profissional com mais de 24, 25 anos é difícil, porque não tem eventos profissionais. A decisão foi tomada exatamente para que eu estivesse pronto para lutar por um título mundial com 27, 28 anos.

Round13: Logo após três lutas no profissional, já surgiu a chance de disputar o título brasileiro dos super-penas pelo CNB. Naquela oportunidade, você bateu o Fernando Ferreira “Fumaça” da Silva, que possuía um cartel de 13-1-1 na época. Como foi essa luta para você? Chegou a ter alguma negociação para uma revanche, já que ele foi desclassificado?

Willian Silva: Foi uma luta muito dura, pois eu tinha apenas 3 lutas, e tinha ganhado todas por nocaute entre os primeiros rounds, ou seja, não tinha experiência profissional suficiente para fazer uma luta de 10 assaltos. Mas lutei de igual para igual mesmo com todas as dificuldades e me sagrei campeão brasileiro com apenas 4 lutas. Ele foi desclassificado por incoerência dele mesmo, então nunca pensei em dar uma revanche. Pouco tempo depois, ele também acabou subindo de categoria.

Round13: Após mais 6 vitórias, você estreou nos EUA em 2009 fazendo duas lutas. Poderia comentar um pouco sobre essa experiência, e também sobre as diferenças de lutar fora do Brasil?

Willian Silva: A diferença entre lutar fora do Brasil é que no exterior o boxe é valorizado, e no nosso país não. O nível dos atletas aqui fora é um pouco superior porque geralmente um lutador de boxe não tem que fazer outra coisa a não ser treinar e lutar, sem contar que todos eventos aqui tem o suporte e apoio da televisão, mesmo que por emissoras pequenas. Tudo isso faz a diferença.


Willian Silva, Gabriel de Oliveira e Adriano "Pipoca" dos Santos. Imagem: Arquivo pessoal.

Round13: E como você avalia seu desenvolvimento e desempenho nelas? Qual foi a importância de ter feito aquelas lutas naquele momento da carreira, com 10 combates profissionais realizados?

Willian Silva: Achei importante para poder me testar e também para pegar experiência, pois faz muita diferença pegar um lutador que é acostumado a lutar em casa e um que já é rodado. A evolução foi positiva, pois lutei com lutadores bem rodados. Eles possuíam derrotas, mas eram bem experientes. Naquele momento, adquirir experiência em lutas de mais rounds era importante para o meu futuro.

Round13: Na sequência, você voltou a lutar apenas no Brasil por um tempo. Suas principais conquistas aqui vieram em 2013, quando você venceu o argentino Hector Santana e conquistou o título latino da OMB pelos meio-médios, e em 2014, quando você conquistou o título latino, também pela OMB, na divisão dos leves, contra o também argentino Pablo Barboza. Como foram essas lutas?

Willian Silva: Foram duas lutas muito duras. Contra o Hector Santana eu vinha de mais de um ano sem lutar, e fora da minha categoria. Eu estava treinando na época, mas sem lutar, surgiu a oportunidade e fui para cima. Fiz uma boa luta de 12 rounds duríssimos e me consagrei campeão latino. Não fiz nenhuma defesa desse cinturão por causa da categoria, ficava muito fora de peso para mim, era muito pesado. E a luta contra o Pablo Barboza foi algo que me qualificou muito, ele era bem experiente e qualificado, e teve boas vitórias após me enfrentar. Foi essa luta que me alavancou para chegar onde estou hoje, de tão importante que esse resultado foi para mim. Depois disso, apareceram algumas oportunidades, e na sequência assinei o contrato com a Top Rank em 2015.

Round13: Como surgiu o interesse da Top Rank? Poderia comentar um pouco sobre as negociações e também sobre como foi feito esse acordo?

Willian Silva: O interesse da Top Rank surgiu por parte de um matchmaker deles que entrou em contato comigo logo no início do ano passado, quando eu tinha uma luta marcada contra o lutador Petr Petrov, da Rússia. Dois dias antes de embarcar para enfrentá-lo, me tiraram do combate sem dar satisfação nenhuma. Mas tem males que vem para o bem, e alguns dias depois esse matchmaker entrou em contato via Facebook, conversamos e fechamos a negociação.


Willian Silva x Adam Mate. Imagem: Chris Farina/Top Rank

Round13: No ano passado você lutou duas vezes em eventos da Top Rank, vencendo Adam Mate nos EUA e o Bayan Jargal em Porto Rico. Em ambas as oportunidades, você venceu por nocaute. Houve alguma mudança na sua preparação para esses combates? Poderia contar um pouco mais sobre essas duas exibições?

