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Publicado em 18 de Novembro de 2009 às 14h:07

O Boxe e as Entidades Nacionais

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Autor Luigi F.

O boxe está longe de ser o principal esporte de nosso país. Com apenas 4 campeões mundiais em sua história – Eder Jofre, Miguel de Oliveira, Acelino “Popó” Freitas e Valdemir “Sertão” Pereira – e um único medalhista olímpico – Servílio de Oliveira -, o esporte acaba sendo esquecido pelos grandes meios de mídia. Porém, quais seriam os reais motivos de tudo isso?

Muitos culpam o grande número de entidades reguladoras presentes em nosso país. O mesmo, porém, acontece ao redor do mundo. São 4 organismos principais – AMB, CMB, FIB e OMB – sendo que cada um tem seus rankings independentes, que apresentam princípios e são influenciados de diferentes formas.

Além dessas, diversas outras entidades se espalham por todo o globo. As siglas, das mais diversas, são, na maioria das vezes, produtoras de diversos campeões alfabéticos, ou seja, lutadores que detém cinturões, mas que são desconhecidos do grande público. Porém, isso não é um problema apenas dos pequenos órgãos. Se pegarmos os campeões das “top 4”, também encontraremos alguns campeões de qualidade duvidosa, isso sem contar conceitos como “campeão interino” ou “super-campeão”, que apenas servem para aumentarmos ainda mais essa gama de boxeadores detentores de algum cetro.

É claro que no caso do Brasil esse não é o único problema. Podemos apontar a falta de interesse da mídia (que ocorre por “n” fatores), a baixa frequência de lutas para os pugilistas nacionais se manterem ativos, a estrutura deficitária como um todo, no que diz respeito a ginásios, técnicos e até mesmo a quantidade de pugilistas de alto nível disponível para treinamentos, como motivos talvez até mais gritantes de atenção e que necessitam de uma melhora urgente se quisermos, um dia, chegar ao status de potência.

Porém, o foco dessa matéria são as entidades. Buscando uma maior explicação para o público brasileiro, iremos tratar dos principais entes reguladores da nobre arte em nosso país. 

Para isso, entramos em contato com os presidentes das que são consideradas as 3 principais entidades de nosso país: Antonio Bernardo, presidente do Conselho Nacional de Boxe (CNB); Reinaldo Carrera, presidente da Liga Paulista de Boxe Profissional (Liga); e Mauro José da Silva, presidente da Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe).

Cada um deles tem diferentes campeões reconhecidos, e também apresentam diferentes filiações. O CNB é filiado à OMB; a Liga, por sua vez, é comissão-membro da AMB e parceira da FIB; já a CBBoxe, segundo seu site oficial, é filiada ao CMB, à AMB, à OMB e à FIB, embora essa informação seja negada por pessoas do meio, que afirmam que a CBBoxe é ligada apenas ao CMB. Além disso, a entidade “mater” do boxe nacional é filiada ao Comitê Olímpico Brasileiro e à Associação Internacional de Boxe Amador.

As perguntas são muitas. Será que são necessárias tantas entidades num país onde o boxe produziu tão poucos campeões? Será que só uma entidade vigente não seria capaz de fazer um trabalho melhor? Quais seus critérios? O que elas apresentam de diferença?

Para responder essas questões, nada melhor do que os presidentes de cada uma. Dessa forma, fizemos uma série de perguntas aos 3 responsáveis dos organismos em questão. As respostas, vocês conferem aqui:

Antonio Bernardo
Presidente do Conselho Nacional de Boxe

Round 13: Em sua opinião, qual o papel primordial do Conselho Nacional de Boxe no cenário nacional?
Antonio Bernardo: A importância de movimentar o boxe brasileiro. Antes do CNB, não se via nem se ouvia falar de boxe profissional, fizemos 8 campeões latinos da OMB, classificados para o ranking mundial, fizemos disputas de títulos mundiais (Carlos Nascimento, Adriana Salles, Duda Yankovich, Valdemir “Sertão” Pereira). Em 4 anos de CNB, fizemos até hoje 23 títulos latinos, 4 títulos inter-continentais OMB, AMB e FIB, 5 títulos mundiais AMB, CMB, OMB, WIBF, UBC e WIBA, 2 títulos sul-americanos. Fizemos, em 4 anos, 56 programações de boxe profissional, onde foram movimentados 550 atletas. Em minha opinião, é esta a finalidade de uma entidade de boxe no Brasil e no Mundo, a finalidade de dar movimentação aos atletas para que os mesmos cheguem a títulos mundiais. Devido ao nosso trabalho nestes 4 anos, fomos confirmados como ÚNICA entidade nacional a representar a OMB no Brasil.

R13: Qual o diferencial entre o CNB e as demais entidades que mantêm atividades no Brasil?
Bernardo: Estamos em atividade contínua, com pelo menos uma programação por mês, e, como continuação, posso usar a resposta da primeira pergunta.

