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Publicado em 06 de Agosto de 2015 às 22h:57

Por que Andre Berto?

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Autor Daniel Leal

Imagem: CBS Sports

Imagem: CBS Sports (USATSI)

O mundo do boxe foi acometido hoje com a notícia que já imaginávamos. Floyd Mayweather Jr. (48-0, 26 KO's) confirmou que sua próxima e, possivelmente, derradeira contenda se dará frente ao também estadunidense Andre Berto (30-3, 23 KO's). Surpresa não é, uma vez que este era o nome mais ventilado em toda a imprensa pugilística internacional. O que surpreende e causa, até certo ponto, indignação, foi a escolha de Berto, um lutador cujo todas as três derrotas da carreira se deram nos últimos 6 combates. Por que escolher adversário vindo de retrospecto recente tão adverso, sendo Mayweather o melhor pugilista da atualidade? Ele poderia ter enfrentado, literalmente, qualquer adversário, muitos infinitamente mais lucrativos em se tratando de um evento em pay-per-view , por que, então, da escolha deste? É o que tentaremos elucidar, logo a baixo:

VITÓRIA FÁCIL, PARA CUMPRIR CONTRATO

Notadamente, não é de se estranhar que o contrato entre Mayweather e a SHOWTIME seja um fator decisivo neste contexto. Explico, Floyd assinou em 2013 acordo de 6 lutas com a rede de TV por assinatura norte-americana, no valor de, estima-se, 250 milhões de dólares. Aparentemente, neste mesmo compêndio não há nenhuma cláusula que obrigue Mayweather a enfrentar quem o canal quer, o que por si só, seria absurdo, porém, ao se analisar que logo de cara Floyd escolheu Robert Guerrero como oponente (04/05/2013), em programação que, provavelmente, gerou prejuízo á emissora, talvez algo do tipo pudesse ter sido adicionado nas tratativas. É claro que os executivos dão seus palpites, porém, a decisão final do casamento dos enfrentamentos fica a cargo do “Money Team”. Não é nem preciso dizer que, quaisquer perdas financeiras, foram compensadas pela extraordinária receita do embate contra Manny Pacquiao, em Maio passado, o que sem sombra de dúvidas, deixa muita “gordura” para Floyd queimar em termos de prestígio junto à sua contratante, ainda que os lucros da mesma tenham sido divididos com a HBO nesta programação.

Com isso em mente, torna-se uma conclusão lógica o fato de que, enfrentar Berto, que, desculpem-me seus fãs e o profissional em si, não representa ameaça ao atual pound-for-pound king, nada mais poderia ser do que uma estratégia para sair invicto de seu contrato, livre, portanto, para fazer sua luta de despedida em 2016, com qualquer que seja a emissora que lhe pagar mais. Afinal, o apelido novo do ex-”pretty boy”, é “Money”, não é mesmo?

APOSENTADORIA E RECORDE DE MARCIANO

Há muita gente no meio do boxe, sejam fãs, especialistas, ou lutadores, que pregam a obsessão de Mayweather por sua invencibilidade e pela marca de 49-0 que deseja ostentar ao final de sua carreira — igualando, assim, o lendário Rocky Marciano — a tal ponto de ter desviado das principais “balas” que tinham seu nome escrito nos últimos anos, prontinhas para colocar um número “1”, ao lado de sua quantidade de vitórias. Era essa a “desculpa oficial” dos fanáticos pelo esporte de luvas para a luta contra Pacquiao ter demorado tanto para sair do papel, até que saiu. E esse talvez seja o motivo de ter apontado Andre Berto como seu adversário: Sair do boxe em segurança, levando de forma tranquila consigo, um legado de um cartel impecável.

