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Publicado em 02 de Março de 2016 às 06h:00

Especial Eder Jofre 80 Anos: Parte I

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Autor Luigi F.

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Introdução

Em todos estes anos de Round13, considerando tanto nossa primeira jornada, que durou entre os anos de 2007 a 2010, quanto esta segunda e definitiva empreitada, retomada em agosto do ano passado, sempre tivemos uma pergunta em nossa mente: Como retratar Eder Jofre?

Uma pergunta simples, porém, que traz consigo diversos outros questionamentos. O maior deles: Como falar do Boxe Brasileiro sem passar pela importância de seu maior expoente?

Em todos estes anos, diversas foram as ideias. Entrevistas, vídeos, matérias especiais. Mas a verdade é uma só: falar sobre a história do maior boxeador brasileiro de todos os tempos, e um dos maiores da História do boxe mundial, é uma tarefa árdua, e que não poderia ser feita de uma hora para outra, e sem os cuidados e a atenção necessária. Não queríamos ser apenas mais um a contar uma história. Queríamos fazer algo diferente.

E após diversas reflexões e conversas, chegamos a um consenso. Iríamos aguardar uma data especial. Enfim, ela chegou.

No próximo dia 26, Eder Jofre, o nosso eterno “Galo de Ouro”, comemorará seus 80 anos de idade. Oito décadas de um ídolo exemplar, um exemplo de ser-humano e esportista que cativou diversas gerações ao longo dos anos e colocou o nome de nosso país no maior degrau já alcançado quando falamos sobre nosso esporte preferido, a nobre arte.

E, para comemorar o aniversário dessa lenda do nosso boxe, nada mais justo do que uma homenagem. Uma homenagem simples perto do tamanho de seus feitos, porém, que necessitou de horas de pesquisas, leituras, vídeos.

Talvez muitos de vocês tenham conhecimento sobre muitas das coisas que vocês lerão aqui. Entretanto, a maior forma de homenagear nosso grande ídolo não poderia ser diferente: deixar, por escrito, todas as lembranças dos feitos e da história desse personagem ímpar em nossa memória.

O “Especial Eder Jofre 80 anos” é uma série de 4 artigos que discorrerão desde a origem até os dias atuais do nosso Jofrinho. No texto abaixo, vocês encontram a primeira parte. As demais serão divulgadas semanalmente em nosso site.

Desejamos a todos uma boa leitura, e esperamos que gostem dessa singela homenagem.

Parte I: Zumbano-Jofre, Infância, Amadorismo e Início no Profissional

O clã Zumbano-Jofre

É impossível falar de Eder Jofre sem antes falar do maior e mais famoso clã da história do boxe brasileiro: os Zumbano-Jofre. A história se inicia no interior de São Paulo, mais precisamente na cidade de Mococa, onde o casal Salvador e Maria Zumbano criou seus filhos. Os mais velhos, Higino e Waldemar, foram responsáveis pela criação de uma academia no quintal, em ringue que tinha nos corners duas laranjeiras e duas goiabeiras, conforme descrito no documentário “Quebrando a Cara”, do cineasta Ugo Giorgetti.

Nos anos 30, a família se mudaria para a capital paulista. Alguns anos depois, Higino começaria a treinar boxe na academia de Armando Jofre, argentino que era conhecido no mundo do pugilismo paulista como Kid Pratt. Armando era irmão de Aristides, o Kid Jofre.

Posteriormente, além de Higino, seu irmão Waldemar também passou a se dedicar ao boxe. Cada vez mais próximos dos Jofre, foi questão de tempo até que o solteiro Aristides conhecesse Angelina, filha de Salvador e Maria. Mas, antes de falarmos no casal que iria mudar a história do boxe brasileiro, vale destacar que os outros irmãos da família Zumbano também se aventuraram na nobre arte. Ralph, Erasmo, Tonico, todos treinados por Kid Jofre, faziam parte do universo do pugilismo amador da capital paulista naqueles tempos.

Mas, sem se alongar muito na rica e profunda história da mais importante família do boxe brasileiro (que sugerimos, para aqueles que quiserem mais detalhes, a leitura do excelente “Em 12 Rounds”, livro escrito por Bruno Freitas e Maurício Dehò), avançamos nossa narrativa para a madrugada do dia 26 de março de 1936. Foi nesse dia que nasceu Eder Jofre, pugilista que anos mais tarde se tornaria, além do maior expoente do tradicional clã, o maior boxeador da história do boxe brasileiro.

Bairro do Peruche: a Infância de Eder

Fruto do casamento e do amor entre o argentino naturalizado no Brasil, Aristides “Kid” Jofre, e de Angelina Zumbano, filha da tradicional família de origem italiana, Eder nasceu na Rua do Seminário, localidade onde ficava situada a academia de seu pai.


