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Publicado em 21 de Julho de 2008 às 19h:37

Sem Perder

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Autor Luigi F.

A invencibilidade, em todos os esportes, sempre foi um motivo para provar a superioridade de alguém, e dar ainda mais vontade aos adversários para derrotá-lo. No boxe, não é diferente. Mas, por ser um esporte de luta, onde uma vitória certa pode se transformar em derrota numa questão de segundos com um golpe inesperado, é ainda mais difícil se manter invicto por muito tempo. Porém, isso não é uma regra. Alguns poucos, ao longo da história, conseguiram essa façanha. A grande questão é: o que há de tão incrível com isso?

Rocky Marciano, considerado por alguns o maior da história, conseguiu se aposentar sem perder nenhuma vez. Fez 49 lutas, venceu todas, sendo 43 por nocaute. Marciano atuou entre 1947 e 1955. Bateu todo mundo que existia na época para ser batido, entre eles Joe Louis, Ezzard Charles, Harry “Kid” Matthews e Archie Moore. Porém, sempre ficou aquela dúvida sobre a verdadeira capacidade do pugilista americano, e o que aconteceria se ele vivesse na era de Ali, Foreman e Frazier.

Pulando para o presente, recentemente tivemos o alemão Sven Ottke, que se aposentou com 36 vitórias, e 6 nocautes. Começou em 1997, e se aposentou em 2004. Mas, o principal invicto dos últimos anos é Floyd Mayweather Jr. (39-0, 25 KOs). O americano, que dominou os rankings de todos os pesos nas últimas temporadas, bateu muita gente boa. Diego Corrales, Jose Luis Castillo, Arturo Gatti, Zab Judah, Oscar De La Hoya, Ricky Hatton. Nenhum desses conseguiu mostrar ao mundo o caminho para vencer o “Pretty Boy”. Há cerca de um mês, após anunciar a aposentadoria, o falastrão da terra do Tio Sam, no maior estilo Romário, acabou fazendo uma declaração polêmica, intitulando-se o maior pugilista da história: “Sou melhor que Ray Robinson. Eu aposentei invicto, e ele?”, declarou “Money” Mayweather. Apesar de até hoje não termos certeza sobre o seu abandono dos ringues, Mayweather tem ainda adversários em sua categoria. Miguel Cotto, Paul Williams, e até mesmo Oscar De La Hoya de novo. Mas, após ganhar todo o dinheiro que quis (Floyd anunciou que deverá ser um bilionário até o fim deste ano), por que ele arriscaria manchar o seu belo cartel?

Conversamos com alguns pugilistas brasileiros para tentar entender a questão da invencibilidade. Primeiro, falamos com um invicto, o super-galo Alex de Oliveira. Com 11 vitórias na carreira profissional, Alex acha que o fato de não perder é fruto de seu trabalho e dedicação. Além disso, vê um lado positivo nessa história: “A invencibilidade faz bem pra carreira de alguém, e ao mesmo tempo traz uma pressão para que você não relaxe. Perdi 22 vezes como amador, para lutadores como o Yuriorkis Gamboa e o Guillermo Rigondeaux. Mas, como profissional, acho que a dedicação faz a diferença”.

Já para o super-pena Adailton de Jesus, a invencibilidade dá mais força para um pugilista. “Ser invicto te dá ainda mais força para buscar um título, seu sonho fica mais vivo, mais forte. Não acredito que a invencibilidade pressione um pugilista, mas com certeza, ela te deixa mais determinado”, declarou. Precipício, cuja primeira derrota foi contra o americano Marcos Ramirez, em luta realizada na cidade de Kansas, nos EUA, onde o adversário é tido como herói, até hoje não engole o que aconteceu. “Foi difícil suportar aquilo, ainda mais sabendo que fui roubado. Porém, como logo depois surgiu a oportunidade de lutar no Panamá, numa eliminatória do cinturão da AMB, acabei aceitando melhor”.

Infelizmente, a invencibilidade também pode ser usada para valorizar um evento. Não que isso não seja bom para o boxe, muito pelo contrário. Quem não gostou de assistir Floyd Maywether Jr. contra Ricky Hatton, quando ambos eram invictos? Mas, nem sempre esses pugilistas invictos têm um cartel respeitável, como no caso dos dois lutadores citados. Muitos lutadores constroem cartéis lindos, lutando apenas em casa, pra depois ganhar dinheiro “vendendo” a sua invencibilidade quando enfrenta um adversário de verdade.

Às vezes, um revés pode ser muito difícil de encarar. Um exemplo é o cruzador brasileiro Laudelino Barros, que perdeu sua primeira luta como profissional para o americano Danny Batchelder. “Pensei que seria campeão mundial sem perder. Após minha derrota, pessoas que sempre disseram que eram amigas sumiram. Demorei pra recuperar minha confiança, pra perceber que poderia conquistar alguma coisa mesmo com derrotas. Mas meu psicólogo me ajudou a entender que o boxe é um negócio, e que quando você perde, as pessoas se afastam de você. Só os amigos permanecem do seu lado”.

Uma derrota não implica no fim de uma carreira. Se fosse assim, Muhammad Ali não teria sido campeão mundial mesmo depois de perder, George Foreman não teria retornado 10 anos depois de sua segunda derrota como profissional, e Sugar Ray Robinson não teria 19 lutas perdidas no cartel. Enfim, se fosse desse jeito, o boxe não seria boxe.

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