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Publicado em 17 de Fevereiro de 2016 às 19h:54

Pacquiao se esqueceu que tem fãs gays e perdeu patrocínio da Nike

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Autor Daniel Leal


Astro filipino perdeu contato com a marca após declarações sobre homossexualismo. E essa pode ser a menor das consequências… (Imagem: Nike)

Eu literalmente não me importo, minimamente, com o que Manny Pacquiao pensa a respeito de pessoas gays. É um assunto com o qual não poderia me preocupar menos. Se houvesse um link na minha timeline do facebook escrito “clique aqui e saiba o que Manny pensa sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo”, passaria batido. Não muda nada na minha vida esta informação.

Só existe um porém nessa história: Eu não sou gay.

Talvez por isso que não me importe nem um pouco se Pacquiao acha certo ou errado que homossexuais possam se casar. Porém, há um princípio com o qual gosto de levar alguns assuntos que vejo. Este princípio se chama EMPATIA.

Sou fã de boxe desde pequeno, e como todo cara que aprecia a nobre arte, admiro muito o multicampeão que é, e sempre vai ser, Manny Pacquiao. O que me interessa a respeito dele é o que ele faz em cima do ringue. Ponto. Mas e se, do nada, ele desse uma declaração dizendo que, para ele, brasileiros são a escória do mundo e merecem morrer? Certamente, no mínimo, eu perderia boa parte do respeito por este cidadão, da admiração que talvez tenha por sua pessoa. Dificilmente deixaria de ver suas lutas, por gostar tanto do pugliato, mas, com toda certeza, torceria para vê-lo apanhar.

Acontece que, nesta hipótese colocada à cima, eu também deixaria de consumir qualquer coisa relacionada ao atleta. Quer um exemplo? Um determinado ator e diretor de uma grande rede costumava muito vir a Santos trazendo suas peças, que sempre foram sucesso. Quando eu era mais jovem, não perdia um programa semanal de humor aos domingos do qual o mesmo fazia parte, gostava do trabalho do dito ator e tinha curiosidade para ver suas apresentações, que todos diziam ser muito engraçadas e/ou de muita qualidade. Acontece que ele resolveu, um dia, do nada, dizer por aí que Santos, a minha cidade, onde nasci e cresci e de onde ele tirava parte de seu sustento, era “suja e só tinha putas” (com estas palavras). Hoje eu até suporto vê-lo na tela da TV, mas jamais gastaria meu dinheiro para ver os shows que ele continua trazendo para a cidade que ele considera tão ruim, infestada de prostitutas. Ele desculpou-se depois, mas para mim, o estrago já estava feito.

Quando Manny Pacquiao, estupidamente, diz que “no mundo animal não existe homossexualismo, então pessoas assim são piores que animais”, não há pedido de desculpas que mude isso no coração do fã. Até aí, o problema seria apenas entre os dois, não fosse um detalhe: Boxe é entretenimento e não existe sem os fãs. Sem eles a renda de Pacquiao seria de 0(zero) reais por mês. Sem eles também, nem que seja apenas uma parte, as vendas da Nike nos produtos relacionados ao ex-campeão mundial caem. E uma das marcas mais conectadas ao público LGBT nos EUA talvez não queira ter sob contrato um garoto-propaganda homofóbico. Não por idealismos, mas por puro mercado.

Você compactuaria com a Nike patrocinando a seleção brasileira de futebol, como patrocina, se ele tivesse dado a declaração hipotética que coloquei no 4º parágrafo deste texto e continuasse sendo um dos atletas da marca? Acho que, no mínimo, muitos deixariam de comprar coisas no Brasil oriundas desta fábrica. Logo, talvez para eles seja realmente melhor quebrar o contrato do que mantê-lo sob risco de perder esse mercado.

Uma outra perspectiva é que brasileiros só nascem no Brasil, gays nascem no mundo todo. E mesmo aqueles que nunca ouviram falar de Pacquiao, ouvirão agora. Nenhuma grande empresa paga por publicidade negativa, certo?

Veja, eu não estou fazendo juízos de valor aqui, nem tentando falar que o homossexualismo é certo, ou é errado. Não é a minha opinião analisada aqui. Também não tenho dúvidas que os que compactuam com o pensamento dele continuarão consumindo o produto “PacMan”, a questão é que foi desnecessário dar tal depoimento. Para que ofender determinado grupo de pessoas se você poderia, simplesmente, não ter ofendido?

Pior é que, além do dano a imagem do lutador está o dano ao político. Pacquiao é parte do congresso filipino e se diz um futuro presidente daquela nação. Se passar a ser odiado, pode ser que os olhos do mundo se voltem para seu trabalho fora dos ringues. E esse trabalho não é muito bom – em 2014 ele esteve presente em “incríveis” quatro sessões do congresso, durante todo o ano. Bombardeado pela opinião pública, suas chances na política local, por mais que seja um herói nacional, podem ser afetadas.

Resumindo, Pacquiao chamou para si algo que não importava, mas que pode causar danos irreversíveis.

E só para lembrar seu próximo – e possível último – combate, em Abril, é diante de Timothy Bradley, lutador patrocinado pela Nike...

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