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Publicado em 09 de Junho de 2016 às 12h:35

A Ciência do Ataque

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Autor Victor Violi


Como um boxeador pode atacar e ludibriar seu adversário para aumentar a eficiência de suas investidas.
(Imagem: Daily Mail/Getty Images)

A melhor defesa é o ataque, diz o velho ditado. Não iria tão longe mas digo que a melhor manifestação de inteligência está, ou ao menos pode ser vista, no ataque. A sagacidade de um boxeador, acredito, é também muito bem percebida ofensivamente. No campo ofensivo pode haver uma união de inteligência e esperteza que se externam ainda mais notadamente.

Talvez tal ideia seja surpreendente, a princípio, mas há que se esclarecer algo: no meio do Boxe sempre existiu um “lugar-comum”, muito falado por comentaristas, em que o lutador precavido, as vezes receoso, cauteloso, é o inteligente, e que o ofensivo, o que sempre ataca, seria menos cerebral, portanto pautado muito mais pela garra e coragem do que qualquer outra coisa. E ocorre aí uma imprecisão no que simboliza um bom ataque.

Atacar bem não consiste em avançar com o máximo de energia e vontade, algo que resultará em uma disputa de quem acerta primeiro com mais força, basicamente um duelo físico e nada mais. E na verdade, dessas práticas de luta impetuosas, que advém aquela noção de pouca inteligência na arte de agredir. Um bom ataque requer três itens básicos: preparo, técnica e organização. Com fintas e combinações sendo dois fundamentos que considero chaves na eficácia ofensiva.

O que chamo de “preparo” pode ser traduzido como um bom jab, simplesmente, mas também diz respeito a mobilidade em agredir. O jogo de pernas ofensivo para encurralar os rivais também pode ser um instrumento extremamente vital. Um jab (ou uma sequência de jabs) medirá a distância para aumentar a eficiência da precisão do golpe de mais força que se pretende acertar no outro boxeador, poderá também “cegá-lo”, para dificultar a antecipação do golpe que está por vir. Um “falso jab” pode ser usado como distração, isto é, o “preparo” também pode vir na forma de fintas.

O Drible do Boxe

“Toda operação militar tem o logro como base” - Sun Tszu

Mas o que é finta? O que significa fintar na Nobre Arte? É simplesmente fazer um movimento falso, seja com o corpo, seja com as punhos, para ludibriar o adversário. Fazê-lo reagir e assim abrir brechas em sua defesa. É o drible do Boxe. Um driblador do futebol é aquele que parece que vai para um lado, quando na última fração de segundo, muda a trajetória e engana seu adversário. Finge que pretende ir para um canto, enquanto planeja ir para o outro. E o bom fintador precisa fazer parecer verdadeira a sua falsa intenção. Por isso sua finta precisa ser certeira e elaborada, mas sutil.

O lutador precisa atuar, fingir. Esse é o boxeador inventivo, em minha visão, um ótimo exemplo de um boxeador inteligente, aquele que ilude seu adversário para desatar a defesa. É um jogo de raciocínio rápido, percepções, leitura corporal e por fim, execução apurada.
Acredito que um dos grandes diferenciais da escola americana de Boxe seja a habilidade com que todos os seus boxeadores, de todos os pesos e diferentes estilos, aplicavam e aplicam fintas. De Mike Tyson a Willie Pep, os boxeadores Estadunidenses sempre contaram com uma boa dose desse fundamento para fortalecer seus arsenais e aumentar o número de acerto de golpes.

As fintas podem ser de diversos tipos. Alguns boxeadores constantemente mexem seu corpo fingindo preparar um ataque, desse modo mantendo o oponente ocupado, preocupado defensivamente, isso por si só atrapalha qualquer investida que este poderia iniciar e faz o seu volume de luta baixar naturalmente. Bernard Hopkins e Nicolino Locche sempre foram mestres nisso e era muito comum que os adversários de Hopkins acabassem por soltar menos do que costumavam quando enfrentavam-o, e acredito que uma das razões era seu contínuo uso de movimentos corporais a fim de confundir seu oponente.

