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Publicado em 09 de Março de 2016 às 07h:25

Que tal criar seus próprios ídolos e esquecer do boxe? (Ou: A “Maldição de Mayweather” pega!)

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Autor Daniel Leal


Incapacidade de renovar seu plantel com ídolos de verdade faz presidente do UFC incitar ofensas e “desafios” ao boxe e seus atletas todo o tempo. Nós estamos cansados disso. (Imagem: UFC/Divulgação)

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Eu sei que você leu o título e pensou que esse é mais um artigo de “Boxe VS. MMA”, certo? Então, dessa vez, você acertou. Este é um tema no qual nunca toquei aqui, seja para evitar uma discussão totalmente inócua como essa, como para não desrespeitar de alguma forma atletas e treinadores de ambas as modalidades (que se respeitam mutuamente, em sua maioria), pois, sem estes, nenhum dos dois esportes supracitados existiriam. Portanto, que fique claro, pretendo ter de falar deste tema uma vez. Esta. Então aproveite.

O pugilismo é uma modalidade que existe á séculos, movimenta bilhões em todas as partes do mundo e tem ídolos que ultrapassam a barreira do esporte. O MMA, apesar de recente, também conseguiu marcos parecidos, menores, claro, mas impressionantes considerando seu tempo de existência. Mesmo com o antigo “vale-tudo” sendo praticado há muitos anos, podemos dizer que as artes marciais mistas como às conhecemos hoje, começaram há pouco mais de 20 anos. Isso só torna o alcance deste tipo de evento mais espantoso. Ponto pra eles.

Acontece que, desde que caras como Wanderlei Silva, Maurício Shogun, Mirko “Crocop” Filipovic, Fedor Emilianenko, Georges St. Pierre e Anderson Silva viram suas estrelas brilharem de forma menos vultosa, o UFC (Ultimate Fighting Championship), a maior organização do mundo, tem feito de um tudo para fabricar nomes de peso. Se esquecendo de que lendas não se fabricam, simplesmente se tornam, qualquer José Manuel que ganhou uma luta dita “grande” passou a ser o novo Bruce Lee, homem/mulher mais temido(a) do mundo na boca do Sr. Excelentíssimo Presidente/CEO/Acionista Minoritário, Dana White. E claro, como esse cara ou essa senhorita agora é a pessoa mais poderosa do mundo, aquele que poderia decidir “Batman VS. Superman” com um minuto de filme, logicamente todos eles poderiam bater Floyd Mayweather Jr., maior expoente da nobre arte (e por consequência, qualquer outro pugilista), com uma mão amarrada nas costas e as duas pernas engessadas. Para que isto fique claro, toda semana de luta importante do UFC, Mayweather é desafiado para uma disputa. Inclusive de boxe.

Mas enfrentar Mayweather é o sonho de qualquer atleta do quadrilátero de cordas - e, pelo visto, dos que também não são. No momento em que você diz que ganharia facilmente de uma referência que todos almejam conseguir trocar socos com, você não apenas provoca o ex-rei da nobre arte, você desrespeita simplesmente todos os lutadores e seus respectivos staffs, por tabela. Se o boxe inteiro quer enfrentar Mayweather, e não consegue, e alguns “super-humanos” conseguiriam bater nele como se estivessem tirando doce de criança, á partir deste momento, desta afirmação, o que simplesmente se coloca é que um esporte tão rico e historicamente pesado como o nosso, não tem importância alguma. Ao declarar isso, esse cara joga no lixo o pugilismo inteiro, e ainda cospe no latão. E se esquece, seletivamente, que esta modalidade também faz parte da qual pratica. Ou seja, tira-se a relevância de algo que é importante para você mesmo, em nome de publicidade. Uma hipocrisia típica de falaciosos.

Tudo meramente orquestrado, claro. Mas, como o destino é implacável, os dois últimos que mais ouviram seu patrão no Ultimate e tomaram tais atitudes, acabaram massacrados. Primeiro Ronda Rousey, que provou que era somente um rostinho bonito mesmo. E agora Connor McGregor, que parece ter virado o melhor lutador libra-por-libra de sua entidade e da história do universo, mesmo tendo vencido apenas uma luta por título na vida. Devido á interesses puramente comerciais, Rousey acabou até indo parar na capa da “The Ring”, que nunca havia, por exemplo, dado esta visibilidade a Laila Ali, Ann Wolf ou á própria Holly Holm.

