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Publicado em 09 de Setembro de 2015 às 17h:44

Mayweather "alcançando" Marciano... Mas, pra quê?

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Autor Daniel Leal

É chegada a semana do combate de número 49 do norte-americano Floyd Mayweather Jr. Em um confronto polêmico pela escolha do adversário, o que mais se fala hoje na nobre arte é no possível alcance do recorde de Rocky Marciano. Isso tem norteado muitos debates no meio pugilístico desde que alcançar este feito tronou-se plausível para o atual rei “pound-for-pound” do esporte de luvas.

Tive a oportunidade de ler um artigo norte-americano, escrito pelo jornalista David Mayo a respeito do que significam, de fato, os números de Mayweather e sua relação com o 49-0 alcançado por Marciano. Nele, o jornalista discute o legado deixado por este número, e a real importância dele para ambos os lutadores e o boxe em um contexto geral.

Como todo bom artigo (muito bem escrito, e levantando pontos interessantes, vale conferir), incitou uma profunda reflexão neste que vos escreve a respeito do que realmente se trata o número de vitórias e de derrotas para um pugilista.

Sempre tive um conceito de que números são só números, se não forem interpretados a contento. Isso serve para qualquer área: Das finanças, de onde venho, à nobre arte, aonde aporto neste momento. Ou seja, não basta analisarmos um cartel, temos que interpretá-lo, conhecê-lo, antes de julgar um lutador.Emmanuel Augustus (38-34-6, 20 ko's), citado no texto inspiratório em questão, provou isso durante sua irregular carreira. Um pugilista com uma quantidade enorme de derrotas, mas que deu trabalho à muita gente em sua trajetória, dificilmente sendo nocauteado, e tirando invencibilidades, surpreendentemente.

Recentemente tive acesso à reclamação de um pugilista brasileiro em relação ao cartel de Mateo Veron, adversário de Acelino Freitas no mês passado. Chegou ao ponto de reivindicar uma hipotética luta com Popó, pois se o argentino de cartel tão mais “feio” dividiria o ringue com o tetracampeão, por que não um brasileiro, com números melhores? O que ocorre é que uma comparação com base apenas nos números, nesse caso, não cabe. Veron bateu vários oponentes melhores do que quaisquer um que constavam dentre as vitórias do boxeador brasileiro em questão, e ainda deu muito trabalho a outros bons lutadores. O pecado ali ocorreu justamente em observar os números, sem um contexto, sem uma análise. Veron não é nenhum Augustus, está longe da nata do esporte, mas não era um mero saco de pancadas como quiseram colocar aqueles que só olharam o seu recorde, ou viram o replay da luta. O atleta deveria ter apontado as suas próprias qualidades como profissional, que são várias, e não comparar o cartel, que ao fim das contas, para quem consegue analisar, na realidade, não lhe favorece. Este caso é só um exemplo, mais recente e mais próximo de todos nós, de quais os efeitos que um numeral belo ao lado de um nome de lutador, pode nos desvirtuar de uma análise mais profunda.

Isto ocorre devido ao fascínio que existe em relação à lógica que os números nos proporcionam. Eles exercem uma falsa ilusão, de uma mágica capaz de estabelecer uma ordem no caos. Todos os dias “investidores profissionais” vão à falência pois creem ter encontrado um método que padroniza as cotações de bolsas de valores e mercados futuros, sejam através de gráficos, tabelas, formatações tape readings, etc. Até virem os chamados “cisnes negros”, categorizados por Nassim Taleb, ou seja, os acontecimentos inéditos e inesperados, aqueles que causam reviravoltas e “crashes” nos mercados, capazes até de moldarem novos conceitos. E quando isso ocorre, quem estabeleceu um critério para o caos, vai à bancarrota, e isto porquê se ateve aos números, não aos fatos.

