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Publicado em 08 de Março de 2016 às 07h:00

Especial Eder Jofre 80 Anos: Parte II

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Autor Luigi F.

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Parte II: O Galo de Ouro: as rivalidades e a conquista do Título Mundial

Passando as histórias com Miranda e Barrientos à limpo

Eder enfrentaria novamente, após a vitória sobre Caceres, o argentino Angel Bustos, que viera ao país para uma série de combates. Bustos vencera o paraguaio Kid Pascualito antes de embarcar para o Brasil, onde logo de cara já enfrentou Eder, sofrendo um nocaute técnico no quarto round. Enquanto Eder encarou e venceu Salustiano Suarez e Caceres, Bustos arrancaria um empate de outro promissor brasileiro daqueles tempos, o mineiro Sebastião Nascimento. Posteriormente, o argentino ainda venceria o japonês Kiyoshi Miura antes de ter uma segunda chance contra o mais promissor boxeador nacional daqueles tempos. Se soubesse o que lhe aguardava, ele teria retornado para sua Rosario, na província de Santa Fé, mais cedo: vitória de Eder por nocaute no terceiro giro.

Após apenas três semanas, Jofre passaria por um teste interessante. Giovanni Battista Zuddas, ou Gianni Zuddas, como era conhecido, era um boxeador italiano oriundo da cidade de Cagliari, principal localidade da região da Sardenha, e chegou ao país com o status de um obstáculo considerável para o lutador local. Medalha de prata nas Olimpíadas de Londres-1948 como peso-galo, o italiano chegara ao Brasil aos 31 anos de idade, com cartel profissional de 57-14-4, ou seja, mais que o dobro de lutas realizadas na carreira do que o brasileiro até aquele momento. Apesar de não ser um nocauteador e de estar no final de sua carreira, o italiano causava certa apreensão dos espectadores, justamente por sua experiência. Mas, após ser duramente castigado por Eder Jofre, foi derrotado por pontos em 10 assaltos. Essa seria a penúltima exibição do italiano como profissional.


Eder após a vitória sobre GIanni Zuddas. Imagem: Folhapress

Em dezembro de 1959, Eder enfrentaria mais um filipino. Dessa vez, no córner oposto estaria Danny Kid, lutador que ocupava a posição de 3º no ranking, que tinha o mexicano Jose Becerra como campeão. Kid conquistara esse destaque após vitória, no mês de setembro, contra o duro Joe Medel, contra quem Eder protagonizaria uma das mais memoráveis lutas de todos os tempos. Mas, antes de chegar lá, voltemos ao confronto contra o filipino. Mesmo mostrando raça, sobrevivendo a três quedas, Kid não foi páreo para o brasileiro, que levou a vitória por pontos e se enchia cada vez mais de confiança.

Enfim, chegaria o momento de rever Ernesto Miranda, contra quem Eder não conseguira arrancar nada mais que dois empates cerca de 2 anos e 5 meses antes. Nesse intervalo, não fora apenas Eder que evoluíra e acumulara bons resultados: Miranda somara mais 25 vitórias e um empate neste interim, sendo o empate justamente contra Danny Kid, em peleja disputada em São Paulo. Os rivais se enfrentariam pelo título Sul-Americano dos galos, em embate previsto para 15 rounds, o que era uma novidade para ambos, que ainda não haviam passado dos 12 assaltos até aquele momento de suas carreiras.

Favorito, o brasileiro venceu sem dificuldades. Muito mais lutador do que o aguerrido argentino, Eder foi dominante, vencendo por pontos exceto para uma única pessoa: o próprio Miranda. O argentino, que já reclamara dos empates de 1957, dizendo que vencera, questionou bastante os jurados, afirmando que haviam favorecido o pugilista local.

Jofre já conhecia as artimanhas e toda o jogo de provocações do oponente, afinal, já haviam compartilhado o quadrilátero de cordas por 35 rounds somando as 3 exibições. Mas, nos 4 meses que antecederam a revanche, que seria o quarto duelo entre os rivais, Miranda passou dos limites. Uma carta escrita pelo lutador do país vizinho foi o suficiente para encher o pugilista brasileiro de raiva. O mesmo sentimento que tomara conta de Eder no segundo combate contra Caceres, agora afetara em cheio o brio do brasileiro. Como deixar alguém que desrespeita sua própria família, em seu próprio país, impune?


