Artigos

Publicado em 21 de Setembro de 2015 às 15h:12

Parabéns, Popó!

Foto do autor

Autor Daniel Leal


Imagem: FMA (divulgação)

Neste 21 de Setembro, o tetracampeão mundial Acelino “Popó” Freitas completa mais um ano de vida. São 40 primaveras agora para o baiano, ex-deputado federal, e que retornou aos ringues no mês passado. Esse número é emblemático na carreira de qualquer atleta, é um marco de dúvidas, digamos assim. Nesta idade, a maioria dos profissionais do esporte, ou já está aposentado, ou pensando seriamente nisso. Também é uma etapa em que muitos retornam à sua modalidade após um tempo de “descanso”. E, em ambos os casos, não se tem certeza de que o desempenho de hoje faz jus ao de outrora.

Com os avanços da ciência, não só a longevidade das pessoas tem sido prolongada, bem como o período de atividades físicas em alto nível. Hoje em dia é comum que “quarentões” estejam por ai, esbanjando saúde e disposição. Ainda assim, à que se considerar que um esportista nesta faixa de anos completados, sempre será um veterano. E com Acelino, não é diferente.

Doce é a ilusão de quem pensa que Popó é o mesmo leão que derrubou Anatoly Alexandrov, Barry Jones, Daniel Alicea, entre outros. Ou mesmo a sua versão mais técnica, que deixou para trás Joel Casamayor. Ele nunca voltará à ser quem já foi, mas isso pode ser muito bom.

Explico. O Freitas de hoje sabe que não pode se desguarnecer e plantar os pés em paralelo, ou sofrerá quedas mesmo dos menos pegadores, como acontecia quando era o recém-coroado campeão dos super-penas. Tem conhecimento também de que noitadas e uma vida de muitas mulheres somada a pouco treino resultam na transformação de uma luta não tão simples, em uma monstruosidade, como foi contra Jorge Barrios, em 2003. Sabe, mais ainda, que sem foco não se chega a lugar algum, como lhe ensinaram, da forma mais dura, Diego Corrales e Juan Diaz. Em resumo, nada substitui a experiência, e o homem Acelino, cresceu junto com o atleta “Popó”.

De menino humilde da Baixa de Quintas, a promotor de negócios e dono de seu próprio nariz, muito sofrimento e esforço passaram longe dos olhos da mídia. Só vieram à tona após as glórias que emocionaram o brasileiro comum, que começou à acompanhá-lo em rede nacional em 1999. Poucos foram os que estiveram lá para apoiá-lo antes disso.

Atualmente tudo mudou de figura. Popó tem nome, dinheiro, reconhecimento e estrutura. Ele tem exatamente tudo o que lhe faltou um dia, e mesmo assim chegou lá. Só não tem a jovialidade que detinha anteriormente. O caminho para um 5º cetro mundialista torna-se, então, um grande paradoxo para ele: Antes era tortuoso, esburacado, extremamente longo. Hoje ele é curto, liso, bem asfaltado. A diferença está no veículo, que era simples, mas 0 KM, agora já tem muita rodagem.

Não é de se esperar que esteja ativo ao completar a próxima década, portanto Popó deve se apressar e se preparar como nunca. Nosso pugliato conta com ele como um dos responsáveis diretos por colocá-lo novamente em evidência. A boa notícia é que, aparentemente, ele está disposto a isso. Sendo então nossa referência máxima em atividade na atualidade, é bom que saiba a responsabilidade que tem e não só com seus fãs, mas para com os que não o são, e eles existem em larga escala.

Se nem Jesus Cristo conseguiu incluir uma grande parte do mundo em sua crença, quiçá Acelino Freitas, em seu boxe. É nítido parte do meio nacional da nobre arte insistindo em desmerecer suas conquistas. Não estou falando de seu estilo, sua técnica, seus métodos, ou seu jeito de falar e lidar com a imprensa e demais pessoas a seu redor, estou me atendo a seus feitos. Muitos desconhecem sua história, e acham que os objetivos que alcançou, de alguma forma, vieram sem méritos e através de privilégios que passaram longe de existir.

Quando adentrou ao quadrilátero em San Jose, Costa Rica, com apenas 9 lutas no currículo, e destruiu o então favorito, Johnny Montantes (que viria a falecer em outra luta, quatro meses depois), em apenas 2 minutos e 39 segundos, passando assim pela primeira fase do torneio “Boxcino”, iniciou-se uma trajetória internacional que nenhum brasileiro conseguia impor haviam décadas, e ninguém nunca tirará de Acelino o que ele conquistou com suas próprias mãos, e o apoio de poucos.

Citam até outros pugilistas tupiniquins, como grandes arautos da nobre arte, mas que nunca se aproximaram do que Popó conquistou nos ringues. Veja bem, tivemos outros boxeadores de muita qualidade que, por infelicidade nossa, não chegaram a um cinturão mundial. Nada disso, porém, deve servir de comparativo, ou para colocar em cheque a carreira de alguém que não conquistou apenas um, mas 4 campeonatos do mundo. Cada um tem sua trajetória, e a de Acelino é de tirar o chapéu.

Não sou seu advogado, nem recebo para defender Popó, mal o conheço pessoalmente, não lhe devo nada (e nem ele a mim), mas é fato: Você pode ter todo e qualquer tipo de ressalvas PESSOAIS, mas há que se reconhecer os feitos do ATLETA.

A realidade dura de nosso esporte de luvas, e que poucos ousam enxergar, é que não houve a ascensão de quase ninguém com talento suficiente para sobrepujar as adversidades desta forma. E muitos dos que mais chegaram próximos, por diversos motivos, culpados eles mesmos, ou não, não conseguiram fazer seu nome. Resta torcer para que menos obstáculos sejam colocados no caminho entre nossas promessas e o topo do pugilismo, daqui em diante. Tenha certeza de que não só Acelino Freitas, como Éder Jofre, Miguel de Oliveira e Valdemir “Sertão” Pereira fizeram o que mais seria possível para ajudar nisso: Atingiram o ápice, levantaram o esporte.

O cenário hoje é diferente, esperançoso. Temos alguns nomes que têm potencial para chegar lá em breve. Eles devem querer superar Popó, e até mesmo Jofre. Isso é possível? Na minha opinião, ninguém no Brasil superou ou superará Éder, porém, penso que se todos objetivarem ultrapassá-lo, tendem a chegar muito mais próximos do que se iniciarem suas carreiras achando que isto é algo inatingível. É a velha mítica de “mirar na Lua e, se errar, acertar nas estrelas”. Sem sonho, não se vai ao longe. Que o diga o menino que fabricava seus próprios calçados com sobras de borracha velha, tinha que assistir as lutas espiando as TVs dos vizinhos, passou fome, deixou de ser o “Galinho de ouro” do “seu Babinha”, para se tornar um ídolo nacional e que hoje completa 40 anos...

Parabéns, Popó!

Comentários