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Publicado em 29 de Junho de 2016 às 06h:15

Vida que segue após a toalha jogada

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Autor Luigi F.


Imagem: Alexandre Gorodnyi

Dia 29 de dezembro de 2015. Para muitos, era apenas mais uma terça-feira monótona, véspera de final de ano, numa semana entre o Natal e o Reveillon que geralmente é pouco movimentada. Porém, na cidade de Regensburg, na Alemanha, o brasileiro Eduardo Pereira dos Reis (26-3, 20 KOs) sofria um doloroso golpe em sua segunda luta realizada fora do país.

A história, que foi contada com detalhes pelo Round 13 na época (clique aqui para relembrar), é difícil de ser esquecida. Após estar em nítida vantagem no imbróglio contra o turco Yavuz Ertuerk (23-1, 19 KOs), o brasileiro viu a toalha ser arremessada pelas mãos do argentino Daniel Taddia, que estava trabalhando em seu corner, dando fim à luta e definindo a vitória do pugilista europeu.

De acordo com a versão de Eduardo, Taddia teria sido coagido pela equipe de Ertuerk a encerrar o duelo, o que garantiu, além da vitória, a conquista do cinturão inter-continental dos super-penas pela FIB ao boxeador turco.

Entretanto, mais revoltante do que o desfecho em si (o vídeo completo da luta pode ser assistido aqui), foi o que ocorreu depois. Mesmo tendo seu direito de lutar e competir usurpado, o brasileiro ainda ficou sem receber a prometida bolsa de 6 mil dólares que foi acertada entre seus intermediários, Mauro Katzenelson e Tito Modesto, e o promotor Dalibor Ban.

O tempo passou. Desde então, Eduardo subiu ao ringue duas vezes no Brasil, vencendo ambas. Porém, as marcas do que ocorreu naquele dia 29 de dezembro ainda estão na cabeça do pugilista natural da cidade de Osasco, na Grande São Paulo.

Em conversa exclusiva com o Round13, Eduardo relembrou a polêmica vivida na Alemanha. O paulista ainda aproveitou para comentar sobre a evolução de sua carreira desde então, sobre o que espera para o futuro próximo, e também sobre um desafio que lançou recentemente ao pugilista italiano Michele Focosi, com quem Eduardo afirma ter “questões pessoais” para resolver. Com vocês, Eduardo “La Dinamita” Reis!


Imagem: Arquivo pessoal


Round13: No dia de hoje faz seis meses que ocorreu a luta na Alemanha, na qual você foi nitidamente prejudicado. O que aconteceu em relação a esse episódio desde nossa última conversa? Afinal, você recebeu a bolsa que estava no contrato?

Eduardo Reis: Desde que a gente conversou pela última vez, fiquei em contato com um advogado chamado Dr. Rafael Vilhena, que falava comigo, e mandava e-mails para mim e para o Mauro Katzenelson. Depois de algum tempo, ele parou de entrar em contato. O Mauro me disse que continuou a falar com ele, e a última notícia que tive é que o Dr. Rafael tinha colocado a polícia para interrogar o Dalibor Ban, e que ele havia dito que não pagou minha bolsa porque meu treinador jogou a toalha e eu estraguei o show deles. Da última vez que tentei falar com o Dr. Rafael Vilhena, eu consegui falar apenas com a esposa dele, pois ele estava na China a trabalho. Não sei se ficou estacionado o caso, mas até agora, não recebi nada e continua a mesma coisa de lá para cá.

Round13: Como foram os últimos contatos com os promotores na Alemanha e com os empresários Tito Modesto e Mauro Katzenelson, que intermediaram a sua participação naquele evento?

Eduardo Reis: Nunca mais falei com o Tito Modesto e nem quero falar, pois achei que ele foi muito mal caráter nesse episódio. Não pretendo mais ver ou falar com ele. Já com o Mauro, nós sempre temos contato. Já discutimos bastante sobre o que aconteceu, e ele me explicou que a culpa não foi dele. Para mim, não adianta nada ficar falando, cobrando ele. O Tito Modesto tem a responsabilidade chave, pois foi ele que fez a intermediação com os turcos, foi ele que prometeu um lutador em fim de carreira, um cara que ia para lá se jogar. Mas já larguei a mão, pois sei que não vai adiantar nada. Ficou desgastante ficar cobrando e tentando receber, então não tenho mais esperanças em relação a isso.

