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Publicado em 15 de Dezembro de 2016 às 22h:38

A CBBP, o BoxRec e a simples aplicação de regras no Brasil

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Autor Daniel Leal


Pesagem, exames médicos, exigência de documentos… Tudo isso é o básico, mas, pasme, há pouco tempo não era feito na maioria dos eventos de boxe no Brasil. A Confederação Brasileira de Boxe Profissional vem fazendo sua parte para mudar, pelo menos aos poucos, isso, e merece tal reconhecimento. Saiba quais são as consequências de uma infinidade de entidades descumprindo regras e como o BoxRec, site de cadastramento de lutas, e suas exigências podem ajudar a fazer com que tudo isso mude.
(Imagem: Montagem R13 - CBBP +BoxRec.com)

Quando comecei a escrever sobre boxe havia um conflito enorme de interesses nos eventos brasileiros. Contextualizando, a Lei Pelé permitiu a criação de várias entidades para reger as atividades desportivas no Brasil sem necessitar de uma regulação. A princípio algo que seria bom foi distorcido no meio do pugilismo tupiniquim. Um sem número de entidades surgiram e começaram a servir não a seu propósito original de viabilizar programações de forma regularmente mais democrática, mas sim como um atalho para os promotores.

Sem a necessidade de contratar a CBBoxe, que na época era a responsável única pelo boxe profissional, estas organizações, por serem de posse de pessoas que não deveriam possuí-las (ainda que não-oficialmente, no nome de “laranjas”) e apenas contratá-las, tornaram-se quase uma fachada, ou vendedoras de cinturões de pouca valia. Mais que isso, viraram um portal rumo ao descumprimento total de regras, dentro e fora do quadrilátero.

O promotor/presidente que simplesmente não quisesse fazer algo “complexo” como, digamos, PESAGEM, simplesmente não o fazia. Se as regras universais diziam que se precisaria de pessoas capacitadas em sua arbitragem, ele simplesmente poderia fazer vistas grossas a isso e colocar qualquer cunhado seu para julgar ou mediar uma luta. Pior que isso, se ele quisesse, simplesmente, desconhecer, ou não confirmar, quem eram as pessoas lutando em cima do ringue, ele poderia fazê-lo (e fizeram, em diversos casos que conhecemos).

Não é nem necessário citar o pandemônio que virou a nobre arte brasileira. O ápice desta grande aberração foi a morte do atleta Jeferson Luis Gonçalo, em 2010. A “Liga Paulista de Boxe” sancionava o evento realizado na cidade de Salto, no interior paulista, e seu presidente, Reinaldo Carrera, era o inspetor e jurado do combate. O promotor era o próprio atleta. O claro conflito de interesses culminou em uma tragédia. Só que uma tragédia é sempre resultado de uma somatória de aspectos...

No caso do fatídico dia 2 de Outubro daquele ano, o adversário de Jeferson era o muito mais pesado Ismael Bueno. Não havia problema pra organização, pois não houve pesagem. Quem nos confirma isso é o próprio árbitro da luta, Jorge Bueno, que também era amigo do falecido atleta. “Não teve pesagem, e o Ismael estava claramente mais pesado do que o Jeferson, só que eles precisavam de alguém pra lutar”.

Se a pesagem era um empecilho para a realização do evento e foi sobrepujada com a anuência da LPB, que deveria estar ali apenas para zelar pelos participantes, pra que gastar para contratar um médico? Por isso mesmo a pessoa responsável pela saúde dos pugilistas era um fisioterapeuta. Consequentemente, quem deu o primeiro atendimento a Gonçalo foi um profissional não-adequado. E o mesmo só foi encaminhado ao hospital por insistência de Jorge Bueno, que também era diretor da Liga: “Eu falei, Doutor, leva ele pro hospital. Ele perguntou ao Jeferson se ele queria ir ao hospital e eu insisti, '‘leva ele pro hospital!'. O que eu não sabia era que aquele cara não era nem médico, era fisioterapeuta.”