Imagem: Arquivo/Estadão

Posteriormente, a família se mudaria para o bairro do Peruche, localizado na Zona Norte de São Paulo, no distrito da Casa Verde. E foi nessa vizinhança de origem operária que Eder Jofre passou a infância e juventude. Numa época onde a infraestrutura ainda era bastante precária na capital paulista, o pequeno Eder passava uma infância assim como a maioria das crianças da época: brincando de balão, peão, e claro, futebol. O maior e mais importante esporte do país esteve presente na vida do ainda pequeno Jofre, que jogava na posição de ponta-esquerda.

Apesar de dizer possuir certo talento dentro do esporte, foi no boxe que Eder encontrou sua verdadeira paixão. Afinal, não era para menos. O boxe pulsava nas veias dos membros de sua família, e com Eder, filho de Aristides, não seria diferente. Após passar grande parte da infância na companhia do pai dentro da academia, onde vez ou outra se aventurava a brincar, socando as mãos de pugilistas amadores e profissionais que ali treinavam e fingiam fazer manoplas para aquele que seria o futuro rei da categoria peso galo a nível mundial anos mais tarde, era questão de tempo até que a pequena criança do Peruche optasse por seguir a carreira de pugilista.

Eder Jofre nos tempos de Amadorismo

Por volta dos 14 anos de idade, Jofre passou a treinar de verdade. Após vencer o Campeonato do Sesi, no ano de 1952, foi apenas um ano depois, no tradicional “Forja de Campeões”, àquela época ainda conhecido como “Campeonato Popular de Boxe Amador da Gazeta Esportiva”, que Eder passou a chamar as atenções aos 17 anos de idade.


Eder Jofre e família após o retorno do brasileiro das Olimpíadas de Melbourne, em 1956. Imagem: Folhapress/UOL Esporte

Em 1956, com 20 anos de idade e invicto como boxeador amador, Eder representou o Brasil nos Jogos Olímpicos de Melbourne, na Austrália. Na edição dos Jogos marcada pelo terceiro ouro do lendário húngaro Laszlo Papp, que já havia se sagrado campeão olímpico nas edições de Londres-1948 e Helsinki-1952, Jofre ficou de “bye” na primeira rodada. Na segunda, enfrentou e venceu Thein Myint, da Birmânia (atual Myanmar). Classificado para as quartas-de-final e a apenas uma vitória de garantir a inédita medalha olímpica para o Brasil, Eder acabou derrotado pelo chileno Claudio Barrientos por pontos.

Vale lembrar que, naquela época, Jofre se preparara para as Olimpíadas fazendo sparrings com pugilistas mais pesados, como Celestino Pinto. Num dos treinamentos, Eder sofrera um golpe em cheio no rosto, machucando o nariz, o que dificultou bastante sua preparação para os Jogos. Com dificuldade para respirar corretamente, Jofre não se apresentou em seu melhor estado, e acabou superado por Barrientos. Anos mais tarde, conforme contaremos adiante, eles se reencontrariam no profissionalismo.

Barrientos acabou eliminado na rodada seguinte, perdendo para o sul-coreano Song Soon-Chung, e ficando com a medalha de bronze. O outro medalhista de bronze foi o irlandês Frederick Gilroy. Chung acabou com a medalha de prata na competição, após ter sido derrotado na grande final pelo alemão Wolfgang Behrendt, que se tornaria o primeiro campeão olímpico da antiga Alemanha Oriental. Dos quatro pugilistas, o único que viria a ter algum destaque como profissional seria Gilroy. Natural da Irlanda do Norte, ele seria campeão britânico dos galos, tendo inclusive derrotado Johnny Caldwell, meses após este ser derrotado por Jofre em 1962.


Wolfgang Behrendt vence a medalha de ouro na final olímpica, contra Chung; Claudio Barrientos; Freddie Gilroy, único dos 4 medalhistas de 1956 na categoria galo que viria a ter algum destaque como profissional. Imagens: BoxRec

Cerca de quatro meses após o retorno para o Brasil, Eder Jofre daria início a sua carreira profissional.

O Começo no Boxe Profissional e as Primeiras Rivalidades

Apenas três dias após completar 21 anos de idade, Eder Jofre iniciaria a jornada de boxeador profissional. Lutando no Ginásio do Ibirapuera, arena onde o “Galo de Ouro” faria nada mais, nada menos, do que 55 de suas 78 lutas profissionais, Eder derrotou o argentino Raul Lopez, adversário que iria se repetir cerca de 1 mês depois, em sua segunda luta profissional. Com nocautes obtidos nos rounds 4 e 3, respectivamente, Jofre lutaria 12 vezes naquele ano, numa média de 1 luta a cada 22 dias de atividade.

