Entrevistas

Publicado em 13 de Fevereiro de 2016 às 12h:30

Entrevista: Robson Conceição

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Autor Luigi F.

Foto: Gabriel Fricke/Globoesporte.com

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Nascido em 1988, em Salvador, Bahia, Robson Conceição começou a lutar ainda criança. Integrante da Seleção Olímpica Brasileira desde 2007, Robson possui um vasto currículo no boxe amador, com 2 medalhas conquistadas em suas quatro participações em Campeonatos Mundiais (Prata em Almaty-2013 e Bronze em Doha-2015), além de duas participações em Olimpíadas e uma medalha de ouro nos Jogos Mundiais Militares, disputados em 2011 no Rio de Janeiro.

Lutando atualmente na categoria de peso-leve, Robson é reconhecido como um dos principais nomes do boxe amador brasileiro. E não é à toa: ele foi o primeiro (e por enquanto, é o único) boxeador brasileiro a assegurar uma vaga nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que ocorrerão em agosto deste ano.

Em mais uma entrevista exclusiva do Round13, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre uma das grandes esperanças brasileiras de medalha olímpica nos Jogos do Rio, abordando os principais momentos e conquistas da carreira, as expectativas para disputar as Olimpíadas lutando em casa e também sobre os planos para se profissionalizar no futuro. Com vocês, Robson Conceição!


Robson Conceição. Foto: Flavio Florido/UOL


Round13: Você começou cedo no boxe, ainda criança. Como foi esse início? O que te motivou a começar na nobre arte?

Robson Conceição: Comecei no boxe aos 13 anos de idade. E o que mais me motivou a começar foi um tio que eu tenho. Na época ele brigava muito, e meu sonho era ser igual a ele. Comecei a treinar com o Lino Brito, num projeto social aqui na Bahia. Depois do Lino, treinei com Egberto da Silva, mais conhecido como Bel. Em 2005, fui treinar com o Luiz Dórea através do Bel, e também por causa do Campeonato Brasileiro daquele ano.

Round13: Poderia comentar um pouco sobre seus principais resultados nos tempos de Infantil, Cadete e Juvenil?

Robson Conceição: Na minha época, não havia uma separação de classes tão definida. Mas, em relação aos títulos, minha primeira grande conquista foi o Campeonato Brasileiro, que ganhei pela primeira vez aos 17 anos de idade.

Round13: No adulto, você venceu o Torneio Pré-Olímpico da Guatemala, tendo batido Abner Cotto na final daquele torneio, e se classificou para os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, na categoria pena. Nas Olimpíadas, você acabou derrotado na estreia para o chinês Yang Li, por 12 a 4. Como foi toda essa trajetória até os primeiros Jogos Olímpicos? Comente um pouco sobre a experiência e também sobre a luta contra o chinês.

Robson Conceição: Para participar da Seleção Brasileira, na época fiquei no lugar do Davi Souza, que era um lutador do Pará. Foi onde tudo começou. Tentei me classificar num primeiro Pré-Olímpico, mas perdi na semi-final, e aí na minha segunda tentativa, na Guatemala, eu fui campeão e consegui a vaga. Tive uma boa preparação para os Jogos, me preparei bem, mas tive a infelicidade de lutar contra o dono da casa logo na estreia. Mas de qualquer forma, considero que foi uma boa experiência.


Robson (esq.) foi eliminado por Yang Li (dir.) na estreia em Pequim-08. Foto: Jonathan Ferrey/Getty Images/VEJA

Round13: Um ano depois, em 2009, você disputou o Mundial de Milão, Itália, também nos penas. Logo de cara, enfrentou o cubano Yasniel Toledo, perdendo por 21 a 7, também na primeira rodada. Como foi esse torneio?

Robson Conceição: Perdi de cara para o cubano nesta luta mesmo. Eu estava bem treinado na época, mas não me encontrei na luta, estava sem distância e isso me levou a fazer uma péssima luta. Cerca de 15, 20 dias antes desse campeonato, eu estava treinando em Cuba, e durante um sparring levei uma cotovelada que causou um corte bem fundo no meu supercílio, o que me impediu de fazer luvas durante esse período. Na hora de lutar no Mundial, eu estava sem visão do boxe e sem distância, e acabei perdendo.

Round13: Em 2011 você conquistou a medalha de ouro nos Jogos Mundiais Militares, no Rio de Janeiro. Poderia comentar sobre a disputa desse campeonato e também sobre a emoção de ganhar um título tão importante lutando em casa?

