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Publicado em 28 de Novembro de 2007 às 00h:00

Uma reflexão sobre o boxe...

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Autor Daniel Leal

*Matéria originalmente publicada em 28/11/2007

Nem sempre é fácil. Começar sem estrutura, às vezes sem comida, ou a alimentação adequada. Tudo parece glamuroso quando se está no ringue, mas o caminho não é um campo florido.

O boxe nunca foi fácil, nem de se ver, nem de se praticar. Segundo a ESPN americana, em pesquisa feita há algum tempo atrás, adotando-se alguns critérios gerais em comparação com vários esportes, o boxe é aquele que mais exige do ser humano. Não é pra menos que alguém que chegue ao status de campeão do mundo seja temido pelos atletas, ou admirado por eles.

As bolsas milionárias? Eu digo, todos eles merecem. Não é fácil ser bom no que faz, ao mesmo tempo em que se tem carisma, simpatia, ou antipatia do público, e ainda dividir o ringue com alguém qualificado, que pode lhe trazer problemas, ainda por cima tendo que vencer. Isso tudo mesmo o pugilista ficando com a menor parte do bolo. Pelo menos até pouco tempo atrás ficava.

Mike Tyson certa vez disse, com as palavras exatas: “O boxeador é sempre o que se f*#@”, e afirmo, ele tem razão. O pugilista é sempre aquele que precisa apanhar, bater, treinar, fazer o peso, e ainda ser a atração principal do espetáculo, e na maioria das vezes a maior fatia do bolo vai parar nas mãos de pessoas que nem chegaram perto de calçar luvas. Nada mais justo que alguém que desenvolva tantas funções em uma noite só, e treine a vida inteira pra isso, possa ficar milionário. Só que esse status, infelizmente, é para poucos...

O argentino Carlos Baldomir, que até pouco tempo atrás era campeão do mundo, antes de vencer Zab Judah vendia vassouras e espanadores, de porta em porta, para conseguir sustentar sua numerosa família. A infeliz realidade é que nem todos receberam um cheque gordo, recheado com um milhão de dólares para enfrentar Arturo Gatti, como Baldomir recebeu. Fora a bolsa igualmente, ou mais, volumosa que o “hermano” com certeza recebeu para dividir o quadrilátero com Floyd Mayweather Jr.

Só que a imensa maioria dos pugilistas que realmente amam o boxe, independente do talento, não conseguem se sustentar no esporte. Aliás, muitos são boxeadores que por mais paixão que tenham por seu lado de atleta, não podem deixar o trabalho de lado para desenvolverem sua habilidade no ringue e administrarem sua carreira. É só pegar o exemplo de Grady Brewer. Ele não era ninguém além de uma escadinha. Um teste difícil para pugilistas que estavam em ascensão entre a categoria dos médios e a dos médio-ligeiros. Mas quem acompanhou a segunda temporada do “The Contender” viu este rapaz levando um cheque de 500 mil dólares pra casa, quando derrotou Steve Forbes na final do torneio. E porque o sucesso dentro do reallity show, mas o fracasso fora dele? O próprio Grady respondeu, durante o programa: “Aqui dentro eu tenho tempo para treinar. Eu antes era mecânico para sustentar minha família, não podia treinar direito. Eu tenho certeza que se eu pudesse treinar direito não teria perdido nenhuma de minhas lutas”.

Mas, e se o boxe tivesse mais investimento? E se todos os aspirantes ao esporte de luvas tivessem o apoio necessário? Talvez existisse algum outro esporte? Talvez não, pois o boxe, que já movimenta bilhões de pessoas, o faria ainda mais, com mais espetáculos, um atrás do outro, já que teríamos uma centena de “Mayweathers” e “Cottos” andando por aí hoje em dia. Só que ao parar pra pensar podemos analisar que talvez o que faz o boxe ser o que é, um esporte para guerreiros, seja mesmo a marginalização desse esporte. Não a marginalização exagerada como no Brasil, aonde a mídia parece esconder o boxe tentando salvar as criancinhas, mas permitem comerciais de cigarros e bebida em todo canto, a toda hora. Mas sim a marginalização “romântica” do boxe, quando um jovem pobre sai de um ginásio feio, porém um lugar aonde ele encontra tudo o que precisa, para tornar-se um campeão. E talvez seja esse o sentido do boxe, talvez seja por essa fome que o jovem tem em tornar-se rico, que as coisas aconteçam do jeito que acontecem. Talvez o caminho duro que colocamos no primeiro parágrafo desse texto faça sentido!

Minha intenção não é ser dono da verdade. Muito menos menosprezar a nobre arte. Quero apenas fazer uma reflexão sobre o mundo em que vivemos em relação ao boxe, uma modalidade tão mal-tratada, tão mal-vista, tão caluniada, tratada com tanto desdém, e que mesmo assim continua batendo recordes de público, de renda, etc. Enfim, um esporte fantástico, emocionante, que tem suas peculiaridades e suas variáveis, muitas vezes obscuras. Com tudo isso, a nobre arte só cresce, os campeonatos têm mais gente, as lutas vendem mais pay-per-views, etc. E por mais que exista corrupção, por mais que nem sempre o melhor vença, por mais que muita gente boa se perca no caminho, eu amo esse esporte, e você?

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