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Publicado em 16 de Março de 2016 às 07h:10

Especial Eder Jofre 80 Anos: Parte III

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Autor Luigi F.


Imagem: Folhapress/UOL Esporte

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Parte III: O Auge e a Queda

O Auge como peso Galo: como Eder dominou a categoria e o mundo em 4 anos

Milhares de pessoas receberam Eder no aeroporto em São Paulo após a vitória sobre Sanchez, cena que se repetiria por diversas e diversas vezes durante a empreitada de Jofre em suas disputas internacionais. Ainda em 1960, no início de seu auge de popularidade, Eder faria mais uma luta na capital paulista, nocauteando o americano Billy Peacock no segundo round, menos de um mês após a conquista do boldrié de campeão mundial.

O ano de 1961 seria marcante para o brasileiro. Além das defesas de cinturões bem sucedidas, e também das vitórias em disputas onde seu título não esteve em jogo, este foi o ano no qual Eder casou-se com Maria Aparecida, a Cidinha, sua primeira namorada, e com quem Eder passaria 52 anos casado. Cidinha, outra figura central e importante na trajetória do maior boxeador brasileiro da história, faleceu em março de 2013, aos 74 anos.


Eder Jofre e Cidinha se casaram em 1961. Imagem: Folhapress/UOL Esporte

Já na carreira, em março daquele ano, Eder faria a primeira defesa de seu cinturão. Após as refutas de Alphonse Halimi e Freddie Gilroy, ficou definido que Jofre encararia o italiano Piero Rollo, campeão nacional daquele país entre os galos. Rollo, que tinha 34 anos naquela época, vinha invicto nas suas últimas 10 lutas, e subiu ao ringue do Estádio General Severiano, no Rio de Janeiro, buscando pressionar o brasileiro. Apesar de equilibrar parte dos rounds iniciais, o pugilista europeu acabou, aos poucos, sendo superado por Jofre. Vítima recorrente dos contragolpes de Eder, Rollo foi ficando cortado e com o rosto magoado. No intervalo para o 10º giro, após decisão entre o médico da comissão local e o manager do boxeador italiano, veio a confirmação da vitória de Jofre.

Eder nocautearia o holandês Sugar Ray e o nipônico Sadao Yaoita nos meses seguintes até agendar sua próxima defesa de título mundial. Em agosto, Jofre embarcaria para a Venezuela, local onde realizaria sua segunda defesa de cinturão, sendo a primeira no exterior, contra Ramon Arias. Vale salientar que Arias era um verdadeiro ídolo local, tendo sido o primeiro boxeador venezuelano a disputar um título mundial pouco mais de 3 anos antes, quando perdera para o argentino Pascual Perez em contenda pela cinta mundial da categoria dos moscas.

Apesar de ser um bom pugilista, Arias não teve chances. Ele até conseguiu obter uma leve vantagem em alguns dos primeiros assaltos, mas sucumbiria diante do adversário maior e mais técnico. Jofre acelerou o ritmo após o quinto round, e depois de derrubar o venezuelano por duas vezes, teve o braço erguido pelo árbitro Barney Ross. Era mais uma exibição fantástica do “Galo de Ouro” e a sua décima vitória consecutiva antes do gongo final.

A popularidade do brasileiro, nesta época, só aumentava. Após a vitória sobre Arias, Jofre seria comparado a Sugar Ray Robinson, o lendário norte-americano considerado como o maior boxeador de todos os tempos pela maioria da crítica especializada, por ninguém menos que Nat Fleischer. Fleischer, um dos fundadores da revista The Ring, é tido como um dos maiores críticos e escritores de boxe de todos os tempos. Durante a cobertura daquela luta, Nat publicaria: “’O Campeão das Lutas’. É como eles chamam Jofre na América do Sul. Este belo rei dos galos de 25 anos de idade merece o rótulo que lhe é dado. Ele é de longe o melhor que esta divisão de peso já teve em muitos anos. Esperto, com um forte gancho de esquerda, um boxeador duro que aprendeu muito da técnica dos mestres do passado, Jofre se destaca assim como Sugar Ray Robinson fez anos atrás nas categorias dos meio-médios e médios. Ele pode acertar e suportar golpes, defende bem, e assim como Benny Leonard, consegue fazer seu adversário lutar da forma que ele quer”.

