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Publicado em 23 de Março de 2016 às 16h:33

Parabéns, Joe Calzaghe!

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Autor Daniel Leal


Um dos grandes campeões à se aposentar invicto no boxe profissional completa 44 anos hoje e nós aproveitamos para relembrar sua carreira.
(Imagem: fightnights.com)

A seleção brasileira de futebol ainda era tetracampeã do mundo. As torres gêmeas ainda estavam de pé. O Brasil era governado por Fernando Henrique Cardoso. Esse era o nosso mundo em Outubro de 1997. Foi nesse mês, no dia 11, na Sheffield Arena, que o ídolo britânico, Chris Eubank teria a chance de retomar seu cinturão da Organização Mundial de Boxe na categoria dos super-médios, que havia sido-lhe arrebatado pelo irlandês Steve Collins, 2 anos e meio antes, e que falhara em tomar de volta em uma revanche. Collins agora estava aposentado, e o título, vago. Era a chance de uma lenda inglesa voltar a reinar.

A missão de Eubank era simples, em tese. Diante de si teria um prodígio boxeador do País de Gales, campeão nacional, que, à época subira ao tablado menos da metade das vezes que o legendário Chris. Com apenas 24 anos de idade, 22 contendas na carreira, todas vencidas, sendo 21 por nocaute, Joe Calzaghe era um ótimo prospecto, mas não favorito. O desfecho do combate mostrou o contrário. Em um dos mais belos confrontos do boxe bretão, Joe derrubou Eubank logo no primeiro assalto, mais uma vez no décimo, e provou que merecia muito mais aquele boldrié. Não por menos, todos os jurados deram-lhe a vitória ao final dos 12 soares do gongo.

Estabelecia-se ali um dos reinados mais duradouros da nobre arte dos punhos. O cinto da OMB conquistado fora defendido não menos do que 21 vezes, e unificado com todos os demais (não simultaneamente) da divisão até 76,2 quilos. Calzaghe tornava-se rei, só abandonando o posto dez anos mais tarde, em 2007, por sua livre e espontânea vontade. Ninguém tirou dele o que havia conquistado naquela noite no distrito de Yorkshire.

No meio do caminho limpou de sua frente nomes como Robin Reid, Mario Veit, o então promissor Jeff Lacy, Sakio Bika, Peter Manfredo Jr. e Mikkel Kessler. Tudo isso não só para defender sua coroa, mas para adicionar as da AMB, do CMB e da FIB, esta última que acabou mantendo por apenas uma oportunidade. O “Orgulho de Gales”, como era conhecido, conquistara 4 coroas mundiais. Mas para a mídia não era suficiente, afinal, jamais havia saído da Europa, um pecado mortal para os analistas americanos. Se quisesse que seu legado atravessasse o oceano, Joe teria que fazê-lo também.

Em 4 de Abril de 2008, Calzaghe, então, abandonaria suas cintas, subiria aos meio-pesados e adentraria o tablado do Thomas & Mack Center, em Las Vegas, o epicentro pugilístico do planeta Terra, lugar este em que nunca se apresentara antes. O oponente era o campeão linear da categoria, e um dos maiores gênios do esporte de luvas, Bernard Hopkins. O americano, apesar de ter visto seu reinado dos médios rompido por Jermain Taylor, vinha de duas vitórias sobre gigantes na época: Antonio Tarver e Winky Wright. De Tarver, tomara a linhagem do título, mesmo sem um cinturão importante em jogo. Contra Wright, defendeu-o com maestria.

Hopkins era, na ocasião, considerado o maior desafio para Calzaghe, a chance para que ele provasse que era “de verdade”. Na conferência pré-luta, B-Hop deu uma infeliz declaração racista – segundo ele, jamais perderia para um “garoto branco”. Quando o sino final soou em Nevada, dois dos três juízes provaram que estava errado. Além do knockdown que aplicou no britânico no primeiro round, Bernard complicou a vida de Joe utilizando seu jogo pouco ortodoxo e muito efetivo, mas não fez muito mais do que isso. O estadunidense ainda conseguiu convencer um juiz de que vencera, mas os demais apontaram que Calzaghe era agora o novo imperador daquela divisão de peso. Hopkins esqueceu-se de duas coisas naquela noite. A primeira: Falar menos. A segunda: Atingir sem ser atingido. O galês conectara 105 golpes a mais e tornou-se o homem a acertar mais socos em Bernard, até então.

Com a boca dos críticos calada, era a hora de retirar-se. Uma boa bolsa, porém, fez com que o descendente de italianos radicados na Grã-Bretanha adiasse esses planos. Pouco mais de seis meses se passaram entre o enfrentamento com Hopkins e a noite de 8 de Novembro de 2008 quando, no histórico Madison Square Garden, o “Orgulho de Gales” teria a oportunidade de encarar um ainda competitivo Roy Jones Jr., que havia vencido seus últimos três compromissos, o mais recente contra Felix Trinidad.

Mais uma vez, Calzaghe foi surpreendido e derrubado no primeiro giro, porém levantou-se para dominar o imbróglio por completo. Ouviria o gongo pela última vez, e as papeletas dando-lhe uma vitória acachapante, de forma unânime, selando assim seu legado, mesmo longe de sua casa, aonde sempre fora acusado de esconder-se.

Pouco depois anunciou a aposentadoria definitiva, pelo menos por enquanto. Com 46 pelejas, sem nunca ter sido derrotado, ou sequer empatado alguma vez, Joseph deixou o pugliato de forma impecável, sendo indicado ao Hall da Fama no ano de 2014. Neste dia 23, completa 44 anos de vida, 15 deles dedicados ao boxe profissional. Parabéns a este grande campeão, que tem seu nome gravado nesta modalidade grandiosa para sempre.

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