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Publicado em 27 de Outubro de 2015 às 13h:33

ATBESP, apoio aos treinadores e pugilistas

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Autor Denis Nietto

O que seria de Mike Tyson sem Cus D’Amato, o treinador que ajudou um homem a se tornar o mais popular encurtador e nocauteador da história? E Muhammad Ali, o que seria sem o apoio de seu fiel treinador Angelo Dundee? O que dizer sobre Lennox Lewis sem Emanuel Steward? Como seria o boxe sem Eddie Futch? Homem que treinou quatro dos cinco pugilistas que venceram Muhammad Ali! Será que Manny Pacquiao teria feito história se não fosse os treinamentos com Freddie Roach?

Nossa mente frequentemente nos engana quando vemos lutas de boxe, enxergamos um boxeador e só conseguimos visualizar aquele ser humano, sua força, reflexo, velocidade e inteligência. Raramente concluímos que houve uma construção daquele pugilista, um preparo, instrução e acompanhamento de toda uma equipe para que sua performance alcançasse aquele nível.

Pouco percebemos também os conselhos do córner durante a luta e sua influência no combate. Um excelente exemplo disso é a luta entre Sergio Martinez e Kelly Pavlik, perdendo claramente a luta, ao nono round, o argentino finalmente resolve obedecer literalmente ao conselho de seu córner de aumentar as sequências para 3 ou 4 golpes, acontece então uma drástica mudança, ao final do assalto, volta ao córner um Kelly Pavlik castigado, ofegante e com o rosto sangrando em vários pontos. O contrário também é verdadeiro, um mau treinador pode prejudicar um bom atleta.

Estratégia e preparo são fundamentais para o boxe. O apoio dos bastidores ao atleta pode não ficar evidenciado, mas quem trabalha com o boxe sabe o quanto é fundamental. Sabem como é fácil "perder" um grande atleta. Neste exato momento, podemos ter vários excelentes atletas no vasto Brasil, mas, como não foram descobertos, preparados e treinados, nada acontece.

Conhecedor, na pele, de tudo isso, e procurando suprir essa carência, Alex de Oliveira fundou a ATBESP - Associação dos Treinadores de Boxe do Estado de São Paulo.

Entrevistamos inicialmente Alex em maio de 2008, na época ele era, sem dúvidas, uma das maiores promessas (se não a maior) do Brasil. Depois dessa entrevista, Alex fechou contrato com Arthur Pellulo, o mesmo empresário que revelou nosso Popó.

Infelizmente, na primeira luta em que começaria a se expor, efetivamente, ao cenário mundial, Alex foi nocauteado por Giovanni Caro em Chiapas, México. Na tentativa de recuperar a carreira, Alex logrou uma sequência de vitórias menos expressivas, mas após ser batido por Diego Oscar Silva, optou pela aposentadoria dos ringues ficando com o cartel de 20 vitórias, sendo 14 por nocaute, e duas derrotas. Ao contrário do que muitos fizeram, já nos tempos de lutador profissional, Alex se dedicava aos estudos e preparava seu plano B para caso o boxe não desse certo. Conseguiu se formar em direito, foi aprovado no tão disputado teste da OAB, e hoje trabalha como advogado, um exemplo para o boxe em nossa nação.
 


 

A Associação visa apoiar o boxe brasileiro, cito parte do documento de definição das metas:
- Lutar junto ao CREF/SP para não mais exigir o CREF ao técnico de boxe.
- Representar e lutar pelos interesses dos treinadores e atletas de boxe em todas as esferas, de federações a tribunais judiciais.
- Criar uma eleição anual para eleger os melhores da modalidade do estado.
- Desenvolver o 1º curso técnico e prático de boxe da ATBESP para melhor qualificar os treinadores do estado.
 


 

O trabalho de maior ênfase, com certeza é a defesa da não obrigatoriedade do CREF ao técnico de boxe.

Segue algumas perguntas feitas ao próprio Alex com relação ao projeto:

R13: Olá Alex, é uma satisfação enorme nossa em fazer mais uma entrevista com você. Como surgiu a ideia da criação da Associação?

