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Publicado em 03 de Maio de 2016 às 14h:58

Os Pilares do Boxe

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Autor Victor Violi

Todo esporte possui seus pilares, suas bases, seus sustentáculos, de onde nascem todos os detalhes posteriores que, por fim, formam um grande campeão. Quando se vê um boxeador acertando o outro repetidas vezes, ele não chegou a esse fim apenas por atirar suas mãos em direção ao oponente. O que se passa por trás desse resultado final, o desenvolvimento de todo esse processo é o objeto desse texto, ou seja, os princípios formadores da arte do Pugilismo, sem os quais ficaria muito difícil se construir algo. O objetivo aqui não é esgotar um assunto tão amplo, tampouco tem a pretensão de doutrinar os leitores como se fosse uma verdade absoluta. São apenas opiniões de um entusiasta, praticante e pesquisador do esporte. Acredito que existe uma lacuna muito grande, em português principalmente, de discussões a respeito de temas técnicos que envolvem a Nobre Arte. Portanto com o propósito de estimular mais conversas nesse sentido tento dar minha pequena contribuição com o que tenho observado em anos de estudo.

Por certo o Boxe parece simples, na verdade realmente é, mas luta-lo bem, não é. Requer inúmeras particularidades que devem se relacionar em harmonia. Durante a riquíssima história desta modalidade é possível perceber que há coisas em comum na maioria absoluta dos mais fantásticos pugilistas que já lutaram. E como o Boxe é um esporte bastante delimitado no sentido de que você só pode usar seus dois punhos para atingir e pontuar, isso tem como consequência a formação de um especialista nesta arte de golpear! Mesmo que você só possa acertar alguém usando suas mãos a verdade é que, os dois punhos são apenas a parte final de tudo.  O que o fez completar a missão de acertar mais vezes o adversário do que ser acertado?

"To Hit And Not Get Hit" - como diz um dos ditados mais famosos deste esporte.

Certamente, como uma pirâmide, se não houver uma série de princípios básicos que se interligam, que funcionam como um firme suporte para o resto, o resultado será deficiente. Acredito que estes são: Postura e Técnica de golpe; Jab, Movimentação e Defesa.

POSTURA E TÉCNICA DE GOLPE

A Postura

Se você nunca treinou Boxe antes e começar agora, a maioria dos professores te alertará sobre a “base” em primeiro lugar. Simplesmente a sua postura de luta. Perna e mão esquerda a frente se for destro, e vice-versa, como todos sabem. Pernas ligeiramente flexionadas e punhos prontamente levantados. O já falecido Don Familton, um treinador da velha guarda do boxe americano, sugere uma postura sutilmente lateral, com as mão levantadas em que o dedão da mão esquerda aponta mais ou menos para o ombro esquerdo e o dedão direito aponta mais ou menos para seu próprio queixo. Outros sugerem uma postura mais frontal com as duas mãos mais próximas do rosto. Há diversas variações, tudo depende do professor, da escola do país, ou região, enfim, detalhes mudam radicalmente, mesmo entre alguns estados americanos. Acredito que cada boxeador acaba se adaptando com o tempo ao que lhe deixa mais à vontade, não existindo um modo definitivo. Mas, acima de tudo, seja qual for o posicionamento do corpo e mãos, sua base corporal deve estar firme a todo momento, com uma distribuição de peso adequada para andar e soltar golpes sem se desequilibrar, sem cruzar as pernas. Sem “levar a perna junto”, como já disse Éder Jofre:

“O negócio é que, se a gente leva a perna junto, se desequilibra. Foi o que aconteceu com o João Henrique nessa última luta com o Bruno Arcari. Ele foi nas cordas bateu e, quando vinha voltando, ficou com as duas pernas juntas, na mesma linha. O Bruno Arcari pegou bem no queixo dele e o João, andando para trás, não conseguiu recuperar o equilíbrio.” - Éder Jofre, Revista PLACAR, 15 de Dezembro de 1972

