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Publicado em 19 de Janeiro de 2016 às 17h:28

Lute logo, campeão! Promessas e legado andam de mãos dadas...

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Autor Daniel Leal



Quase meio ano se passou, e nada de Popó no ringue de novo (Imagem: Divulgação/Memorial)
 

Noite agradável. Arena cheia. Reencontro do grande público com o pugilismo. Evento muito bem organizado, produzido, patrocinado, com ingressos sendo cobrados. O retorno de um tetracampeão do mundo em uma vitória avassaladora. Um sonho para qualquer fã do boxe brasileiro, em 2015.

Era o início da retomada de uma brilhante carreira, agora rumo ao quinto título mundial, de forma triunfal.

Era?

Passaram-se cinco longos meses desde que Acelino “Popó” Freitas (40-2, 34 ko's) reiniciou sua trajetória nos ringues ao destruir Mateo Verón, da Argentina, na Arena Santos, litoral de São Paulo. São cinco meses muito mais longos para um atleta de 40 anos, que corre contra o tempo para voltar às grandes contendas mundiais, do que para seu próprio adversário naquela noite. Ainda assim, Veron já esteve novamente em cima do tablado, há mais de um mês. Popó? Bom, ao que parece, a nova data (a terceira ventilada), para, finalmente, pelejar novamente, agora é Abril. Estamos na segunda metade de Janeiro. Há algo de errado nisso para você, leitor? Pra mim também...

“O Brasil não incentiva o esporte”;

“É muito complicado fazer um evento lucrativo aqui”;

“Ninguém quer patrocinar”;

Sim, e agora me diga a novidade?

Do alto de seus 26 anos dentro do meio pugilístico nacional, o nosso quatro vezes rei mundial não sabia disso? Em meio a uma crise econômica sem precedentes, com o país indo para seu terceiro ano de recessão técnica consecutivo, o ex-deputado federal esperava bolsas gordas para combater aqui?

Em caso positivo, há um quê de ilógico em nosso querido ex-campeão.

Veja bem, eu também acho que pelo nome, história e pela trajetória, Popó merecia receber decentemente para lutar no Brasil, poder fazer seus eventos de forma lucrativa e seguir seus planos, mas, da mesma forma, tenho plena consciência de como as coisas funcionam por aqui. Tem lutador pagando a bolsa do próprio adversário todos os finais de semana. A esmagadora maioria dos eventos são “gratuitos” à plateia, pois são bancados com dinheiro público. Por mais que o peso do lutador Acelino Freitas seja imenso, isso, infelizmente, não é suficiente para mudar este cenário.

O que aconteceu em Santos, em Agosto do ano passado, por si só, já foi um ponto fora da curva. E ainda assim, a programação “se pagou”, e olhe lá...

Portanto, eu não entendo nenhum tipo de frustração em relação a isso. Todos sabiam muito bem qual era o cenário. Como lutador brasileiro, Popó sabia mais ainda.

Não é fácil dizer isso mas, sem apoio, ou Acelino investe nele mesmo (pois, sim, diferente do que pensam alguns sanguessugas tupiniquins, boxe é um investimento), tirando ele de seu bolso o custo de seus eventos, esperando pouco ou nenhum retorno, ou simplesmente faz o óbvio e tenta lutar fora do país. Acontece que nos EUA, por exemplo, o caminho seria mais tortuoso, porém, ao mesmo tempo, muito mais aberto a um cara que ganhou quatro cintas em duas categorias diferentes, mesmo que em um passado, relativamente, distante.

Resumindo, ou Popó escolhe suas lutas, e arca com esse (possível) prejuízo, acreditando no seu próprio taco, sabendo que terá um retorno no futuro, ou deixa o mercado escolher as contendas para as quais ele será bem pago para fazer. Simples.

Estaria tudo bem se ele decidisse então, cancelar tudo e dizer que não imaginava que ia ser tão complicado, que não vale a pena continuar assim? Estaria, não fosse um detalhe: Ele prometeu que este retorno seria pela busca por um quinto cinturão.

O público não é idiota. Sabe, portanto, que a tarefa é árdua. Se Popó perdesse uma disputa mundialista, seria triste, porém é compreensível. Já alardear que vai buscar isso e desistir por causa de circunstâncias adversas que ali estavam antes mesmo do início da jornada, não é.

O brasileiro perdoou Popó por estar com a cabeça fora da disputa com Diego Corrales e se vir obrigado a desistir do combate. Perdoou também a falta de preparo e foco contra Juan Diaz. Torceu como louco para que batesse em Michael Oliveira, por tudo que Freitas é, e que seu adversário não era. Torcemos todos para que o legado de um campeão sobressaísse.

Foi a vez então, de torcer pelo seu retorno. De pagar ingresso pensando isso. De vibrar na frente da TV. E o público fez seu papel. É compreensível que você queira repetir eventos maravilhosos aqui no Brasil, como foi o de Agosto, Popó. Não só você merece isso, mas o público também. Só que nem sempre as coisas funcionam da forma que queremos. Para mudarmos esse cenário, precisamos muito de sua presença nos ringues. Vamos lá, campeão, lute! Por nós!

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