Primeiramente gostaria de saudar a todos do R13, agradecer o apoio que foi dado a mim enquanto atleta por este site que busca o crescimento do boxe nacional. A associação nasceu a partir de um ponto pacífico que é "melhorar o boxe brasileiro", pensando nisto começamos a fazer algumas reuniões com muitos treinadores no Centro Olímpico. Estas reuniões foram organizadas pelo Marcelo Ferraz, um colaborador precioso da nossa modalidade. Em uma destas reuniões eu dei a ideia de formar um sindicato ou uma associação, os treinadores aprovaram, daí fiquei responsável por desenvolver um estatuto e fazer todo procedimento legal para a criação.

R13: O que seria o CREF e porque esse trabalho para que o treinador não seja obrigado a tê-lo?

O CREF é o chamado CONSELHO REGIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA, ele regula a profissão e fiscaliza os profissionais de educação física. O CREF diz que o professor de boxe não tem aptidão técnica, física e tática para dar aula de boxe, pois este profissional, para dar aula teria que frequentar a faculdade de educação física, assim estaria apto a dar aula de boxe. Sabemos também que existe uma decisão do Superior Tribunal de Justiça que impede o CREF de fiscalizar as artes marciais, dança e yoga. A decisão ainda fala que o CREF não tem competência para impedir o livre exercício da profissão, fazendo isto estaria infringindo um norma constitucional que é o livre exercício do trabalho consagrado no artigo 5º da Constituição Federal.

R13: Como o atleta ou treinador podem se associar ao projeto?

É simples e fácil, envia um e-mail para atbesp@hotmail.com e enviaremos a ficha de inscrição. Na ATBESP qualquer um pode associar-se para buscar sempre melhorar a modalidade, agora só os treinadores receberá a carteira de técnico o atleta receberá de atleta. Associado comum receberá uma carteira de sócio.

R13: Qual o benefício em se ter um ranking? Se aplica só aos treinadores ou também aos pugilistas?

Nossos planos é fazer uma eleição anual de melhores do ano, desde treinadores a atletas. Um ranking é muito importante para estimular aos técnicos e atletas a ser os melhores das suas áreas.

R13: Em que fase de amadurecimento está o projeto? Existe algum site?

Hoje estamos na fase de adesão e divulgação da ATBESP. O site está em produção e se Deus quiser levaremos este projeto para todo o Brasil. O que buscamos na realidade é a profissionalização, amadurecimento e que nossa modalidade seja levado a sério. Hoje carecemos disto, enquanto outras modalidades se organizam e crescem, nosso esporte anda para trás. Apesar das medalhas conquistadas em Londres, continuamos sem patrocínio, incentivo e reconhecimento. Nós podemos mais que isso, o Brasil pode mais e o Boxe precisa disto. ORGANIZAÇÃO é a palavra chave para mudarmos o rumo da história do boxe brasileiro.

R13: Nós desejamos sucesso ao seu trabalho e ficamos gratos por mais uma entrevista!

Agradeço mais uma vez o apoio que vocês sempre me deram, também agradeço pelo que vocês fazem pelo boxe nacional. Temos muitos talentos no anonimato e este site está mostrando o que temos de melhor no Brasil, eu agradeço e com certeza o boxe agradece esta iniciativa de vocês.

Seguem alguns depoimentos de professores de boxe coletados pela ATBESP:

Neilson dos Santos Braga (ex-pugilista e treinador)

A questão do CREF no boxe é muito simples, eu fiz faculdade e não vi uma aula de boxe na faculdade. Então acho incorreto o CREF cobrar que um professor de boxe tenha faculdade sendo que o boxe não tem cadeira na faculdade. Acho que não tem motivo o professor ter o CREF para dar aula de boxe, se o professor tem experiência e vivência, tem que ser liberado para dar as aulas. E com a federação assistindo isso, autorizando e dando uma carteirinha acho que o professor pode dar aula tranquilo de boxe.

Luis Carlos Santos de Jesus (ex-pugilista da seleção por 8 anos, atualmente é treinador)

Vou fazer 32 anos agora, treino meu boxe desde os 14 anos. As vezes acho injusto essa parada do CREF porque na faculdade não tem a cadeira, mas exige o CREF. Hoje em dia está muita "picaretagem" no boxe por causa disso aí, as vezes a pessoa faz uma faculdade, tem o CREF, mas não aprendeu a dar aula de boxe, e acaba dando a aula. E eu que tenho a vivencia de mais de 16 anos de boxe, treino, não posso dar aula, então precisa ter um bom censo.

