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Publicado em 07 de Dezembro de 2015 às 15h:13

Quem falou para você que todo desenho animado é coisa de criança, mentiu

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Autor Daniel Leal

Hajime no Ippo é o mangá mais antigo em circulação no Japão, anime de sucesso, e uma enciclopédia do boxe
 

Para quem cresceu assistindo a TV Manchete nos anos 90, desenhos japoneses – os animes – são algo muito natural. Cavaleiros do Zodíaco, Yu-Yu Hakusho, Shurato, e mais para frente, DragonBall, fizeram a mente de uma molecada muito menos “frescurenta” do que a atual geração. Sangue, vísceras, tramas complexas e até mesmo de conotação sexual eram exibidas como se não houvesse amanhã, podendo, potencialmente, traumatizar uma legião de crianças. Isso não aconteceu, mas, ainda assim, as atuais produções do seguimento tornaram-se muito diferentes.

Pouco tempo atrás, um amigo me disse, feliz, que seu filho assistia Dragonball KAI na TV a cabo, seguindo os passos de seu pai. Uma simples e despretensiosa passagem de olhos no referido seriado animado no Cartoon Network me fez perceber o ledo engano de meu camarada. Eles haviam cortado boa parte da trama e tirado algo muito importante da tela: A sanguinolência. E sim, isso é fundamental para nós, hoje adultos. Sem as hemorragias na telinha, aquilo não passava de uma trama espacial, uma animação comum, que me fez cair numa realidade triste: Aquilo é pra criançada assistir. E pasmem, amigos, hoje é assim mesmo. A própria continuação da obra de Akira Toryama, 20 anos depois do fim da saga “Z” - DragonBall SUPER, atualmente transmitida na Terra do Sol Nascente – não possui uma gotinha, uma célula hemácia pra contar história. Pudera, o desenho é exibido às 09:00 da manhã de domingo por lá. É pra família, e pro molequinho e a menininha assistirem. Marmanjo pode até curtir, mas não vai passar daquele limiar de tranquilidade.

Não ter sangue significa algo doloroso: Filhão, isso aí não é pra adulto!

Mas tem uma obra que continua sendo produzida e que não tem o menor medo de despejar fluidos hemorrágicos na cara do telespectador. Ainda bem, principalmente em se tratando de uma história sobre pugilismo.

Hajime no Ippo conta a história de Makunouchi Ippo, jovem órfão de pai, que ajuda a mãe com o barco de pesca da família e sofre bullying na escola. Ele não sabia, mas o trabalho com a peixaria o tinha tornado fisicamente muito forte. Até o dia em que, sendo torturado por seus colegas de colégio, o destino de Ippo cruza-se com o de Takamura Mamoru, um dos principais prospectos do boxe profissional japonês. Além de colocar os “valentões” pra correr, Takamura leva o protagonista ao seu ginásio, o Kamogawa Gym, aonde ele aprenderá os princípios básicos do esporte e, principalmente, iniciará sua busca eterna pelo significado de “ser forte”.

Não irei me alongar aos detalhes da trama, até para quem ainda não conhece não perder a graça ao começar à acompanhá-la. Mas, para nós, o aspecto mais importante aqui é como o esporte de luvas serve de entretenimento e como base para todos os desdobramentos da história. A nobre arte não é um plano de fundo, é o foco central de tudo. Todos os personagens vivem pelo boxe, tudo em suas vidas gira em torno da modalidade.

Antes de tirar conclusões precipitadas, esqueça as novelas da Globo, e demais produções brasileiras que chamam campeões para participações especiais e sequer sabem o que significa a sigla CMB, ou FIB, ou OMB… Deixe de lado as sofríveis retratações desleixadas, em Hajime no Ippo o pugilismo é RESPEITADO.

É isso mesmo que você pensou, as categorias de peso são divididas corretamente, e a cronologia dos personagens retrata as mudanças entre elas. Os organismos internacionais e regionais de boxe são explicados, tintim por tintim, e os cinturões são retratados de forma idêntica à vida real (sim, o cinturão do Conselho Mundial de Boxe é verde, eles falam sobre a divisão do pacífico, a OPBF, e tudo faz sentido, sem manipulações malucas para adequar o roteiro). A sequência da carreira dos novatos é a mesma da maioria dos lutadores japoneses, que passam pelo campeonato dos novos no Kouakuren Hall, almejando o título japonês, e daí passam a planejar sair do país. Os golpes são retratados anatomicamente de forma didática, fazendo parte da característica de cada boxeador. As referências pugilísticas não só são citadas nominalmente (como Mike Tyson, Jack Dempsey e até Éder Jofre), como sua contribuição para o esporte é transmitida. Enfim, se alguém não entende nada do Boxe, não passa incólume aos episódios da série, adquire conhecimentos que muitos por ai, que se acham mestres, teimam em não passar, ou até mesmo nem sabem. Eu, sem nenhuma vergonha, admito: Aprendi muito com Hajime no Ippo.

O mangá é o de maior tempo em tiragem no Japão, estando em lançamento constante de seus capítulos desde 1990. Nunca foi lançado no Brasil, mas a internet, como meio democrático que é, através de fãs abnegados que traduziram a história para nossa língua, disponibiliza este conteúdo gratuitamente, basta uma busca simples.

O anime teve três temporadas. A primeira, de 2000 à 2002, chegou até a ser lançada nos EUA sob o nome de “Fighting Spirit”, e tem 76 episódios produzidos, mais um filme lançado e um OVA. Em 2009, a segunda temporada com 26 episódios, chamada “New Challenger” foi lançada. Entre 2013 e 2014, 25 episódios da terceira foram transmitidos. Infelizmente, só através de alguns sites é disponível ver todo este conteúdo, legendado em português. Existe grande especulação de que, em 2016, uma quarta leva da animação chegará aos televisores nipônicos. Por enquanto, aqui no território tupiniquim, ninguém teve a feliz ideia de lançar esta obra-prima do nosso esporte, que ainda traz nuances de humor e lições de vida. Talvez por medo da “violência” que o mesmo transmite.

Melhor proteger as futuras gerações de Hajime no Ippo, deixando a TV aberta para o Datena, o Cidade Alerta…

 

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