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Publicado em 04 de Junho de 2016 às 06h:41

O maior de todos se vai

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Autor Daniel Leal


Morre nos Estados Unidos o maior ícone do boxe em todos os tempos e não há muitas palavras que possam descrever esta dor.
(Imagem: AP)

Foi difícil dormir com a notícia de que Muhammad Ali estava internado em estado gravíssimo. Mais complicado ainda é acordar, após uma noite irregular de sono, e saber que ele não está mais entre nós. Porém, nada se compara a ter que escrever sobre este momento.

Dói-me redigir que, aos 74 anos, aquele que um dia mudou seu nome, que se recusou á ir á guerra, que jogou sua medalha olímpica no rio Ohio - pois viu que nem o dourado que ali brilhava ofuscava a cor de sua pele, tão ofensiva para a sociedade estadunidense á época - nos deixou. Foi num hospital em Phoenix, Arizona, que passou, ao lado de sua família, seus últimos momentos. Finalmente fora vencido pela doença e pela idade, após mais de 30 anos carregando o Mal de Parkinsson. Ontem, Muhammad havia sido hospitalizado com graves problemas respiratórios, que acabaram impondo-lhe seu último revés.

Acontece que, quando vemos lendas surgirem, sabemos, querendo admitir isto, ou não, que elas não pertencem a este plano. É egoísmo nosso pensar que Ali, nascido Cassius Marcellus Clay Jr., pertencia ao nosso mundo. Balela! Ele só estava nos sendo emprestado, como uma obra de um ser superior que nos agraciou com sua presença para que pudéssemos admirá-lo, e através desta admiração ele revolucionasse o mundo, e não só no que tange o esporte.

Dentro dos tablados nos presenteou com apresentações memoráveis, irreverência e genialidade. Deixou sua marca eternamente como o melhor peso-pesado do planeta Terra em todos os tempos, ou seja, foi o maior entre os maiores. Existem grandes atletas que se limitam á serem muito bons no que fazem e parariam por aí, mas Clay transcendia isso. O norte-americano era uma referência humana, muito além dos limites do quadrilátero. Desafiou a sociedade em um período de preconceito e segregação que a barulhenta geração atual talvez não tivesse um quinto da coragem suficiente para encarar. Usou seu status para espalhar o pensamento com o qual concordava. Tornou-se uma referência, sem deixar, por um segundo, de ser admirado por todos. Era tão hábil em ser uma figura política, quanto um exímio pugilista.

Portanto, hoje, 4 de Junho de 2016, não é apenas a nobre arte quem esta órfã de sua principal referência. A humanidade perde um ícone, um modelo de homem, um ser humano fora da curva. Mas tenha certeza de que Ali não morreu. Ele fez seu papel aqui de nos mostrar o quão insignificantes somos e o quanto tínhamos, e ainda temos, que evoluir. Nesta data ele apenas retorna ao lugar de onde veio e no qual passará a eternidade.

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