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Publicado em 24 de Agosto de 2008 às 11h:15

Boxeo

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Autor Luigi F.

Brasil e Argentina proporcionam muita emoção em qualquer duelo que envolva esportes. A rivalidade esportiva entre os países consegue ser enorme, uma das maiores ao redor de todo o mundo. Enquanto os brasileiros se orgulham da superioridade no futebol e no vôlei, os hermanos se vangloriam por terem melhores times de basquete e rugby. Porém, no boxe, essa rivalidade entre os países só pode ser considerada no nome. O sucesso dos nossos vizinhos é tão maior que é difícil alguma comparação. São 35 campeões mundiais contra apenas 4 tupiniquins. Em Jogos Olímpicos, a superioridade é maior ainda: 24 medalhas, sendo 7 de ouro, 7 de prata e 10 de bronze, contra apenas 1 insígnia de bronze nossa.

A superioridade dos argentinos no profissionalismo teve início em 1954, quando Pascual Pérez (84-7-1, 57 KOs) bateu o japonês Yoshio Shirai e sagrou-se campeão mundial do peso mosca. Na vertente amadora, as primeiras medalhas deles vieram nos Jogos de Paris, em 1924, com as pratas de Alfredo Copello e Héctor Mendez, e os bronzes de Pedro Quartucci e Alfredo Porzio.

Dos 35 campeões do mundo, 31 são homens, e 4 são mulheres Vale lembrar que esse número é considerado pela FAB (Federação Argentina de Boxe). Porém, o correto seriam 34. Essa diferença se dá pela conquista do cinturão dos médios da AMB pelo argentino Mariano Carrera, em 2006. Na disputa em questão, Carrera bateu o espanhol Javier Castillejo por nocaute técnico no 11º assalto, mas acabou pego no exame anti-doping, o que fez a luta ficar sem decisão. A FAB, assim como a AMB, considera Carrera como campeão mundial em seu quadro de vencedores mesmo assim. Por mais absurdo que possa parecer, isso não faz diferença na quantidade de campeões mundiais que nossos vizinhos têm a mais.

Enquanto qualquer brasileiro fã de boxe sabe de cabeça o nome dos quatro campeões daqui (Éder Jofre, Miguel de Oliveira, Acelino “Popó” Freitas e Valdemir “Sertão” Pereira) e o do nosso único medalhista olímpico (Servílio de Oliveira), os argentinos comemoraram, no último dia 3 de Julho, o 35º título, quando Hugo Hernan Garay (31-3, 17 KOs) bateu o ucraniano Yuri Barashian e se tornou campeão mundial dos meio-pesados pela AMB. Sensação essa que não temos desde abril de 2006, quando o nosso “Popó” bateu o americano Zahir Raheem, e arrebatou o cinturão dos leves pela OMB.

Depois de Pascual Pérez, mais 34 campeões reconhecidos. Entre esses, muitos pugilistas que fizeram história, como Carlos Monzón (que, em seu país, é reconhecido como um dos maiores esportistas da história, ao lado de Maradona e de Juan Manuel Fangio), Jorge “Locomotora” Castro, Víctor Emilio Galíndez e Juan Martín Coggi. Mais recentemente, nomes conhecidos por fãs da nobre arte, como Jorge “La Hiena” Barrios, que travou duelo sensacional com Popó em 2003, Carlos “Tata” Baldomir, que surpreendeu o mundo ao bater Zab Judah e Arturo Gatti em 2006, e o próprio Garay.

Mas qual é a verdadeira razão de tamanha superioridade? Para José Elias Flores Jr., editor do site Ringue.net, o motivo é um misto entre dedicação e profissionalismo. “Para mim, na Argentina os lutadores lutam com muito mais freqüência. Chegam a lutar mais de uma vez por mês. Além disso, não existe algo que é muito comum em nosso país: a pressão exagerada para que o pugilista se mantenha invicto. Lá, o importante é que o lutador evolua aos poucos, suba degrau por degrau, para que se transforme possivelmente num grande nome. Tanto o Monzón, quanto o Juan Coggi, não eram invictos quando foram campeões”. E é claro, não poderíamos deixar de lado a seriedade. “Devido à uma abordagem mais séria de todos os envolvidos no esporte, como entidades (existe uma só), promoters e managers, os canais de TV aberta transmitem o boxe, o que faz com que ele seja um esporte de massa, e não de nicho”, declarou.

Já para Reinaldo Carrera, escritor da coluna 1º Round no GazetaEsportiva.net, a grande diferença é a organização. “A superioridade argentina se deve, e muito, à maior organização do esporte, ao maior número de técnicos e ginásios para atletas profissionais e ao trabalho mais sério da Federação daquele país. Com essa estrutura, não foi difícil surgirem bons promotores e bons atletas. Com um trabalho focado e dirigido em atletas com verdadeiro potencial, e não com mentiras e falsos ídolos, eles acabam sendo superiores”. Ainda segundo Carrera, não é uma questão de mais dinheiro envolvido: “Historicamente, eles sofrem dos mesmos males que nós, ou seja, maus políticos e mau gerenciamento dos recursos públicos”.

A Argentina, infelizmente para nós, dá show quando o assunto é ter uma estrutura para o desenvolvimento do boxe. Faltam talentos? Não, isso temos de sobra! O que falta é seriedade e vontade de fazer com que a nobre arte cresça como um todo, sem interesses individuais e com mais profissionalismo. Dificilmente a publicação de apenas uma matéria irá mudar muita coisa. Mas fica aqui o nosso protesto e o desejo de que os responsáveis pelo boxe brasileiro façam um trabalho à altura do talento que temos disponível. Não será da noite para o dia, nem em questão de meses. Mas, quem sabe, daqui alguns (muitos, talvez) anos, eu não possa sentar e escrever sobre o dia em que superamos os nossos hermanos no número de campeões mundiais. Sonho? Cada um chama do que quiser. Mas que temos tudo para ter uma história no pugilismo tão ou mais rica que a dos nossos vizinhos, isso ninguém pode negar.


Agradecimentos: José Elias Flores Jr. e Reinaldo Carrera

 

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