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Publicado em 30 de Março de 2016 às 22h:10

O triste destino de Tommy Morrison

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Autor Daniel Leal


Campeão mundial, nocauteador, astro de cinema e parente de John Wayne, ele tinha tudo para ser uma estrela, mas terminou sua vida definhando em um hospital. Conheça uma trajetória que nem os mais criativos roteiristas de Hollywood conseguiriam inventar. (Imagem: ESPN.com)

Um lar destruído. Essa é a melhor definição do que foi o início da vida de Tommy Morrison. Sua mãe, Diana, acusada de assassinato nos anos 70, expulsou de casa seu pai, Tim, um bêbado inveterado, agressor e adúltero. Antes de deixar o lar, o progenitor de Tommy o influenciara a seguir os passos de seu irmão, Tim Jr. no pugilismo. Aquele que tornara-se sua maior referência esportiva, acabou preso acusado de estupro, ficando 15 anos em reclusão.

O jovem Morrison tinha tudo para não ser nada. Poderia ter virado um marginal qualquer. Quis o destino que, de uma forma, ou de outra, seu nome ficasse gravado. E ficou. Mesmo que pelos motivos bastante distantes dos ideais.

Tudo teve início  quando resolveu não só começar a boxear com apenas 10 anos, mas a mentir na idade para participar de torneios clandestinos, aos 13. Foi campeão regional do tradicional “Golden Gloves”, em Kansas City. Ainda que sem sucesso no torneio em âmbito nacional, venceu as eliminatórias olímpicas do Oeste americano para os Jogos de Seul, em 1988, mas teve este sonho quebrado por Ray Mercer, pugilista que reencontraria anos mais tarde no profissionalismo e que acabou conquistando o ouro nas Olimpíadas. Tommy saiu do amadorismo com um recorde reportado de 295-21, vencendo 273 vezes por nocaute.

Profissionalizou-se ao final daquele mesmo ano. Após 19 vitórias consecutivas, recebeu um convite que mudaria sua vida. Era 1989 e Sylvester Stallone procurava um ator para o 5º episódio da saga de Rocky Balboa quando assistiu a uma das lutas de Morrison. Foi aí que convidou o jovem pugilista para gravar o filme de 1990. Com o “sim” do boxeador, Stallone e Burt Young, que interpretava Paulie, o fiel escudeiro do Garanhão Italiano, adentraram junto ao atleta para seu combate frente a Lorenzo Cannady, em Nova Jersey, em Novembro de 89, visando gravar cenas para a película. Tommy sentiu a pressão da ocasião e não conseguiu boa performance, vencendo nos pontos apenas. Aquele era só o primeiro efeito de um fato: Com menos de 21 anos de idade, “The Duke”, como apelidou-se graças ao parentesco com o astro de cinema John Wayne, agora não era somente mais um bom prospecto dos pesos-pesados, era também Tommy “The Machine” Gunn.

Morrison interrompeu durante 6 meses sua carreira para gravar o longa, que foi um fiasco de crítica e quase enterrou um dos mais icônicos personagens do cinema. Ainda assim a exposição á que foi submetido e a divulgação do seu nome ajudaram Tommy a alçar maiores vôos. Pouco mais de um ano após o lançamento de “Rocky V”, ele teria a chance de estrelar uma programação em pay-per-view, válida por um título mundial. Era o ápice. Subiu ao ringue invicto em 28 contendas, tendo vencido todas, sendo 25 pela via rápida. Porém, entre ele e seu sonho estava ninguém menos do que o homem que lhe tirou a vaga na seleção americana na busca do sonho olímpico. Ray Mercer também não perdera como profissional até a noite de 18 de Outubro de 1991, no Centro de Convenções de Atlantic City e era o campeão mundial da categoria máxima pela Organização Mundial de Boxe. Assim adentrou ao quadrilátero e desta forma dele saiu.

Naquela noite, Mercer não só tiraria a invencibilidade de Tommy, como também lhe aplicaria um dos mais brutais nocautes da história do título dos pesados

Depois da primeira tentativa de cinturão, Morrison agora era tido como apenas o traidor de Balboa nas telonas. Para reverter essa situação e mostrar que era muito mais do que “Tommy Gunn”, engatou 8 êxitos por nocaute em sequência. Isso lhe assegurou mais uma chance, em Junho de 1993. Dessa vez, porém, a montanha a ser escalada parecia ainda mais alta do que seu antigo rival. O título da OMB não estava mais com Ray Mercer, estava vago, mas no córner oposto George Foreman, a lenda do pugilismo e das churrasqueiras elétricas, é quem estava a postos para buscar a glória mundial.


Imagem: Divulgação

Foram 12 rounds intensos aonde o plano de jogo de Tommy fez muita diferença. Sabendo da potência dos golpes de Foreman, porém também consciente de sua mobilidade reduzida aos 44 anos de idade, Morrison boxeou muito mais do que se engajou em trocas de golpes. Bateu e saiu, preocupado em atingir sem ser atingido. Ao soar final do gongo os juízes foram unânimes ao apontarem a vitória de Morrison. Ele, finalmente, detinha um cetro mundialista.