Eu, particularmente, não concordo com esta tese, apesar de achar que não podemos descartá-la. E o motivo é simples: Quem, raios, Mayweather não enfrentou antes de Pacquiao? Floyd derrotou campeão após campeão, em uma sequência que soma 21 lutas contra quem detinha, ou já deteve um dia, um cetro mundial, todavia, Berto também se encaixa nessa categoria, sendo o 22º. Só que, além de ter imposto revezes para diversos campeões e ex-campeões, “Money May” foi campeão linear de TODAS as categorias em que esteve, e para isso, bateu a referência da mesma em todas elas. De super-pena à médio-ligeiro, ele limpou os nomes principais, começando a deixar “rastros” pelo caminho apenas nos últimos anos, quando diminuiu o ritmo de realização de lutas e ensaiou algumas aposentadorias definitivas. Além disso, os meio-médios de hoje contam com vários nomes relativamente novos no mainstream da nobre arte. Keith Thurman, Kell Brook, Danny Garcia eram pugilistas que ninguém colocava no páreo há 2 ou 3 anos atrás, mas que nas últimas temporadas têm se destacado. Quando estes despontaram, Floyd estava lidando com Miguel Cotto, 'Canelo' Alvarez, Marcos Maidana… E por isso mesmo, mais uma vez, acho que este argumento não seja tão valido. Com novos contendores surgindo agora, nos esquecemos de quem ele já enfrentou. Alguém que derrotou Genaro Hernandez, arrancou humilhantemente a invencibilidade do finado Diego “Chico” Corrales, fez o córner de Jesus Chavez desistir da luta, venceu duas vezes (uma bem polêmica, é verdade) à Jose Luis Castillo, fez ninguém menos do que Arturo Gatti abandonar o ringue, bateu Zab Judah e Oscar de La Hoya ambos ainda muito bem fisicamente, sendo o último quando este era o campeão linear dos médios-ligeiros, nocauteou Ricky Hatton até então invicto em 43 lutas, fez Juan Manuel Marquez não acertar nem 20% de seus golpes em plena forma, e ainda confrontou uma série de outros grandes boxeadores tarimbados, é tudo, menos um cara que foge da raia.

Entretanto, sem dúvidas, conforme supracitado no início deste texto, Mayweather poderia sim ter escolhido um oponente mais a sua altura. Opções como Gennady Golovkin, que desceria de categoria, ou uma revanche contra Miguel Cotto, seriam perigos muito maiores para sua invencibilidade, o que corrobora para quem acha Floyd um mero “somador de vitórias”, pelo menos neste momento de sua jornada profissional. E a razão para que eu não pense em concordar com esta teoria, além das já citadas no parágrafo anterior, me levam a última possibilidade, na qual eu mais acredito…

GARANTIR A REVANCHE CONTRA PACQUIAO

Se eu pudesse apostar, esse seria o motivo no qual eu apostaria todas as minhas fichas. Essa possibilidade seria uma “soma” das duas anteriores, e vou explanar a razão de pensar desta maneira… Raciocinem comigo, enfrentando e vencendo Andre Berto (conforme discutimos, o cenário mais provável), Floyd Mayweather Jr. mata dois coelhos com uma cajadada só:

1) Ele se mantém ativo somando mais uma vitória e atingindo a marca mítica de Marciano;

2) Fica livre do contrato com a SHOWTIME, que só expiraria daqui a um ano. Livre o suficiente para negociar a próxima luta com quem pagar mais, como já citamos.

Com isto em mente, torna-se inegável o fato de que nenhuma luta é financeiramente mais apelativa no boxe hoje, do que a revanche entre Mayweather e Manny Pacquiao, em 2016. Não tanto quanto a primeira, mas não há outro adversário do rei do boxe atual que vá lhe render uma bolsa maior do que o astro filipino.

Não que a primeira luta tenha enchido os olhos do mundo. Pelo contrário, para o fã casual a luta foi morna demais, e o resultado considerado controverso. Os fãs mais hardcore da nobre arte podem não ver tanto sentido neste embate, mas para quem vem de enfrentar Andre Berto, qual sentido precisaria fazer?

O fato de Pacquiao ter lutado com o ombro lesionado e estar se recuperando de cirurgia não só explicaria o porquê de uma revanche não imediata – dando razão a tese de lutar contra um pugilista “risco zero” em Setembro deste ano – como também seria o motivo perfeito para se alegar uma revanche: A performance de Pacquiao teria ficado aquém do esperado, pois não estava 100% fisicamente.

E, pronto! Está feita a promoção da “Luta do Século – Parte II”.

“Desviando da bala”, ou seja, pegando leve ao enfrentar Berto, Floyd garante praticamente, aquela que, em tese, seria a segunda, ou a maior bolsa da sua carreira. Tendo já enfrentado Manny, sabendo como este luta (e na minha visão, a lesão, obviamente o afetou, mas não a ponto de mudar o cenário estratégico do combate), Mayweather não corre mais tantos riscos de ser surpreendido. Vencendo – em um evento negociado sem amarras de nenhum tipo, nenhum contrato, com 100% dos lucros para ele – leva uma fortuna para casa, e sai do pugilismo com o recorde de 50-0, tendo batido aquele que é considerado seu maior rival contemporâneo.

“Mas, Daniel, isso não é '‘fugir da raia’' também?”. De mais a mais, pode-se considerar que sim, por isso que penso nessa possibilidade como uma junção das duas anteriores. Também é inegável que, julgando você, leitor, como uma estratégia “covarde”, ou não, é muito inteligente.

E Mayweather não se tornou o atleta mais bem pago do mundo, sendo burro...

Imagem: Daily Mail

Imagem: Daily Mail/Associated Press

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