Quarta luta entre Jofre e Miranda. Imagem: Acervo Estadão

Vocês já devem imaginar a cena que encerrará este parágrafo. Mas, vale lembrar que naquela sexta-feira dia 10 de junho de 1960, exatas 16 semanas após a conquistar o cinturão Sul-Americano, não foi apenas Eder que subiu ao ringue do Ginásio do Ibirapuera. Ele carregava nos punhos a honra de sua família e de sua pátria, revoltados com o desrespeito do pugilista argentino nos dias que antecederam ao embate. Em exatos 8 minutos e 20 segundos de ação, Eder liquidou a fatura, batendo o argentino pela via rápida no terceiro giro. Ainda teria que ouvir o hermano reclamar que o nocaute fora causado por uma cabeçada, o que não deixava de ser mais uma colocação provocativa por parte do rival, que posteriormente daria declarações respeitosas sobre o brasileiro. Mas, a verdade era uma só: Jofre não deixara dúvidas sobre quem era o melhor entre os dois.

Vale aqui novamente abrir um espaço para outra passagem interessante narrada pelo documentário Quebrando a Cara. Nele, Waldemar Zumbano, tio de Eder, comentou sobre oportunidades onde o sobrinho subiu com uma vontade além do normal de nocautear o oponente, deixando a transparecer a raiva. Para ele, o nocaute deveria ser considerado um acidente num esporte tão bonito quanto a nobre arte. “O boxe, para mim, é uma arte que pode ser considerada um ballet. Um ballet que pode ser considerado violento. Eu encaro o nocaute, no meu entender, em muitos casos, como um acidente do boxe. Em que pese haver boxeadores como meu sobrinho Eder, que lutavam instintivamente para buscar o nocaute”, disse Waldemar, que faleceria em 2004, aos 91 anos.

Mas, ainda havia um outro resultado engasgado na garganta do brasileiro. Se Eder, naquele ponto da carreira, já era reconhecido como um dos melhores boxeadores de sua divisão, e estava invicto como profissional, as lembranças de sua derrota nas Olimpíadas de Melbourne, 4 anos antes, ainda atormentavam o boxeador nacional. Eder queria mostrar que sua exibição naquele torneio não fora o seu melhor. E, apenas 35 dias depois de derrotar Miranda, Jofre subiria novamente ao tablado do Ginásio do Ibirapuera para mostrar a outro rival sul-americano que a vingança é um prato que se come frio. O brasileiro não deu chances para o chileno. Barrientos, que se profissionalizara apenas em 1959, ainda não fizera nenhuma grande luta após o amadorismo. E não foi contra Jofre que isso mudaria. Eder bateu, e muito, no boxeador do Chile, obtendo nada mais, nada menos, do que oito knockdowns a seu favor. A surra seria interrompida no oitavo giro, quando o brasileiro obteve vitória por nocaute técnico a seu favor.


Eder comemora vitória sobre Barrientos. Imagem: MuseuDaPessoa.net

Deixando para trás as rivalidades e após bater os maiores nomes do boxe sul-americano daquela época, Eder, enfim, estava pronto para uma eliminatória pelo título mundial dos galos, em luta que marcaria também a sua estreia nos EUA.

Jofre vs Medel I: a luta mais dura da carreira de Eder

Sempre que me perguntam sobre Eder Jofre, ou sobre o motivo de minha enorme admiração por este grande ídolo, minha sugestão é sempre a mesma: assistam ao duelo de Eder Jofre contra Joe Medel.

O combate ocorreu em 19 de agosto de 1960, pouco mais de um mês após a vitória de Jofre sobre Barrientos. A luta ocorreria no Olympic Auditorium, em Los Angeles, nos EUA, arena que além de ter abrigado grandes duelos do pugilismo ao longo da história, foi utilizada em 1976 para as gravações de algumas cenas do filme “Rocky: Um Lutador”, o primeiro da tradicional série de boxe estrelada por Sylvester Stallone.

Antes de falar sobre a luta em si, vale a pena entrar no detalhe sobre duas coisas. A primeira é em relação ao adversário. Naqueles tempos, Medel possuía um cartel de 43 vitórias (29 nocautes), 16 derrotas (sendo 4 pela via rápida) e 4 empates, enquanto Eder acumulava 32 vitórias (22 por nocaute) e 3 empates até aquele momento. Se Eder até aquele ponto, como já ressaltamos anteriormente, fora um boxeador extremamente ativo, Medel tinha sido ainda mais.

