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Publicado em 07 de Agosto de 2015 às 04h:26

O Retorno de um ídolo

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Autor Daniel Leal

Imaginem uma criança dos anos 90, sem Ayrton Senna? Os Estados Unidos, sem Lincoln? Liberalismo, sem Adam Smith? Comunismo, sem Marx? África do Sul, sem Mandela? A humanidade, sem Jesus Cristo? E por fim, imaginem toda uma geração de jovens brasileiros dos anos 2000, fãs de boxe, sem Acelino Freitas, o Popó?

Em processo contínuo de afastamento das TVs abertas neste país, como estaria a nobre arte hoje, sem que tivesse surgido um jovem baiano, com a mão direita mais pesada que um tanque de guerra, arrebatando 4 títulos mundiais em duas categorias distintas e atraindo inevitavelmente os olhares da mídia?

Popó surgiu para o estrelato ao bater de forma fulminante à Anatoly Alexandrov em 1999, na França, tornando-se o campeão dos super-penas pela OMB, quando já vivíamos a escassez de boxe na televisão aberta, mas o boicote da mídia para com a nobre arte sempre foi implacável, tanto que, após ter conquistado três dos seus quatro títulos mundiais, a derrota do próprio Popó frente a Diego Corrales em 2004 teve suas imagens exibidas para nós – ao vivo – apenas via Pay-per-view.

Mas acredite, amigo, sem o “seu” Acelino Freitas, tudo seria bem pior…

Até bem pouco tempo antes da conquista de seu primeiro título mundial, aos 23 anos, nosso eterno campeão vivia em uma casa de um cômodo, minúscula, com sua família, e dormia no chão. Isso mesmo, de dormir no chão, a Campeão Mundial de Boxe. Ao obter destaque a ponto de ter seu combate prévio em relação ao seu primeiro mundial transmitido pela TV Globo com direito à narração de Cléber Machado, coisa raríssima já naquela época pelo fato de o combate não envolver nenhum cinturão das quatro grandes entidades, conseguiu comprar uma nova casa para sua família, fiado, dependendo do desenrolar dos capítulos seguintes de sua vida para efetuar o pagamento.

Daí em diante, falar sobre Popó é mais do mesmo. O que falar do menino que confeccionava suas próprias sandálias com restos de borracha e cordas, suas primeiras luvas de boxe com espumas amarradas em um cadarço, que mesmo treinando em um ringue rente ao chão e com bases de concreto, alimentou seu sonho pautado pelo objetivo maior de uma vida melhor para si, para seus pais, irmãos e filhos? Não há o que se argumentar, não há o que se reprimir sobre a história de vida dele e de como alcançou o que sonhava durante tanto tempo.

Mas, sobre o boxe brasileiro, há sim. Sem Popó talvez nem estivéssemos aqui. Sem Popó, talvez não haveriam Yamaguchis, Esquivas ou Patricks. Quando este ascendeu ao cetro mundialista, nosso pugilismo já estava na UTI. A situação de viver o esporte de forma precária das maiores promessas da modalidade na época – ele mesmo e seu irmão, Luis Claudio, por exemplo – comprova isso.

Pois bem, ídolos, conforme discorremos anteriormente, forjam caráteres, servem de exemplo. Levam jovens, principalmente, a seguirem seus passos. Não é à toa a corrida que houve às quadras de tênis quando Guga venceu Rolland Garros. Porém este não é um esporte popular, praticável por qualquer pessoa, mesmo sem condições financeiras. Já com o boxe, a história é outra. Os maiores nomes deste esporte saíram das classes sociais mais prejudicadas. No boxe brasileiro, desde Miguel de Oliveira, não conseguíamos ter um exemplo, um campeão de verdade na grande mídia, para inspirar uma geração carente de ídolos no boxe, e carente de BONS exemplos no âmbito geral.

Peter Venâncio e Maguila, dentre outros, quase chegaram lá nesse ínterim, mas não adianta, brasileiro não gosta de esporte, brasileiro gosta de vencer, de gritar “é campeão”, e, portanto, nossa imprensa, infelizmente, acaba deixando muita gente sem dar o devido valor. Porém, Freitas conseguiu algo inconteste, um feito que obrigou a Tv Globo a exibi-lo, ao vivo, em seu apogeu das primeiras conquistas, e fez a mesma emissora se arrepender amargamente depois – pra quem não se recorda, ao ignorar as lutas de 2006, frente à Zahir Raheem, e 2007, versus Juan Diaz, a rede de televisão carioca perdeu, nas duas ocasiões, no IBOPE para a modesta Rede TV, que atingiu o primeiro lugar em audiência com ambos os eventos sendo transmitidos ao vivo.

Popó costuma afirmar que ele é um trabalho social que deu certo, e mesmo com pouco apoio acreditou no sucesso, enfrentou a fome, e com a força dos seus punhos se tornou nome falado em toda a mídia nacional e internacional. Era exatamente o que precisávamos para salvar o nosso esporte de luvas, na época, e inspirar uma geração inteira de jovens carentes. Se o boxe brasileiro hoje tem uma visibilidade gradativamente maior, retomando seu ápice, principalmente graças às TVs por assinatura, tenha certeza que ele foi fundamental para isso. Sem seu exemplo, nada disso hoje, aconteceria. Muita gente teria ficado sem o – raro – suporte que teve ao longo dos anos, e principalmente, o menino que o via na telinha, não teria tido o molde, não teria visto acontecer a história que o fez pensar “é possível”, que é exatamente o que move o pugilismo. Nosso material humano, sem dúvidas estaria defasado.

Acelino Freitas é ser humano, logo, tem defeitos. Erra. Acerta. Quando digo “ídolo”, não é o símbolo pagão do animal entalhado em ouro, não é o ser perfeito por quem devemos ter adoração, mas sim é o nosso norte, nosso modelo de objetivos, aquele a quem devemos alcançar, tomar como direção, até mesmo, quem sabe, superar. É a inspiração.

E se pudéssemos ter mais um dia do nosso ídolo? Mais uma teoria de Einstein? Mais um discurso de Luther King? Mais uma canção de John Lennon? Mais um gol de Pelé? Mais uma corrida de Ayrton Senna? Alguma dúvida se isto nos despertaria novamente a inspiração de que tanto precisamos para combater todos os nossos desafios, todas as nossas mazelas diárias, todos os leões que temos que matar todos os dias?

E se nossos exemplos voltassem, para nos inspirar, mais uma vez?

Pois é, dia 15 de Agosto está aí…

Pra cima dele, Popó!

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