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Publicado em 20 de Outubro de 2015 às 10h:52

Por quê Golovkin AINDA não pode ser considerado o rei “Pound-for-Pound” do boxe

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Autor Daniel Leal


Imagem: Emily Harney

A expectativa gerada pelo combate do último sábado no Madison Square Garden entre Gennady Golovkin (34-0, 31 ko's) e David Lemieux (34-3, 31 ko's) já me pareceria exagerada de antemão, não fosse o fato de que o canadense possuía poder de nocaute suficiente para surpreender o famoso monstro da categoria dos médios.

Não gosto de desmerecer um evento, ainda mais um tão interessante e de tamanha magnitude, mas a luta principal, que envolveu dois dos quatro principais títulos mundiais da categoria, mais um interino, já me parecia conter uma expectativa muito maior do que deveria. De fato, eram grandes pegadores que se enfrentariam, prometendo uma guerra em cima do ringue. Nada disso aconteceu.

Por mais valentia e ímpeto que Lemieux tenha demonstrado, uma batalha sangrenta não chegou nem perto de ocorrer em Nova Iorque. Isso porque GGG dominou todas as ações, do começo ao fim. Não vi um round sequer, dos oito, à favor do agora ex-campeão da FIB. O cazaque venceu todos, mal teve problemas, tomou poucos golpes perigosos, não esteve próximo de nenhum perigo. Isto posto, vale ressaltar que a culpa, e também o mérito por isso, vêm do atual rei da categoria dos 72,5 kgs.

Os fãs esperavam que Golovkin parasse na frente de seu adversário e trocasse golpes durante vários minutos até que um dos dois, finalmente, sucumbisse. Para mim estava claro que não, isso jamais ocorreria. Gennady tinha boxe para ganhar, e bem, sem ter de fazer isso, por que, então, o faria? O que foi dito antes do confronto, que fique claro, foi apenas para vender ingressos e pacotes de TV por assinatura. Quem acreditou nisso, não só pretendia que um pugilista hábil esquecesse como boxear e fosse para uma briga de rua, na verdade pedia, ainda que em torcida, para que ele fosse burro.

Por isso, então, GGG boxeou muito mais do que trocou punches, utilizou um bom jab e movimentos laterais para anular seu oponente, e o castigou até obrigar o árbitro a interromper a contenda. Performance muito diferente de um Arturo Gatti diante de Micky Ward, Corrales diante de Castillo, ou qualquer outro imbróglio brutal que venha à mente, como chegou à se imaginar.

Óbvio que um fator conta primordialmente nesse desfecho: A qualidade do córner oposto. Não me leve a mal, Lemieux é um bom lutador, tem vários atributos à cima da média, mas continua sendo aquele rapaz que sofreu nas mãos do mediano Marco Antonio Rubio. Jamais teria como causar problemas para alguém do nível de quem enfrentou no final de semana passado. As bolsas de apostas – a mais “boazinha” indicando 16:1  – demonstraram, precisamente, isso.

Exatamente por este fator que fica impossível apontar Gennady, hoje, como o maior do esporte: Qual contendor com quem “Triple G” dividiu o quadrilátero de cordas realmente lhe representava ameaça? Talvez David Lemieux fosse a maior delas, no máximo, fôra Martin Murray. Indo mais além, quem enfrentou o calçador de luvas do Cazaquistão, até hoje, que, no futuro, será um membro do Hall da Fama?

Não estou aqui desmerecendo Golovkin de nenhuma maneira. Nenhum profissional da nobre arte detém um cinturão mundial há 5 anos, ou domina uma categoria, como ele, sem méritos, ou nulo em qualidades. GGG é sim excepcional atleta, o que lhe falta é adentrar ao tablado com alguém tão fantástico quanto ele.

Sem dúvida, Golovkin vem perseguindo esta oportunidade, e merecendo-a, há algum tempo. Desafiou Mayweather, Cotto, e cogitou-se até subir de peso para enfrentar Andre Ward. Por razões que fogem de seu controle, algumas devidas ao próprio boxe como um negócio em si, acabaram não ocorrendo. Uma vez que aconteçam, tenho fé que sim, o bicampeão dos médios vai dar conta do recado, e assumirá, em breve, a coroa libra-por-libra. Mas enquanto isso não sai do papel, só existirão especulações.

Muito me alegrou o próprio Gennady ter declarado que prefere o campeão CMB, que sairá da disputa entre Miguel Cotto e Saul “Canelo” Alvarez, em detrimento do detentor do cinto OMB, Andy Lee, como próximo adversário. Lee não está à frente de Lemieux como pugilista, já enfrentar o vencedor de Cotto-Canelo será subir de patamar. É louvável a atitude em querer ter todos os cinturões de sua divisão de peso, e ainda maior é a de dar um passo enorme rumo ao reconhecimento como o melhor de todos. Trata-se, portanto, do primeiro movimento de Golovkin no tabuleiro, para atacar o rei, mas ainda restam algumas jogadas para o xeque-mate. “Tudo a seu tempo, acho que está vago (o título de todos os pesos)” - palavras dele próprio, ao ser questionado sobre o assunto.

Tomando por base os últimos dois nomes que estiveram nessa posição, Floyd Mayweather Jr. e Manny Pacquiao, dá para compararmos a diferença gritante de qualidade dos desafios que encararam. O primeiro bateu mais de 20 campeões mundiais, o segundo pelejou com pelo menos 7 adversários que estão, ou estarão, no IBHOF (International Boxing Hall of Fame).

Pelo lado financeiro, tenha certeza que se fosse o maior nome do pugliato na atualidade, Golovkin teria recebido uma bolsa muito mais gorda que os US$ 2 milhões do último sábado e não faria apenas sua primeira inserção num main event em pay-per-view, como foi perante Lemieux.

Devemos, então, ter cautela na ânsia de apontar um novo dono do trono “P4P”. Em nosso ranking, elegemos Wladimir Klitschko como número #1, sabendo muito bem que pode e deve ser efêmero: qualquer um dos demais listados pode ultrapassá-lo logo.

Só não podemos deixar que, no afã das emoções causadas pelo grande evento do Madison Square Garden, devido à nossa paixão pela nobre arte e, principalmente, pelo estilo excitante de combater que GGG proporciona, acabemos nos precipitando em eleger alguém para algo pelo qual ainda não fez por onde. Acho que o mais razoável seria dizer que, no cenário “mainstream” atual, ele talvez seja aquele cujo "modus operandi" mais agrada aos fãs. Mas, se toda boa performance em um evento bem promovido for nos levar a isso, teremos um novo “pound-for-pound” a cada mês.

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