Em 3 anos e 5 meses como profissional, Jofre fizera 35 lutas, uma média de aproximadamente 1 luta a cada 35 dias. Medel, por sua vez, em 5 anos e 5 meses como profissional, já tinha 62 duelos disputados, uma média de 1 luta a cada 32 dias aproximadamente. Ou seja, o mexicano tivera, até aquele instante, um ritmo mais frenético de lutas realizadas, e passava por essa turnê de desafios por 2 anos a mais do que o brasileiro. Tanta atividade cobrou um preço: em muitas ocasiões, o mexicano não tivera o tempo correto para descansar e se preparar para os desafios que eram colocados à sua frente, o que acabou refletindo em seu cartel nas 16 derrotas sofridas até enfrentar Jofre.

Outro ponto é sobre o peso do brasileiro. Tema constante durante sua carreira lutando como galo, Eder chegou, no dia da luta, com cerca de 1,5 kg acima do limite da categoria. Vale lembrar que desde a juventude, Jofre era um vegetariano convicto. A postura, que passou a ser adotada pelo brasileiro após a leitura do livro “A Saúde Depende da Cozinha”, da década de 30, conforme contado pelo próprio Eder ao jornalista Luis Augusto Símon, o Menon, em entrevista publicada pela Revista ESPN no ano de 2010. Mesmo vegetariano, o brasileiro sempre se alimentara bem, e pesava naturalmente acima do limite de 53,5 kg. Antes de encarar Medel, Eder passou pelo drama de ter que perder peso mesmo já estando relativamente enxuto. Sem se alimentar direito, o brasileiro já chegou cansado para o confronto.

A luta começou estudada, porém, em breve se tornaria uma luta das mais pegadas, aquelas onde os fãs de boxe se lembram o motivo de amar tanto esse esporte. Sequências brutais, trocas duras de golpes e uma verdadeira guerra, daquelas que mereceriam um livro apenas para retratá-la.

Em vantagem nos pontos, o brasileiro passou por apuros no 9º round, como narrou no belo documentário “Eder Jofre – O Grande Campeão”, conduzido e apresentado por Orlando Duarte. Após sofrer um duro golpe no fígado, Jofre acabou recebendo uma saraivada de socos do pugilista mexicano, que machucou o nariz, o supercílio e a cabeça do brasileiro. O troco viria no final daquele giro. Nos últimos segundos, um duro cruzado de esquerda conectado por Jofre faria toda a diferença. O golpe fez Medel sentir, porém, o assalto acabou pouco depois, não dando tempo para o brasileiro investir num ataque.

No intervalo, um personagem ímpar na carreira do maior boxeador brasileiro de todos os tempos entraria em ação. Aristides “Kid” Jofre, pai e treinador de Eder, e a quem o brasileiro dedica todo o sucesso e todas as conquistas que obteve, percebeu que era a hora de vencer. “Eder, vai em cima dele que ele sentiu o golpe. O povo brasileiro está torcendo por você, sua mãe está torcendo por você, vai que você ganha”, teria dito Kid, em narração reproduzida por Eder no documentário supracitado.

O apoio, somado à massagem curadora realizada por seu pai, foram determinantes para que Jofre voltasse com tudo para o 10º assalto. Após encaixar golpe de direita no fígado de Medel, o brasileiro embalou numa sequência, que seria encerrada num belo e duro direto de direita, que levou o mexicano à lona. O gongo tocou quanto o juiz ainda realizava a contagem. Mesmo com o pretexto de ser salvo pelo gongo, Medel não conseguiu retornar para a disputa no 11º giro.


Eder derruba Joe Medel. Imagem: Jornal do Brasil / Estadão

Duro, tático, inteligente, resistente, habilidoso e forte. Boa defesa, ataque duro com os dois punhos. Estilo simples e eficaz: batia no corpo para abrir espaço na cabeça, batia na cabeça para abrir espaço no corpo. Um gênio. Um músico à busca da nota perfeita. Um poeta em busca da melhor rima. Um matemático em busca da melhor solução para uma equação. Um atacante aguardando uma única bola no lugar certo para definir a vitória de seu time. O enxadrista à espera de uma desatenção mínima do oponente para obter o xeque-mate.

Os exemplos acima mostram um paralelo de como Eder seria se não fosse boxeador. Um esportista genial em cima do ringue, e que, com a vitória sobre Medel, enfim teria a oportunidade de se sagrar o primeiro boxeador brasileiro a ser campeão mundial.

Jofre vs Sanchez: enfim, Eder chega ao topo!