R13: Muitos consideram que o excesso de entidades é uma das barreiras para o desenvolvimento do boxe brasileiro. O grande exemplo é a Argentina, com apenas uma entidade, a Federação Argentina de Boxe. Mesmo sendo um país com uma população bem menor, os argentinos já tiveram um número muito maior de campeões mundiais. Você concorda com isso? Se sim, o que pode ser feito a esse respeito?
Bernardo: Não concordo, pelo simples fato de que quando se havia apenas uma entidade, nada foi feito. Acho que deveríamos ter entidades com mais envolvimento com o boxe, assim como nós do CNB.

R13: Na sua opinião, o que deve ser feito para evoluir o boxe brasileiro? Temos chance de sermos uma potência mundial na nobre arte? O que falta para isso?
Bernardo: Os maiores obstáculos são a falta de patrocínio e de cobertura da imprensa falada e escrita. Na Argentina, por exemplo, temos duas vezes por semana lutas de boxe com transmissão ao vivo de canais de televisão e mais, sabendo que os mesmos arcam com todas as despesas do evento.

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Reinaldo Carrera
Presidente da Liga Paulista de Boxe Profissional

Round 13: Em sua opinião, qual o papel primordial da Liga Paulista de Boxe Profissional no cenário nacional?
Reinaldo Carrera: A Liga de Boxe, desde sua criação em 1996, vem se caracterizando por defender a credibilidade, a justiça e o crescimento do esporte no país. Com isso, vem abrindo espaço para lutadores e técnicos de todos os estados com o claro objetivo de desenvolver suas carreiras. Outro aspecto importante é que a Liga de Boxe vem procurando se alias às principais entidades de boxe no mundo. Tanto que é comissão-membro da AMB e reabriu o espaço no país para a FIB.

R13: Qual o diferencial entre a Liga e as demais entidades que mantêm atividades no Brasil?
Carrera: Nós não nos preocupamos em identificar diferenças em relação a outras entidades. O que a Liga de Boxe busca é a solidificação do esporte para que ele possa retomar seu espaço na mídia, resgatar a credibilidade diante de patrocinadores e a contribuir com os talentos nacionais.

R13: Muitos consideram que o excesso de entidades é uma das barreiras para o desenvolvimento do boxe brasileiro. O grande exemplo é a Argentina, com apenas uma entidade, a Federação Argentina de Boxe. Mesmo sendo um país com uma população bem menor, os argentinos já tiveram um número muito maior de campeões mundiais. Você concorda com isso? Se sim, o que pode ser feito a esse respeito?
Carrera: A proliferação de entidades no boxe brasileiro é um câncer. Cabe ressaltar que a criação da Liga de Boxe nos anos 90 ocorreu em um momento em que o antigo CND (Conselho Nacional de Desportos) havia determinado um prazo para que as entidades desportivas optassem em atuar no esporte amador ou no profissional. Em tese, nenhuma deveria atuar nas duas frentes. Infelizmente, foi um projeto de lei que não foi cumprido nem mesmo pelo governo federal.

Com o passar dos anos alguns aventureiros se atreveram a "fundar" novas entidades somente para benefício próprio de seus dirigentes. Já o estatuto da Liga de Boxe é claro: é uma entidade sem fins lucrativos, o que dá a exata dimensão de como pensam a atuam seus responsáveis.
Em relação à Argentina, já existe uma outra entidade reconhecida pelo governo, além da tradicional FAB - Federação Argentina de Boxe. O surgimento dessa "nova" entidade começa a provocar ranhuras no esporte argentino, com a emissão de licenças e autorizações de atletas para combates desiguais no exterior, bem como a promoção de eventos e resultados suspeitos.

R13: Na sua opinião, o que deve ser feito para evoluir o boxe brasileiro? Temos chance de sermos uma potência mundial na nobre arte? O que falta para isso?
Carrera: O boxe nacional tem sim boas possibilidades de crescimento. Talvez não no âmbito de se transformar em potência mundial, comparada a Estados Unidos, Japão, Alemanha, Inglaterra e México, entre muitos outros. Porém, é fundamental que tenhamos uma linha de conduta honesta e coerente e que haja uniformização no comportamento e na promoção dos espetáculos. O primeiro passo é fortalecer o esporte de base - ou o chamado boxe olímpico. Outro ponto importante é a formação de técnicos. Percebemos que há muita gente despreparada atuando em academias e clubes o que acaba gerando atletas também despreparados. Acreditamos também que a absoluta maioria dos dirigentes (nos quais nos incluímos) deva rever suas posições em busca de aprimoramento. O intercâmbio com outros países é fundamental.

R13: Algum recado?
Carrera: O espaço aberto à opinião de leitores é condição essencial para a troca de ideias e o aprendizado de todos. Entretanto, é fundamental que as pessoas optem pelas críticas construtivas e sem revanchismos. O boxe brasileiro vem sendo marcado há muitos anos por fofocas, intrigas e informações falsas, de todos os lados. Passou da hora das pessoas optarem por sugestões para o desenvolvimento do esporte em vez de se limitarem a mesquinharias e críticas sem fundamento. Há gente perniciosa no esporte e precisamos limitar o espaço a elas. O boxe precisa reconquistar seu espaço e só atingirá seus objetivos se mudarmos nossa postura.

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Infelizmente, o Presidente da Confederação Brasileira de Boxe, Mauro José da Silva, se recusou a responder as perguntas feitas, com a frase exata:

“Prezado não tenho nenhum interesse em responder isso.”

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