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Publicado em 27 de Julho de 2016 às 21h:20

A História do Boxe Brasileiro nas Olimpíadas - Parte I

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Autor Luigi F.


Imagem de capa: Créditos: palmares.gov.br e Maurício Dehò/UOL Esporte

Para muitas pessoas, a empreitada do boxe brasileiro nos Jogos Olímpicos resume-se às quatro medalhas já conquistadas por nosso país ao longo dos anos. A prata e os três bronzes conquistados por Esquiva Falcão (2012), Servilio de Oliveira (1968), Yamaguchi Falcão (2012) e Adriana Araujo (2012) são, de fato, os momentos de mais elevado prestígio que a nobre arte nacional atingiu nas Olimpíadas. Porém, diversas outras passagens interessantes aconteceram ao longo das décadas. Por exemplo, você sabia que, além das quatro medalhas, o Brasil já foi eliminado 12 vezes nas quartas-de-final? Ou seja, em 12 oportunidades, lutadores tupiniquins tiveram a apenas uma vitória de garantir o bronze. Imaginem se, ao invés de 4, tivéssemos 16 medalhas na nossa história?

Pensando nisso, montamos uma recapitulação da participação do boxe brasileiro ao longo dos anos, desde Ralph Zumbano, nos Jogos de 1948, até à edição memorável de 2012, com três medalhas sendo conquistadas em uma só edição. Uma homenagem simples aos diversos personagens que fizeram parte dessa história, porém, o fruto de uma extensa pesquisa que realizamos recentemente. A primeira parte, que vocês estão lendo hoje, irá retratar nossa história desde o nosso início até os Jogos de 1980. Na segunda, que será publicada nos próximos dias, o foco será nas passagens das Olimpíadas de 1988 até 2012.

A primeira participação do boxe brasileiro em Jogos Olímpicos aconteceu em 1948. Com quatro boxeadores, o Brasil enfim passava a participar da nobre arte olímpica, uma vez que nas sete edições anteriores não tivera nenhum representante. O galo Manoel do Nascimento, o pena José do Nascimento Dias, o pesado Vicente dos Santos e o leve Ralph Zumbano tiveram a honra de inaugurar a história nacional nos Jogos. Vicente foi eliminado na estreia, assim como Manoel, que acabou tendo o azar de cruzar com o húngaro Tibor Czík, o campeão daquela edição.

Já Ralph Zumbano, um dos irmãos da primeira geração de lutadores do clã mais tradicional da história do boxe brasileiro, teve uma excelente participação. Tendo no currículo diversos títulos de campeão paulista e brasileiro como amador, Ralph era também vice-campeão sul-americano. Depois de nocautear Franz Ehringer, de Luxemburgo, na estreia, Zumbano bateu o francês August Caulet nas oitavas de final, sendo saudado pela imprensa local como “A Maravilha Brasileira”. Nas quartas, entretanto, Ralph foi derrotado pelo estadunidense Wallace “Bud” Smith por nocaute. Smith, que seria campeão mundial dos leves como profissional, acabou perdendo na rodada seguinte do torneio. Já Ralph se profissionalizaria no ano seguinte, e se tornaria um dos maiores nomes da história do boxe brasileiro. O “Bailarino”, como era conhecido, tinha um estilo técnico único, e se tornou campeão brasileiro entre os profissionais. Apesar da aposentadoria em 1956, Ralph continuaria envolvido no boxe como técnico. O avô do peso pesado Raphael Zumbano faleceu em 2001, aos 76 anos de idade.


Ralph Zumbano (Imagem: centralesportiva.com.br)

Em 1952, nos Jogos de Helsinque, a delegação brasileira contaria com 6 pugilistas, número que só seria alcançado novamente nos Jogos de Atlanta, em 1996. O super-leve Celestino Pinto e o meio-médio Alexandre Dib seriam eliminados logo em seus debutes. Já o pena Pedro Galasso e o médio Nelson de Paula Andrade venceriam uma luta cada, mas seriam eliminados nas oitavas. Enquanto isso, o médio-ligeiro Paulo de Jesus Cavalheiro e o meio-pesado Lúcio “El Tigre” Grottone teriam trajetória semelhante, ficando de bye na primeira rodada, e vencendo uma luta. Ambos, entretanto, acabaram eliminados nas quartas. Paulo foi superado pelo soviético Boris Tishin, que terminaria com o bronze, enquanto Lúcio, que no ano anterior conquistara a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Buenos Aires, foi derrotado pelo argentino Antonio Pacenza, que terminou com a prata em Helsinque.