O alinhamento de pernas para o equilíbrio perfeito é sempre um meio termo, sem muita separação entre elas mas também sem colocá-las muito juntas. Não é por acaso que o maior pugilista de todos os tempos, Sugar Ray Robinson, era um dançarino quando não estava boxeando: Ele sabia se coordenar enquanto caminhava, se mover, sem cair.Ainda, é importante, ou melhor, obrigatório para a postura correta de um boxeador se tornar um alvo menor, ou seja, encolher-se com o queixo próximo do peito, e levantar os ombros sutilmente, por motivos óbvios defensivos. Enfim, não se tornar um alvo grande. Mãos próximas do rosto, prontas para defender e soltar golpes, e a postura mais recomendada e vista entre os bons boxeadores está estabelecida.


Teofilo Stevenson, um dos maiores senão o maior boxeador cubano de todos os tempos usando uma postura mais lateral, dando ao adversário um "alvo pela metade". Note como sua mão esquerda está próxima do adversário, e como sua cabeça está longe, compare com a postura frontal do seu oponente. Deste modo, ele, que tinha uma grande envergadura, podia se beneficiar mais do uso do jab e tinha uma melhor defesa por si só. Totalmente diferente de alguém como Tyson, que com um estilo completamente oposto, se posicionava mais frontalmente, com as mãos na frente do queixo.(Imagem: IBHOF)

Técnica de Golpe

"Você tá vendo ? Curto!" - Eder Jofre

Após a sua base estar assegurada, acredito que a técnica de desferimento de golpes é uma consequência natural, e quanto mais bem distribuído for seu peso corporal, melhor será seu soco. Se você observar os grandes expoentes do nosso esporte poderá perceber que a maioria deles tem uma técnica de golpemento muito boa, pra dizer o mínimo e, na minha opinião, acaba por ser um dos grandes diferenciais para alguém se tornar um pugilista excelente. Esqueça velocidade e precisão por um momento, o modo como você desfere o golpe faz toda a diferença no acertar e não ser acertado.

Punches são bem colocados quando alguém domina a arte de soltá-los de maneira compacta. Principalmente os golpes curvos, quanto mais curtos melhor, conforme Eder Jofre ensina. Isto tem consequências ofensivas e defensivas, pois, quanto mais compacto for seu golpe, mais difícil fica para alguém contragolpeá-lo, e o contrário também é verdadeiro, uma vez que um golpe aberto é mais fácil de ser antecipado pelo oponente.

Eventualmente aparecem exemplos de lutadores que não possuem uma técnica tão plástica e apurada a primeira vista, mas mesmo esses pugilistas têm uma rotação de cintura, do tronco, que os faz desferir golpes de maneira fluida. Como exemplo aponto George Foreman, especialmente o já veterano, que, apesar de não possuir a técnica de golpes de um Joe Louis, conseguia de maneira fácil lançar seus punhos com o giro de corpo que lhe dava o mínimo aceitável nesse quesito no alto nível mundial. Para ilustrar ainda mais, exemplos contrastantes são Julio Cesar Chavez (dono de uma técnica de golpes perfeita) e Ricardo Mayorga (pouco técnico nesse aspecto), ou Joe Louis (em termos de Pesados o melhor nesse sentido) e Vitali Klitschko.

Compactação também significa jogá-lo da distância correta. Vamos tomar o uppercut como exemplo. É um golpe de curto alcance. Veja a luta entre Holyfield e Buster Douglas. Note como um upper inalcançável pode abrir brechas para seu adversário definir a contenda.
Conforme já dito, todos esses "pilares do boxe" estão interligados, ou seja, se você não estiver posicionado na melhor postura sua técnica de golpe sofrerá assim como o resto, que desenvolverei mais adiante. Outro adicional que faz a técnica de golpe melhorar extraordinariamente é a flexibilidade muscular de um boxeador. É perceptível que todos os que golpeiam com grande fluidez tem uma musculatura, vamos dizer "solta",  seria a ginga de um bom dançarino comparado a um com "cintura-dura". Isso faz com que a rotação do corpo com o golpe seja mais facilitada. Movimentos corporais naturais, leves, com fluidez, ou simplesmente golpear com o giro de seu corpo, e não do braço como Alexis Arguello, Terry Norris, JC Chavez, etc. A "fluidez" já mencionada é bem ilustrada nos ganchos de esquerda de Tommy Morrison, músculos do braço relaxados, sem tensão:

