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Publicado em 16 de Maio de 2008 às 00h:00

O mito: Mais uma vez, sobre Mike Tyson

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Autor Daniel Leal

Foto: Difusión

*Matéria originalmente publicada em 16/05/2008

Vai ser a segunda vez que escrevo sobre ele. Talvez porque ele tenha sido o primeiro mito dos ringues que comecei a acompanhar. Como todo jovem nascido depois do início da década de 80, Mike Tyson era a referência do boxe mundial na TV desde que me conheço por gente, desde que, aos sábados, me sentava ao lado do meu pai para assisti-lo demolir seus adversários, às vezes – na maioria delas – nem tão bons assim, mas eram destruídos da mesma forma, não importando sua qualidade técnica.

Perco a conta de em quantas ocasiões “perdi” meus finais de semana acompanhando a nobre arte. Anos mais tarde fui descobrir que este era um hábito que mudara minha vida para sempre. De mais á mais, na maioria destas noites, Tyson era o personagem principal. Era o nome dele que surgia nas conversas da molecada na manhã de segunda no colégio. “Você viu, ele mordeu a orelha do cara?”, “Nossa, não durou nem um minuto” – estas eram as frases mais ouvidas.

Querendo ou não me deixar fazê-lo, meu pai não podia impedir: Eu ia ficar até tarde acordado para ver o “Iron Man” lutar, não importa o quanto durasse. Em algumas lutas de De La Hoya, Chavez, etc, confesso que acabei dormindo antes do evento iniciar-se, mas nunca deitei na cama sem ter assistido Mike Tyson colocar mais um pangaré pra dormir.

Anos mais tarde, após a passagem da infância e o acréscimo de certa, porém pouca, sabedoria, percebi que Tyson já não era mais aquele mito. Tido como mau-exemplo sempre, nunca foi o ídolo que seus parentes sonhavam que você venerasse – diferente de seu contemporâneo, Ayrton Senna. Mas o norte-americano que outrora não permitia que alguém se atrevesse a desgrudar os olhos da tela, agora não passava de mais um nome nos tablóides.

A morte de Cus D’Amato, seu casamento com Robin Givens, contratos com Don King, mídia em cima á todo momento, pobreza na infância e antidepressivos fizeram com que uma fera se apequenasse. Uma vertente de pessoas ligadas á psiquiatria acredita que Tyson esteve durante muito tempo de seu auge lutando sob efeito de remédios para depressão. Do que pouco entendo do assunto, eles reduzem a força muscular e agressividade. Se cortados, aumentam o ímpeto de violência. Pensando por esse lado fica difícil de acreditar que, se Mike lutasse completamente “limpo”, algum atleta sairia vivo do quadrilátero. Fica mais fácil de entender também o porquê da mordida na orelha de Evander Holyfield em 1997.

Contra Buster Douglas então nem se fala. Foi a maior zebra das apostas do boxe, e a luta mais polêmica da década. Uns dizem que Tyson estava sob efeito de comprimidos tarja preta, outros dizem que Don King armou a derrota para quebrar a banca, existe também a dúvida sobre a contagem na queda de Douglas, isso tudo somado ao fato de que o homem mais temido da terra havia se recuperado recentemente de uma pneumonia. A verdade é que, á partir daí, o mito se quebrou, e nunca mais foi o mesmo. Ainda temos o fatídico episódio do estupro da santa moça que subiu ao quarto do rapaz por livre e espontânea vontade, saindo de lá rica, e ele preso.

Talvez Michael Gerard Tyson tenha sido a maior vítima que o pugilismo já produziu. Por ter sido imbatível em parte de sua carreira, seria lucrativo tirá-lo do cenário bem quando estava no topo, certo? Pois é, mas nem sempre o que é fácil se prolonga e infelizmente deste knockdown o esporte de luvas nunca mais se recuperou, pois jamais surgirá um novo “Iron Mike”.

E se Tyson não fosse problemático?
E se ele nunca tivesse estado sob efeito de medicamento pesado?
E se Cus D’Amato não houvesse falecido durante seu auge?
Talvez aí ele deixasse de ser um mito para ser realidade plena!
Não posso afirmar que ele seria o melhor de todos os tempos, só posso dizer que aquele tempo em que ele era o melhor deixou saudades...

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