Jofre enfrentaria o lisbonense Fernando Gonçalves na sequência, impondo um nocaute sobre o português. Neste meio tempo, Alphonse Halimi, o mesmo que evitara duelar contra o brasileiro, perderia seu cinturão de campeão mundial dos galos pela União Europeia de Boxe (European Boxing Union – EBU) para o irlandês Johnny Caldwell. E após meses de boatos, enfim chegou-se a um acordo para que os cinturões da NBA e da EBU fossem unificados: Caldwell iria encarar Jofre no Brasil.


Eder Jofre (dir.) vs Johnny Caldwell (esq.). Imagem: Boxrec

Johnny Caldwell era natural de Belfast, na Irlanda do Norte. Medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1956 entre os moscas, o irlandês estava invicto em 25 lutas até aquele ponto de sua carreira. Como profissional, suas vitórias mais marcantes eram justamente diante de Halimi, em sucessos que marcaram a conquista e a revanche do título mundial dos galos pela EBU.

A luta foi cercada de bastante expectativa. O “Matador Glacial”, como era apelidado Caldwell, provocou bastante Eder nas semanas que antecederam o duelo, declarando, entre outras coisas, que não atravessara o Atlântico para ser derrotado, além de dar algumas declarações preconceituosas sobre a pátria mãe de Jofre. O menosprezo a Eder e aos brasileiros serviria de combustível extra para o boxeador nacional.

Diante de um público excitado e ansioso de 20 mil pessoas no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, Caldwell ganhou o primeiro assalto. Mas sua superioridade ficaria por lá. Do segundo em diante, um verdadeiro show de Eder Jofre iluminou o palco do tradicional centro esportivo da capital paulista. Mostrando amplo repertório de golpes e sendo muita mais técnico que o boxeador europeu, Eder mandou Caldwell para a lona no quinto assalto. O irlandês levantaria, e ainda passaria por mais alguns rounds de sofrimento. No décimo giro, Jofre impôs mais uma queda a seu rival. Apesar de Johnny levantar, seu manager adentrou o quadrilátero de cordas pedindo que o árbitro Willie Pep interrompesse a luta com cerca de 15 segundos faltando para o término daquela rodada. O resultado comprovaria, de uma vez por todas, o que àquela altura já era óbvio: Eder Jofre era o campeão mundial indiscutível dos galos.

Após unificar os cinturões, Jofre faria mais uma defesa no exterior. Lutando na cidade californiana de Daly City, o brasileiro enfrentou o mexicano radicado nos EUA Hernan Marques em maio. O adversário teve um bom desempenho, vencendo alguns rounds e atrapalhando o desempenho de Eder com o encaixe de bons golpes de direita durante o oitavo e novo assaltos. No décimo, entretanto, Eder conseguiu derrubar Marques por duas vezes, fazendo com que o árbitro interrompesse o duelo. Apesar do mexicano estar à frente nos placares dos juízes naquele instante, era questão de tempo até que o brasileiro vencesse, e não sobrou outra alternativa ao árbitro Fred Apostoli que não fosse optar pela preservação da saúde física do mexicano.

Em setembro de 1962, dessa vez em São Paulo, Eder concederia revanche àquele considerado seu mais duro oponente até aqueles dias. A primeira luta contra Joe Medel, que entrou para a história, deixara um gosto de “quero mais”, e foi questão de tempo até que os adversários voltassem a compartilhar a arena quadrada.

Medel conquistara os cinturões mexicano e norte-americano dos galos após a derrota para Jofre em 1960, e somara 9 vitórias e um empate desde então. Mas ele ainda não estava ao alcance de Eder, que precisou de apenas 6 rounds dessa vez para provar novamente a sua superioridade. No auge da forma física e técnica, Jofre pressionou seu rival a partir do quarto giro, obtendo um knockdown a seu favor no quinto assalto, e o nocaute exatamente na metade do round seguinte, após forte cruzado de direita.

