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Publicado em 24 de Março de 2016 às 07h:15

Em 1962, Griffith nocauteava Paret, em luta que terminaria de maneira trágica

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Autor Luigi F.


Emile Griffith (centro, shorts escuro) ataca Benny Paret (esquerda, shorts claro), pouco antes da interrupção de Goldstein (direita). Imagem: New York Daily News Archive via Getty Images

“Eu mato um homem e a maioria das pessoas me perdoa. Entretanto, eu amo um homem e muitos dizem que isso faz de mim uma pessoa ruim” – Emile Griffith.

Há exatos 54 anos, boxeador cubano faleceria após ser duramente castigado em cima do ringue, numa das maiores tragédias da história do boxe.

 

O ano era o de 1962. Num duelo que daria fim a uma trilogia, os rivais Benny “Kid” Paret e Emile Griffith se enfrentariam mais uma vez dentro do período de um ano. Até aquele momento, o confronto estava empatado. O que ninguém poderia imaginar é que uma tragédia ocorreria naquela noite.

Bernardo Paret, ou Benny “Kid” Paret, foi um boxeador cubano, natural da cidade de Santa Clara. Em 1960, ele derrotaria Don Jordan, conquistando o título de campeão mundial entre os meio-médios. Nove meses após o sucesso, Paret perderia por nocaute a honraria para Emile Griffith, pugilista nascido nas Ilhas Virgens e radicado nos EUA, e que era apenas um ano mais novo do que ele. Seis meses depois, o cubano vingaria a derrota, derrotando Emile numa decisão dividida e recuperando seu cinturão.

Com um número inferior de disputas realizadas até aquele ponto da carreira, Griffith chegou à primeira luta como ligeiro azarão. A vitória por nocaute sobre Paret naquela oportunidade, e a posterior defesa contra Gaspar Ortega, lutador mexicano que já havia derrotado o cubano por duas vezes, fizeram com que Griffith chegasse ao segundo duelo com um certo favoritismo. Dessa vez, entretanto, Benny venceria.

A troca de mãos do cinturão entre os dois fez com que fosse organizada uma terceira contenda, para que um ponto final fosse colocado no imbróglio.

Entre a segunda e a terceira lutas, Griffith subiu aos ringues por 3 vezes, obtendo sucesso em todas. Paret, por sua vez, tentou a sorte de se sagrar campeão entre os pesos-médios contra o duro Gene Fullmer, pugilista que já vencera por duas vezes Sugar Ray Robinson. A tentativa, no entanto, seria frustrada: Benny foi duramente nocauteado, sofrendo 3 knockdowns no décimo e derradeiro assalto.

E, no dia 24 de março de 1962, no Madison Square Garden, em Nova York, EUA, menos de 4 meses após o castigo sofrido diante de Fullmer, Paret defenderia seu cinturão contra seu rival recente, Griffith.

A luta foi cercada de bastante expectativa. Na pesagem, o cubano provocaria Emile, chamando-o de “maricón” e dando um tapa em sua bunda. Vale lembrar que, naqueles tempos, havia um preconceito ainda maior do que o existente hoje em dia, e que Griffith, que mais tarde se revelaria bissexual, ficou duramente incomodado com a provocação de seu rival. E não era apenas o preconceito em si: a homossexualidade era simplesmente banida na sociedade americana naquela época, e a orientação sexual poderia até mesmo ser motivo de prisão.

No combate, Paret quase sacramentou sua vitória no sexto round, após derrubar Griffith, que acabou salvo pelo gongo. O norte-americano, entretanto, estava em vantagem nos pontos quando, no décimo segundo assalto, uma triste cena ocorreria, deixando todo o público do MSG, bem como os telespectadores do canal ABC, que naquela noite transmitia o evento ao vivo para o país, perplexos.

Mais de 20 golpes lançados num intervalo curtíssimo de tempo. Griffith parecia se vingar, ali, das provocações que sofrera um dia antes. Ruby Goldstein, um árbitro experiente, hesita em parar a luta. 18 segundos entre o primeiro golpe de direita que fez Paret sentir e a interrupção de Goldstein. Benny cairia inconsciente, estado que se manteria até seu falecimento de fato, dez dias depois do ocorrido.

Paret seria levado ao Hospital Roosevelt, de onde jamais sairia. Ele faleceu com apenas 25 anos de idade, deixando a esposa, Lucy, e mais dois filhos (um deles ainda na barriga da mãe na fatídica noite de 24 de março).

Griffith, por sua vez, se lembraria daqueles instantes para sempre. Ele seria insultado e acusado, por grande parte do público, de ter matado Paret propositadamente. A repercussão daquela noite traria debates sobre se o boxe deveria ou não ser considerado um esporte. As lutas deixariam de ser transmitidas pelo canal ABC e pela TV aberta norte-americana, o que só seria mudado na década seguinte.

Emile se aposentaria em 1977, com cartel de 85 vitórias, 24 derrotas e 2 empates, tendo se sagrado heptacampeão mundial (cinco vezes entre os meio-médios e duas entre os médios). Ele é rotineiramente citado nas listas dos melhores lutadores da história do boxe. Sua história pode ser lida no livro “A Man’s World: The Double Life of Emile Griffith”, de autoria de Donald McRae. Griffith morreu em 2013, aos 75 anos de idade.

Muito se discute sobre quem teria sido o responsável pela tragédia. Griffith se sentiria culpado pelo restante da vida, admitindo ter sofrido de pesadelos sobre aquela noite por muitos e muitos anos. O árbitro Rudy Goldstein seria duramente criticado por não ter interrompido a luta mais cedo. Ele argumentaria que teria dado a Paret o benefício da dúvida, visto que o cubano era conhecido por ser um boxeador que aguentava o castigo e conseguia retorna. Ele jamais voltaria a arbitrar uma luta profissional. Outros acusam o staff de Paret, que, menos de 4 meses antes, o havia jogado diante de Fullmer, campeão de uma divisão acima. Na opinião destes, o tempo entre os dois embates não havia sido o suficiente para que o cubano se recuperasse da derrota. A Comissão Atlética de Nova York também seria criticada pelos defensores desta última teoria, pois deveriam ter avaliado a situação antes de conceder a licença para que Paret voltasse a subir a um ringue.

Independentemente de apontarmos ou não um culpado para uma das noites mais tristes da história da nobre arte, uma passagem atribuída a Griffith no livro chama a atenção. “Eu mato um homem e a maioria das pessoas me perdoa. Entretanto, eu amo um homem e muitos dizem que isso faz de mim uma pessoa ruim”. Em dias onde o preconceito ainda é dominante em muitas civilizações, a reflexão de um dos grandes boxeadores de seu tempo nos faz, no mínimo, refletir.

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