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Publicado em 09 de Dezembro de 2015 às 00h:55

Quem foi Sebastião Nascimento?

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Autor Victor Violi

Conheça a história de um dos maiores pugilistas da era de ouro do boxe brasileiro

Sebastião Ferreira do Nascimento nasceu em 14 de maio de 1937, e era mineiro, nascido em uma cidadezinha chamada São Geraldo. Ele foi um dos vários ótimos lutadores que surgiram no final da década de 50 quando o Boxe brasileiro ainda não tinha presença no estrangeiro. Com uma carreira amadora desde cedo, o boxeador mineiro se profissionalizou no mesmo ano de Éder Jofre, em 1957, então com 20 anos. O Ginásio do Ibirapuera foi o local onde deu os primeiros golpes no cenário profissional.

Sebastião Nascimento era um bravo lutador. Era canhoto, um dos raros canhotos naquela época, e um lutador muito ofensivo, com um boxe de alta intensidade, de grande volume de golpes. Rapidamente sua carreira se desenvolvia e ele enfrentava lutadores difíceis, como Sebastião Gibi em duas ocasiões, vencendo as duas por decisão. E já no segundo ano defrontava-se com um ícone do pugilismo nacional da época, Pedro Galasso, ex-campeão brasileiro e sul-americano. Inicialmente a luta faria parte da programação de Boxe daquele dia 7 de Março mas com o adiamento daquela que seria a principal (Paulo Sacomã vs Julio Neves), Nascimento vs Galasso era a nova luta de fundo, com a semi-final tendo ninguém menos que Eder Jofre, encarando Cristobal Gabisans. Em uma grande oportunidade para ambos, uma luta muito disputada ocorreu entre dois dos boxeadores mais aguerridos e agressivos em todos os tempos no Boxe nacional, e o resultado seria o de empate.

Como se não bastasse, neste mesmo ano Nascimento teria pela frente um rival argentino de qualidade, futuro classificado mundial e excelente boxeador. Seu nome era Vicente "La Furia" Derado. Em uma sequência de dois combates consecutivos, os dois resultados foram empates, lembre-se que o empate era dado para grande parte das lutas equilibradas na América do Sul naqueles dias. 

"No encontro final, o invicto brasileiro Sebastião Nascimento e o argentino Vicente Derado voltaram a empatar, em dez assaltos. No combate anterior consideramos o resultado injusto para o brasileiro. Neste também Sebastião levou vantagem mas, foi tão mínima que os jurados não poderiam mesmo dar outro veredicto." (FOLHA DE S. PAULO, 17 de Maio de 1958).

 No ano seguinte, 1959, viria o primeiro título. Sebastião vence Claudio Tonelli (a quem já havia vencido anteriormente) um nome muito conhecido na época principalmente pelos seus dias de pugilista amador e relação de parentesco com os Zumbano, e se consagra como campeão brasileiro dos pesos penas e um dos melhores talentos daquela que se desenhava como a melhor geração do boxe brasileiro já surgida. Vitória por nocaute contra o duro Orispes dos Santos, e mais outro nocaute, desta vez conquistando o título peso leve contra o rival de antes, Pedro Galasso, e Sebastião estava pronto, agora com dois títulos nacionais, para alcançar desafios internacionais.

Salas, Zulueta, e Brasil vs Argentina

A primeira grande vitória internacional de Sebastião Nascimento viria em 1960, contra Lauro Salas.

 "Para Nascimento a contenda é dificílima. Apesar da idade, Salas está em ótima forma e tem a seu favor um importante "handicap": a experiência adquirida em 15 anos de atividade profissional." (ESTADO DE S. PAULO, 02 de Dezembro de 1960, pág 15). 

No Ginásio do Ibirapuera, o brasileiro vencia Salas, um ex-campeão mundial dos leves. Boxeador mexicano hábil, com um bom jab e bom controle da longa distância, que além de ter vencido o título mundial contra Jimmy Carter já havia enfrentado o grande americano Sandy Saddler pelo título dos super-penas (foi derrotado por nocaute no nono round). Também havia vencido adversários de fama mundial como Manuel Ortiz e Fabela Chavez. Após um primeiro round intenso, em que o brasileiro colocou Salas contra as cordas e o derrubou uma vez, a vitória veio no segundo, quando o mexicano, já sem condições de continuar por conta dos diversos golpes que levou, foi salvo por seu treinador que jogou a toalha.

Já Orlando Zulueta, outro dos bons adversários, era cubano, mas apesar de cubano não tinha um estilo tão agradável, muito pelo contrário, agindo como um típico "catimbeiro". Extremamente experiente, Zulueta era um ex-desafiante ao cinturão mundial. Em uma luta feia, com pouco boxe, o brasileiro venceu por pontos em 10 rounds.