O nocaute de Vincent Pettway contra Simon Brown, também é um bom exemplo de alguém usando a rotação do corpo com naturalidade, de compactação de um golpe (no caso também um gancho de esquerda) dando o mínimo tempo de reação possível ao outro boxeador e nenhum espaço para defesa.

Eu chamaria esses dois primeiros itens como os mais elementares para entender como funciona toda a mecânica por trás da Nobre Arte.

O Jab

"O Boxe é fácil.... se você tiver um jab!" - George Foreman

Após essa breve introdução com o que há de mais básico, em minha opinião, vamos a um ponto inicial específico: O jab.

Na Nobre Arte, um lutador pode controlar uma luta se ele controlar a distância. A noção de distância que um boxeador tem quando encarando outro, é algo que decide lutas. Alguns lutadores têm isso como que se fosse uma habilidade inata, um talento próprio, como Muhammad Ali e Roy Jones Jr, mas esses eram exceções. O controle da distância é algo que vem de acordo com a experiência, a vivência dentro dos ringues. Ter um jab sólido é fundamental nesse processo, ele é um controlador de distância como nenhum outro. Por essas e outras decidi separar-lo como um quesito próprio.

Não o considero um golpe isolado, como um gancho de esquerda, ou um uppercut, ou um direto. O jab é mais que esses golpes, é um artifício tanto de defesa, como de ataque, conforme veremos. Nenhum outro golpe pode ser usado de tantas maneiras e para tantos intuitos.
É, sem nenhuma dúvida, o golpe mais importante do Boxe. Tudo está interligado, e uma postura adequada vai lhe proporcionar o melhor terreno para um jab melhor, que por sua vez deve vir acompanhado de uma técnica ao mínimo decente para lançá-lo. Com a postura adequada você estará sempre em uma boa posição para soltar um jab, independentemente de estar recuando, atacando ou circulando, é um golpe relativamente simples, pouco comprometedor (se desferido da maneira correta) do ponto de vista defensivo.
Basicamente falando um bom jab é aquele em que o boxeador não se expõe, ou, pelo menos, se expõe o mínimo possível, e atinge o objetivo traçado. Se expor pouco, através de uma proteção maior, levantando um pouco o ombro, sutilmente criando um pequeno escudo, sendo rápido no desferimento, ao mesmo tempo que sem tensão nos braços, voltando à guarda em linha reta, imediatamente. Soltando um bom jab, é possível frear a investida de um lutador muito agressivo, com jabs sucessivos o adversário acaba por ficar desencorajado, assim como pouco poderá fazer para preparar um ataque, uma vez que, continuamente, será ocupado com um jab no rosto.


Um exemplo de um jab tecnicamente perfeito, por Thomas Hearns. Repare como o seu ombro cria um escudo próprio para seu queixo (Imagem: InFighting.ca)

E ainda, defensivamente falando, o jab também pode ser um fim de uma combinação, pode funcionar como uma saída segura após uma sequência de golpes. Um jab no final da combinação, na maioria das vezes, vai frustrar qualquer tentativa de contragolpe por parte de seu adversário. Um dos grandes utilizadores dessa pequena tática era Roberto Duran, na atualidade temos Sergey Kovalev.

