Artigos

Publicado em 17 de Março de 2016 às 05h:15

A luta decidida por 2 segundos: há 26 anos, Chavez vencia Taylor em combate polêmico que entrou para a história

Foto do autor

Autor Luigi F.


Imagem: Boxrec

17 de março de 1990. Neste dia, o Hilton Hotel de Las Vegas, nos EUA, recebeu uma aguardada disputa unificatória de títulos mundiais. De um lado, o mexicano Julio Cesar Chavez, campeão dos super-leves pelo CMB. Do outro, Meldrick Taylor, o estadunidense campeão pela FIB naqueles tempos.

Chavez, considerado um dos maiores nomes da história do boxe mexicano, tinha 27 anos na época. Uma das grandes personificações do estilo mexicano de lutar num quadrilátero de cordas, Julio Cesar possuía um brilhante cartel de 68-0, com 56 nocautes a seu favor, naqueles dias. Além disso, já havia sido tetracampeão mundial. Além do cinturão do CMB nos super-leves, já tinha sido campeão nos super-penas (CMB) e leves (CMB e AMB).

Taylor, por sua vez, tinha no currículo um cartel amador de 99-4 e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles, numa das melhores equipes olímpicas dos EUA na história. Com cartel profissional de 24-0-1, 14 KOs na época da disputa contra Chavez, Meldrick tinha 23 anos.

A disputa foi cercada de bastante expectativa. Pouco mais de um mês antes, Mike Tyson, então o grande pugilista da época, havia sido derrotado por James “Buster” Douglas, numa das grandes zebras de todos os tempos no boxe. E um duelo entre dois boxeadores campeões mundiais e invictos era uma oportunidade de ouro para tentar atrair um pouco da atenção que, meses antes, era basicamente concentrada no peso pesado.

Os prognósticos feitos acabaram se confirmando durante a maioria do combate. A técnica, velocidade e jogo de pernas de Taylor foram suficientes para fazê-lo abrir uma vantagem nos assaltos iniciais, frustrando o jogo de pressão de Chavez. O persistente mexicano, entretanto, continuava buscando a luta no corpo-a-corpo, e com o passar do tempo, seus golpes passaram a surtir mais efeito. Sua mão, nitidamente mais pesada, ia fazendo um gradual estrago.


Imagem: Boxrec

Em clara vantagem nos primeiros 9 assaltos, Taylor já aparentava algum cansaço e inchaço quando a luta chegou nos rounds derradeiros. Chavez, por sua vez, mantinha o ritmo. Após quase confundir sobre qual era o lado de seu corner, o norte-americano adentrou o último giro em vantagem em duas das três papeletas: Jerry Roth e Dave Moretti viam Taylor à frente, com scores 108-101 e 107-102, respectivamente, enquanto Chuck Giampa marcava uma vantagem de um ponto para Chavez, com 105-104. Ou seja: a única esperança para o mexicano era a vitória por nocaute.

A pressão continuou. Taylor tinha dificuldades em conter o ímpeto do adversário. Faltando 25 segundos para terminar a luta, Chavez acertou um duro golpe de direita. Taylor sentiu, dobrou os joelhos e saiu cambaleando. Cercado no corner neutro diante de um verdadeiro matador, foi questão de tempo até que uma sequência o derrubasse. Chavez correu para o outro lado. Taylor caiu-se e levantou-se com a ajuda das cordas.

Você está OK?”, questionou o árbitro Richard Steele, numa das cenas clássicas da contenda. Seis segundos separavam Taylor de sobreviver para garantir a vitória quando Steele terminou de perguntar. Ele pergunta mais uma vez. O olhar de Meldrick parecia distante. Steele resolve, então, interromper a luta, restando apenas 2 segundos para o término.

2 segundos. Teria Chavez tempo suficiente para cruzar o ringue e encaixar o golpe derradeiro num adversário já castigado? Teria Taylor tempo suficiente de sobreviver?


Imagem: Boxrec

As perguntas acima ficarão, eternamente, sem resposta. Para a história, Chavez venceu por nocaute técnico aos 2 minutos e 58 segundos do 12º e último round, unificando os cinturões e vencendo uma disputa que parecia perdida.

Lou Duva, treinador de Taylor, reclamou bastante dizendo que a interrupção teria sido feita de maneira errônea, precipitada e desnecessária. Sua visão combina com todos os fãs que imaginam que o tempo restante no cronômetro era insuficiente para que o desfecho da luta mudasse, caso Steele não tivesse atuado.

O árbitro, por sua vez, foi enfático em declarar que não se preocupou com o tempo restante, e sim com a condição dos lutadores. O seu ponto de vista combina com os fãs que acreditam que ele não fez nada mais do que o seu trabalho: preservou a saúde de um pugilista que, apesar de estar em pé, não teria mais condições de voltar a ser castigado. Para ele, os segundos restantes no cronômetro não deveriam afetar seu julgamento.

Os debates sobre a excelente luta cujo desfecho poderia ter sido completamente outro por apenas 2 segundos ainda exaltam os ânimos dos fãs de boxe ao redor do mundo até hoje. Documentários e diversas matérias especiais já visitaram e revisitaram este tema, e raramente um consenso é atingido nas discussões.

Não por acaso, o duelo foi escolhido pela revista The Ring como a melhor luta do ano de 1990, e, posteriormente, da década.

Os rivais se enfrentariam novamente em 1994, com nova vitória do mexicano, dessa vez por nocaute técnico no oitavo round.

A vitória na primeira luta impulsionou Chavez para um patamar ainda mais alto de popularidade. Ele é considerado até hoje como um dos melhores pugilistas da história, tendo posição de destaque quando analisamos os últimos 50 anos da nobre arte. Ele se aposentou em 2005, com um cartel de 107 vitórias (86 por nocaute), 6 derrotas e 2 empates, e com uma incrível marca de 31 vitórias em 37 lutas válidas por títulos mundiais.

Já Taylor, após a derrota, nunca mais foi o mesmo. É verdade que ele se consagraria campeão mundial novamente no futuro, conquistando a coroa dos meio-médios pela AMB. Mas, a luta dos 2 segundos, de uma forma ou de outra, afetou para sempre sua forma e instinto de lutar. Como geralmente costuma-se definir neste tipo de situação, é como se naquela noite do dia 17 de março de 1990 tivessem arrancado uma parte de Taylor, a qual jamais voltou a aparecer para os fãs de boxe. Ele se aposentou em 2002, com 38 vitórias (20 nocautes), 8 derrotas e 1 empate.

Para relembrar a luta, basta acessá-la no YouTube, clicando aqui.

*********************

Confira as curiosidades da história do boxe nas postagens semanais do Round13 #TBT, disponíveis às quintas-feiras em nosso Instagram (@round13boxe) e Twitter (@round13boxe) oficiais! Sigam o Round13 nas redes sociais e fiquem por dentro!

Comentários