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Publicado em 02 de Dezembro de 2015 às 15h:30

Não julgue o novo campeão pelo nome… Nem pelo sobrenome!

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Autor Daniel Leal


Imagem: Richard Heathcote/Getty Images

Sim, meus amigos, é uma realidade que Wladimir Klitschko, depois de quase uma década, não é mais o campeão mundial dos pesados. Aliás, o que outrora era um consenso, agora é um contrário: Não existe mais nenhuma porção do título mundial da categoria máxima nas mãos de um lutador do leste europeu.

Em meados da década passada, a grande questão pugilística era qual seria o futuro da mais visada divisão de peso do esporte sendo dominada por nomes como os irmãos Klitschko, Oleg Maskaev, Nikolay Valuev, Sultan Ibragimov e Ruslan Chagaev – todos estes quase que contemporaneamente segurando um boldrié. Hoje a realidade é o título linear nas mãos do britânico Tyson Fury, e o do Conselho Mundial de Boxe sob a posse do norte-americano Deontay Wilder.

Independente de quem é o titular alfabético por alguma entidade reguladora, a dúvida gerada anteriormente era a respeito do impacto para a nobre arte dos “russos chatos” (alcunha dada pelos fãs aos ex-campeões supracitados, por mais que a maioria deles não seja, efetivamente, da Rússia), devido à sua dominância no período em questão.

Como aprendi em meus estudos a respeito das ciências econômicas, nenhuma decisão estratégica, ou seja, que altere o cenário “macro”, costuma demonstrar suas consequências no curto prazo. E no boxe, para minha sorte, muitos desses conceitos se aplicam.

E o resultado, anos depois, dos robôs oriundos da ex-URSS, foi o surgimento de um outro, maior, como uma espécie de resposta de guerra do mundo ocidental. No último sábado, este monstro de 2,06 metros de altura mostrou suas armas ao público, e quebrou o reinado impecável do “Dr. Steelhammer” da maneira mais inteligente, mais sensata, mais tática, e também mais sonolenta, possível.

Fato é que, quer você goste, ou não, Fury é hoje o campeão mundial indiscutível dos pesos-pesados. Isto porque bateu o homem que, até então, ostentava este posto, sucessão esta que segue a linha tradicional adotada no esporte de luvas. E ele e seu estilo desengonçado são apenas o produto de uma multiplicação dos fatores colocados outrora.

Esqueça Mike Tyson, cujo sobrenome inspirou o pai do novo rei da categoria máxima ao batizá-lo. Não balizemos o pugliato atual praticado sem limite de peso, com aquele das décadas de 80 e 90. Pois o que veio na sequência, nos anos 2000, era exatamente o antídoto para as táticas de antes. As máquinas soviéticas vinham programadas com a receita do sucesso em cima dos, então, grandes nomes. Não é a toa que os irmãos Klitschko e seus quase compatriotas de nomes carregados de consoantes, se consolidaram. É certo que contaram com a sorte ao não encontrar nenhuma das lendas em atividade, em sua plena forma. Evander Holyfield ainda tentou algo, não obtendo êxito. Portanto, como eu disse, estes atletas e os resultados proporcionados por seu estilo, são consequência do ambiente resultante da soma do que era necessário para se ter sucesso. Bem como Fury o é, hoje.

Para ser o melhor depois de Lewis, Tyson, Holyfield e Bowe, era necessário uma vantagem física, e o bom uso dela, ainda que não agradasse aos olhos dos fanáticos. Bastava ser efetivo, mais facilmente ainda em um cenário onde os boxeadores que citei não mais estavam competindo. Nada muito longe do que agora era preciso para quebrar esse paradigma: Alguém ainda maior, que não deixasse o jogo de sempre ser imposto contra ele. Foi o que o britânico fez na Alemanha neste final de semana ao se movimentar com 0(zero) de graciosidade e leveza no ringue, esquivar com nenhuma virtuosidade, e soltar golpes com pouca precisão. Feio, porém a fórmula exata.

Pode ser triste para você que, como eu, cresceu vendo o Tyson original nocauteando meio mundo. Mas pare e use a lógica que descrevi, junto comigo, e verá que Fury é resultado exatamente do que Mike fazia há décadas atrás. Portanto, não espere dele que honre o nome que recebeu, e nem a fúria que seu sobrenome insinua.

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