Após derrotar Medel, ficou definido que Jofre enfrentaria o campeão mundial dos galos, o mexicano Jose Becerra. Becerra possuía o título da Associação Nacional de Boxe (National Boxing Association – entidade que posteriormente daria origem a Associação Mundial de Boxe) desde 1959, quando nocauteara o algeriano radicado na França, Alphonse Halimi, tinha duas defesas de título já realizadas: uma contra o próprio Halimi, e outra contra o japonês Kenji Yonekura. A ideia era que Becerra e Jofre se enfrentassem em meados de novembro daquele ano.

Entretanto, um acidente no percurso acabou evitando o duelo. Numa terça-feira, cerca de 1 semana e meia após a vitória de Jofre sobre Medel, Becerra foi duramente nocauteado por seu conterrâneo Eloy Sanchez, em peleja onde o cinturão de campeão mundial não estava em jogo. Becerra, que de acordo com as reportagens da época já não apresentava mais a mesma vontade de lutar que em outrora desde a morte de Walt Ingram, pugilista americano que falecera dois dias após ser derrotado pelo mexicano por lesões sofridas no combate, acabou optando por se aposentar, deixando o cinturão vago. Ele voltaria a lutar apenas mais uma vez, em 1962, num duelo para angariar fundos para ajudar a família do boxeador Rudy Coronado. Na ocasião, Becerra bateu Alberto Martinez por pontos.

Com a aposentadoria prematura e inesperada de Becerra, não sobrou outra alternativa aos promotores a não ser colocar o cinturão em jogo numa disputa entre Eder Jofre, que vencera a eliminatória pelo título, e Eloy Sanchez, algoz responsável pela aposentadoria do antigo campeão. A luta manteve-se agendada para meados de novembro.


Pôster da luta entre Eder Jofre e Eloy Sanchez. Imagem: ArteNobreArte.com.br

O combate ocorreu no dia 18 de novembro de 1960, no mesmo Olympic Auditorium de Los Angeles. Após bater Medel, Jofre ainda fez uma luta preparatória, derrotando Ricardo Moreno no Brasil. Já Sanchez, 1 ano mais velho que o brasileiro, não lutava desde a vitória sobre Becerra.

A confiança obtida por Jofre após a vitória sobre Joe Medel, aliada ao fato do brasileiro ser muito mais lutador do que Eloy Sanchez, culminariam no que era inevitável. E para contar como foi a luta, seria impossível não recorrer a narração de Flavio Araújo, locutor que narrou diversas apresentações de Eder Jofre no rádio ao longo de sua carreira. E, naquela sexta-feira, seria sua a voz que narraria, pela Rádio Bandeirantes, a maior conquista do boxe nacional até aquela data.

A brilhantíssima carreira de Eder Jofre atinge o seu ponto extraordinário fulminante esta noite aqui, no Olympic Auditorium, em Los Angeles. [...] O Brasil acompanha com emoção e nós poderemos ter essa noite um campeão do mundo. [...] Eder está vivo, Eder está presente. Colocou-se nas cordas e naquela posição poderia estar inferiorizado, mas ele sai colocando os golpes. Tentou a esquerda, esquivou-se rapidamente, faz o pêndulo mas não saiu das cordas. O lance é perigoso. Eder colocou a esquerda por baixo. Sensacional. Ele colocou a esquerda no fígado. Eloy Sanchez está pelo solo, desta vez não vai ter condições. Contagem pelo 4, 5, 7, atenção, Eder pode ser campeão daqui a pouco. Eder Jofre, campeão mundial de boxe num momento extraordinário. A vibração dos brasileiros. Kid Jofre, Aristides Jofre, o homem que incentivou Eder, o homem que treinou Eder, o homem que colocou Eder como campeão do mundo, abraça seu filho, beija seu filho. É um momento de emoção extraordinária meus amigos de todo o Brasil. Nós temos um campeão mundial de boxe. Eder Jofre extraordinário, é abraçado por seu pai e sua mãe. Deixamos aqui nossa homenagem ao extraordinário Aristides Jofre, que veio da Argentina, para treinar um brasileiro, para fazê-lo campeão mundial de boxe”.

E, com o duro e clássico gancho de esquerda, Eder Jofre colocaria fim ao combate. O Brasil, enfim, tinha seu primeiro campeão mundial de boxe. Era a consagração do nosso “Galo de Ouro”.


Eder recebe o cinturão de campeão mundial. Imagem: Folhapress

(continua...)

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