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Publicado em 03 de Fevereiro de 2016 às 16h:21

A técnica da "Fera"

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Autor Victor Violi


Imagem: foxsports.com

Uma análise sobre os aspectos técnicos que levaram Mike Tyson ao auge

Mike Tyson foi um boxeador que marcou época. Um dos nomes mais amados e odiados de todos os tempos. Quando Tyson entrava no ringue o mundo todo parava para ver Boxe, sendo sua popularidade internacional comparável apenas, talvez, a de Muhammad Ali. Todavia, acabou sendo tão falado por questões extra-ringue, quanto pelo que mostrou dentro do quadrilátero. Uma vida recheada de escândalos, com visitas a cadeia e uma condenação por estupro que o fez passar anos atrás das grades em um presídio em Indiana.

Esse texto não é sobre esse lado de “Iron” Mike, no entanto, e sim sobre o que ele era dentro do ringue, como lutador. Suas características, sua técnica, no que se baseava seu estilo. Afinal, sobre sua capacidade de lutar, o óbvio a se dizer é que sua pegada era monstruosa, muito acima da média. Mas vários outros tiveram também muita pegada. É possível argumentar que Ernie Shavers, por exemplo, tinha uma potência maior que Tyson.

Mas existem diversas outras razões – tanto qualidades físicas como técnicas – para que ele atingisse o sucesso no pugilismo no mais alto nível internacional. Falarei de algumas, pouco comentadas e outras um tanto já debatidas quando o nome do campeão mais novo de todos os tempos na categoria máxima, entra em discussão.

Velocidade e Pegada

"O pegador natural não existe. O que existe é uma aptidão natural pra pegar e isso é diferente." - Cus D´Amato

Claro, nada saltava mais aos olhos a primeira vista como a velocidade de punhos e a explosão e pegada que Mike possuía. Sem esses dois fatores, principalmente a potência, seu nome teria tido menos apelo, definitivamente. Mas o que lhe dava essa pegada acima da média? E a velocidade?

Não era força física, muscular pura e simplesmente. Fosse assim Mariusz Pudzianowski teria sido o maior pegador da história dos esportes de luta, o ex-“homem mais forte do mundo” se aventurou no MMA e não conseguiu ter o mesmo poder de nocaute que inúmeros outros lutadores. Não discordo necessariamente que há um componente genético grande na capacidade de força de golpe, mas, como quase tudo no Boxe, uma única resposta geralmente não explica 100% uma questão.
Acredito, e outras pessoas muito mais experientes e qualificadas que eu dentro do esporte dizem o mesmo: O “punch” tem relação direta com como você desfere o golpe.

Tyson, Floyd Patterson, Jose Torres, e alguns outros treinados por Cus D´Amato tinham um estilo onde além de estarem com as pernas sempre muito bem fixadas no chão, também se impulsionavam para cima quando soltando seus golpes de potência. Para Tyson esse estilo funcionava ainda mais por conta de sua baixa estatura, a altura do adversário virava uma vantagem, porém sempre com os pés muito bem fixados no chão, fixação de pés esta que levou também Joe Louis a ser um dos mais brutais nocauteadores de todos os tempos. Isso faz com que o peso de seu corpo todo esteja sendo usado completamente.

Conforme a frase de Cus, no início do tópico, bem explica, claro que o fato de Mike Tyson ter uma natural força física anormal e uma explosão muscular muito acima da média ajudava demais, inclusive por ele ter pernas muito fortes, mas, com certeza, seu poder de nocaute não seria o mesmo, se ele lutasse como Floyd Mayweather Jr. Um grande exemplo disso é a luta contra Reggie Gross.

O fato de Tyson treinar muito em sacos de pancadas pesadíssimos desde muito novo ajudou ele a desenvolver tal pegada. Sua velocidade de punhos, sim, era ainda mais um fator genético do que o soco potente, apesar que, muitos argumentam, grande parte da rapidez de Mike vinha dos treinamentos passados por Cus, que se baseavam em trabalhos de musculação sem peso, com exercícios naturais, no chão (Tyson pós-prisão passara a trabalhar com pesos).

JAB

Tudo no Boxe se inicia com o jab. Ou, pelo menos, deveria, já que é o modo mais fácil e inteligente de se fazer as coisas dentro do ringue. No entanto, há variados modos de se fazer um jab ser eficaz. Tyson jamais teria sucesso soltando jabs para manter a distância na categoria dos pesados devido a sua pequena envergadura. Então, sendo o jab o golpe mais importante do Boxe, como ter sucesso sem poder usá-lo em sua plenitude?

Voltando aos vários modos de se desferir um jab, ao mesmo tempo que se tem um lutador como Larry Holmes, que usava tal golpe para manter a distância, controlando o outro boxeador, há um Dwight Muhammad Qawi, ou Jake LaMotta – exemplos de boxeadores pequenos que faziam de seus jabs armas extremamente úteis mesmo assim, não para controlar o adversário mas para enganá-lo, e para abrir brechas, para criar oportunidades etc.

Tyson faria desse golpe, tão elementar, um de seus principais recursos para as suas vitórias, mesmo com essa desvantagem física.

O jab não precisa, necessariamente, acertar. É um golpe que raramente nocauteará alguém. Pode ser usado para machucar, para “cegar” o adversário e incomodá-lo, mas essa função é secundária, pode ser um acessório extra. Tyson usava seu jab ofensivamente. Como tudo em seu arsenal, era algo visando a destruição, o ataque. Visava o dano máximo ao adversário e a consequência disso era o nocaute.E o jab era o golpe que abria o caminho para esse nocaute, muitas das vezes.