Mas, se não existia sequer um médico responsável, também não existiam exames médicos prévios. Jeferson vinha de uma derrota dura e vendida cara, como sempre, na Argentina, contra Diego Gabriel Chavez, nos pontos, menos de 60 dias antes do ocorrido. Muito aguerrido, já havia sofrido bastante castigo na carreira, porém o único nocaute que sofrera até então foi diante de Saul “Canelo” Alvarez, em 2009. No entanto, suas batalhas diante do próprio Canelo e também de Chavez somavam-se a uma série de duras derrotas para nomes como Khoren Gevor e Hassam N'Dam N'Jikam. Para sair do Brasil e combater, precisava de uma autorização local, sempre prontamente enviada pela Liga Paulista de Boxe.

Nunca, em momento algum dessas passagens, foi solicitado o óbvio: Uma tomografia da cabeça do atleta. Pensando bem, o que esperar de uma entidade que não se preocupava nem em ter um médico formado ao lado do tablado? Ocorre que, os exames pós-mortem indicaram que o cérebro de Jeferson já havia sofrido danos demais, o que, aliado ao acidente na luta em que uma artéria do pescoço foi rompida, causou sua morte cerebral. Tivessem sido feitos os exames e acompanhamentos necessários, ele não teria sido autorizado a subir no ringue, o evento não aconteceria, muita gente reclamaria, mas, provavelmente teríamos o atleta ainda vivo, com sua família e amigos, dentre eles Jorge, que depois de perceber como operava a entidade que era membro efetivo, desligou-se.

A soma desses fatores resultou em pessoas chorando, e um esporte, mais uma vez, manchado pelo maltrato de seus dirigentes.

E hoje em dia, o que mudou?

Você pensaria que, depois de tudo isso, as coisas mudariam no boxe brasileiro, certo? Errado! Apesar de ter diminuído muito o número de eventos irregulares no Brasil (por razões óbvias), vários erros seguiram sendo cometidos. Para que cumprir regras se o BoxRec aceita tudo? Afinal, o que interessa é fazer os resultados, e depois levar atletas para fora do país com um cartel bonito. A conivência das entidades alfabéticas sempre foi muito conveniente a isso, e ajudou a destruir o nome do Brasil no boxe internacional.

A Confederação Brasileira de Boxe Profissional oficialmente existe desde 1994. Fundada por Abraham Katzenelson e presidida por João Silva Araujo, foi a primeira entidade surgida à nível nacional para rivalizar com a CBBoxe. Antes mesmo da Lei Pelé, ela já questionava a legitimidade de uma organização que era ligada ao Comitê Olímpico Brasileiro, sancionar atividades de esporte profissional. A partir daí, começou a fazer disputas de títulos.

A realidade é que a CBBP não acrescentou tanto ao nosso pugilismo, até recentemente. Acabou sendo mais uma durante um bom tempo. Porém, quando o quase ex-pugilista Mike Miranda assumiu o cargo de Representante Nacional, as coisas começaram a mudar um pouco.

Sou testemunha ocular de um evento aonde a CBBP aprovou as bandagens, acompanhou a abertura das luvas, da pesagem, obrigou apresentação dos exames médicos e a presença de um médico com CRM ao lado do ringue, junto de socorristas contratados. Isso é o básico, não deveria ser motivo de exaltação, mas no Brasil, infelizmente, é.

Este tem sido o modo como a Confederação vem trabalhando, há algum tempo, em vários eventos no Brasil, alguns dos quais pudemos acompanhar. Não obstante a isso o BoxRec (boxrec.com), registro eletrônico de boxeadores mais utilizando por aqui atualmente, tem feito exigências cada vez mais pesadas para a inclusão de resultados em seu sistema, exigências estas que a maioria das promoções pugilísticas não cumpre.

Segundo Miranda, eles, por outro lado, já estão adiantados em relação a isso: “Eu fazia eventos aonde não tinha a estrutura mínima de distância do ringue das paredes, público, etc, já não vou poder fazer mais. Fiz evento na Team Nogueira recentemente, exigi o de sempre, exames, pesagem, fiz uma convenção sobre as regras, mas não vou poder fazer mais eventos lá devido às dimensões do ringue. E não tem problema, o certo é o certo, e está nas regras, estamos fazendo de tudo para cumprir.”