Nos anos de 1963 e 1964, Eder lutaria apenas 3 vezes, todas no exterior. Na primeira delas, em abril de 1963, ele viajou até Tóquio, no Japão, onde enfrentou o jovem local Katsutoshi Aoki. Aoki, de apenas 20 anos, começou pressionando Jofre, conseguindo vencer os assaltos iniciais até o terceiro round, quando após ser derrubado por duas vezes, acabou perdendo por nocaute técnico. “Não sei o que me atingiu na segunda queda. Aquele homem tem uma mão fantástica”, declarou o japonês após a derrota. Um mês depois, seria a vez de Johnny Jamito, nas Filipinas. O roteiro foi semelhante ao da luta anterior: o boxeador local começou com alguma vantagem, mas assim que Eder começava a encaixar a distância, era questão de tempo até que a luta acabasse.  No caso de Jamito, esse momento ocorreu entre os rounds 11 e 12, quando ele não conseguiu retornar para a disputa.


Eder Jofre após vitória sobre Aoki. Imagem: Boxrec

É interessante notar que em muitas situações, Eder chegava a perder os primeiros rounds de uma disputa. Era comum que o brasileiro utilizasse os primeiros rounds para sentir a mão do adversário, calibrar a distância e ir afiando seus golpes. Com inteligência e paciência ímpares, Jofre aguardava o oponente mostrar o que sabia, para então impor o seu jogo. Sua superioridade era tamanha que quem assistia aos seus combates tinha a impressão de que, por mais que tardasse, Eder poderia colocar fim a qualquer luta tão logo desejasse.

Veio então mais um invicto para tentar parar o campeão da categoria. O colombiano Bernardo Caraballo, natural da cidade de Bocachica, possuía cartel invicto de 40 combates, com 39 vitórias e 1 empate. Mais de 1 ano e meio após a vitória de Jofre sobre Jamito, nesse que seria o maior hiato na carreira do brasileiro até aquele ponto da carreira, Eder subiu ao ringue do Estádio El Campín, em Bogotá, diante de um público gigante e aficionado que suportava o ídolo local. A inatividade não afetou em nada o brasileiro: vitória por nocaute no sétimo round, após duros golpes de direita no queixo do colombiano.


Anúncio da luta entre Eder Jofre e Bernardo Caraballo. Imagem: ArteNobreArte.com.br

Já do ponto de vista pessoal, uma alegria enorme chegaria à vida do nosso campeão. Em agosto de 1963, cerca de 3 meses após a vitória sobre Jamito, nasceria Marcel, primeiro filho do casal Eder e Cidinha. O primogênito teria, dali poucos anos, uma enorme importância na motivação de seu pai, conforme contaremos mais adiante.

O reconhecimento de Eder como o melhor boxeador de todos os pesos nessa época era cada vez maior. E não era para menos. Apenas para termos uma ideia da dimensão dos feitos do nosso Jofrinho: foram 9 lutas por títulos mundiais, contando a conquista mais as oito defesas. Eder venceu todas pela via rápida, dominando de maneira clara e indiscutível a categoria dos galos por quatro anos. Eram 50 lutas realizadas, com 3 empates e 47 vitórias, das quais 37 vieram por nocaute. Nas últimas 17 exibições, Jofre não sabia o que era deixar para os juízes o veredicto de quem era o melhor boxeador.

As lutas contra Harada e a primeira aposentadoria

Masahiko “Fighting” Harada. É impossível falar em Eder Jofre sem separar um capítulo exclusivo e dedicado a um de seus maiores rivais durante a carreira. Harada era um boxeador natural de Tóquio, Japão, que se profissionalizara aos 16 anos de idade. O debute ocorrera, mais precisamente, no dia 21 de fevereiro de 1960, exatos dois dias após Eder conquistar o título Sul-americano dos galos ao nocautear o argentino Ernesto Miranda.


Masahiko "Fighting" Harada. Imagem: Boxing.com

Após apenas 2 anos e 8 meses de profissionalismo, aos 19 anos de idade, Harada se sagrou campeão mundial dos moscas, ao derrotar o tailandês Pone Kingpetch por nocaute. Três meses após a conquista, o japonês perderia o cinturão para o próprio Kingpetch, por decisão majoritária. Depois de emplacar algumas vitórias ele seria nocauteado por Joe Medel em setembro de 1963, um ano após o mexicano ser duramente castigado por Jofre na segunda luta entre ambos.