Ofensivamente, o jab tem tanta, senão ainda mais, utilidade. Primeiramente como um preparador de golpes. Acertar um golpe de força sem usar um jab anteriormente é uma tarefa muito mais difícil. É ele o responsável por medir a distância para os socos potentes. Por exemplo, quando enfrentando alguém muito esquivo, com rápido jogo de pernas, o boxeador jamais acertará um golpe certeiro sem uma preparação de jab, o Jab Duplo, na verdade, é uma boa saída em uma situação como essa, afinal, com dois jabs, há uma garantia maior do que com o jab isolado.

Além disso, me lembro de Teddy Atlas, analista da ESPN e treinador, em uma transmissão, dizendo que, quando de frente para um lutador como esse, defensivo, de muitos movimentos de cabeça, o indicado não era mirar em sua cabeça, um alvo tão traiçoeiro, e sim no peito, no pescoço, enfim, algo estático, para a partir daí medir a distância e/ou preparar sua sequência.

Um objetivo bem secundário, mas usado por alguns lutadores, é o jab como um golpe de poder, George Foreman chegou a nocautear adversários com o jab. Wladimir Klistchko o usa em diversas ocasiões.


Wladimir Klitschko desferindo um jab duro, com a intenção de machucar o oponente. (Imagem: 1.bp.blogspot.com)

Jabs de força no ombro dos adversários têm se mostrado úteis ao longo da história também, como forma de desequilibrar assim como de machucar. Roy Jones Jr e Floyd Mayweather Jr são dois lutadores que já usaram de tal tática algumas vezes.
Para pugilistas menores, o jab fica limitado quanto ao controle de longa distância, mas é, do mesmo modo, utilizável como um controlador de ações, e preparador de golpes de poder. Mesmo alguém com uma envergadura de 1,70m, como Rocky Marciano, usava o jab como se vê no que foi sua luta mais importante, a primeira contra Jersey Joe Walcott.

Mike Tyson muitas vezes fintava com um "jab falso" para acertar sua direita e conseguir o nocaute. Falo em "jab falso" e nada exemplifica melhor o Jab usado como um engodo como o Jab no Corpo, uma das principais armas para enganar um adversário. Um jab no corpo pode levar a um golpe na cabeça em sequência. Seu oponente reagirá à investida no corpo e deixará mais espaço na cabeça. Todavia, mesmo que o engano seja a maior utilidade do jab no corpo, este pode ser útil como uma forma de "quebrar" o equilíbrio de seu oponente, se desferido com uma maior precisão, muito mais que um jab alto, como se vê nesta luta de Floyd Mayweather Jr.

São essas razões que fazem possível se dizer que quem domina o jab no Boxe pode dominar defesa e ataque. Muitas pessoas reclamavam durante o reinado de Wladimir Kltischko que ele "só tinha jab e direto", mas a realidade é que isso não é pouco, vários boxeadores baseavam todo o seu jogo neste golpe multiúso, majoritariamente, e acabaram por se tornar grandes campeões.

Movimentação: O uso das pernas

Como dito no início, acredito que todas as coisas se relacionam no Boxe, nada é independente, e tendo uma boa postura que favorece o equilíbrio, o lutador será sempre capaz de se mover com mais facilidade dentro do quadrilátero. São dois pontos indivisíveis. Acredito que “movimentação” seja o nome mais correto quando estamos a tratar do uso das pernas de um lutador, um termo que abrange mais, em um tema que acaba por ser vasto.

Já "footwork" como se diz em inglês o "trabalho/jogo de pernas" é uma delimitação deste termo na minha visão, pois é, na maioria esmagadora das vezes, usado pelas pessoas para denominar um tipo de uso de pernas, o defensivo, nunca para outras funções. Inicialmente, há que se falar que qualquer um pode correr ao redor do ringue para que o adversário não o alcance. Mas movimentar-se bem, no Boxe, é muito mais que isso. O objetivo principal é, antes de mais nada, não ser um alvo estático para seu adversário. Mas, existe um verbo chave neste tópico: conciliar.

