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Publicado em 26 de Julho de 2016 às 00h:08

Terence Crawford: O cruzamento entre Mayweather e Pacquiao

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Autor Daniel Leal


Imagem: Round13(Montagem: Divulgação+Top Rank)

Um pugilista destro, mas também canhoto. Que se defende muito bem, mas ataca ferozmente. Veloz, porém preciso. Caminha no ringue com maestria, ao passo que entra e sai do raio de ação do oponente com a mesma eficiência. Este é Terence “Bud” Crawford (29-0, 20 ko's).

Aos 28 anos de idade, profissional do pugilismo há oito, atleta natural de Omaha, Nebraska soma três títulos mundiais em duas categorias de peso distintas. Mais do que isso, brindou o público com atuações fora da curva diante de nomes como Breidis Prescott, Ricky Burns (em plena Terra da Rainha Elizabeth), Yuriorkis Gamboa, Thomas Dulorme, Dierry Jean, Henry “Hank” Lundy e, mais recentemente, Viktor Postol, em sua mais brilhante performance até o momento.

O que Crawford demonstra não é apenas técnica. Versatilidade talvez seja nome de seu jogo. O fato de ser perigosíssimo tanto como destro, quanto como canhoto, é um pesadelo para qualquer training camp. Imagine ter que fazer o dobro do número de rounds de sparring, pois o desgraçado com quem você vai lutar atua em alto nível nas duas bases? Além de tempo, some os custos de trazer mais parceiros de treino suficientemente bons de ambas as mãos dominantes. É um nó, que dá vantagem ao agora campeão unificado dos meio-médio-ligeiros antes mesmo do soar inicial do gongo.

Mais do que apenas ser excelente nesta confusão de estâncias e posicionamento, suas habilidades são muito bem lapidadas. Sabe lutar plantado, nas cordas, no infight, no out-side, se movimentando, dominando no jab, agredindo, ou contragolpeando. Não importa o que seja, Terence o faz, no mínimo, muito bem. Desguarnece-se na defesa em algumas ocasiões, é verdade, no entanto, penso ser muito mais graças a sua autoconfiança do que por deficiência – pelo contrário, diria que sua defesa é bastante sólida, se resolver focar-se somente nela, além de contar com bons reflexos e esquivas.

Com uma carreira bem administrada, subiu de maneira ideal o nível de seus oponentes, desde seu início. Hoje, atinge seu ponto mais alto, mas ainda tem muito o que mostrar. Este momento, por consequência, pode ainda não representar o seu maior. Contendas superiores, mais lucrativas e aonde poderá mostrar ainda mais sua capacidade, o aguardam. Claro que necessita de uma disputa no mainstream, contra alguém do “Nível A” do esporte para ser, efetivamente, admitido neste mesmo seleto clube.

Se confirmados os rumores, o enfrentamento diante de Manny Pacquiao, em Novembro, tem potencial para tornar-se este divisor de águas. Vencendo o filipino, o que não parece nenhuma zebra na atual conjuntura, Crawford passa de um ótimo combatente, à nata da nobre arte. Coloca aquela estrela necessária em seu currículo, vence alguém que, como ele, também tem “algo a mais” em relação aos demais lutadores atuando no Mundo.

O norte-americano tem muito das características de Pacquiao quando nos focamos na maneira como entra no perímetro de ataque de seu oponente, como aplica os socos de forma rápida e precisa neste momento, e como sai, em geral, ileso, da zona de perigo. Seu modo de “saltitar” enquanto gira em seu adversário dominante do centro do quadrilátero também se assemelha ao astro das Filipinas, ainda que em menor proporção. Um confronto entre os dois seria interessante, porém esta não é a luta definitiva para o homem objeto deste artigo.

Crawford seria o oposto ideal para Floyd Mayweather Jr. Entenda que, toda a dor de cabeça que Manny inferiria a Floyd, poderia ser transferida para Terence. Com um adendo de que, defensivamente, principalmente no que se refere a movimentação de retaguarda, ou seja, seu caminhar e distância, “Bud” se parece muito mais com “Money” do que com o “Pac Man”. Em resumo, o atual campeão unificado dos superleves é o pesadelo de Mayweather, é sua “tempestade perfeita”. Esta teria muito mais chances de ser a disputa do século no esporte de luvas.

Isso se deve ao fato de Crawford somar muito das qualidades dos protagonistas do último confronto em que se pensava ser a maior batalha dos últimos cem anos. Ele se assemelha ao que seria o resultado do cruzamento pugilístico entre Pacquiao e Mayweather, dado todas as características que performa, e o fato de se sentir tão à vontade sobre o tablado. Terence parece ter nascido para o boxe. Logicamente, não há como não colocá-lo como um herdeiro dos antigos mestres.

Hoje tudo isto é sonho, porém o pugliato tem dessas. Amanhã isto pode mudar. Ainda que não ocorra conforme supracitado e imaginado, o advento denominado “Terence Crawford” é somente mais um dos que provam que, se alguém pensou algum dia o contrário, a nobre arte está viva, e muito.

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