Entrevistas

Publicado em 19 de Setembro de 2008 às 00h:00

Entrevista: Adaílton de Jesus, o "Precipício"

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Autor Daniel Leal

Imagens: Arquivo Round13

*Entrevista Originalmente publicada em 19/09/2008

Há quase um ano atrás, Adailton de Jesus subia ao ringue do Seminole Hard Rock Hotel and Casino, em Hollywood, nos EUA, para enfrentar a sensação cubana Yuriorkis Gamboa. Na oportunidade, uma derrota por nocaute técnico no 6º assalto, após ter ido ao chão no primeiro round e dado o troco a Gamboa no 4º. Era o terceiro resultado negativo na até então impecável carreira de Adailton. Prejudicado nas duas derrotas anteriores, ambos revezes ocorridos por pontos e na casa de seus adversários, “Precipício” retornou para o Brasil, onde só voltaria a lutar em 2008.

O tempo passou. Em um cenário muito distinto ao que Adailton se encontrava em outubro de 2007, o baiano, natural de Salvador, chegou para nos conceder a entrevista. Logo que adentrou, o sorriso já estava estampado em seu rosto. O mesmo permaneceu durante as quase duas horas de conversa, e não desapareceu nem quando o assunto foi a suposta derrota em sua primeira luta profissional, frente ao pernambucano Bruno Moraes.

Chateado com as derrotas sofridas no ano passado, Precipício se mostrou bastante confiante em ainda conseguir algo no boxe. Falou sobre as expectativas para o futuro, as histórias do passado e sobre tudo que os fãs e nós mesmos queríamos saber. Com vocês, mais uma entrevista exclusiva do Round 13.

R13: Conte um pouco sobre sua vida, como e por que começou no boxe.
Adaílton: Na verdade, na Bahia, no bairro onde eu nasci, chamado Pernambués, muitos lutadores são revelados. Quando eu era mais novo eu também gostava de futebol, jogava de zagueiro, lateral, mas como era muito brigão, acabou não dando certo. Uma vez tive uma briga tão feia que a torcida em um jogo quis me linchar. Aí um dia um colega me levou pra treinar (o André). No treino tomei uma surra de um moleque e resolvi começar a treinar pra vencer dele. Treinei um ano pra isso e ganhei por nocaute com 15 anos de idade (risos).

R13: Como foi sua carreira no boxe amador?
Adaílton: Comecei a competir com 16 anos, treinava com o Popó, que era um ídolo pra mim. Cheguei a ir pra seleção, mas não tive a oportunidade de participar de Olimpíada.

R13: Por que o rompimento de trabalho com Luiz Carlos Dórea?
Adaílton: Eu tava com Dórea, mas não tinha resultados, nem financeiros, nem profissionais. Quando o Popó resolveu romper com ele, ele me chamou, e me ofereceu um salário, que por sinal ele não cumpriu. Procurei o Dórea e perguntei o que ele achava disso. E ele me disse que tinha muitos atletas, e que se eu quisesse ir eu poderia. No dia que eu fui embora, ele ficou lá na janela da academia me olhando como se quisesse que eu voltasse. Mas acabei indo e como ele não falou nada procurei outros caminhos, e fui o único atleta a romper com o Dórea e acompanhar o Popó.

R13: Abordando um assunto polêmico e que gera dúvidas nos leitores, gostaríamos de saber quando, onde e como foi sua primeira derrota no profissional. A razão do questionamento se deve ao fato de que sempre que publicamos que seu primeiro revés foi frente a Marcos Ramirez em 2007, alguém aponta que em sua primeira luta profissional você foi batido na Bahia por um pugilista pernambucano chamado Bruno Moraes. Essa versão nos foi confirmada por Daniel Fucs, vice-presidente da CBBoxe, por Joilson Santana, diretor técnico da Federação Baiana de Boxe, e por Jaime Moraes, presidente da Federação Pernambucana e irmão do Bruno. O que você tem a dizer sobre isso?
Adaílton: (risos) Essa história é complicada, todo mundo quer saber disso. A história foi a seguinte: a luta contra o Bruno foi em 1999, na época treinava pela Academia Champion, e era peso mosca. Antes da luta com o Bruno, lutei com o Marcel Espiridian, numa eliminatória para o Brasileiro, e bati muito nele, abri seu supercílio. Então o Dórea me mandou para outra eliminatória, só que eu teria que atingir 51kg, sendo que eu tinha 60kg! Como era inexperiente, moleque ainda, fui tirando peso na maluquice, fiz loucuras, tomei vinagre, corri no sol de outubro na orla de Salvador.
No dia marcado fiz uma luta com o Mone de manhã. Venci e viajei para Minas a tarde. Após 14 horas de viagem, e com tudo aquilo que eu já tinha feito por causa do peso, passei mal. Consegui atingir 53 kg, mas não era o suficiente. Daí o Dórea falou que eu tava com medo de lutar com um cara de Minas e me mandou de volta para Salvador.
Aí eu fiquei treinando sozinho, e cheguei a enfrentar o Jorge "Canhoto" Mesquita, aonde tomei meu primeiro KD. Lutei muito bem, perdi nos pontos, numa época em que ninguém passava do primeiro round com ele.
Depois disso, o Dórea me falou de fazer uma luta que seria semi-profissional, sem papeleta nem nada, nem sei se existe isso. Como eu tinha lutado há pouco tempo com um canhoto, eu estava preparado. A luta foi assim: logo no primeiro round, ele jogou um jab, eu desviei e mandei um direto. Ele foi pro chão e caiu de joelhos. O pessoal que estava assistindo delirou, começaram a batucar e gritar. Ele apanhou por seis rounds. O resultado saiu por decisão e deram vitória pra ele. O pessoal que estava assistindo ficou revoltado, saiu até briga. O que eu sei, é que sumiram com as papeletas, até hoje ninguém mais viu isso.
O tal do Jaime fica falando, só que ele sabe que eu estou aqui quando eles quiserem, ele só fica agitando. Essa história aí é sacanagem, eu só fui estrear como profissional em 2002! E o Jaime só veio com isso depois que eu comecei a aparecer e me destacar por iniciar minha carreira invicta lá fora.