Robson Conceição: Foi uma competição bastante difícil, pois tinha atletas duros e renomados participando. Mas consegui vencer cada um deles e me consagrar campeão mundial militar. O fato de competir em casa me impulsionou bastante, pois sentir o calor da torcida me fazia ter ainda mais forças para sair de cada combate com a vitória.

Round13: No Campeonato Mundial de 2011, em Baku, Azerbaijão, lutando entre os leves, você foi eliminado nas oitavas de final após uma polêmica. Após bater o ucraniano Vasyl Lomachenko por 20 a 19, a Federação Ucraniana fez um protesto sobre o resultado junto a AIBA, obtendo sucesso e revertendo o resultado da luta. Com isso, sua vitória acabou anulada, e o Lomachenko acabou seguindo na competição. Como foi esse episódio?

Robson Conceição: No momento que recebi a vitória eu fiquei muito feliz e fui dormir achando que estava classificado e que iria lutar no dia seguinte. Quando acordei para ir a pesagem, recebi a notícia da mudança de resultado. Meu mundo caiu. Achei um absurdo, pois lutei, e lutei muito. O ponto retirado tinha sido o dele, e não o meu. Reverter o resultado foi uma coisa de outro mundo. Fiquei muito decepcionado.

Round13: O resultado foi revisto após considerarem que você deveria ter sofrido uma punição, e que a perda de pontos do Lomachenko durante a luta teria sido incorreta. Após rever o vídeo da luta, na sua opinião, a mudança de resultado foi justa?

Robson Conceição: Quem tinha aplicado o golpe baixo tinha sido ele, e não eu. Anularam um ponto retirado dele pelo golpe baixo. E aí incluíram uma punição para mim por excesso de clinche. Não achei justo o que fizeram.

Round13: Algumas semanas depois, você participou dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, no México, terminando com a medalha de prata ao perder a final para o cubano Yasnier Toledo. Além da medalha, um episódio marcante naquele torneio foi o pedido de casamento que você fez ao vivo pela televisão para sua atual esposa, a também boxeadora Erika Mattos. Poderia nos contar um pouco sobre como tudo isso ocorreu e sobre essa conquista? Como é ser casado com alguém que pratica o mesmo esporte que você?

Robson Conceição: Eu queria muito fazer uma surpresa para ela, pois a Erika é uma pessoa muito especial em minha vida, e como ela não tinha conseguido ir aos Jogos, pensei em fazer algo diferente e que fosse surpreendê-la. E aí pensei no pedido de casamento, pedi ajuda aos repórteres que estavam no México e ao meu treinador, montamos a plaquinha e na semifinal eu fiz o pedido. A conquista foi bastante significativa para mim e para meu currículo, pois somou bastante. Sobre ser casado com alguém que faz a mesma coisa que eu, acredito que seja muito mais fácil, pois ambos sabemos das dificuldades que enfrentamos no dia-a-dia, a saudade, a distância, as dores, lesões. Nós sempre conseguimos entender bem um ao outro.


Robson pediu Erika Mattos em casamento ao vivo pela TV. Foto: Bruno Doro/UOL Esporte

Round13: Em 2012, você teve a chance de participar mais uma Olimpíadas, em Londres, Inglaterra. Infelizmente, você acabou enfrentando novamente o lutador da casa logo na estreia, dessa vez o inglês Josh Taylor, que acabou vencendo por 13 a 9. Como foi essa luta e a experiência de disputar novamente os Jogos? O que faltou, na sua opinião, para chegar mais longe?

Robson Conceição: Considero mais uma experiência na minha vida como lutador. Fizemos uma base de treinos em Londres antes dos Jogos em conjunto com a equipe titular do Reino Unido, e com isso eles conseguiram me estudar e montar uma estratégia para ganhar de mim. Vale também contar que de novo enfrentei o dono da casa, ou seja, em minhas duas participações tive que enfrentar, além dos meus oponentes, os juízes.

Round13: A Seleção Brasileira de 2012 obteve uma excelente participação em Londres-2012, voltando para casa com 3 medalhas: uma prata de Esquiva Falcão, e dois bronzes de Yamaguchi Falcão e Adriana Araujo. Foram as primeiras medalhas brasileiras no boxe em Olimpíadas desde o bronze de Servílio de Oliveira, nas Olimpíadas de 1968 na Cidade do México. Na sua opinião, quais os principais fatores que geraram essas conquistas para nosso país em relação ao que vinha sendo feito até os Jogos de 2008?