"Nascimento teve sempre a iniciativa e chegou a abalar Zulueta duas vezes, uma no 4.o assalto e outra no 7.o assalto, com cruzados de esquerda no queixo. Contudo, o campeão brasileiro lutou muito mal, sem noção de distância nem continuidade no ataque. Deixou-se envolver varias vezes pelo jogo experiente de Zulueta e chegou a irritar-se, retribuindo cabeçadas, que lhe valeram duas advertências do árbitro do juiz Antonio Ziravelo." (ESTADO DE S.PAULO, 28 de abril de 1962, pág 20)

Batizado contra dois adversários que já haviam sido parte da elite do Boxe, o título sul-americano dos leves era o novo tesouro no horizonte, título que pertencia a um argentino de nome Jaime Giné, apelidado de "El Gallego". Jaime Giné era um dos lutadores mais conhecidos de uma época em que o Boxe argentino realizava lutas de nível mundial frequentemente no lendário Luna Park. Giné tinha um estilo elegante dentro do ringue, e depois, na aposentadoria se gabava de não ter cicatrizes e conservar um rosto sem marcas mesmo com mais de 100 lutas profissionais. O cordobês de criação mas nascido em Chaco, no norte da Argentina, permaneceu invicto em suas primeiras 87 lutas, só sendo derrotado quando topou com um certo Nicolino Locche em sua plenitude física. Tamanha era a popularidade de Giné a esse ponto, que a realidade é que a partir dessa luta Locche passou a ser realmente conhecido e realizar combates principais no Luna Park. E tamanha era a qualidade de Giné que este arrancou um empate de Nicolino 1 ano antes.


Reportagem sobre o combate em Córdoba. (Fonte: The Ring Magazine, Março/1963)

As lutas entre Sebastião Nascimento e Jaime Giné tem tudo para serem consideradas uns dos mais tradicionais duelos entre brasileiros e argentinos nos arquivos do Boxe sul-americano, e principalmente para o pugilismo brasileiro já que Sebastião venceu as três pelejas contra esse grande pugilista. A primeira em São Paulo, na mesma noite da revanche de Éder Jofre vs Joe Medel :

"Outro grande herói da noitada de ontem foi Sebastião Nascimento, de 25 anos, que arrebatou do argentino Jaime Giné, de 29 anos, o título sul-americano dos pesos leves. Com magnífico preparo físico e lançando-se com determinação ao combate, 'Tião' terminou anulando a técnica superior de Giné, que ao fim dos 15 assaltos perdeu por larga margem de pontos." (O GLOBO, 12 de Setembro de 1962, geral, pág 20)

As duas últimas, foram em Córdoba, na Argentina. A terceira sendo a mais inesquecível, afinal Sebastião venceu por nocaute no décimo quinto e último round. Vencer um argentino por nocaute como visitante é tarefa das mais notáveis. Vencer com um estádio lotado (o do clube de futebol Instituto de Córdoba), como ocorreu nessa luta em dezembro de 1962, é uma das conquistas mais marcantes do Boxe brasileiro em toda sua história.

"A luta teve excelente final. No 14.o assalto o ex-campeão argentino foi três vezes a lona. Ao iniciar-se o último assalto o juiz Antonio Castro decretou o triunfo de Sebastião Nascimento por nocaute técnico." (FOLHA DE S. PAULO, 10 de Dezembro de 1962, pág 6)

Nesse momento Sebastião Nascimento era colocado como um dos melhores lutadores do mundo na divisão dos leves.


Ranking da "The Ring" Magazine, indicando o brasileiro entre os 10 melhores entre os pesos leves. (Fonte: The Ring Magazine, Março/1963)


A aposentadoria

Porém o brasileiro perderia o cinturão pra Nicolino Locche logo em seguida, no Luna Park. Com vitórias no México e derrotas para ótimos boxeadores, na Colômbia, contra Antonio Herrera, e no Panamá, contra Ismael Laguna (membro do Hall da Fama atualmente), Tião entrava na reta final de sua carreira. Sendo treinado pelo mítico Sr. Aristides Jofre, que foi um dos treinadores de Tião durante sua trajetória, Sebastião Nascimento ainda obteria uma importante conquista: Seria o primeiro campeão latino-americano da categoria dos super-penas, ao vencer o equatoriano Jaime Valladares, em Quito, no Equador.

Tião iria para o Japão logo depois, em 1968, e enfrentava Jaguar Kakizawa, um bom lutador, e teria sua última grande vitória na carreira. No terceiro round o juiz interrompeu o combate por conta de um sangramento no olho de Kakizawa, causado por golpes de Sebastião. Ele perderia a revanche meses depois por nocaute no oitavo assalto e declararia o fim de sua estrada no Boxe profissional a partir daquele momento.

"Dizendo-se decepcionado com o pugilismo remunerado, Sebastião Nascimento, recém-chegado de uma temporada no Japão, anunciou sua retirada do boxe. Justifica sua atitude pelo pouco que ganhou no pugilismo e pela sua idade- 31 anos- afirmando que chegou o momento de pensar seriamente em sua estabilidade. O "Tião" dos ringues é militar incorporado a força pública do Estado de São Paulo." (ESTADO DE S. PAULO, 4 de Outubro de 1968, pág 19).

Nascimento, no entanto, continuaria ligado ao Boxe por mais um tempo, tendo inclusive ajudado muito na preparação de João Henrique, como seu parceiro de 'luva'.

Enfrentou gênios e membros do Hall da Fama do Boxe como Nicolino Locche e o panamenho Ismael Laguna, ótimos adversários como Carlos Hernandez – o melhor pugilista venezuelano de todos os tempos – venceu adversários de classe mundial como Lauro Salas, Orlando Zulueta e Jaime Giné, entre outros, e teve uma carreira internacional excelente, lutando em diversos países estrangeiros como Venezuela, Argentina, Colômbia, Japão, México, Panamá , sendo um lutador ranqueado entre os melhores do mundo na categoria dos leves.

Certamente um dos melhores boxeadores que o Brasil já criou.

Sebastião Nascimento virou investigador de polícia no Estado de São Paulo, depois do Boxe. 


Antonio Carollo (dir), Sebastião Nascimento (centro), Adriano Carollo (esq.) - Imagem: CBBoxe

 

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