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Publicado em 13 de Agosto de 2016 às 20h:30

A história de George, Santo, o boxe e o Dia dos Pais

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Autor George Arias


Imagem: Arquivo pessoal

Mais um dia dos pais está chegando. E, especialmente nessa data, a saudade aperta um pouco mais, pois é nesse dia que sinto ainda mais falta do meu “Véio”, e tenho uma vontade enorme de poder dar um abraço nesse homem que sempre esteve ao meu lado e que fez a minha vida ter sentido.

“Véio”, como eu o chamava, sempre foi o meu maior exemplo de superação, determinação, dedicação e caráter. Sempre o admirei, e sempre o tive ao meu lado, me incentivando, me apoiando. Graças a ele, pude me tornar o lutador que sou, e pude contar com sua força para seguir no esporte.

Pai.

Uma palavra pequena, mas que ao mesmo tempo é muito forte. Ela inspira dedicação, amor incondicional, segurança. Ser pai é dar a própria vida para proteger o seu filho. E no meu caso, não poderia ser diferente.


Imagem: Arquivo pessoal

Santo Arias, meu pai que faleceu em 2013, foi meu precursor, tanto na vida, quanto em minha carreira. Ao longo dos anos, ele sempre me ensinou qual era a melhor trajetória, e me acompanhou por todo o meu caminho, dando os melhores conselhos para que eu me tornasse um bom homem, um bom marido e um bom pai.

Entre minhas diversas experiências esportivas, aos 17 anos me encantei pelo boxe, principalmente por ter sido um esporte praticado pelo meu pai. No primeiro momento, sabendo das dificuldades que eu enfrentaria, ele resistiu e tentou me fazer mudar de ideia. Mas, após ver que era isso que eu queria mesmo para mim, ele passou a me incentivar de forma completa. Ele dedicou seu tempo, tornou-se meu técnico e meu empresário, e mais uma vez deixou de viver sua própria vida para viver a minha. Nós éramos um só nesse sonho. 

Desde o início ele não quis me deixar ser treinado por mais ninguém. Ele dizia: “Vou te fazer um lutador bom, e com toda a segurança possível”. E foi pensando nisso que ele criou métodos próprios de treinamento, sempre visando uma evolução da minha guarda e trabalho defensivo.

Com a minha teimosia, optei por estrear com pouco tempo de treino. Como era de se esperar, não fui bem. E meu pai, ao invés de desistir do que havíamos começado, apenas me incentivou. Ele sempre ficou ao meu lado. No dia seguinte, às 6h da manhã, estávamos lá treinando. E isso se repetiu por todos os dias. Ter um técnico que era verdadeiramente um guerreiro era o que mais me motivava entre as diversas vitórias e derrotas.

Meu “Véio” era tão surpreendente e gostava tanto de viver que, aos 66 anos, além da rotina do boxe, resolveu fazer a faculdade de Direito. Era um sonho antigo dele, e na primeira oportunidade, ele foi atrás e conseguiu. Cinco anos depois, lá estava eu na sua formatura. Foi minha vez de apoiá-lo e poder tirar mais uma lição de força de vontade e garra.


Imagem: Arquivo pessoal

Meu pai sempre foi muito presente em minha vida, o que faz a saudade aumentar muito no Dia dos Pais. Houve até um episódio, não muito distante, que sempre me faz lembrar dessa data, e também mostra um pouco de como era a minha relação com ele.

Certo dia cheguei de manhã para treinar no andar de cima da casa do meu pai. Quando cheguei lá, às 6 horas da manhã como sempre, ele já estava me esperando com um chá que só ele sabia fazer. Tomamos o chá e conversamos um pouco, e como de costume ele me disse: “Pronto. Agora vamos começar a guerra!”.

Fizemos nosso trabalho, eu como atleta e ele como técnico. E após o treino, eu já estava indo embora quando me lembrei que era Dia dos Pais. Dei meia volta e falei para ele: “Véio, vim treinar e esqueci que hoje era seu dia. E ainda fiz você trabalhar...”.

E ele sem pestanejar me respondeu algo que me emocionou muito. “George...você veio treinar, se dedicou, fez um bom trabalho. Ter o meu filho perto de mim, fazendo o que mais gosta. Poxa, esse sim foi o maior presente de todos. Obrigado, meu filho!”.


Imagem: Arquivo pessoal

Àqueles que podem abraçar e dar carinho a seus pais nesse dia tão especial, que assim o façam. Tenham certeza que o dia que vocês não puderem mais fazer isso, sentirão uma tristeza e uma dor muito grandes. Meu pai, meu maior orgulho, faz uma falta enorme. É um vazio que apenas quem vive entende. Quem puder, valorize, agradeço, dê atenção a seus pais todos os dias, e não somente num único dia específico, pois eles irão fazer-lhe falta um dia, tenham certeza disso. Sinto muito a falta do meu pai, o que eu mais queria era poder, nessa data, dar um abraço naquele que sempre esteve ao meu lado e que deu sentido à minha vida.

Eu fiz tudo que pude para meu pai, e queria que ele estivesse comigo nesse dia. O “Véio” era admirado e respeitado por onde passava, e tenho o maior orgulho, respeito e amor por ele. Tudo o que sou hoje devo a ele. Sou muito agradecido por tudo que ele fez por mim.

Além das coisas lindas e de lembranças boas, Santo Arias nos entregou uma missão, uma lição para o nosso dia-a-dia, no que diz respeito à conduta, à rotina e à disciplina. O “Véio” nos deixou um legado de sabedoria, de ensinamentos e de honestidade, tanto dentro, como fora dos ringues. Uma pessoa ímpar, diferenciada e simplesmente espetacular.

Sinto muito sua falta, uma saudade enorme. Deus o levou para junto dele, foi descansar.

“Véio”... onde quer que você esteja, quero agradecer de todo o meu coração por tudo que você sempre fez por mim. Fica com Deus!

Te amo, pai.

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George Arias é o maior nome entre os pesos pesados do Brasil desde a aposentadoria de Adilson “Maguila” Rodrigues. Campeão nacional desde 1998 até 2016, George entrou para a história do boxe nacional por realizar 28 lutas válidas pelo título brasileiro da categoria máxima, vencendo todas. Aos 42 anos de idade, o paulista foi treinado durante toda a vida por Santo Arias (in memoriam), que, além de ser seu pai, combinava as funções de técnico e empresário. Falecido em 2013, Santo foi o responsável por forjar a guarda e o sistema defensivo de seu filho. “O boxe é a arte de bater e não receber. Se bater e receber, não serve”, costumava dizer o saudoso Santo, a quem tivemos a honra de conhecer pessoalmente em 2010. E, neste Dia dos Pais, oferecemos a George nosso espaço para que ele contasse a bonita história entre pai e filho que trabalharam juntos pelo boxe brasileiro. Ao George e sua família, nossos sinceros agradecimentos por toparem escrever algo tão legal nessa data tão especial. E aos diversos pais que amam a nobre arte e que acompanham o Round13, só podemos desejar um Feliz Dia dos Pais!

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