Já em 1956, nas Olimpíadas de Melbourne, na Austrália, o Brasil teria dois representantes. O super-leve carioca Celestino Pinto retornou à maior competição esportiva do boxe amador embalado pelo bronze que havia colocado no peito nos Jogos Pan-Americanos do México, em 1955. Entretanto, mais uma vez Celestino foi suplantado na estreia, dessa vez para o austríaco Leopold Potesil. Mas o grande destaque daquela edição, pelo menos para a nobre arte brasileira, seria o peso-galo Eder Jofre. Aquele que se consagraria, anos mais tarde, como o maior boxeador da história do Brasil e também o maior peso galo de todos os tempos, ficou de bye na primeira rodada. Na sequência, derrotou Thein Mynt, da Birmânia (atual Myanmar). Nas quartas, uma inesperada derrota para o chileno Claudio Barrientos fez com que Eder desse adeus ao sonho da medalha olímpica. Barrientos, que acabou beneficiado pelo fato do brasileiro no melhor estado possível (narra a história que, durante os treinos, Eder acabou machucando o nariz num sparring com Celestino, o que inviabilizou que conseguisse se apresentar 100%), terminou o torneio com a medalha de bronze. Anos mais tarde, os rivais se reencontrariam no profissional, com Jofre se vingando por nocaute técnico, após derrubar o chileno por oito vezes.


Eder Jofre e sua família após as Olimpíadas de Melbourne. Imagem: Folhapress/UOL Esporte

A edição de 1960, realizada em Roma, não deixaria boas lembranças. Nenhum dos cinco integrantes da seleção brasileira conseguiu vencer. O mosca José “Piccinin” Martins, o galo Waldomiro Pinto, o super-leve Jorge “Sacomã” Salomão e o meio-pesado José Pedro Leite ficariam de bye na rodada inicial, mas acabariam eliminados nas oitavas de final. Já o médio-ligeiro Helio Crescêncio, o “Lambreta”, que conquistara o bronze no Pan de Chicago-1959, perderia na primeira ronda. Destes, Waldomiro Pinto, conhecido como “o Galo Negro”, havia chegado com bastante expectativa, uma vez que um ano antes conquistara a medalha de ouro pan-americana. Entretanto, logo na estreia acabou topando com o soviético Oleg Grigoryev, que o derrotou por pontos, e acabou se sagrando o campeão daquele torneio.

Tóquio abrigou as Olimpíadas de 1964, onde mais uma vez o Brasil bateria na trave. Enquanto o médio-ligeiro Luiz Fabre e o médio Luiz Cezar foram eliminados em suas respectivas estreias, o super-leve João Henrique da Silva, mais conhecido como “Cobrinha”, chegou até as quartas de final, vencendo dois embates. Eliminado por pontos pelo ganês Eddie Blay, João ficou a apenas uma vitória de garantir a tão sonhada medalha olímpica. Depois de se profissionalizar ainda em 1964, João Henrique teve uma empreitada de sucesso, sagrando-se campeão brasileiro e sul-americano. O brasileiro ainda teve quatro oportunidades de tornar-se campeão no mundo no profissionalismo, porém, acabou derrotado em todas. Ele faleceu em 1982, vítima de um acidente automobilístico.

Enfim, a espera teria fim. Somente nos Jogos de 1968, na Cidade do México, que enfim o Brasil conseguiu sua primeira grande conquista na nobre arte olímpica. Foram as mãos e a apurada técnica do peso-mosca paulistano Servilio de Oliveira que colocaram o Brasil no mapa de medalhistas olímpicos. O jovem Servilio, à época com 20 anos de idade, ficou de bye na primeira rodada, tendo vencido seus dois duelos na sequência. Primeiro, Oliveira suplantou o turco Engin Yadigar; nas quartas, a vitória sobre o ganense Joe Destimo. Enfim, o Brasil encerrava uma fila de 20 anos desde sua primeira participação no boxe em Olimpíadas. Nas semifinais, Servilio enfrentou o pugilista da casa, o mexicano Ricardo Delgado. Com a vantagem de lutar em casa, Delgado acabou se classificando em resultado que chegou a ser contestado, porém, nada que pudesse chegar perto de apagar ou sequer deixar alguma lembrança negativa em relação ao impressionante feito atingido por Servilio.


