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Publicado em 07 de Junho de 2016 às 07h:35

Campeão brasileiro há 18 anos, George Arias perdeu cinturões sem lutar

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Autor Luigi F.

Imagem: Round13

O paulista George Arias (56-16, 42 KOs) é um quebrador de recordes. Detentor da honraria de ser o boxeador brasileiro com maior número de combates válidos por títulos nacionais de boxe na história, Arias buscava mais um marco para adicionar ao seu currículo: o de atingir 30 disputas de cinturões tupiniquins.

Aos 42 anos, Arias é o grande nome entre os pesados do Brasil desde a aposentadoria de Adilson “Maguila” Rodrigues. Pugilista de grande qualidade técnica, George possui uma das melhores guardas da categoria, a qual foi forjada ao longo de diversos anos sob os olhos e os ensinamentos de Santo Arias, que além de pai, foi o treinador de George durante toda sua vida. Santo, que faleceu em 2013, tinha o objetivo de ver o filho completar três dezenas de combates pelo título brasileiro, o que muito provavelmente aconteceria este ano. Atualmente, sua marca é de 28 duelos.

George já deteve cinturões dos principais organismos que regem o esporte a nível nacional. Foi o último campeão da Confederação Brasileira de Boxe, a CBBoxe, que parou de cuidar do boxe profissional, e hoje é filiada exclusivamente à AIBA (Associação Internacional de Boxe), e portanto, atualmente é responsável apenas pelo boxe olímpico (open boxe) e pelos torneios profissionais e semiprofissionais tocados pela entidade (APB e WSB). Também já foi o campeão da Federação Nacional de Boxe Profissional Brasileira (FNBPB) e Confederação Brasileira de Boxe Profissional (CBBP), todavia, ao longo dos anos, acabou destituído desses títulos. De acordo com George, ele jamais foi procurado por nenhum deles para que defendesse suas coroas.

A partir de 2012, George optou por continuar defendendo apenas o cinturão do Conselho Nacional de Boxe (CNB), entidade pela qual ele detinha o título desde 2005. Nesse intervalo, realizou ao menos 12 defesas de cinturão, sendo a última delas em maio do ano passado, diante de Leonardo de Moura. Na ocasião, George venceu por nocaute no segundo round.

Acontece que, no último sábado, o cinturão do CNB, que previamente pertencia a Arias, foi disputado por Lino Barros e Raphael Zumbano “Love”. Num dos mais aguardados confrontos entre os pesados em nosso país nos últimos anos, Lino venceu por pontos, e acabou conquistando a cinta do CNB, além de levar para casa o boldrié da CBBP, que pertencia à Raphael. George, entretanto, alega que ficou sabendo do fato por terceiros, e que não foi comunicado pela entidade.

“Me enviaram pelo whatsapp o pôster da luta me questionando se eu não era mais campeão brasileiro. Na hora eu liguei para o Antonio Bernardo para saber, e ele disse que ainda não tinha nada fechado e que estavam negociando. Eu disse que mesmo que negociassem, eles não poderiam disputar porque o cinturão era meu. Eu teria que ser desafiado. Mas ele falou que não iria acontecer”, declarou Arias em conversa exclusiva com o Round13.

Em abril deste ano, após retornar da China, onde Arias acabou derrotado pelo pugilista local Zhang Jun Long, em disputa do cinturão da Oceania pela AMB, Arias foi novamente informado que a luta entre Lino e Zumbano valeria seu título. Ele diz, então, que procurou novamente o CNB, que dessa vez explicou o que aconteceu. “Me disseram que o regulamento do Conselho diz que quando um campeão disputa um cinturão internacional, automaticamente ele é destituído no título do campeonato brasileiro, e que como eu lutei na China, eu havia perdido e o cinturão estava vago”, explicou.

“Não achei legal o que o CNB fez. Na minha opinião isso mostra um descaso com o atleta. E não digo isso por ter algo contra os lutadores que acabaram disputando, muito pelo contrário. O Lino é um grande amigo meu, temos mais de 200 rounds de sparrings juntos, já treinamos muitas vezes e somos amigos desde a época na qual ele era amador. Mas o que o CNB fez, assim como as demais entidades que aos poucos foram retirando meus cinturões sem sequer me avisar, com exceção da CBBoxe que parou de trabalhar com profissional, não foi legal. Por mais que o regulamento que me disseram exista, e que a cláusula esteja correta, eu já lutei por diversos títulos no exterior desde que sou campeão brasileiro. Se a regra existe e está correta, por que não tiraram meu cinturão antes?”, questionou o pesado paulista.

Vindo da quarta derrota consecutiva na carreira, todas no exterior, Arias agora busca um novo objetivo. Exceto o revés diante de Jun Long, todas as perdas recentes de George foram contra oponentes ranqueados por ao menos uma das quatro grandes entidades do boxe mundial. Em 2015, Arias foi derrotado por Hughie Fury, Kubrat Pulev e Carlos Takam. Após perder seu título de campeão brasileiro nos bastidores, ele agora busca uma vitória relevante no exterior.

“Quero ganhar uma luta fora contra alguém importante, alguém que esteja entre os 20 melhores do mundo. Estou com 42 anos e venho de derrotas. Preciso reverter isso. Quem olha minhas lutas, vê que faltou um pouco de movimentação, ritmo e de maior incisão nos ataques. Mas eu me sinto bem, sinto que ainda consigo lutar. Meu fôlego está bom. A única coisa é que meu rendimento caiu após o falecimento do meu pai. São mais de 20 anos trabalhando juntos, e mesmo tendo no corner a Carla, que é minha esposa e segue à risca a metodologia dele de trabalho, eu ainda não consigo escutar e ter a mesma sintonia que tinha com ele. Mas estou buscando muito isso e acredito que ainda consigo fazer uma luta boa e tentar uma vitória fora”, explica Arias.

George falou ainda sobre Muhammad Ali, maior nome da história da categoria que faleceu na última sexta-feira. Para ele, Ali foi único e jamais será esquecido. “Ele era um cara muito à frente da época dele, tanto no estilo de luta, quanto na questão das provocações antes dos eventos, e por usar as mídias disponíveis para conseguir ser ouvido. Ele era muito diferenciado. Ter sido campeão como ele foi, numa época com nomes como George Foreman e Joe Frazier, é algo único”, comentou o ex-campeão brasileiro.

Arias sabe que sua carreira está chegando ao final. Mesmo concordando que dificilmente terá muito mais tempo pela frente conseguindo competir em alto nível, o paulista é taxativo em ressaltar que buscará mais uma chance de vencer no exterior. Ao ser lembrado do quão próximo está de atingir o objetivo de 30 lutas por título brasileiro e da marca de 20 anos de campeão nacional, George mostra novamente a chateação, mas deixa em aberto uma eventual busca dos recordes. “Não achei legal o que fizeram, então hoje não estou mais pensando nisso. Mas, talvez um dia eu mude de ideia, ou então dependendo do que aconteça. Quem sabe?”, finalizou o paulistano.

Com seu nome escrito na história do boxe nacional, nada mais justo do que ver George Arias novamente lutando aqui, no Brasil. E, de preferência, numa luta válida pelo posto de campeão brasileiro dos pesos pesados, o qual ele tão bem ocupou nos últimos 18 anos.

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