A ideia de Mike Miranda agora é que o médico esteja sempre presente nas pesagens realizando os exames físicos como de coordenação, que visa detectar problemas cerebrais, e de fundo de olho. Se o boxeador não estiver apto, sequer se pesa. Também estão sendo feitos acordos para que as lutas de título tenham exame antidoping, pasme, algo inédito no país. “Estamos negociando pois o custo é alto pro evento, mas já temos quase tudo certo para o ano que vem termos o antidoping nas lutas de título. Quero viabilizar também as tomografias”, disse Mike ao Round13.

Mas, o próprio Representante da CBBP não possui uma empresa de promoção e, portanto, já gera um conflito de interesses? O mesmo admite: “Realmente não pode, por isso já estou passando a Mike Promotions para o meu filho. Atualmente só ele está como promotor e não tenho mais nada lá. O nosso rigor vai ser o mesmo em um evento dele, ou não”.

Vale notar que, Geyza Caryny, nora de Mike, é a atual secretária-geral, supervisionando muitos eventos. Ele justifica que ela não é remunerada, presta um trabalho social, portanto não há problema. Outro ponto é que, por não receber verbas públicas, também não existiria empecilho. “Quando tiver a eleição, que acontece de quatro em quatro anos mesmo que seja pra manutenção (as federações que compõe confederação se reúnem e decidem) eu serei candidato, a Geyza também pode ser, mas, se recebermos verba pública, ela ficar vira nepotismo e ai ela tem que ser exonerada”.

O diretor de arbitragem é o já citado Jorge Bueno. Depois do incidente com Jeferson Gonçalo, ele resolveu se afastar do esporte, mas voltou após um ano. “Fiquei muito triste e sentido. Não foi culpa minha, mas eu estava no ringue”. Em sua nova função, a CBBP deixa claro que ele tem total autonomia para delegar a equipe que arbitrará os eventos, e em lutas por título esta decisão é tomada via sorteio.

O "novo" BoxRec

Em conversa deste site com Marina Sheppard, principal responsável pelo BoxRec, foi nos confirmado que, de agora em diante, somente quem cumprir as regras, que já são cumpridas pela CBBP, é quem terá os resultados aceitos. Não existirá mais nenhum meio de envio que não seja através de um órgão sancionador registrado no site e que cumpra essas regras, comprovadamente, através de vídeos do evento completo, sem cortes.

Percebemos, então, que há um fio de esperança na organização de eventos no Brasil. As atitudes da CBBP tem sido, comprovadamente, reconhecidas no meio, pressionando os promotores a contratarem-na para supervisionar suas programações ou fazendo com que as outras entidades comecem a seguir as mesmas regras para se adequarem. Já tem muita gente sofrendo sem subir lutas para o BoxRec exatamente por não ter uma comissão cumpridora dessas regras por trás do evento. E ai, é como se ele não existisse.

O CNB – Conselho Nacional de Boxe, outra entidade já mais antiga e presidida pelo ex-árbitro Antonio Bernardo, inclusive se aproximou da Confederação almejando unificar cinturões e, para tanto, terá de seguir as mesmas premissas. Isso causa um outro efeito bastante interessante: O cinturão passa a ter um valor diferenciado.

O fato supracitado, somado ao ranking online que possui, mais as regras claras de disputa de título que estão em seu site (cbbpboxe.com), tornam a busca pelo título brasileiro que esta disponibiliza, muito mais transparente e, por consequência, competitivo e disputado. Para se ter uma ideia, o cinturão dos pesados que Raphael Zumbano possui terá uma eliminatória. A quanto tempo que não se ouve isso por aqui?

“Colocaremos o Clayton Lyra e o Leandro Rufino para lutarem. Eles não poderiam lutar pelo título, um vem de derrota, o outro tem só quatro lutas. Então, terão que fazer uma eliminatória pelo título em 21 de Janeiro”, disse o Representante Nacional da CBBP. Em um território em que se dá boldriés de “supercampeão” para pugilistas estreantes em contendas contra outro de cartel negativo, esta frase parece um oásis no meio do deserto.

Como se percebe, o que temos com a CBBP pode ainda não ser o ideal, mas é um avanço significativo. A entidade pode não ser a melhor do mundo, mas vale o reconhecimento a este pioneirismo, que por uma grande infelicidade nossa, demorou a acontecer. Quando um trabalho é sério, deve ser dito tanto quanto ele tornar-se errado. Fica o recado para a Confederação Brasileira de Boxe Profissional e para as demais: Estamos e estaremos SEMPRE de olho.

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