Afinal, o boxeador anda para se afastar do golpe, não se tornar um alvo estático e fácil, porém, ao mesmo tempo, não pode se afastar tanto do adversário a ponto de fazer com que sua ofensividade seja anulada por isso. Ele não ganhará uma luta apenas se distanciando do outro. Desta maneira, o caminhar de um boxeador tem que ser moderado, equilibrado, proporcional. Precisa conciliar ataque e defesa. Quando defendendo-se de um golpe a distância não pode ser grande de modo a fazer com que um contragolpe imediato seja inatingível.
Atualmente temos poucos exemplos de lutadores com uma movimentação exemplar, mas se formos olhar para lutadores de um tempo não muito distante teremos alguém como Pernell Whitaker, um mestre na arte de caminhar pelo ringue sem que isso prejudicasse sua efetividade no ataque. Em síntese, é andar para os lugares certos nas horas certas. Pode parecer uma frase feita, sem grande conteúdo, mas lhes dou um grande exemplo para que esta frase seja esclarecida de maneira simples: Bernard Hopkins vs Kelly Pavlik.

Pavlik possuia uma temida mão direita, com a qual havia nocauteado vários adversários, mas um gancho de esquerda pouco produtivo. A estratégia primária de movimentação de Hopkins foi de mover-se para o lado direito, aumentando sempre à distância de sua cabeça para a mão direita de Pavlik. Todas as vezes que Pavlik esboçava uma investida, Hopkins circulava para a direita, fugindo do temido golpe de Kelly Pavlik. Se movimentava, então, para o lado certo, na hora certa.

Outro caso comumente visto é o boxeador destro fugindo da mão esquerda do pugilista canhoto, andando para a esquerda. Movimentos defensivos simples, com o uso de puro raciocínio, mais do que qualquer rapidez de pés ou atributo físico. São esses deslocamentos que fazem a eficiência ofensiva do adversário bastante reduzida, e se enquadram como um bom uso de pernas. Tem-se a visão de que somente aqueles que caminham com muita velocidade, como Muhammad Ali, ou atualmente Vasyl Lomachenko, são exemplos de bom uso das pernas, o que não, necessariamente, verdadeiro.

Igualmente, todos os boxeadores ofensivos precisam de um bom uso das pernas para bem usar suas armas de ataque. A movimentação ofensiva é simplesmente o modo como se encurrala o adversário, a famosa frase de Joe Louis "Eles podem correr, mas não se esconder" exemplifica bem o espírito do jogo de pernas ofensivo, colocar o adversário contra as cordas, no canto do ringue, são objetivos de lutadores agressivos e isto pode ser feito através de uma movimentação. A cena clássica de Rocky II, quando Mick obriga Rocky Balboa a pegar uma galinha em um beco, demonstra a mentalidade da técnica em questão (técnicas de treinamentos inócuas do filme à parte). É "cortar" o ringue como dizem os americanos. Essa movimentação aliada ao já explicado jab ofensivo, fazia de boxeadores como Jack Dempsey, máquinas de ataque extremamente competentes. Levar o oponente ao córner é um dos objetivos mais desejados dos lutadores de ataque. Outros expoentes nessa técnica são nomes como Roberto Duran, George Foreman, Mike Tyson, e atualmente Gennady Golovkin(também um ótimo exemplo de jab ofensivo).

Uma temática adicional à movimentação, para o ataque, importantíssima para a eficiência e que pode ser destacada também, mesmo não sendo o que se tem em mente quando se comenta sobre as pernas de um boxeador, mas que não deixa de encaixar-se como um bom uso das pernas, é a busca de ângulos para bater, que só pode ser feita com pequenos passos laterais, estrategicamente. Manny Pacquiao sempre foi um expert nesse detalhe, Lomachenko atualmente se destaca por essas buscas por ângulos quando atacando, e Mike Tyson também é outro que sempre soube usar tal fundamento para finalizar suas luta. Um dos maiores exemplos é seu nocaute contra Buster Mathis Jr. Tyson dá um passo para a sua esquerda para ficar em uma posição mais apropriada para desferir um upper tecnicamente adequado. Novamente, tudo está interligado, é a técnica de golpe aliada a movimentação. Foi esse deslocamento lateral que deu ao uppercut de direita mais pressão e impacto, já que Mike se posicionou de modo que seu corpo teve mais espaço para ser totalmente usado e interferir na potência do golpe.

