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Publicado em 28 de Abril de 2016 às 11h:02

Nove anos atrás, Popó desistia de luta contra Juan Diaz

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Autor Daniel Leal


Já faz quase uma década que, ao mandar Ulysses Pereira se calar no córner, o falecido Oscar Suarez provava que treinador não ganha jogo, mas ajuda muito a perder, em uma das experiências mais tristes que já tive como fã, e escritor. #TBT (Imagem: boicy.ru)

Dia 28 de Abril de 2007. Era uma noite agradável em Santos, e a expectativa nos bares da cidade era de que o monopólio do futebol fosse quebrado naquela ocasião: Eles transmitiriam boxe! A RedeTV programara a exibição do combate unificatório dos leves entre Acelino “Popó” Freitas, então titular da OMB, e Juan “Baby Bull” Diaz, detentor do cetro AMB. Estava sentado num desses estabelecimentos com alguns amigos que não ligavam muito para aquilo tudo. Eu estava nervoso. Chamei o garçom e questionei-o “Vocês vão mudar pra luta do Popó?”. Com a negativa do funcionário não tive dúvidas, me dirigi, a pé mesmo, até minha casa, como minha cidade, na época, assim permitia.

Ao chegar em casa começava a principal preliminar. Agnaldo Nunes demonstrou toda sua qualidade para bater Carlos Navarro e defender seu cinturão norte-americano dos super-penas. A expectativa era de que disputasse logo um título mundial, o que acabou não ocorrendo. Isaac Rodrigues também se apresentou no evento que, aposto, você não sabia que foi tão importante assim…

Antes do brasileiro subir ao ringue, Ruslan Provodnikov, hoje uma das estrelas do boxe mundial, promovido por Arthur Pelullo (promotor também de Acelino), fazia sua terceira contenda profissional, que não durou muito – ele venceu em 2:33 minutos. Após Isaac descer do quadrilátero, o então futuro campeão dos pesados pelo CMB, Bermane Stiverne, seguia jornada invicta, vencendo o journeyman Earl Ladson, por nocaute.

Após o término do confronto de Nunes e Navarro, era a vez de Freitas, desistindo de uma breve aposentadoria, apresentar-se depois de um ano de inatividade. Ele havia vencido Zahir Raheem em 2006, exatamente 364 dias antes, e conquistado assim o boldrié que agora estaria em jogo. Mais do que isso, Popó reavivara o boxe na Tv aberta, já que sua luta contra Raheem bateu a Rede Globo em audiência, colocando a modesta transmissora paulistana em primeiro lugar no IBOPE. A partir dali, a emissora começou a olhar com melhores olhos para a nobre arte e seguiu-se uma série de programações nacionais e internacionais que hoje deixam saudades.

O adversário do brasileiro era um jovem e ainda invicto Diaz, que ostentava um cartel de 31 vitórias, 16 pela via rápida. Não era pegador, mas soltava volume impressionante de golpes e era muito rápido. Um verdadeiro risco para Acelino, ainda mais após um longo hiato. Todos esses cálculos haviam sido feitos por um cara que sabia muito bem do jogo do pugilismo e de sua promoção: Don King. Ele promovia Juan, e sabia que seu cliente teria vantagem significativa, apesar da direita de Popó poder arrancar a cabeça de qualquer um naquela categoria. No fim das contas, era uma relação risco/retorno interessante, e isso sempre moveu King nas direções certas. Dificilmente alí, no Foxwoods Resort & Casino, dentro da reserva indígena de Mashantucket, em Connecticut, o ex-empresário de Mike Tyson sairia no prejuízo, mesmo o cenário ideal sendo seu pupilo deixando o local com as duas cintas em mãos e o status de principal nome dos 61,2 kg.

A luta, como todos sabemos, correu muito mal para o tetracampeão mundial do Brasil. Nosso atleta estava apático, com poucos e inaproveitados lampejos, bailando no ringue como se esse fosse seu jogo natural. Não era e nunca foi. Aquele trabalho havia sido feito por Oscar Suarez e começara em 2001. A ideia era dar mais recursos técnicos para Popó, o que é ótimo, mas, com o passar do tempo, a essência do baiano de plantar os pés no chão e levar o adversário à lona havia se perdido, muito graças a isso. É verdade também que, devido ao trabalho de Suarez e Ulysses Pereira (seu treinador até hoje), Acelino havia conquistado a maior vitória de sua carreira, diante de Joel Casamayor.

O exagero em puxar muito mais para o lado tático e virtuoso do que a confiança na patada de direita e no coração de Popó, culminaram na derrota diante de Diaz. Quando perdeu para Diego Corrales, em 2004, o jogo de pernas bem trabalhado fazia muito sentido, já que o americano era, notadamente, um nocauteador poderosíssimo. Circular ao redor do Baby Bull, que cortava o ringue de forma bastante decente, não era boa idéia, mas, naquele momento, parecia que o brasileiro só sabia fazer isso. A descaracterização era tamanha que o escalte da luta trouxe algo surpreendente: Apesar de acertar menos, Popó havia lançado 42 golpes a mais, inclusive mais jabs que seu adversário.