Um lutador que se mantém estático e com pouca mobilidade de cintura e de ombros acaba por ser alguém muito mais fácil de se decifrar. Além disso se alguém faz sempre a mesma coisa no mesmo ritmo, um adversário bom vai ter facilidade em contragolpeá-lo conforme o tempo passar.

Após sua luta contra Jessie Vargas, Tim Bradley escolheu Teddy Atlas como seu novo treinador, e uma das razões foi o conhecimento que Teddy demonstrou quanto a importância das fintas:

“Ele me perguntou, '‘o que você faz quando um cara se agacha na sua frente? Você agacha junto com ele. Você não fez isso. Você achou que ele ia pra sua cintura mas não, ele queria sua cabeça. Ele te enganou’'” – disse Bradley.

Jessie Vargas a usou para preparar seu ataque e na verdade essa finta corporal é o tipo mais frequente, um gingado, com o corpo simplesmente, boxeadores geralmente se agachando, flexionando suas pernas, movendo a cintura, para forçar reações do adversário, procurando aberturas no corpo ou ao menos fingindo pretender a linha de cintura.

Veja neste vídeo, como Erik Morales faz bem o uso desta finta corporal, para tapear seu oponente:



A habilidade de raciocinar na frente de seu contendor vale mais que qualquer atributo físico. O Boxe premia, acima de tudo, aquele lutador que acerta os melhores golpes em maior quantidade.

Já neste vídeo, Nonito Donaire faz o uso de uma direita para acertar seu uppercut de esquerda, um golpe que poucos conseguem usufruir com frequência, mas que bem preparado pelo filipino encontrou a cabeça de seu adversário para definir o combate:



Preste atenção como a direita é um “falso golpe”, ou um “meio golpe” já que não completa toda a sua trajetória, não atinge o rosto de seu oponente. O resultado foi um golpe certeiro e inesperado naquele momento.

Mas voltando ao jab, e sua função preparatória sem igual, o que chamo de “falso jab” é muito bem visto em lutas do nicaraguense Alexis Arguello. Veja:



Um dos golpes mais definidores que um boxeador pode ter, o gancho de esquerda. O jab funcionou como um embuste para Escalera se descuidar em uma fração de segundos.

Com isto em mente, há que se falar em combinar golpes para que a produtividade ofensiva fique ainda mais potencializada.

Combinar

"Não há mais que cinco notas musicais e todavia a combinação delas dá surgimento a mais melodias do que as já conhecidas. Não existem mais que cinco cores primárias e, no entanto, sua combinação produz mais matizes do que os já vistos. Não conhecemos mais de cinco paladares fundamentais, ácido, picante, salgado, doce e amargo, e, no entanto, a combinação deles produz mais sabores que os já provados.
Na batalha, porém, não há mais de dois métodos de ataque: o direto e o indireto; todavia, a combinação dá ensejo a uma infindável série de manobras. Um método sempre conduz a outro. É como mover-se em círculo: nunca chega-se ao fim. Quem pode esgotar as possibilidades de sua combinação ?"
- Sun Tzu

O general chinês Sun Tzu escreveu essas palavras há 25 mil anos aludindo a regras do combate armado, mas são perfeitamente aplicáveis na esfera do Pugilismo. Nada além de duas mãos é permitido no Boxe, e, no entanto, essas duas mãos proporcionam uma infinidade de utilidades para a sua eficiência nos ringues.

Aqui, tentarei usar a terminologia universal em inglês dos golpes para evitar confusão já que a terminologia em português varia de lugar para lugar, sem que existam nomenclaturas erradas ou absolutas.

Usando o padrão de um boxeador destro, temos o jab (com a esquerda), left hook (gancho de esquerda), straight right (direto de direita), right hook (cruzado de direita) e o uppercut.

Enfim, não é o intuito deste texto prescrever quais combinações são as melhores ou piores, apenas discorrer sobre a importância de combinar os golpes de uma maneira geral. “Putting the punches together” é o que se diz em inglês, ou seja, colocar os golpes juntos, mescla-los, misturá-los. Pois bem, agrego as Fintas a este tópico, afinal ambos se completam.

Soltar golpes fortes, a todo momento, pode cansar demais um boxeador, na verdade, com certeza, esgotará a energia muito rapidamente, portanto uma das vantagens da finta também é a de resguardar energia. Gennady Golovkin muitas vezes faz isso, solta golpes em suas combinações que claramente não são para machucar, não tem tanta energia em si mesmos, são apenas distrações, fintas, para um golpe maior.