A comparação com os dias atuais é inevitável, e um pouco frustrante para aqueles que não puderam vivenciar os anos de ouro da nobre arte brasileira. Notem que, além da gigantesca quantidade de eventos e lutas ocorridas naquela época, algo impensável para a triste realidade do esporte no Brasil, os boxeadores não raramente passavam por duras provas logo no início da carreira, enfrentando adversários mais experientes que serviriam de testes verdadeiros, ou até mesmo contra outros boxeadores mais jovens e que também eram promissores. Era uma situação comum naquela época, e algo muito longe da circunstância brasileira atual, onde boxeadores são preservados de maneira exagerada por seus empresários, enfrentando um número elevado de oponentes com um nível claramente inferior, com o único intuito de preservar o cartel e garantir um bom record para ser vendido para uma exibição no exterior após alguns anos.


Eder Jofre venceu Osvaldo Perez, após derrotar Raul Lopez em duas duas primeiras lutas como profissional. Imagem: Folhapress/UOL Esporte

Um dos exemplos do que estou dizendo foi o argentino Ernesto Miranda, boxeador que encerrou a carreira profissional com mais de 150 lutas realizadas, sendo 4 delas diante de Jofre. Eder possuía cartel de 7 vitórias, sendo 5 por nocaute, enquanto Miranda, apesar dos mesmos 21 anos de idade, tinha um cartel de 15 vitórias (6 nocautes), 3 derrotas e 1 empate, ou seja, mais que o dobro de lutas realizadas que o brasileiro. Ambos eram promissores lutadores sul-americanos naqueles dias. O argentino, que pouco tempo depois chegou a ser apontado como um dos 10 melhores pesos-galo daquela época, foi um páreo duríssimo para Eder. Na primeira luta, realizada numa sexta-feira, dia 16 de agosto de 1957, o empate prevaleceu. Três semanas depois, dessa vez no Ginásio do Pacaembu, os rivais voltariam a compartilhar a arena quadrada, na primeira exibição de Eder no profissional fora do Ginásio do Ibirapuera. O resultado seria novamente um empate, veredicto bastante comum naqueles tempos para os confrontos equilibrados que ocorriam dentro da América do Sul.

Outra pedra no sapato do brasileiro foi o uruguaio Ruben Caceres. Boxeador natural de Montevidéu, Caceres foi o primeiro oponente que Eder enfrentou no exterior, no Palacio Peñarol, localizado em sua cidade natal, em maio de 1958. Um combate que, como conta a história, Eder venceu, mas não levou. Apesar de ampla vantagem, o boxeador brasileiro acabou prejudicado pelos juízes locais, que acabaram apontando para um empate. Seria o terceiro empate de Jofre em 15 lutas realizadas até aquele momento.

Após obter 5 vitórias pela via rápida e uma por pontos, com cartel de 18-0-3, Eder enfrentaria um invicto argentino, Jose Smecca. Natural da capital argentina, Smecca conquistaria, anos mais tarde, o cinturão de campeão sul-americano pelos galos. Quando enfrentou Eder, tinha 11 lutas disputadas na carreira. O brasileiro começou melhor, vencendo o primeiro assalto, porém, acabou se acomodando com a facilidade encontrada no giro inicial, e pagou o preço: logo no segundo round, Eder sofreu o primeiro knockdown de sua carreira, evento que, para o bem do brasileiro, seria bastante raro em toda sua jornada. Com o susto, Jofre voltou a se concentrar, equilibrou as ações e voltou a ser dominante, batendo o hermano por nocaute técnico no sétimo assalto. O brasileiro ainda faria mais uma luta naquele ano de 1958, totalizando 11 embates disputados dentro daquele ciclo de 12 meses.

No ano seguinte, o brasileiro faria 5 lutas, vencendo 3 por nocaute e 2 por pontos (a mais expressiva delas, contra o filipino Leo Espinosa, que já havia disputado três embates por título mundial, sendo dois na categoria mosca e 1 na categoria galo), antes de voltar a dividir o quadrilátero novamente com Ruben Caceres. Vale lembrar que Eder possuía um estilo clássico de luta: defesa bem postada, golpes duros com ambas as mãos, boas movimentações de tronco, e uso de muita inteligência e paciência durante suas lutas. Mas, a revanche contra Caceres é descrita como uma das ocasiões onde o brasileiro deixou alguns desses atributos de lado em contraponto de um único sentimento: a raiva. O brasileiro ainda estava incomodado com o roubo que sofrera exatos 443 dias antes. E, se teve uma pessoa que sofreu com isso, foi o uruguaio. Eder simplesmente acabou com seu adversário, castigando-o por diversas vezes durante a contenda, e dando o golpe de misericórdia com um belo um-dois, que pôs fim ao combate no 7º round. Nesse momento, Eder deixava para trás o prejuízo que sofrera em Montevidéu no ano anterior, e consolidava-se como uma realidade do boxe profissional da América do Sul.


Eder comemora vitória contra Caceres. Imagem: Folhapress/UOL Esporte

(continua...)

 

Crédito Imagem Capa: Zebeto.com.br

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