Round13: Você está tomando alguma providência em relação ao que ocorreu ou já virou a página em relação a isso?

Eduardo Reis: Não tomei nenhuma providência adicional. Já deixei quieto, pois desde que voltei da Alemanha, já fiz duas lutas, enquanto o Yavuz ainda não voltou a lutar, ele está estagnado faz seis meses. Quero seguir a vida. Virei a página sobre o que aconteceu na Alemanha. Quero fazer mais quatro lutas no Brasil e eventualmente disputar o título brasileiro da Confederação Brasileira de Boxe Profissional (CBBP). Estou treinando para isso.

Round13: Em abril, você retornou aos ringues vencendo o Darli Pires. Duas semanas depois, você lutou novamente, dessa vez num evento em Osasco. Poderia dar mais detalhes sobre essa segunda luta?

Eduardo Reis: Depois da minha vitória contra o Darli, lutei nesse evento em Osasco organizado pelo Thiago do Carmo, onde ele também lutou. Ele e o Renato Matos promoveram o evento, e eu enfrentei o Felipe Neri, que estava estreando no profissional, e tinha feito umas 15 lutas como amador pelo que fiquei sabendo. Foi uma luta boa, mas minha experiência contou, e consegui vencer no terceiro round. Depois disso conversei com o Thiago e disse que iria focar nos treinamentos por um tempo. Estamos pensando ainda as próximas lutas, vendo qual o melhor caminho, e contando com a ajuda do Rodolfo Thamer, que também vem me ajudando na definição dos próximos passos.

Round13: Depois de tanto tempo após o acontecimento na Alemanha, você já conseguiu refletir e pensar em tudo que ocorreu. Hoje, com a cabeça fria, como você avalia todo esse episódio? Quais as lições que você tirou de tudo que aconteceu? Quais conselhos você daria para outros boxeadores brasileiros não passarem pelo que você passou?

Eduardo Reis: Por um lado, fiquei surpreso com o boxe que apresentei naquela luta. O Yavuz não é nenhum campeão do mundo, mas era um adversário experiente, com algumas lutas importantes no currículo. Eu ter ido lá e quebrado a cara dele foi muito bom. Fiquei feliz com meu desempenho. Porém, as lições que tirei disso tudo foram de nunca mais concordar com um contrato de luta com apenas uma página e faltando partes, e nunca mais ir sozinho numa viagem dessas, sem poder levar ninguém no meu corner para me ajudar e dar um suporte. Nunca mais aceitarei essas condições. Obviamente que se conselho fosse bom, todo mundo venderia ao invés de dar. Mas o conselho que eu gostaria de deixar para outros lutadores é ter paciência. Paciência para conseguir mostrar seu valor, para conseguir ter uma condição melhor, ou até mesmo poder colocar um prato de feijão na mesa. Como disse na primeira matéria, tem muito brasileiro que viaja com um prato de arroz e feijão na barriga, e é complicado. Minha motivação para viajar para a Alemanha foi financeira. Eu estava desempregado há dois anos, não tinha mais dinheiro nem para comprar desodorante. Foi uma época difícil, e a bolsa, aliada ao fato de eu achar que tinha chances após ver os vídeos do Yavuz, me fizeram topar viajar. Não sei se o boxe no Brasil vai mudar, mas precisamos acreditar. Na minha opinião, o pessoal da CBBP vem fazendo um bom trabalho, e temos também pessoas como o Rodolfo Thamer e o Patrick Nascimento que também vêm tentando mudar o cenário do boxe. É ter paciência e esperar uma boa oportunidade de verdade para as coisas acontecerem.

Round13: Na semana passada, você publicou nas suas redes sociais um desafio ao boxeador italiano Michele Focosi. Como surgiu essa história?