A pergunta que um boxeador tem que responder é: Quão úteis são suas pernas para a frase "To Hit And Not Get Hit" ser cumprida ? Tanto do ponto de vista defensivo como no ofensivo, suas pernas são os vetores do seu sucesso na hora de sair de um golpe, e na hora de acertar um bom golpe.  No fim das contas, a movimentação é um balanço entre defesa e ataque, um ponto de equilíbrio entre as duas facetas do jogo.

DEFESA

"A garantia contra a derrota implica táticas defensivas" - Sun Tzu, em  "A Arte Da Guerra".

A defesa deve ser priorizada, com o fim de manter suas chances seguras para desenvolver melhor o seu ataque depois. Assim sendo, após Postura, Técnica de Golpe, Jab e Movimentação, acredito que o caminho seja falar sobre Defesa, no geral. Reforça-se aqui que o jab e a movimentação podem ser usados como recursos defensivos muito eficazes. Sugar Ray Robinson é criticado por supostamente possuir uma defesa falha, mas a verdade é que suas pernas eram sua defesa, o modo como Robinson se movia pelo ringue era uma defesa por si só. Do mesmo modo, Larry Holmes e Lennox Lewis, principalmente Lewis, que mantinham as mãos baixas, não esquivavam golpes com movimentos de cabeça, mas usavam o jab defensivamente, freavam os adversários e os controlavam através de jabs.

Mas, a defesa primária de um boxeador são as suas próprias mãos em guarda. É a maneira mais básica e fácil de se defender. Contudo a maioria dos grandes boxeadores usa os movimentos de cabeça, e corporais, como principal forma de defesa. Eventualmente surgem os que bloqueiam golpes com a guarda na frente do rosto o tempo todo, como Winky Wright ou Marlon Starling, mas a maior parte a usa em uma circunstância específica no ringue, geralmente na curta distância, já que usá-la para bloquear golpes também na longa distância pode ser cansativo demais se estamos falando de um boxeador profissional ao longo de 12 rounds. Além do fato de ser algo que, como pode ser visto no meu artigo anterior sobre Mike Tyson, tira a eficiência dos contra-golpes, com a transição defesa-ataque ficando, certamente, mais lenta.

Há também o que se chama em inglês de "parrying", técnica pouco usada fora dos EUA, que consiste em interceptar os golpes do adversário com a sua luva, ou com a palma de sua luva, algo muito usado por Joe Louis, e nos tempos mais modernos por Oscar de la Hoya, Evander Holyfield, Mike McCallum entre diversos outros, como podemos ver no video abaixo:

Além do mais a defesa pode ser construída dependendo da postura de luta.  George Benton, um boxeador americano dos anos 50, usava a postura lateral, conforme já explanado no tópico da postura. Ele dava ao oponente a "metade de um alvo", e usava a técnica de interceptação com a mão direita, o "parrying", para interromper a trajetória das mãos do adversário enquanto usava o ombro para proteger a sua dianteira. Essa postura defensiva o fazia um grande 'jabeador' assim como um alvo escorregadio. Uma postura que conforme Bernard Hopkins disse certa vez, lembra um guerreiro medieval, que carregava uma espada em uma mão e um escudo na outra.

É possível perceber o uso do "shoulder roll" no estilo de Benton também, muito na "moda" em tempos recentes por causa de Floyd Mayweather Jr, onde o ombro funciona como uma barreira natural e gira junto com o golpe do adversário, tendo quase nenhum impacto na cabeça, se feito no tempo certo. Essa técnica, como dito, foi mais popularizada por Mayweather, mas sempre foi usada, desde os primórdios do Boxe.

