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Publicado em 25 de Maio de 2016 às 15h:17

Mayweather vs McGregor não deve acontecer (e nunca deveria)

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Autor Daniel Leal


Imagem: The Sun

Começo de Maio, próximo ao fim de semana em que Saul “Canelo” Alvarez enfrentaria Amir Khan, uma notícia desviou o foco do evento vindouro: Floyd Maywetaher Jr., o maior boxeador da atualidade (considerando que não esteja, de fato, inativo, como pregou), estaria fechando sua 50ª luta profissional, diante de um não-profissional, o lutador de MMA, Conor McGregor. Por mais ridículo e absurdo que possa parecer isso, triste fato é que o próprio Mayweather confirmou ser possível, segundo suas próprias palavras, e que ele mesmo quem teria inciado esses rumores. Independente do contrato assinado, ou não, de uma coisa, naquele momento, tive certeza: Floyd não consegue deixar os holofotes para os outros.

Explico. Para mim, essa estratégia visava apenas deixar os fãs muitos mais instigados neste assunto, estragando a festa da Golden Boy Promotions, e massageando o ego do ex-campeão, que voltaria a ser o atleta mais falado no mesmo final de semana do maior evento da promotora no primeiro semestre, aonde tentava emplacar um possível substituto para o “Money” como maior nome do esporte. Até que a coisa pegou corda…

Parecia, realmente, que ambos estavam dispostos a adentrar ao ringue. 100 milhões para um, e menos de 10% disso para o outro (justo, em se tratando que nem pugilista é e que fatura muito menos aonde está). Rica em detalhes, a história fazia sentido, inclusive na teoria de que o lançamento da mesma na mídia serviria para sentir o potencial promocional do hipotético encontro. Não restam dúvidas de que, se ocorresse (ou, ocorrer), as vendas de pay-per-views seriam imensas.

Mas, então, a realidade veio a tona. Primeiro, Dana White, presidente e sócio do UFC afirmou o óbvio: McGregor tem contrato de promoção com eles e não pode fazer nenhum combate em qualquer modalidade, sem consentimento da organização que representa. Eles detém a exclusividade promocional dele, então Mayweather teria que tratar isso diretamente com White, que disse estar aberto ao diálogo, mas também mostrou-se cético em relação a este assunto.

Segundo, o próprio irlandês iniciou sua “saída pela tangente”. Ao afirmar que quer US$ 100.000.000,00 para subir ao tablado contra Floyd, muitos acharam que era uma forma dele se valorizar, mas, em outro ponto de vista, pode ser apenas um meio de inviabilizar o desfecho, financeiramente, e eu penso que seja isso mesmo. Por que? Simples, Conor justificou a alta bolsa que reivindica com a frase mais imbecil e cretina que poderia: “Eu não preciso dele, é ele quem precisa de mim”, insinuando que Floyd “Money” Mayweather Jr., cujos ganhos na carreira superam US$ 600.000.000,00 (seiscentos milhões de dólares), precisa de um lutador que vem de uma derrota feia em sua própria modalidade, para ganhar dinheiro.

Não, o senhor está errado, querido… Ainda que seja difícil para Mayweather angariar cem milhões contra a maioria dos nomes que ai estão, não seria absurdo que recebesse essa quantia entre a bolsa e o percentual de vendas em lutas contra Danny Garcia, Gennady Golovkin, ou revanches diante de Miguel Cotto, Canelo Alvarez e Manny Pacquiao. Sem dúvidas, então, se fizer muita questão de somar mais uma centena de milhões à meia dúzia das que já possui, em apenas uma noite, Floyd tem, sim, algumas opções, mas nenhuma que seja tão fácil quanto esta.

Exato, pois, acho que todos que têm o mínimo de conhecimento sobre a nobre arte e mais do que dois neurônios na cabeça, sabe muito bem que, por melhor que McGregor seja no que ele faz (e ainda assim, não é “o” melhor, como Mayweather em relação ao boxe), como boxeador ele não passa de um aluno de academia com algumas disputas amadoras. E quando você coloca um novato diante, não só de um profissional, mas do lutador mais destacado do mundo em todas as categorias na atualidade, não há outro resultado que não seja um massacre, salvo uma fraude ou um nocaute milagroso – algo que ninguém conseguiu até hoje, diga-se. Resumindo, nunca Maywether ganharia tanto com tão pouco esforço, entretanto, pode ser ai mesmo que reside o principal entrave.

Com toda certeza este enfrentamento se daria em Las Vegas. Não existe outro lugar mais lucrativo para acontecer o imbróglio. Ainda que saibamos da influência que as cifras causam nos burocratas, a “cidade do pecado” fica em Nevada, e por isso qualquer embate pugilístico necessita da aprovação da Comissão Atlética deste estado. Este órgão existe exatamente para regulamentar a prática de um esporte perigoso como o nosso, ou as artes marciais mistas, e são distorções como estas – de um homem medalhista olímpico com 49 lutas e vários títulos mundiais no currículo, encarando um estreante – que ele tem o papel de coibir. Logo, minha aposta é que jamais essa contenda seria sancionada pela entidade.

Mas se as chances são mínimas, por que isso esta sendo tão falado, tão discutido?

Tenho lido na mídia internacional uma história intrigante que pode nos revelar muita coisa a respeito deste assunto. Reportadamente, McGregor teria se encontrado, em meados de Dezembro do ano passado, logo após bater o brasileiro José Aldo e conquistar o título dos penas do UFC, com ninguém menos que o promotor mais proeminente da atualidade, Al Haymon. Sem Mayweather na sala, o assunto não teria nada a ver com a hipótese dos dois trocarem socos no quadrilátero de cordas, e sim visava viabilizar maneiras de promover o nome de Conor para o público em geral, torná-lo uma celebridade além do mundo das lutas. É sabido que Haymon é o principal conselheiro do ex-rei “pound-for-pound” do pugilismo, além de seu sócio nas promoções de eventos e contratos de atletas.

Poucos dias depois, Floyd deu declarações a respeito de racismo, dizendo que “caras como McGregor falam muita besteira, mas o tratamento é diferente (da opinião pública) de quando é um negro”, e esta foi a primeira vez que ele tocou no nome do lutador da Irlanda. Obviamente, uma declaração como esta repercutiu muito, e envolvia a menção de quem Al Haymon queria, exatamente, divulgar.

Em Março, o falastrão irlandês foi atropelado por Nate Diaz e, mais tarde, deu pra trás dos compromissos de promoção do “UFC 200” sendo retirado do evento. Seu nome estava fazendo a sua primeira curva descendente quando, de repente, surge Mayweather novamente espalhando o boato sobre uma luta entre ambos. McGregor, então, da noite para o dia, ganhou um poderoso trunfo para bater de frente com seus patrões.

Sem feitos impressionantes no octágono (tirando a vitória sobre Aldo, conquistando um cinturão que, até hoje, sequer defendeu), a sacada de seu hype era o fato dele promover, a si e seus combates, muito bem, provocando e sendo irreverente. Jamais chegou perto dos feitos e conquistas de caras como Anderson Silva, para exigir bolsas milionárias e fazer seu rosto ser conhecido pelo público além dos aficionados por seu esporte. Agora ele tem até com o que ameaçar os donos da organização pela qual luta, uma virada de jogo impressionante, digna de uma empresa que, conforme já falamos aqui, tem dificuldade de encontrar novos ídolos de verdade.

A conclusão que podemos chegar até agora? Bom... Esse tal de Al Haymon é mesmo um gênio!


Haymon(esq.) e Mayweather(dir.) assistem á combate em Vegas - Imagem: PunditArena.com

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