R13: Você teve um excelente desempenho no início de sua carreira profissional, vencendo 18 lutas e chegando a ser rankeado entre os top 15 de algumas das entidades. Conte-nos um pouco sobre esse início no profissionalismo.
Adaílton: Aqui no Brasil eu bati em todo mundo, tinha 18 vitórias, sendo 17 por nocaute. Só parei de nocautear quando fui pra fora. Eu fiquei tenso porque me colocavam pressão dizendo que lá fora era difícil.

R13: Em 2006, você fez sua primeira luta no exterior, ao enfrentar o americano Kevin Carmody nos EUA. Você ganhou aquele combate por decisão majoritária. Como foi lutar fora pela primeira vez? Para você, qual é a importância de se lutar fora do Brasil, principalmente nos EUA?
Adaílton: Kevin Carmody foi um adversário complicado pra mim, por culpa minha mesmo. Quando eu olhei o cartel dele e vi que ele tinha 6 derrotas em 14 lutas, achei que seria fácil, e simplesmente fui pra cima. Ele acabou agüentando, e eu, inexperiente, acabei vencendo só por pontos.

R13: Seu primeiro grande desafio foi o mexicano invicto Noe Bolanos. Naquela oportunidade, você o derrotou por decisão unânime. Como foi aquela luta?
Adaílton: Bolaños foi um dos oponentes mais duros que eu já enfrentei. Porém, foi a minha melhor preparação. Foi a única vez na minha carreira que eu sabia o que esperar, sabia direitinho o que ele era capaz.O Bolaños pega forte, eu estava aparentemente calmo, mas por dentro estava tenso. Me deu muito trabalho.
Naquele tempo apontavam no BoxRec que ele tinha 16 vitórias, mas ele tinha 21.Foi uma luta dura, mas eu consegui me sair melhor.

R13: Sua primeira derrota lá fora foi frente ao americano Marcos Ramirez, em 2007, nos EUA. A luta ocorreu em Kansas, cidade onde Ramirez é considerado herói. Várias pessoas que assistiram a luta, inclusive o comentarista da ESPN Teddy Atlas, viram você ganhando. Como foi perder sabendo que, em qualquer outro lugar do mundo, você poderia ter vencido? 
Adaílton: Não acreditei no resultado, fiquei muito triste. Na hora do anúncio, quando deram a vitória pra ele, eu fiquei com a cabeça baixa, pensando o que poderia ter feito diferente. Foi muito dinheiro envolvido, e eu acho que o Servilio (de Oliveira, ex-pugilista e empresário de Adailton) não tinha que aceitar essa luta naquele momento. Eu preferia ter ficado aqui, protegido e ganhando pouco, do que ir pra uma luta que eu não tinha a menor chance de vencer. Mas não foi assim. Pra vocês verem, até o Teddy Atlas, que é americano, viu que eu ganhei, portando eu concordo com ele quando disse que eu não devia ter pegado o avião.

R13: Logo após a derrota para o americano, surgiu uma oportunidade para você enfrentar o panamenho Roinet Caballero, no Panamá. Era um combate eliminatório pelo cinturão dos penas da AMB. Mais uma vez derrotado em uma decisão polêmica. Como foi esse episódio?
Adaílton: O cara do Panamá não teve luta, ele correu de mim a luta inteira, na pesagem ele já mostrava medo de mim, deu pra ver que a luta era pra ele. Quando eu cheguei lá, os panamenhos falavam: "Usted estás muerto, vá pegar El matador del Panamá" (risos). Eu fiquei tranqüilo, não tava nem aí, o cara era um baixinho, tava louco pra enfiar a porrada nele. Após a luta, a própria torcida vaiou o resultado.