Eduardo Reis: Em 2011, quando eu tinha cinco lutas profissionais, surgiu essa negociação para uma luta contra o Focosi. Eu estava com bastante medo na época, pois ele era bem mais experiente. Treinei bastante, e na véspera da viagem, cancelaram a luta. Muito tempo depois, em 2013, eu já estava na faculdade, e surgiu de novo essa oportunidade de enfrentar o Focosi por um cinturão internacional da FIB. Minha carreira estava uma porcaria na época, eu estava sem lutar fazia um tempo, e comecei a treinar feito um louco para encará-lo. Saí do meu emprego, larguei a faculdade pois não conseguia pagar, até meu namoro na época desandou, pois eu não tinha recursos para nada. Minha esperança era essa luta contra o Focosi. E de repente, de novo cancelaram a disputa e contrataram outro cara. Desde então, não me procuraram mais. Outro dia desses eu estava pensando nisso tudo, vi um vídeo dele em que ele foi nocauteado numa disputa por título italiano (Nota R13: Focosi foi nocauteado no primeiro round por Marco Siciliano, em abril deste ano), e resolvi lançar o desafio. É uma luta boa para mim. Tenho chances de ganhar. Me propus a enfrentar o campeão italiano (Marco Siciliano), que venceu ele, para depois lutar contra o Focosi. Quero muito que ele aceite. Eu luto de graça se for o caso, pois essa história é antiga e virou pessoal. Quero muito bater nele. Ele me deve uma luta.

Round13: O Focosi respondeu seu desafio, dizendo que se você pagar uma boa bolsa, ele viria ao Brasil para lutar e tirar um tempo de férias. Houve algum avanço de fato nas negociações? Você acha possível que isso saia do papel?

Eduardo Reis: Acho que é possível sair do papel, mas duvido que ele venha para cá. É mais fácil as pessoas da família dele, que são responsáveis por representá-lo, fazerem uma proposta para eu ir para lá, do que toparem vir para o Brasil. Essa luta pode sair do papel, pois tanto ele, quanto eu, voltamos a treinar. Aqui no Brasil eu tenho certeza que ele não tem coragem de pisar. Esse comentário dele é conversa fiada.

Round13: Também neste ano, surgiram rumores de um possível duelo entre você e o Felipe Moledas. Como você vê isso? É um combate que te interessa?

Eduardo Reis: O Felipe me ligou na época que surgiram os boatos. Não me sentiria incomodado em enfrentá-lo, pois seria uma luta muito boa entre a gente por título brasileiro. Porém, o equívoco deles foi tentar fazer uma luta como se ele fosse o cara e eu fosse um zé ninguém. Se for uma luta neutra, com uma bolsa justa, eu topo. O Moledas é um adversário que vai me trazer risco, pois é um bom lutador, mas nossa negociação é profissional. É diferente do caso do Focosi, onde temos um problema pessoal. Com o Moledas, teria que ser um evento principal, numa cidade neutra, sem ser Osasco, ou Santos, e que nós dois recebamos uma bolsa justa. Ele concordou com isso e achou justo. Não tenho problema nenhum em fazer essa disputa, desde que essas condições sejam atendidas e tudo seja feito de forma profissional.

Round13: Além desses dois adversários, quais outros oponentes você gostaria de encarar? Existe alguma negociação para sua próxima luta?

Eduardo Reis: Me chamaram para enfrentar o Felix Verdejo um tempo atrás, mas eu disse que não dava, pois o Verdejo é muito forte, e pra mim não ia dar. Porém, enquanto não surge nada fora que seja interessante, meu projeto é buscar mais 4 vitórias no Brasil, chegar a 30 vitórias profissionais e tentar disputar o título da CBBP.

Round13: Muito obrigado pela conversa, Eduardo. Considerações finais? Algum recado para os fãs?

Eduardo Reis: Meu recado é para sempre ter os pés no chão, e também ter fé. Temos que ser frios para aguentar as porradas da vida, pois às vezes entramos em situações difíceis. Quando não temos saída, ter fé pode ajudar e muito. Gostaria de agradecer às pessoas que me fortalecem, ao Thiago do Carmo, que é meu braço direito, meu primo Rafael Ferreira, o Rodolfo Thamer, que tem me dado uma força, e a Secretaria de Esportes de Osasco, pois estou trabalhando e dando aulas de boxe lá atualmente. Agora é ficar firmeza na rocha e seguir em frente. E gostaria de agradecer ao Round13 por sempre me dar esse espaço. Me sinto muito lisonjeado pois hoje o Round13 é o maior portal de boxe do Brasil, e mesmo eu não sendo uma das figurinhas carimbadas do boxe brasileiro, é uma honra poder ter esse espaço e essa atenção. Muito obrigado. Abraço a todos. 

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