Valdevan Pereira (pugilista e treinador)

A questão é, você dedica uma vida inteira ao boxe, realmente aprende a disciplina, aprende a trabalhar corretamente, mas não tem tempo e dinheiro para fazer uma faculdade. Devido você ter família, trabalho para cuidar, treinar, lutar, então fica complicado fazer a faculdade, o preço é muito alto das faculdades. E outra, não temos cadeira na faculdade, aprendemos nos treinamentos do dia-a-dia.

Anderson Rolim Paz da Silva (ex-pugilista e treinador)

Além de professor de boxe, também sou professor de Hapkido. Sempre questionei que se tivesse alguém do CREF que chegasse na minha academia e falasse que eu não tenho o CREF então não posso dar aula, eu questionava qualquer um desses profissionais a dar aula nessas modalidades, porque tenho certeza que nenhuma deles está apto, a não ser que seja alguém que já é professor e tenha o CREF. Agora qualquer pessoa que sai da faculdade (sem ter experiência) não está apta para dar aula nenhuma de qualquer tipo de artes marciais ou que seja na área de luta.

Gabriel de Oliveira (ex-treinador da seleção)

Sou treinador, também professor de educação física com CREF. Como a maioria conhece, fui lutador, treinador da seleção brasileira por muitos anos, me formei na turma de 1998 na Faculdade de Educação Física de Santo André. Queria dizer que sou totalmente solidário aos meus colegas e professores que não tem o CREF e que ministram seus treinos de boxe. Porque vou dizer, eu vivenciei a educação física 4 anos dentro da faculdade, e é claro que não vou ser hipócrita de dizer que não contribuiu efetivamente para meu crescimento como treinador, sim contribuiu. Mas nada especificamente de didática da modalidade de luta em si, muito de fisiologia, de anatomia, de coisas gerais do corpo humano, preparação física, essas coisas que realmente somam, mas especificamente para dar aula não. Então sou solidário a galera que não tem o CREF para poder justamente exercer a sua profissão de dar aula em academias. E vou dizer o porquê. Dizer que um professor de educação física pode dar aula de boxe é a mesma coisa me colocar para dar aula de natação, quem me conhece sabe, eu sou uma pedra, se cair dentro da água eu vou lá embaixo e não subo mais. E vou contar uma passagem da minha vida, teve uma época que fui parar dentro de uma academia, o professor faltou e eu tive que dar de natação, ou seja, totalmente fora do propósito, só porque eu tinha um documento. Isso está acontecendo muito na área da luta, no boxe especificamente, porque o pessoal sabe que o boxe traz os benefícios cárdio-respiratórios e todas as questões de contribuir para baixa do peso corporal e tudo isso que a mulherada gosta e tal, então tem muita gente da educação física se apropriando dessa área e fazendo. Mas, como já foi citado, eles não tem a expertise necessária para ministrar uma aula tal e qual nós fazemos. Acho que tínhamos que colocar o CREF realmente para trabalhar e não somente para cobrar taxa da gente. Então tinha que pegar gente como o Bruno Galati, que é membro do CREF, e que tem a expertise dentro do boxe e criar um sistema para não precisar fazer a graduação e fazer realmente clínicas que validem a capacidade técnica de quem vai ministrar aula, validadas pelo CREF, e não por qualquer outra entidade. Então pegar professores de boxe, que tem o CREF, encabeçados pelo Galati, e ele designar um corpo, e, periodicamente o grupo passar uma prova de capacitação, e acabou, é isso aí, aliar e não segregar, não temos que bater de frente com CREF, não, temos que trazer esses caras com a gente, eles tem que dar a César o que é de César. Colocar eles para trabalhar com o nosso pessoal que está lá, Bruno Galati ou um deles, eu estou longe, mas também me disponho a se tiver alguma possibilidade de contribuir de alguma maneira, tenho certeza que há outros professores com CREF que militam no boxe que também poderiam fazê-lo. O próprio Messias Gomes, Sidnei Dal Rovere, Jaime Sodré, Alessandro de Almeida e outros professores que tem o boxe na veia e sabe como fazer. Então acho que é isso, acho que tinha que entrar dentro do CREF, criar um módulo de capacitação, convocar os professores para fazer essa prova que comprove a sua capacidade de estar ministrando as aulas.

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