Mencionei como um dos três pontos importantes do ataque a técnica, e sem uma técnica boa de desferimento de golpes a sua combinação não será a melhor possível em termos de ofensividade e ainda deixará espaços para os contragolpes. A combinação de golpes pode ser uma desvantagem para o pugilista neste caso.

O que me referia a organização seria nada mais que uma sequência natural de golpes. Poucas vezes você verá um boxeador combinar um direto de direita de uma distância mais longa com um uppercut com o mesmo punho, por não ser uma ordem de golpes funcional na prática.

Mas de outro modo há que se atentar para que seu ataque não fique algo esperado, previsível. Quando um boxeador só combina jab, direto e gancho de esquerda (a “combinação modelo” mais básica)  estamos diante de alguém que, encarando um adversário mais experiente, terá seus movimentos antecipados muitas vezes.

“Alterando seus programas e mudando seus planos, o general hábil mantém o inimigo sem um conhecimento claro.” - Sun Tzu

Após um tempo, vários boxeadores criam uma espécie de sexto sentido, de prever os golpes do adversário, devido a um padrão de combinações. Na maior parte das vezes quando alguém lança um golpe de esquerda o próximo golpe a vir é uma direita, sabedor dessa regra o boxeador hábil, instintivamente, se defenderá do próximo golpe com antecedência. Neste aspecto, boxeadores como o já citado Alexis Arguello eram muito diferenciados, afinal como visto no vídeo ele desferia um golpe surpreendente de esquerda após um jab.
É o mesmo com vários outros grandes pugilistas da história, Mike Tyson e sua famosa sequência de direita no corpo e uppercut com a mesma mão. Joe Frazier inúmeras vezes também preparava o seu fantástico gancho de esquerda com um jab e os exemplos são muitos. Ainda, a variação linha de cintura/cabeça tem fundamental importância nessa imprevisibilidade ofensiva.

“Changing levels” como dizem os americanos, ou “mudando os níveis”. Fazer um lutador se preocupar com a cintura e de repente atacá-lo na cabeça, como ocorreu na luta entre Joe Louis e Primo Carnera.

Carnera, um gigantesco peso-pesado, muito maior que Louis, oferecia um bom alvo para o americano em seu corpo. Louis constantemente se agachava e acertava golpes na região do estômago de Carnera, que automaticamente ia cada vez mais se preocupando com o corpo, Louis acabou definindo a luta com uma direita na cabeça de um monstro de 2 metros de altura:



Uma luta mais recente em que podemos constatar o uso desta variação é Lucas Matthysse e Lamont Peterson, na verdade em várias lutas do argentino Matthysse isto pode ser visto mas a vitória contra Peterson é a mais emblemática nesse sentido.
Matthysse, desde os primeiros segundos de luta, mantém Peterson ocupado na proteção de seu corpo, soltando principalmente direitas fortes na região citada. Peterson, mesmo que racionalmente perceba que se trata de um “blefe”, involuntariamente mentalizará que o seu corpo precisa de proteção extra toda vez que Matthysse avança. No segundo round, após várias investidas contra o corpo de Peterson o argentino acerta uma última direita no abdome de Lamont, mas o golpe derradeiro é um gancho de esquerda na cabeça. A luta não acabaria ali mas havia sido decidida naquele momento, através de uma manobra engenhosa de Lucas Matthysse empregando-se da tática de “mudança de níveis”.

Veja a luta desde o início e note a conduta de Matthysse:



E, assim, os golpes na região do corpo também podem ser caracterizados como uma grande forma de preparo, não deixam de ser um mecanismo inteligentíssimo para se definir o resultado apesar de serem ferramentas de nocautes frequentemente. Esta variação acaba por formar um sólido arsenal de ataque.

Como disse Bernard Hopkins: “O propósito de combinar golpes é manter seu adversário tentando adivinhar”. E esta é uma perfeita definição para a combinação de golpes. Mas adiciono que o propósito de todas essas técnicas de ataque é fazer com que seu adversário, neste exercício de adivinhação, suponha errado.

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