Willian Silva: Foram duas lutas onde eu me preparei praticamente aqui nos EUA, começando a minha preparação sempre em São Paulo e terminando aqui em Las Vegas, onde tenho sparrings de primeira linha, como outros lutadores invictos de muita qualidade. Isso faz a diferença em cima do ringue: a qualidade dos sparrings. Sobre as lutas, acredito que o fato de eu estar mais experiente naquela época, tendo feito duas lutas que duraram doze rounds em disputas de títulos latinos contra adversários duros, tudo isso me ajudou muito, e os nocautes foram apenas fruto de um trabalho bem feito.

Round13: Em janeiro, foi anunciada a luta com o porto-riquenho Felix Verdejo. Como surgiu essa negociação?

Willian Silva: Essa luta já vinha sendo especulada nos corredores da Top Rank há algum tempo. Tive um teste quando enfrentei o Bayan Jargal, que é um adversário de alta qualidade e que já tinha lutado contra nomes como Breidis Prescott, Chris Algieri e Zahir Raheem, além de ter vencido o Eric Aiken, que foi o americano responsável por tomar o título do nosso Valdemir “Sertão” (Nota R13: Sertão perdeu o título em 2006, em sua primeira defesa, após ser desclassificado). Eu sabia que se vencesse de forma convincente, como fiz, e se o Verdejo vencesse o Josenilson dos Santos, essa luta estaria praticamente fechada (Nota R13: Verdejo nocauteou Josenilson em dezembro do ano passado, no mesmo evento em que Willian bateu Jargal).

Round13: O Verdejo é considerado uma das grandes promessas do boxe mundial, e a mídia internacional aponta ele como o favorito para a luta. Como é para você essa situação?

Willian Silva: O Verdejo é sim uma grande promessa para o boxe mundial, mas no meu ponto de vista, não vejo ele tão favorito assim como as pessoas dizem. A única coisa que vejo é que ele tem mais mídia do que eu, pois aqui no Brasil o boxe profissional está abandonado, e muitos dos nossos bons atletas não são reconhecidos nem no seu país de origem. Se for ver, na prática, o favoritismo dele não é tão grande assim. A mídia estrangeira ainda não me conhece, mas depois dessa luta as coisas vão mudar! O favoritismo dele vai até o gongo suar. Vale também lembrar que o esse título do Verdejo (Nota R13: de campeão latino pela OMB na categoria leve) já foi meu, e eu o perdi sem defender, por não ter condições financeiras.


Pôster da luta contra Felix Verdejo, que ocorrerá em 27 de fevereiro. Imagem: Divulgação

Round13: Como vem sendo sua preparação para esse combate? Poderia detalhar um pouco como vem sendo sua rotina de treinos?

Willian Silva: Venho treinando forte e me dedicando muito na parte física e na parte técnica, pois essa luta vai ser decidida em detalhes. Logo, as partes física, técnica e mental têm que estar impecáveis. Meu técnico é e sempre foi o meu pai, Aluísio Silva, porém, como ele não pôde vir aos EUA por problemas de visto, conversamos e optamos pelo Gabriel de Oliveira, que foi adicionado ao nosso time por ser de nossa extrema confiança e também por ter me treinado na Seleção Brasileira amadora.

Round13: O Verdejo vem de vitória sobre o Josenilson dos Santos em dezembro do ano passado. Apesar desse sucesso contra um brasileiro, sabemos que no boxe amador ele já foi derrotado pelo Robenilson de Jesus. Você e sua equipe chegaram a conversar com ele tentando pegar algumas dicas para moldar a estratégia de vocês?

Willian Silva: O Gabriel (de Oliveira) fez sim contato com o Robenilson, ele passou algumas coisas e até se dispôs a ajudar na nossa preparação fazendo sparring e tudo mais, mas como eu já estava de viagem marcada para os EUA, acabou não dando certo.

Round13: Uma vitória contra o Verdejo te colocará bem ranqueado e te alçará a um novo patamar do ponto de vista de reconhecimento internacional. Como está sua cabeça em relação a isso?

Willian Silva: Minha cabeça está tranquila, sem pressão alguma, pois é uma coisa que sempre sonhei. Me preparei a vida toda para esse momento. A hora chegou, e agora é só ir lá e fazer o que eu sei fazer que é lutar boxe. Sempre quis lutar com os melhores pois me preparei para isso a vida toda.


Willian (dir.) e seu pai e treinador, Aluísio Silva. Imagem: arquivo pessoal.

Round13: Você é um atleta com boa experiência, tendo atuado no Brasil e no exterior, e feito treinamentos tanto aqui, quanto lá fora ao longo da carreira. Na sua opinião, o que falta para o boxe brasileiro ter mais atletas na condição de promessas a nível mundial? Poderia também comentar as principais diferenças entre a estrutura daqui e a que você encontrou nos seus intercâmbios para treinamento no exterior?