Robson Conceição: Nós atletas seguimos ciclos para competições, e nesses ciclos participamos bastante de torneios, onde amadurecemos e nos preparamos até chegar o momento do nosso maior objetivo, que são os Jogos Olímpicos. A partir daí, tudo só depende de nós lutadores lá em cima do ringue, então temos que dar o nosso melhor e superar os adversários. Para mim, os treinamentos diversos e o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar foram os grandes diferenciais em Londres-2012.


Robson (esq.) foi derrotado na estreia em Londres-2012 por Josh Taylor (dir.). Foto: AFP Photo/Jack GUEZ/UOL Esporte

Round13: Após as Olimpíadas, o Lomachenko acabou se profissionalizando com um cartel de 396 vitórias e apenas 1 derrota como amador, contra Albert Selimov. Você poderia ter sido o responsável pela segunda derrota na carreira do ucraniano, caso o resultado do mundial não fosse alterado. Qual é a sua opinião sobre isso? Você o considera o maior rival que você possuiu até hoje na carreira, dado que ele se sagrou campeão Olímpico em 2008 e 2012, e Mundial em 2009 e 2011 nas mesmas categorias que você disputou?

Robson Conceição: Ele é um ótimo atleta, isso é indiscutível. Porém, eu ganhei dele em 2011, tenho plena certeza disso. O fato dele ser o “queridinho” na época o favoreceu muito. Foi uma pena aquela luta, pois eu estava numa excelente fase e teria sido campeão mundial se tivesse passado por ele, tenho certeza disso. A arbitragem é muito influente e as vezes quem sai prejudicado somos nós, atletas, que levamos uma vida muito difícil nas costas e acabamos sofrendo com esses imprevistos. Sobre rivalidade, já tive muitos, mas um que sinto que me deu muito trabalho foi na estreia do Mundial de 2013, o Dorjnyambuu Otgondalai, da Mongólia. Ganhei na decisão dos árbitros, sendo que uns 20 dias antes do Mundial ele havia me vencido duas vezes. No Mundial, com muito suor, consegui dar o troco e sair com a vitória.

Round13: No Mundial de 2013, em Almaty, Cazaquistão, você conquistou a medalha de prata na categoria dos leves, perdendo a final para o cubano Lázaro Álvarez. Como foi esse torneio e a conquista de uma medalha tão importante?

Robson Conceição: Esse torneio foi muito difícil. Tive uma chave muito dura, onde enfrentei atletas experientes e difíceis, completamente o oposto do Lázaro, que pegou uma chave mais tranquila. Cheguei na final bem desgastado, com um corte no supercílio, e ele acabou vencendo por decisão dividida, 2 a 1. No ano passado enfrentei ele novamente na Venezuela, e venci por decisão unânime. A medalha de prata foi muito importante em minha vida, pois é uma conquista muito sofrida e que me enche de orgulho por tê-la conseguido.


Robson (dir.) conquistou a medalha de prata no Mundial de 2013, após perder a final para Álvarez (esq.). Foto: Nikita Bassov/Divulgação/Agência O Globo

Round13: Após se sagrar campeão Sul-Americano em Santiago, no Chile, em 2014, você conquistou mais uma medalha num Mundial, dessa vez na edição de Doha, no Qatar, em 2015. Você perdeu para o Albert Selimov na semi-final, ficando com a medalha de bronze. Poderia comentar um pouco sobre esse campeonato?

Robson Conceição: Este foi outro campeonato que eu estava muito bem preparado para ser o campeão. Fiz essa semifinal contra o Selimov e perdi de forma absurda. Lutei muito bem, dominei meu adversário, mas no final ele saiu com a vitória. Para mim, aquela vitória foi minha. Todos que puderam assistir tiveram a mesma visão, o próprio treinador dele, um cubano chamado Peter, chegou a comentar com a comissão técnica do Brasil que tinha sido vergonhoso roubarem um atleta daquela forma como fizeram comigo.

Round13: Você possui no currículo duas participações em Jogos Olímpicos, tendo perdido em ambas na primeira rodada para os lutadores da casa. Dessa vez, os Jogos ocorrerão no Rio de Janeiro, que é a sua casa. Como é a sensação de disputar um campeonato tão importante lutando em seu país natal?

Robson Conceição: Não tenho palavras que possam descrever essa sensação. Agora não correrei o risco de lutar contra o pugilista da casa, já que esse será eu mesmo (risos). Estou tranquilo, mais maduro, mais experiente. Tenham certeza que treinarei muito e que vou lutar como nunca lutei em toda minha vida. Darei meu máximo para honrar a minha pátria.

Round13: Quais as suas expectativas para os Jogos Olímpicos de 2016?