O mesmo acontece no pugilismo. Quem vê Marciano apenas por seus êxitos numéricos, o classifica como o melhor peso-pesado da história. Teria então, que classificar Ricardo “Finito” Lopez (51-0-1, 38 ko's), ex-campeão dos moscas-ligeiros e pesos-palha, como maior “pound-for-pound” de todos os tempos. Teria também que afirmar que Edson Nascimento, o “Xuxa” (47-0-1, 40 ko's) foi muito melhor do que Éder Jofre, Miguel de Oliveira, Popó e Sertão, afinal, não sofreu nenhum revés em sua carreira. Mas não, Xuxa, infelizmente, sequer foi campeão mundial, apesar de eu, particularmente, sempre ter achado que lhe sobrava talento para isso.

Então, o que realmente vale em relação ao mítico recorde de Marciano, que tanto os fãs pregam? Ele realmente representa um estado máximo de plenitude e sucesso alcançado na carreira? Para responder esta questão temos que analisar a carreira desta lenda do esporte, e todos os seus feitos.

Rocky ficou atuante nos quadriláteros de cordas por pouco mais de 8 anos. Á título de comparação, este é mais ou menos o tempo que Mayweather, durante toda a carreira, deteve pelo menos um cinturão mundial. Marciano defendeu o boldrié dos pesados em 6 ocasiões, ou seja, possui apenas 7 disputas mundialistas em toda sua vida, as últimas sete participações dele no esporte, inclusive. Isso não quer dizer que não fez combates grandes além desses. A vitória de maior magnitude de sua carreira, pelo menos para mim, contra Joe Louis, não valeu nenhum mundial.

Ele se retirou dos ringues aos 32 anos de idade, levando consigo, além dos números, uma aura de “brigador” que ficou eternizada. Marciano, para os que não sabem, não era um “49-0” gigante, e sim um pugilista muito valente, que dificilmente dava um passo para trás, agressivo quase que ao extremo – os 43 nocautes que obteve demonstram isso (números com contexto, lembram-se?). Em tese, isso é o que deveria ficar eternizado, este seria o seu legado, o de um grande campeão que entrava “pra moer” seus adversários, pequeno para a categoria, com uma bomba no lugar das mãos, e apenas isso.

Sim, pois as quarenta e nove vitórias em toda a carreira de Marciano não o tornaram o melhor peso-pesado da história. Diria que ele está atrás de nomes como Ali, Frazier, Foreman, Holmes e o próprio Joe Louis, à quem bateu quando este já era considerado veterano para a época, tendo se retirado logo na sequência de seu embate.

Assim como o cartel invicto de Floyd Mayweather também não o torna o maior de todos os tempos. Mesmo que supere Marciano, que conquiste os 50-0, isso não torna “Money” maior do que Sugar Ray Robinson, Julio Cesar Chavez, dentre outros exemplos. O legado de Mayweather será sempre o de um multi-campeão que ao perceber suas limitações físicas (ombro e mãos “frágeis”), se tornou um dos melhores pugilistas defensivos na história, e um dos mais precisos do mundo também. Uma derrota não mudaria, e nem mudará, isso.

Não mudará as mais de duas dezenas de campeões do mundo que venceu, não mudará as controvérsias em que se meteu, e não mudará o dinheiro que já ganhou (que para ele parece ser o mais importante).

Ser invicto no boxe traz uma aura de semideus, de estar à cima dos demais, já que não foi tocado, não teve uma “impureza” adicionada a sua trajetória. É inegável que isso conta, tanto no lado psicológico, quanto ao promocional de uma contenda, mas não é tudo. Quantos “invencíveis” já não foram surpreendidos? Quantas zebras já não ocorreram neste emocionante esporte e nos deixaram com uma cara de tacho e um coração palpitante na frente da TV? Quantos “Cisnes Negros” já não surgiram e mudaram todos os conceitos que tínhamos antes? Desviar disso tudo é um grande feito para um atleta do nível mais alto, como Floyd e Marciano, mas não é só disso que é feito um legado.

De mais á mais, ambos terão seus nomes gravados na história para sempre, mas que sirvam de exemplo ao lado das 5 derrotas de Ali e dos 19 revezes de Robinson, para que os fãs não se iludam apenas com números.

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