Como não poderia deixar de ser com Tommy, sua primeira defesa foi coisa de cinema. Sua equipe havia escalado Mike Williams, um antigo sparring, como seu adversário na primeira vez que colocaria seu reinado em jogo, pouco mais de 2 meses depois de conquistá-lo. Porém, por alguma razão, tanto Morrison quanto seu time não acreditavam que Williams subiria no ringue. Deixaram então Tim Tomashek de prontidão na Kemper Arena, em Kansas City. Não deu oura: Mike desistiu de lutar nos vestiários, e Tomashek foi, literalmente, tirado do meio da plateia para adentrar ao quadrilátero de cordas.

Mais de uma década depois do ocorrido, em 2004, o próprio Tommy explicou os fatos ao site DogHouse Boxing: “Foi uma combinação de coisas. Ele era um parceiro de sparring bem decente pra mim. Ele tinha alguns problemas pessoais na época e nós meio que tínhamos aquele sentimento de que ele não lutaria. Ele também estava assustado. Ele conseguia aguentar no sparring com luvas de 18 onças, mas com luvas de 10 onças numa luta eu ia arrebentá-lo. Nós tínhamos, então, um plano de contingência com o Tim Tomashek. Um monte de gente, e da forma como foi noticiado, pensava que nós havíamos simplesmente tirado um cara qualquer da plateia. Mas nós já tínhamos levado ele pra lá caso o Williams desistisse. Ele (Tomashek) tava lá tomando uma cerveja e alguém chegou e disse '‘você vai lutar’'.”

Após vencer Tomashek, começaram as especulações acerca de um enfrentamento unificatório contra o então campeão do Conselho Mundial de Boxe, Lennox Lewis. A superluta não saiu do papel pois, em Outubro de 93, dois meses após vencer Tim e menos de 5 meses depois de conquistar o tão almejado boldrié, Morrison acabou surpreendido por um desconhecido e inexperiente Michael Bennt. Ele foi nocauteado no primeiro round após cair três vezes em uma disputa que era considerada apenas um aquecimento para encarar Lewis em Dezembro.

Com um tombo gigantesco em sua conta, era de se esperar uma certa irregularidade em sua carreira dali para frente. Em sete apresentações contra lutadores de nível mediano para baixo, venceu seis, empatando com o fraco Ross Purity em Julho de 94. Para provar que ainda pertencia a um escalão competitivo, Morrison necessitava vencer e convencer diante de um oponente duro. Em Junho de 1995 essa chance veio contra Donovan “Razor” Ruddock, que das 4 derrotas sofridas até então, 3 haviam saído das mãos de lendas do pugilismo (duas para Mike Tyson, sendo uma apenas nos pontos, e a outra diante de Lennox Lewis).

Em um embate em que ambos os contendores sofreram knockdowns, Tommy conseguiu a interrupção das ações a seu favor durante o sexto giro. Era a vitória da qual necessitava para conseguir voltar aos holofotes. E foi assim que, finalmente, pôde subir ao tablado com Lennox. O legendário britânico havia perdido seu cinturão para Oliver McCall cerca de um ano antes, e buscava emplacar a terceira vitória seguida.

O problema é que os quatro meses entre a luta contra Ruddock e esta não foram suficientes para que Tommy pudesse passar à ser páreo para um monstro dos ringues como Lewis. Após ser derrubado 4 vezes e não aplicar nem metade dos punches que sofreu, Morrison foi derrotado por nocaute técnico durante o 6º intervalo. Sua vida desandaria a partir daquele momento.


Imagem: Donna Connor

Mulheres, irresponsabilidade e HIV

Em 1996, o antigo astro da franquia “Rocky” ainda buscava redenção, porém sem largar os prazeres mundanos e os contatos que o levariam ao fundo do poço. Em um ponto daquele ano, Morrison chegou a estar casado com duas mulheres ao mesmo tempo, e elas tinham o mesmo nome: “Dawn”, uma de sobrenome Freeman e outra de sobrenome Gilbert. Ainda assim, elas não eram suficientes.

Ele tinha enfrentamento agendado contra Arthur Weathers, em Las Vegas, para o primeiro trimestre e conversas avançadas com Don King para um contrato milionário de promoção que culminaria em um megaevento aonde combateria ninguém menos do que Mike Tyson. A Comissão Atlética de Nevada, então, informou que sua licença estava suspensa. A causa? Os exames periódicos para a manutenção da mesma haviam apontado a presença do vírus HIV em seu sangue. Em contraprova particular feita por seu médico, o resultado fora o mesmo: Positivo. Tommy anunciou no dia 15 de Fevereiro que era soropositivo, graças a um “estilo de vida imediatista, permissivo e inconsequente”, segundo suas próprias palavras.