Pois bem, a respeito de interceptação de golpes com a mão, de esquivas, de giro do ombro, enfim, dos meios de defesa praticados, é importante que se tenha uma base histórica para entender essas técnicas e como se popularizaram no meio pugilístico.  Se você observar as lutas bem antigas (veja a foto de Jack Johnson abaixo) algo que se vê é que as luvas são bem menores. O enchimento das luvas dos anos  10, 20 e 30 era risível perto das de hoje.

Compare isso com as luvas de hoje:

Isso refletia em uma eficiência bem menor da guarda alta como modo de defender os golpes, com luvas pequenas pouco se cobria com as mãos na frente do rosto. Mesmo que o golpe fosse bloqueado, quase nunca era totalmente, ao menos um impacto parcial o pugilista sofreria, naturalmente isso mudaria com luvas de 10 onças. Portanto, naqueles dias, as técnicas mais usadas de defesa eram os movimentos de cabeça para esquivar, e, principalmente, a interceptação dos golpes com as mãos, o "parrying", em inglês, e se desenvolveram nestas épocas, sendo perfeitamente úteis também no Boxe moderno, sendo De La Hoya, talvez, o maior exemplo recente de alguém que interceptava os golpes do oponente com as luvas para defender de maneira brilhante.

Acredito que o que Eder Jofre, Mike Tyson e outros sempre fizeram é o ideal. Eles sempre se valeram de suas esquivas como defesa, foi o que os fez lutadores defensivamente sólidos, mas Eder e Tyson poucas vezes eram pegos com as mãos baixas, principalmente Tyson.
Há uma hora certa para todas as técnicas no Boxe, e na defesa não é diferente. Nisso os cubanos são os melhores, já que seus grandes boxeadores, mesmo no amadorismo, usam vários tipos de defesas, versáteis. Guillermo Rigondeaux não deixa de se proteger com a guarda quando necessário, nem por isso se retém exclusivamente a este recurso, sendo um boxeador com excelente esquiva para conectar seus contragolpes logo após.

Enfim, é importante que se tenha em mente que a defesa é, na maioria das vezes, mais difícil de se dominar do que o ataque, mas também deve-se lembrar que esta necessita ser priorizada. Um lutador sem uma boa defesa, mesmo que seja excepcional na sua ofensiva, acaba por sofrer consequências graves em sua integridade física, por mais duro que seja. Lutadores que negligenciam a defesa, em quase todos os esportes de combate, acabam sofrendo por um tremendo encurtamento de sua vida útil de atleta.Com bom jogo de pernas, um jab ativo, guarda e esquivas, uma defesa sólida está pronta. E uma dica básica se mostra útil:

"Nunca feche os seus olhos; não importa qual golpe está vindo ou qual golpe você está soltando." - Jack Dempsey, em seu livro "Championship Boxing"

Conclusão

Acredito que os detalhes acessórios, de muita importância também, crescem com firmeza a partir dessas noções, tais como fintas na hora de atacar, combinações, infighting, golpes na linha de cintura, etc, importantes mas que não podem ser considerados basilares. Por exemplo Muhammad Ali, para a maioria, o maior peso pesado de todos os tempos, não possuía golpes no corpo ou uma boa técnica no infighting. Floyd Mayweather Jr venceu inúmeras lutas sendo um lutador que praticamente não usava combinações (embora quando bem novo, em início de carreira, ele fosse um bom combinador de golpes). Entretanto ambos possuíam as bases de seu boxe bem estabelecidas. Mesmo que a defesa de Ali fosse baseada quase que exclusivamente nos seus reflexos apurados, ainda assim era uma defesa (formada por movimentos corporais muito próprios).

Dito isso, por razões explicadas nesse texto, penso que, antes de mais nada, um grande boxeador precisa possuir os "Pilares do Boxe".

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