Willian Silva: Falta apoio no Brasil, e isso significa condições para o atleta viver única e exclusivamente da sua modalidade esportiva, que no nosso caso é o boxe. A diferença entre o Brasil e EUA, por exemplo, é que aqui nos EUA um lutador de boxe só luta boxe, pois tem apoio financeiro e também moral. O Brasil tem ótimos lutadores, só que sem apoio fica muito difícil. Outra diferença é o fato de que no Brasil, não há continuidade nas programações, às vezes você tem uma luta apenas no ano, então fica complicado se manter ativo. Sobre a estrutura física, não tem muita diferença não. No Brasil, treino na Academia Prime, que é tão boa quanto a academia da Top Rank que treino aqui em Vegas. Sobre os sparrings, a qualidade aqui também é maior pelo que já comentei, os caras são mais qualificados pois só fazem isso, só se preocupam em lutar. Tenho certeza de que se houvesse apoio no esporte, o Brasil seria uma potência mundial.

Round13: E o apelido “Baby Face”, de onde surgiu?

Willian Silva: O apelido surgiu desde cedo, pois comecei a lutar ainda criança. Aos 12 anos, falavam que eu tinha cara de bebê e lutava com adultos já. Diziam que eu tinha cara de bebê, mas batia como adulto, aí pegou o “Baby Face”.

Round13: Quem são seus ídolos no boxe? E na vida?

Willian Silva: No boxe, o Sertão (Valdemir Pereira), pois ele chegou ao título mundial mesmo com todas dificuldades do boxe brasileiro, então para mim ele é o cara! Gosto também do Julio Cesar Chavez, Miguel Cotto, Floyd Mayweather e Diego Corrales. Já na vida, meus ídolos são minha mãe e meu pai, pois são exemplos de pessoas de dignidade, humildade, e mesmo com as dificuldades da vida criaram três filhos e fizeram três homens, que sabem entrar e sair de qualquer lugar com humildade sempre, mas também de cabeça erguida. Pai e mãe, amo vocês.

Round13: Você vem de uma família totalmente envolvida com o boxe, tendo seu pai como treinador, e tendo seu irmão mais novo, Michel, também lutador profissional. Como é fazer parte de uma família que respira boxe?

Willian Silva: Para mim não tem coisa melhor, pois o boxe mudou a história da nossa família. É bom porque conversamos sempre, assistimos lutas juntos, ou seja, estamos sempre juntos pelo boxe. Amamos o boxe, respiramos o boxe e o boxe é nossa vida. O Michel é um cara muito promissor para o boxe brasileiro e mundial. Ele deveria começar a ser mais lembrado e também ter suas oportunidades, mas Deus vai abençoá-lo e a sua hora vai chegar. Ele tem 10 lutas, com 10 vitórias, sendo 9 por nocaute. Como ele não é lembrado? Se fosse aqui (nos EUA), ele já seria ídolo, promessa ou até mesmo realidade.


Willian e seu irmão, Michel Silva. Imagem: Arquivo pessoal.

Round13: Quais os melhores lutadores do mundo na sua opinião?

Willian Silva: Na minha opinião, o melhor lutador acabou de se aposentar: Floyd Mayweather Jr. O estilo inteligente e frio em cima do ringue é incomparável, e para mim ele é o melhor disparado. Depois tem o Juan Manuel Marquez, Terence Crawford, Guillermo Rigondeaux, Miguel Cotto, GGG (Gennady Golovkin) e o Chocolatito (Roman Gonzalez). Para mim, esses são os melhores no momento.

Round13: E os brasileiros?

Willian Silva: Esquiva Falcão, Everton Lopes, Yamaguchi Falcão, Patrick Teixeira e Michel Silva. Tenho certeza que quando meu irmão tiver sua oportunidade, vai mostrar porque está nessa lista e merece ser citado entre os melhores do país pelo boxe que tem. Tem outros que estão vindo, mas os principais são esses. Temos também muitas promessas, como o Vitor Jones, que é um lutador de muita qualidade técnica e rápido, o Benedito Neto, que é um lutador explosivo e com muita pegada. O Brasil tem muitos talentos, o que falta é fazer o boxe brasileiro profissional funcionar para essas joias aparecerem.

Round13: Gostaríamos de te desejar uma boa preparação e boa sorte na sua luta no dia 27 de fevereiro. Considerações finais? Algum recado para os fãs?

Willian Silva: Queria agradecer primeiramente a Deus, pois sem Ele nem aqui eu estaria. Depois gostaria de dizer que estou indo para ganhar essa luta. Quero agradecer a todos que acompanham a minha carreira e que sempre perdem um pouco do seu tempo para deixar uma mensagem de apoio. Tamo junto galera (sic), obrigado a todos! Que a paz de Cristo esteja sempre com vocês. E muito obrigado ao Round13 pela oportunidade de dar essa entrevista.

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