Uma sequência de sete vitórias, sendo as mais vistosas diante de Ray Asis e Katsutoshi Aoki, credenciou Harada para a disputa do título mundial. Um duelo entre o brasileiro de 29 anos de idade, 50 lutas invicto e campeão mundial de forma indiscutível, contra um jovem japonês de 22 anos de idade e um cartel de 41 lutas, com 38 vitórias e 3 derrotas.


Pôster anuncia primeira luta entre Jofre e Harada. Imagem: Folhapress/UOL Esporte

A luta ocorreria em maio de 1965, no Aichi Prefectural Gym, em Nagoya, no Japão. Agressivo desde o início, Harada dominou os assaltos iniciais, assim como diversos oponentes já haviam feito diante do brasileiro nas várias defesas de cinturão que antecederam essa luta. Jofre conseguiu equilibrar as ações, porém, ao contrário das outras oito defesas, jamais conseguiu colocar golpes tão impetuosos como aqueles que haviam nocauteado seus últimos 17 adversários. Talvez o fato de ser mais velho, ou então a dificuldade de atingir o peso após 4 anos lutando em alto nível, tenham pesado para o brasileiro, além das questões naturais de fuso horário e alimentação diferentes no país do outro lado do mundo. Entretanto, após 15 assaltos, o público de 12 mil japoneses que incentivava o ídolo local presenciou algo inimaginável naqueles dias: Harada vencia por pontos, por decisão dividida. Era a primeira derrota de Jofre.

Seis meses após o revés, Jofre encararia o norte-americano Manny Elias, em São Paulo. Após 10 rounds, apesar de ter vencido nas papeletas de todos os juízes, a luta acabou se tornando um empate, dado que Jofre não conseguiu vencer por pelo menos 4 pontos de vantagem em no mínimo duas marcações, conforme regra de pontuação em vigor no Brasil naquele tempo. O resultado, entretanto, foi o suficiente para manter Eder na posição de primeiro desafiante ao cinturão de Harada. E no dia 31 de maio de 1966, pouco mais de 1 ano após a primeira luta, Eder voltaria ao Japão para ter sua revanche.


Eder Jofre e família embarcam para a revanche contra Harada. Imagem: Folhapress / UOL Esporte

A segunda luta entre Jofre e Harada ocorreu no Nippon Budokan, em Tóquio, mesmo palco onde em novembro do ano anterior o boxer japonês defendera pela primeira vez seus cinturões, diante do britânico Alan Rudkin. O brasileiro, apesar da derrota no primeiro encontro, era considerado um ligeiro favorito para o confronto. Entretanto, mais uma vez, acabou sofrendo nas mãos de Harada. O japonês novamente fez frente ao brasileiro, e dessa vez conseguiu uma vitória por decisão unânime. Mais uma vez, as questões de peso e de fuso-horário pesaram, isso sem contar o anti-jogo utilizado pelo nipônico, que usou e abusou de clinches e cabeçadas, sem ter qualquer punição por parte dos juízes. É verdade que os resultados de ambas as lutas, caso tivessem ocorrido no Brasil, poderiam ter sido diferentes, dado o equilíbrio observado nas duas ocorrências. O fato, entretanto, era um só: Eder sofrera a segunda derrota na carreira.

Com o orgulho e a confiança feridos, somados aos anos de sacrifício, dificuldade e cansaço para conseguir lutar em alto nível no limite de peso dos galos, Eder começou a pensar em parar. No retorno para o Brasil, ainda com as marcas e cortes no rosto, Eder encontrou um aeroporto vazio, com apenas poucos jornalistas e as pessoas mais próximas aguardando. A situação de ingratidão, que já se repetiu por diversas e diversas vezes com outros ídolos brasileiros, acabou impulsionando o que era inevitável naquele momento: Jofre anunciaria a sua aposentadoria.

Mas, para a sorte dos brasileiros, e de todo o mundo, ela seria temporária.

(continua...)

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