Percebe-se que Freitas desperdiçara muita energia se movimentando e lançando socos fracos enquanto Diaz, conhecido por seu volume e intensidade, ainda que perdendo nesse quesito numericamente, conseguia impor seu jogo, um erro grotesco de estratégia. Na metade dos 12 rounds programados já era nítida a falta de fôlego do “Mão de Pedra”, enquanto o campeão da Associação Mundial de Boxe tinha vigor notável no outro córner. Você poderia esperar, então, que a esquina do brasileiro lhe dissesse para mudar de postura e acreditar em si, mas não foi isso que foi mostrado. A insistência no erro culminou em um massacre no oitavo assalto. Quando o gongo soou, o rosto de Popó demonstrava uma frustração gigante, que só aumentou ao ouvir Suarez durante o intervalo.

Conforme eu mesmo escrevi naquela madrugada, no antigo blog que originou este site, um lutador exausto, ao sentar no banco e ouvir seu treinador questionando-lhe se não era melhor desistir corresponde a um golpe mais potente em sua confiança do que qualquer adversário jamais poderia impôr-lhe. Ulysses ainda retrucou: “Onde tá seu coração, cara?”, mas o outro técnico, em uma atitude pouco profissional na minha visão, com o dedo em riste, mandou que ele se calasse. Terminava ali uma luta aonde Popó sequer havia sangrado, tampouco havia beijado a lona e, mais tarde, os scores demonstraram que estava longe de estar perdida. Apenas um jurado dava uma diferença grande em favor do estadunidense (79-73), os outros dois marcavam 76-75 e 77-75, algo totalmente plausível de reversão e próximo da minha marcação e da de Harold Ledderman, da HBO, que no início daquela rodada apontava 67-66 em favor de Juan, como pude comprovar ao assistir o combate na internet, alguns dias depois.

Max Kellerman, outro analista do canal norte-americano, definiu bem a situação da desistência de Popó: “Freitas já esteve nessa situação antes, então agora é muito mais fácil de voltar para ela” - referindo-se ao fato dele já ter feito a mesma coisa diante de Corrales. Mas, muito além dessa verdade, faltou também uma preparação adequada e a crença necessária para seguir em frente. Mais grave do que isso, do mesmo modo em que elevara o espírito dos fãs com sua vitória sobre Raheem, com aquela “volta por cima”, nosso ídolo decepcionava a nação, e pior, foi levantado por Suarez em seus ombros, após o encerramento, em uma das cenas mais patéticas que já vi.

Passados 9 longos anos, Popó, como todo bom pugilista, desistiu de mais duas aposentadorias. Deu, finalmente, sua volta por cima, quando destruiu Michael Oliveira, em 2012. Eu também estava em um bar nessa noite e solicitei que mudasse para a transmissão do evento. Pude testemunhar quase a totalidade das pessoas no lugar vidradas na luta pelo SporTV, vibrando e conhecendo toda a história por trás daquela programação, e todos, sem exceção, torcendo por Acelino. Aquele dia eu saí orgulhoso de lá, naquele momento era grato novamente à Popó. Havia “perdoado” meu ídolo, pois via nele a gana, o foco, a coragem e a preparação que sempre esperávamos ver. Foi uma redenção mágica. Mais tarde tive maior orgulho ainda ao poder parabenizá-lo pessoalmente por sua vitória sobre Mateo Verón, em Santos.

O futuro a Deus pertence, e não se sabe ainda qual será o próximo passo na vida e carreira de Acelino Freitas. Especula-se que em Setembro se despeça do boxe de vez. O que ele decidir, estarei lá para ver. O porto-riquenho Oscar Suarez faleceu devido a um agressivo câncer no pâncreas, em 2009. Não pôde ver seu pupilo voltar a vencer. Que Deus o tenha em bom lugar, pois, apesar de ter errado com Popó em minha opinião, nunca deixou de ser um bom treinador e, principalmente, era considerado por todos com quem tive oportunidade de conversar, uma excelente pessoa.

Antes que me esqueça, há mais um detalhe sobre a data em que Diaz unificou o cetro da Organização Mundial de Boxe. Quando cheguei em casa as mesmas pessoas que estavam comigo me ligaram: O estabelecimento havia resolvido acatar a minha solicitação, e eles estavam assistindo à luta... No fim das contas, foi até melhor. Pude ver o embate em pé, como a maioria dos que assisti com Popó protagonizando, e passar a minha raiva sozinho, no meu canto, sem ter que fingir que estava tudo bem. Foi possível, também, despejar minha frustração em um dos textos mais repercutidos e raivosos que já escrevi. Hoje relendo-o, vejo o quanto evoluí com aquele episódio, e o quanto era impulsivo. Existem fatos em nossas vidas que nos moldam para o futuro. 28 de Abril de 2007 foi uma dessas noites para mim.

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