O efeito disso é a queda de ídolos que nunca existiram. Infla-se o ego de uma moça ao ponto em que ela pensa que é invencível. Idem com o irlandês. E, como num passe de mágica, eles perdem. A tática de se formar ídolos, que é a maior publicidade possível para um evento de lutas, volta-se contra ela mesma quando não se aprende que a autoconfiança e o subestimo do restante do Mundo podem ser a maior arma que um atleta pode ter contra ele mesmo. Logo, a tentativa de se promover algo acaba virando seu maior marketing negativo. Um efeito rebote que Mr. White tem experimentado bastante.

Não estou aqui falando dos profissionais que têm mais de dois neurônios e, por consequência, entendem que são esportes bastante diferentes, cada um com sua particularidade e suas qualidades e buscam integrações entre eles quando estas tendem á somar (aliás, sempre tendem, se realizadas de boa vontade e coração aberto, além de humildade). Estou sim, falando e defendendo o boxe, pois como alguém que não só trabalha neste meio, como também ama esta modalidade, não posso ver á todo o momento os golpes atirados não contra mim, mas contra ás pessoas que tiram dele seu sustento. Já bastam ás mazelas que sei que as equipes as quais encontro nos eventos passam, serem ofendidos em rede internacional acaba sendo um pouco demais, não?

Fazer esse tipo de declaração não só é desrespeitoso. Além de tudo, é uma atitude extremamente covarde, já que não há contrapartida, nem cobranças. O que vier, é lucro e geralmente vem em forma de mídia rápida. Quando McGregor diz que quer lutar com Floyd Mayweather, ele consegue ter seu nome muito mais falado, atrai a atenção de muita gente leiga e, se por um fenômeno inexorável, tiver este desafio aceito, ganhará tanto dinheiro que nunca mais precisará trabalhar na vida. Do outro lado, o que ganha Floyd? Ter que responder, repetitivamente, o óbvio: É um boxeador e luta BOXE contra outros boxeadores.

Se ele sobe ao ringue contra McGregor e vence, vão dizer que venceu um cara que não era do seu esporte, então bateu em ninguém. Se for ao octógono e perder, sai desmoralizado. Em nenhuma situação justa, portanto, sai ganhando. Alguém que respira o pugilismo desde o nascimento, que só sabe fazer isso da vida, e que alcançou o topo, além de uma carreira invicta em 49 combates vai topar essa roubada pra que? A resposta é: ele não vai. É por isso que eles desafiam.

Por outro lado, não me recordo do contrário: Um pugilista desafiando o melhor atleta do MMA. Existiram, sim, conversas entre Roy Jones Jr., que se propõe até a lutar com fãs para ganhar dinheiro atualmente, e Anderson Silva, talvez o maior de todos os profissionais do Mixed Martial Arts. Mas a iniciativa nesse caso sempre foi de Silva, que declarava Jones como um grande ídolo. Jamais vi suas declarações em tom de desrespeito, pelo contrário, me pareceu sempre algo muito sincero. E, adivinhem? Em todas as tentativas de se promover este encontro, o próprio UFC barrou...

Há tempos que o senhor Dana White (que tentou a vida toda ser alguém no pugliato, mas nunca conseguiu), vem adotando este modus operandi de total avacalhação. Já disse que a nobre arte estava morta, e viu seu recordes de pay-per-view nem chegarem perto dos dela, contemporaneamente. Disse que os ídolos do boxe iriam minguar por causa de seu evento e hoje temos mais estrelas lutando com os punhos do que ele poderia imaginar na época. Agora, não só incita como concorda que seus lutadores fariam de alguém como Floyd Mayweather um nada, em qualquer cenário.

Vou deixar uma dica de amigo aqui para você, então: Que tal PAGAR MAIS para seus atletas, esquecer o esporte de luvas, e, simplesmente se preocupar cada dia mais com seus eventos? A qualidade de seus profissionais, as condições em que eles atuam, e não sensacionalismo, é que formarão novos ícones, É assim que seu querido UFC vai continuar crescendo. Do contrário, continue fazendo vítimas da “Maldição de Mayweather” e assista o que o senhor ajudou á construir, minguar...


 

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