Servilio (direita) no pódio olímpico após a conquista do bronze em 1968. Imagem: UOL Esporte

É importante lembrar que Servilio, um dos maiores nomes da história do boxe brasileiro, passou por maus bocados antes de embarcar para o México, visto que o Comitê Olímpico Brasileiro criou diversas dificuldades para enviar a seleção de boxe. Após muito insistir, o paulista conseguiu viajar para representar o país, naquela que se tornaria a única medalha do esporte de luvas em Olimpíadas até 2012. No ano seguinte, Servilio se profissionalizaria. Apeidado de “Eder de Ébano”, o lutador emplacaria uma fantástica sequência no boxe profissional. Talentoso, Servilio chegou a se classificar entre os primeiros moscas do mundo. Em 1971, porém, ele sofreria um deslocamento de retina na dura e brutal luta contra o mexicano Tony Moreno, lesão que acabou incapacitando que Oliveira concluísse uma trajetória que parecia ser apenas questão de tempo: a de ser o primeiro medalhista olímpico brasileiro a ser campeão mundial profissional.

Além de Servilio, o meio-médio cearense Expedito Alencar Arrais disputaria os Jogos de 1968. Após estrear derrotando o etíope Tadesse Gebregiorgis, Expedito acabou cruzando com o alemão Manfred Wolke logo nas oitavas. Wolke, que terminaria aquela competição com a medalha de ouro, derrotou o brasileiro por pontos.

Já em 1972, em Munique, o galo Deusdete Vasconcelos e o meio-pesado Valdemar Paulino de Oliveira acabariam eliminados precocemente. Deusdete foi derrotado na estreia pelo pugilista da Coréia do Norte, enquanto Valdemar perderia nas oitavas para o nigeriano Isaac Ikhouria, que terminaria com o bronze.

Em 1976, nas Olimpíadas de Montreal, no Canadá, o Brasil voltaria a ter, após 16 anos, mais de 3 representantes. Com quatro boxeadores, entretanto, não foi dessa vez que o país voltou a subir ao pódio. O mosca Antônio Dias Toledo Filho e o pena Raimundo Nonato Alves acabaram perdendo na primeira luta que fizeram, eliminados por adversários que acabariam com medalhas de bronze em suas respectivas divisões de peso. Já Francisco “Chiquinho” de Jesus, nos super-leves, e Fernando José Martins, nos médios, conseguiriam uma vitória, mas seriam derrotados nas oitavas, dando adeus à disputa.

Em 1980, em Moscou, o Brasil chegaria mais uma vez próximo de voltar ao pódio olímpico. E dessa vez, com dois boxeadores. Chiquinho de Jesus, dessa vez entre os médio-ligeiros, embalaria com sucessos sobre guineense Mbemba Camara e o sueco Leo Vainonen, até ser derrotado, nas quartas, pelo cubano Armando Martínez, que seria o campeão do torneio. Chiquinho, que completou 60 anos no último mês de maio, se consolidaria como um dos principais pugilistas brasileiros na década de 80. Já o pena Sidnei Dal Rovere também faria uma bonita campanha em Moscou, derrotando o nepalês Narendra Poma e o etíope Leoul Neeraio. Nas quartas, entretanto, acabou eliminado pelo polonês Krzysztof Kosedowski (que terminaria com o bronze). Assim como Chiquinho, Sidnei seria um dos principais nomes da nobre arte nacional naqueles tempos.


Moscou 1980: Chiquinho de Jesus, Jaime Sodré, Sidnei Dal Rovere e  e Carlos Antunes. Imagem: Terceiro Tempo

A delegação brasileira ainda contou com o super-leve Jaime Sodré de França e o médio Carlos Antunes, ambos eliminados logo em suas estreias.

E após 9 Jogos Olímpicos seguidos, com 32 participações e 1 medalha conquistada, o boxe brasileiro olímpico sofreria o mais duro golpe até então: nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, nenhum boxeador tupiniquim iria participar.

(Continua...)

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