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Publicado em 31 de Dezembro de 2015 às 10h:16

A jornada do Homem-Derrota

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Autor Daniel Leal

Ele tinha que perder. Só não lhe disseram...



*Homem-Derrota é o pseudônimo não só de Eduardo Pereira , mas de todos os brasileiros que, na visão dos empresários estrangeiros, saem de sua terra para servirem apenas como "escada" no exterior.
 

- “Título internacional da FIB, eu vou, é minha chance.”

- “Não traga nem o treinador, não pode!”

- “Não importa, vencerei, é minha chance.”

- “Você vai ter que descer de categoria, e agora! Nosso campeão está fraco, você não pode estar mais forte.”

- “Ok, não importa, vencerei, é minha chance.”

E assim subiu no quadrilátero de cordas o Homem-Derrota. Sem saber que seu destino já encontrava-se selado àquela altura.

“Vou vencer, vou mostrar minha força no primeiro round”

Combinações, esquivas, golpes potentes. 10 à 9 para o Homem-Derrota.
Não importava.

“Consegui, não imaginava! Sou melhor que ele. É a luta da minha vida, não importa, vencerei, é minha chance!”

Mais uma surra no segundo assalto. O Homem-Derrota amplia, 20 à 18.
Só não sabia que não importava.

“Vixe, tô demais! (sic). Bora acabar com esse turco! É minha chance!”

Ele veio pra derrubar o “brazuca”, frustrou-se. Mais uma vez, sem saber do seu destino, sem importar, mais um giro para a conta do Homem-Derrota.

“Já tô me vendo chegando na academia com o cinturão, meu nome no ranking, minha família orgulhosa… Quem disse que eu vim pra perder? Se foderam...”

Em outro canto, um senhor de paletó sussurra: “Não esperava um brasileiro tão forte. Alguém da um jeito nisso”.
Alguém ouviu.

A toalha, então, voa, meados do quarto round, como voam os aviões, quase que sem explicação. Aquelas coisas pesam toneladas, e voam.
Cientificamente tem um porquê. O mesmo ocorre com a toalha.

“E o título continua aqui. E você não é nada, você veio para isso.” - responde mentalmente o senhor do paletó.

E o Homem-Derrota, resignado, se da conta de seu destino. Já estava traçado. A decepção era com ele. Só mesmo ele não percebeu que o Homem-Derrota é proibido de vencer. Afinal, não importava, era sua chance…

 

A crônica em questão foi inspirada no capítulo mais triste do ano para o Boxe Brasileiro, ocorrido no dia 29 de Dezembro , em Regensburg, na Alemanha. Nesta ocasião o pugilista Eduardo Pereira dos Reis teve usurpado o seu direito como atleta, e como homem, de competir dentro dos limites da honra do esporte. O lutador turco Yavuz Ertuerk foi favorecido por uma clara conspiração visando manter seu título, somando mais uma vitória á seu cartel.

Eles esperavam um cordeiro à ser sacrificado, afinal, este é o produto que a maioria dos ditos “managers”, “empresarios”, “apoiadores”, “matchmakers” e afins, entregam no exterior. Meros exportadores de carga, que não enxergam o mal que fazem ao esporte. Quantos outros Homens-Derrota vão ainda ser levados para fora, nessas condições? Até quando os (ir)responsáveis sairão impunes? O que será necessário acontecer para que isso mude?

O Round13 NÃO DESCANSARÁ até descobrir quem intermediou a ida de Eduardo à Alemanha, puramente para lhe ser impetrado um abate o qual se recusou a sofrer! Por mais que esta pessoa possa não ter à ver com o esquema, com este resultado insultuoso, tem responsabilidade em tomar as atitudes cabíveis. Até porque, ganhou seu dinheiro nisso.

E cabe à FIB (Federação Internacional de Boxe), que fez as regras serem rigidamente cumpridas, prejudicando os pesos-pesados ao extirpar Tyson Fury de seu quadro de campeões, que tome atitude coerente e ANULE a vitória de Ertuerk.

 

Eduardo Pereira dos Reis, você tem o nosso respeito, e nosso apoio. Já estamos tentando contato com os organizadores do evento. No que depender de nossa limitada, porém chata, intimidação, não deixaremos barato. O principal está feito, a denúncia.

Hoje é um dia triste para o pugilismo brasileiro, mas que sirva de lição.

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