Artigos

Publicado em 03 de Novembro de 2015 às 14h:26

Como formaremos mais campeões?

Foto do autor

Autor Daniel Leal

“Primeiro transformei a faísca em uma chama. Esta se tornou fogo, e o fogo virou um incêndio sem controle” - Cus D'Amato, sobre Mike Tyson.


É um desafio para o Brasil. Em quase uma centena de anos em que temos a nobre arte aqui aportada, formamos apenas quatro pessoas capazes de atingirem o ápice da esfera profissional. Nenhum chegou ao topo olímpico da modalidade, e apenas outros quatro medalharam. Triste, em se tratando de um Estado com mais de 200 milhões de habitantes, diverso, miscigenado, e, basicamente, pobre. Esse ambiente é solo fértil para o surgimento de boxeadores, de atletas que não têm nada a perder. Eles surgem aqui, nascem, crescem, mas ao menor florescer, não completam seu desenvolvimento.

Falta estrutura, sobra ego. Um é melhor treinador que outro. Este sabe mais sobre promoção de eventos que aquele, ainda que ambos devam suas calças ao banco graças a, ironicamente, seus insucessos. Existem muitos entendidos, e poucos que realmente entendem. Uma combinação perversa, capaz de destruir qualquer iniciativa em que esses “Midas ao inverso” toquem. Isso é parte fundamental da razão que nos impede de desenvolver campeões a contento.

No lado oposto da questão, se queremos bom exemplo no pugilismo brasileiro, não procure empresários. Procure Raff Giglio, no Rio de Janeiro. Veja como este aproveita exatamente a “mão de obra” disponível em terras tupiniquins, da melhor maneira possível. Observe como, quando se utiliza este esporte para o desenvolvimento de uma comunidade, funciona melhor do que qualquer programa social governamental. Esta fórmula não foi inventada no Vidigal, já existe desde os primórdios. Graças a Deus, vem sendo repetida em outros cantos do país.

A história do garoto pobre que vê nos ringues a oportunidade de crescer na vida, de ser quem não poderia ser. Manjada, velha, mas, inspiradora. Nos mostra que não é a pobreza que forma um campeão, mas a forma como se trata ela. O boxe não aceita coitadismo, mas abraça a perseverança na vontade de virar o jogo. Não inclui revolta, mas a canaliza em prol de resultados. Acolhe o sem rumo, e o forma cidadão, e quem sabe, um futuro campeão.

Treinos, estrutura, alimentação. Tudo isso é fácil, basta dinheiro, aliado a tempo e alguma dedicação. O duro é fazer germinar algo aonde se coloca veneno no lugar de adubo.

De nada adiantam os tapinhas nas costas distribuídos pelos eventos à fora. Tampouco seguir jornalistas ao banheiro, fingindo falar no celular, visando plantar notícias que, espertamente, não foram sequer transcritas. O que adianta é a moralidade, o sentido de trabalho duro para o bom resultado. Infelizmente nossa nobre arte dos punhos jamais irá para frente enquanto viver comandada por “bon vivants”. Elimine-os, e os recursos começam a aparecer.

Que me perdoem os diversos personagens sérios que sei, conheço, e observo o quanto valorizam e respeitam o pugilismo. Vocês são o fio de esperança que possuímos. A boa notícia é que noto o surgimento de mais e mais pessoas assim.

O cenário atual ainda é o dos oligarcas que, mesmo definhando, não largam o osso. Nossa modalidade favorita precisa aprender com outras: Antes de crescer, necessitamos MORALIZAR.

Lutadores, lutam! Devem, portanto, encontrar aonde fazê-lo. Com segurança, respeito, boas condições. Necessitamos do surgimento de novas programações, e de fazer crescer as recentes que vêm surgindo. Precisamos de novos eventos, novos promotores, novos modelos de negócios. Já os vejo, mas não podemos só olhar para estes no horizonte e torcer para que prosperem, temos que apoiá-los, comparecer, fazermos questão de pagar para estarmos presentes. Afinal, não se formam campeões esperando, simplesmente, que nasçam.

Temos que fazer a faísca transformar-se em chama, a chama virar fogo, e deixar que se torne um incêndio incontrolável, tornando em cinzas o velho sistema, fazendo surgir o novo. Parabéns a quem já está fazendo por onde, pois como diria Muhhamad Ali, "o impossível é temporário".

Comentários