Robson Conceição: Espero chegar a todo vapor no Rio. Estou me preparando, me cuidando ao máximo, cuidando das lesões. Quero chegar voando (risos). Minha expectativa é chegar ao topo.

Round13: No final do ano passado, você se sagrou campeão do Evento Teste realizado no Rio. Posteriormente, você acabou eleito como o melhor boxeador do mês pela AIBA. Como foi a emoção da torcida e a sensação de ter um destaque tão importante pela entidade reguladora do boxe amador mundial?

Robson Conceição: No Evento Teste da AIBA deu pra ter uma provinha do que serão os Jogos. Ter a torcida a meu favor com certeza fará uma enorme diferença, sentir todo o calor e energia positiva do torcedor brasileiro. Sobre ter sido escolhido pela AIBA como o melhor boxeador de dezembro, sem dúvida isso foi um fruto dos resultados positivos que venho obtendo dentro desse ciclo olímpico. Fiquei muito feliz.


Robson (dir.) venceu o Evento Teste realizado no Rio de Janeiro em dez/15, batendo o uzbeque Hurshid Tojibaev (esq.) na final. Imagem: Transmissão TV Globo/GloboPlay

Round13: Na sua opinião, quem são os grandes oponentes da sua categoria atualmente? Quem você considera seus grandes rivais a nível mundial?

Robson Conceição: Existem muitos atletas bons na minha categoria, então é difícil dizer qual é o melhor. Sei que farei combates difíceis, por isso estou treinando como nunca.

Round13: E no Brasil, quem foram seus maiores adversários em todos esses anos de boxe amador?

Robson Conceição: James Pereira, Dídimo Silva, Marcos Sena, que é meu conterrâneo, entre outros.

Round13: Como vem sendo sua preparação para as Olimpíadas de 2016? Quais serão os torneios que você disputará esse ano antes dos Jogos?

Robson Conceição: Minha preparação está sendo feita de acordo com o calendário, pois também luto numa liga semiprofissional (World Series of Boxing, ou WSB) que não autoriza minha participação em todos os torneios, então ainda não posso confirmar exatamente quais torneios eu disputarei esse ano.

Round13: Você é, até o momento, o único brasileiro classificado para Rio-2016. Na sua opinião, quem são os outros brasileiros que, se classificados, terão grandes chances de brigar por uma medalha na competição?

Robson Conceição: Na minha opinião, Robenilson Vieira, Pedro Lima e Adriana Araújo.

Round13: Três dos seus contemporâneos de seleção nos Jogos de 2012 se profissionalizaram nos últimos anos, com o Yamaguchi Falcão e o Everton Lopes assinando com a Golden Boy Promotions, e o Esquiva Falcão assinando com a Top Rank. Você já declarou anteriormente que após os Jogos do Rio, irá se profissionalizar. Você confirma esses planos? Já possui negociações em andamento com alguma das grandes empresas para que tomem conta de sua carreira após a profissionalização?

Robson Conceição: É uma vontade minha, mas ainda não tomei a decisão final sobre esse assunto, pois meu foco, até agosto, serão os Jogos Olímpicos. Só pensarei no profissionalismo após as Olimpíadas.


Robson Conceição. Foto: André Durão/Globoesporte.com

Round13: Como você enxerga que será sua adaptação ao boxe profissional? Na sua opinião, seu estilo será de fácil adaptação, ou entende que será necessário mudar de forma relevante alguns “cacoetes” que o boxe amador possui?

Robson Conceição: Com certeza terei que fazer algumas mudanças e adaptações para o boxe profissional. Entretanto, meu estilo já me favorece, pois busco bastante a luta.

Round13: Quem são seus grandes ídolos no boxe? E na vida?

Robson Conceição: No boxe meus ídolos são Floyd Mayweather Jr e Roy Jones Jr. Já na vida, com certeza a minha família. Ela é minha força e inspiração.

Round13: Qual seu cartel atual?

Robson Conceição: Não lembro exatamente, mas tenho em torno de 310 lutas disputadas, sendo cerca de 280 vitórias e 30 derrotas.

Round13: Obrigado pela entrevista e pelo tempo disponibilizado. Gostaríamos de te desejar sorte e sucesso na busca da medalha de ouro no Rio. Gostaria de mandar algum recado para os fãs? Quais as suas considerações finais?

Robson Conceição: Gostaria de agradecer aos fãs e admiradores que sempre me acompanham e mandam mensagens positivas. Tenham certeza que darei o meu melhor e farei o possível para sair com a tão sonhada medalha de ouro. Um grande abraço a todos.

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