Apesar de ter dito que não se apresentaria mais, conseguiu convencer Marcus Rhode à encará-lo em Novembro daquele ano, no Japão, com renda revertida para um projeto em benefício das vítimas da AIDS. Com regras modificadas, nenhum dos dois poderia sangrar no ringue, ou a luta seria interrompida, independente da causa. Não foi necessário, pois Morrison venceu após aplicar três quedas em Rhodes já no primeiro assalto, naquela que fora, até então, a única luta da história envolvendo um atleta contaminado pelo HIV.

No ostracismo e aposentado de forma forçada aos 27 anos, Tommy se jogou no mundo. Teve problemas com drogas e posse ilegal de armas acabando preso por 14 meses. Concebeu uma filha, sem o vírus. Em 2006, aos 38 anos, chocou o mundo ao se declarar livre de qualquer carga viral em seu sangue. Ele alegava que seus exames anteriores mostraram um “falso positivo”, dando como justificativa o uso de esteroides na época, o que alteraria o resultado. A Comissão de Nevada foi enfática ao dizer que isso era impossível.

Em 2007, fez 4 exames negativos para HIV e foi autorizado a lutar em West Virginia. Venceu um desconhecido John Castle por nocaute no segundo round e trouxe para si uma polêmica gigantesca. Teria sido ele, ou não, vitima de um resultado errôneo? O New York Times conduziu exames para averiguação, afirmou que eram verdadeiros e que Morrison não era mais portador de nenhum vírus. Novamente Nevada retrucou. Seus comissários e médicos duvidaram que aquele sangue seria, efetivamente, de Tommy.

Com todas as dúvidas sobre seu real estado de saúde, só voltou aos quadriláteros um ano depois de bater Castle. Em Fevereiro de 2008 derrotou Matt Weishaar, no México, aonde exames de HIV não foram exigidos. Naquela noite ostentava próteses de silicone no peitoral para parecer mais forte e ameaçador, mas elas precisaram ser retiradas pouco tempo depois. Seria seu último combate nos ringues, mas não na vida.

Idas e vindas quanto a sua “cura” marcaram Morrison durante anos. Em 2011, chegou à ter evento agendado para o Canadá, mas a província de Quebéc exigiu coletas sanguíneas presenciais para liberá-lo. Tommy recusou fazê-las alegando que estes procedimentos eram iguais aos de Nevada, e convidou a comissão local à acompanhá-lo em um exame aberto ao público, o que nunca ocorreu.

Em Agosto de 2013 sua mãe, Diana, revelou que seu filho estava acamado á cerca de um ano e em fase terminal. Ela afirmou que a causa de seu estado crítico era AIDS. Sua esposa na ocasião, Trisha Morrison, discordava. Ela afirmava o mesmo que Tommy quanto à doença: “Não existe, e é uma conspiração”. Também dizia que não seria possível seu marido ser soropositivo e ela nunca ter pego a doença.

A dura realidade é que, no mês seguinte, no hospital municipal de Nebraska, Tommy Morrison faleceu após ataque cardíaco causado por um choque séptico, devido à uma grave infecção.

Ele se foi, mas seus filhos seguiram seu caminho…


Jamez Morrison (esq.) e Trey Lippe (dir.) treinam juntos para seguirem caminho do pai.
(Imagem: tulsaworld.com)
 

Filhos de mães distintas, os pesos-pesados James McKenzie Morrison (7-0-1, 6 ko's), de 25 anos e Trey Lippe (11-0, 11 ko's), de 26, seguem os passos de seu pai. Separados por apenas 10 meses de diferença, se conhecem desde pequenos e treinam juntos. Ambos tem consciência de que estão nos ringues para honrar o sobrenome que carregam.

"Nós achamos que seria legal para nós e para honrar o nome do nosso pai e dar uma chance, nós nos juntamos novamente com todo esse negócio de boxe" , declarou McKenzie.

Enquanto James encarou oponentes mais modestos, Trey parece ter a carreira em passos mais adiantados. Nenhum ainda possui grandes feitos. Ambos começaram no pugilismo profissional após a morte do pai. Independente do êxito que tenham, ou não, daqui para frente, é bom que tomem seu progenitor como um exemplo do que evitar para terem sucesso.

Tommy Morrison foi um dos maiores casos de desperdício de talento já ocorridos na história do boxe. Se focado e bem orientado poderia ter feito muito mais do que alcançou. Pugilista de pegada dura, um ótimo cruzado de esquerda e com valentia elogiável, ainda tinha muito a alcançar quando foi pego de surpresa pelas duras consequências de seus próprios atos. Vindo de uma infância dolorosa e sem base familiar, acabou sucumbindo.

De qualquer forma, sua história, do início, ao fim, tem mais reviravoltas do que qualquer filme vencedor do Oscar. Que “Tommy Gunn” e sua trajetória jamais sejam esquecidos.

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