A chance de um golpe decisivo, um golpe de força acertar, com uma preparação ideal, com o uso do jab previamente, ou de fintas, aumenta extraordinariamente. Muitos que viam e vêem Tyson em ação ignoram o fato de que, para que ele conseguisse acertar golpes tão precisos, ele não usava sua força, ou a rapidez. Sua aclamada pegada não o fazia acertar o golpe, e a velocidade era um “somente” um importante adicional.

O poder de nocaute era o fim de tudo, a última "pitada" de sal em uma concatenada série de ações. Um grande exemplo de seu jab é a luta contra Marvis Frazier, Tyson desfere vários jabs em sequência, que mal tocam em Marvis, fazendo-o recuar, para logo após desferir seus uppercuts derradeiros.

Ainda, como uma isca para o adversário muitas vezes Tyson jogava um jab apenas fintando, veja a luta contra Eddie Richardson, um “meio-jab” no corpo só para desviar a atenção de Richardson e então Tyson subiria com uma direita no rosto do adversário para conquistar a primeira queda da noite.

COMBINAÇÕES

Depois de ter um bom jab, todo grande boxeador, ou, pelo menos, a grande maioria deles, tem de saber combinar bem os golpes, soltar boas combinações. Mas afinal o que é uma boa combinação? Variar golpes na cabeça e no corpo é o que vem em mente em primeiro lugar, mas não somente isso. Muitos boxeadores defensivamente bons tem uma “memória” que funciona da seguinte maneira: após muitos e muitos anos, repetidamente, treinando, e esperando golpes do adversário eles desenvolvem uma capacidade subconsciente de prever os golpes que virão do oponente. Se um lutador solta uma combinação 1-2 de jab-direto nesse tipo de boxeador ele terá poucas dificuldades de antecipar o golpe.

Imprevisibilidade é um fator primordial para vencer adversários realmente bons a nível mundial. Por exemplo, após um golpe de direita, o adversário bom, treinado durante muitos anos, espera instintivamente uma esquerda em seguida. Mike tinha uma sequência muito própria quando no infighting, combinava um golpe de direita com outro golpe de direita. Tyson geralmente soltava uma direita no corpo, dura, mas claramente não o seu intuito principal, para depois desferir seu uppercut na cabeça com a mesma mão, o golpe decisivo de força. As lutas contra Jose Ribalta, Jesse Ferguson e Pinklon Thomas são clássicas nesse sentido.

MOVIMENTAÇÃO DE CABEÇA

Na questão defensiva, Tyson podia não ser um gênio mas tinha a mais importante qualidade para se defender. Uma qualidade defensiva indispensável para alguém menor, e para alguém que quer usar de contra-golpes.

O método mais fácil, recomendável e prudente é a guarda, sim. Mãos levantadas, como todos sabem. Mas o método mais eficaz e proveitoso para um lutador de alto nível mundial, é a esquiva, disso não deveria haver dúvidas. A guarda ocupa suas mãos, esquivar não. Enquanto você bloqueia um golpe com as suas mãos levantadas na frente da cabeça perdem-se frações de segundos para a resposta com um contra-golpe, frações que são vitais neste nível de que estamos falando. Durante a esquiva o corpo do lutador já está antecipadamente livre e se compondo para o contra-golpe.

Vejamos:

“Evasão é o método mais adequado. Quando você força seu oponente a errar o golpe completamente, ele usualmente acaba se desequilibrando e deixa uma abertura para você contra-golpear. Ademais, como o golpe não teve impacto nenhum em você, não te tirou o equilíbrio para contra-golpear.” - Jack Dempsey.

Tyson entendia bem esses conceitos passados por seu mentor Cus D´Amato, apesar de sempre manter as mãos a frente do rosto, com prudência, ele raramente bloqueava um golpe para defendê-lo. Quase sempre fazia seu adversário errar e jogar o golpe no vazio. Como Eder Jofre já disse, na Revista PLACAR de 1 de Dezembro de 1972, em um texto com o título "O segredo é bater sem apanhar".

"É não se deixar atingir ao mesmo tempo em que se busca a posição ideal para o contra-golpe"  - Éder Jofre

CONTRA-GOLPES

Intimamente ligado aos seus movimentos de cabeça estavam os seus contra-golpes, evidentemente. Venceu Trevor Berbick para conquistar seu primeiro cinturão por causa de su habilidade de contra-golpear.

Pode parecer estranha a frase, Mike Tyson a epítome do lutador agressivo e ofensivo, contra-atacar. Mas sim, Tyson nesta luta está constantemente esperando Trevor soltar um jab para contra-golpear com sua direita após movimentar sua cabeça para fora deste golpe, o primeiro knockdown no início do segundo round é um exemplo clássico de um contra-golpe de jab.

O estilo de Tyson também forçava adversários a soltar golpes de cima para baixo afinal ele era muito menor que seus adversários e ainda flexionava os joelhos diminuindo ainda mais sua altura. Como mantinha as mãos na frente do rosto, os oponentes eram obrigados a tentar golpes mais abertos nas laterais, o que o fazia ter mais espaço para entrar com golpes curtos e compactos.

O Declínio

E finalmente, a queda de Mike Tyson tem relação direta com esses quesitos comentados. Quando volta da prisão ele ainda possuia excelente pegada, mas sua velocidade havia diminuído sensivelmente (afinal estamos falando de quase uma década após seu primeiro título), mas, mais visivelmente, Tyson pouco usava o jab nesse período de sua carreira, sendo pouco paciente e tentando sempre finalizar a luta com um golpe só, contrariando tudo que lhe foi passado em Catskill, NY, anos antes.

No final, a única coisa que restaria em Tyson era sua pegada, e o fim havia chegado, já que só com poder de nocaute “Iron” Mike jamais teria sido o grande lutador que foi.

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