(pergunta do internauta) O que faltou em sua opinião para você vencer os dois combates que resultaram em suas primeiras derrotas? Um nocaute? Mais agressividade? Mais golpes conectados? Estratégia?
Adaílton: Faltou maturidade do Servilio, e na primeira luta faltou agressividade da minha parte.
Na segunda nem deu, o Caballero correu o tempo inteiro!

R13: Depois de suas duas primeiras derrotas internacionais, você enfrentou o cubano Yuriorkis Gamboa, apontado por muitos como futuro campeão mundial. Você foi derrubado logo no 1º round, mas deu o troco no 4º. Mesmo assim, perdeu por nocaute técnico, ao nosso ver em uma atitude precipitada do árbitro, no 6º assalto. Como surgiu a oportunidade de pegar Gamboa, como foi a luta e o que ela lhe acrescentou como boxeador?
Adaílton: Contra o Gamboa, pela primeira vez, eu fui consciente que ia pegar um adversário muito bom, mas sabia que ele era novo no profissional. Conversei com o pessoal daqui que já tinha enfrentado ele, como o Alex, e me disseram que era uma luta pra ele. Eram só seis rounds, estava tudo preparado pra ele, mas eu poderia encaixar uma mão e acabar com aquilo a qualquer momento.
A chance era boa pra mim, eu não me arrependo de ter ido. Um dia antes da luta, eu estava lá no hotel, e mostrei pra um colega meu o Gamboa lá embaixo, dando entrevista. Como a gente só conhecia ele por foto, não dava pra ter certeza né? Meu amigo me disse: "Imagina Adailton, olha o tamanho desse cara... Não é sua categoria não". Mas eu teimei, falei que era ele sim. Quando chegou na pesagem, adivinha: o Gamboa deu 131 libras e eu tava com 125 libras. Não que isso tire o mérito dele, mas foi foda.

(pergunta do internauta) Um enfrentamento entre Yuriorkis Gamboa e Marcos Ramirez já se encontra marcado para Outubro próximo. Pela sua experiência em combate contra ambos, qual entre os dois você acredita que sairá vitorioso nesta contenda?
Adailton: Ramirez é esperto, não vai pra cima, fica na distância pra combater, é lento, mas agüenta muito. Quando a gente lutou, eu acertava ele em cheio e ele só abaixava um pouco os joelhos e voltava. Mas o Gamboa é mais lutador, deve ganhar por pontos.

R13: Dizem que na Bahia muita gente sempre quis ver você duelando contra o Lázaro “Grilo” de Jesus, desde os tempos em que eram amadores. Isso é verdade? Ainda existe uma chance deste duelo acontecer hoje como profissionais?
Adaílton: Contra o Grilo seria boa a luta, já desafiei ele através do Popó, mas não quiseram. Ele não é tão pegador, acho que iria bem contra ele. Se algum patrocinador quiser bancar isso aí, eu tô dentro.

R13: Após 3 derrotas consecutivas, o que passava na sua cabeça? Você achava que estava sendo bem guiado na carreira profissional?
Adaílton: Bolaños eu estava bem preparado, Ramirez não, eu treinei para combater o Bolanos, no caso do Ramirez não.

R13: Quando você luta fora do país, como é dividida a sua bolsa?
Adaílton: 33,3% com Servilio, 10% com meu treinador, e o resto comigo.

R13: 2008 chegou, e você lutou duas vezes, vencendo ambas por decisão unânime. Como foram essas lutas?
Adaílton: Edilson Rio agüenta muito, não é um cara tão técnico, mas compensa com o  queixo.
Já o Tomé é muito experiente e tem qualidade. Movimentou bem pra levar a luta, não tanto quanto o Caballero, mas se movimentou bastante.

R13: Você ainda tem alguma pretensão para esse ano? Deve lutar quando?
Adaílton: Quero lutar com o Daniel Attah ainda esse ano, o Servilio já esta vendo isso. Ele é um adversário muito menos complicado que o Gamboa. Estamos tentando trazer ele pra cá, se der certo, será aqui em São Paulo. E quero ver vocês lá hein (risos).

R13: Quais seus objetivos para sua carreira? Ainda pensa em algum título mundial? Vê alguma chance concreta disso ocorrer?
Adaílton: Quero o cinturão da AMB, que hoje está na mão do Chris John, da Indonésia. Vamos ver se a gente consegue ajeitar isso pra ainda esse ano. Estou pronto pra qualquer um, campeão de qualquer entidade, meu treinador atual, o Anderson, é muito bom. Ele é um cara aberto para coisas novas, ele que pensa pra frente no boxe, o treino não tem só saco e sparring. Sempre ele tá indo aí pra Cuba aprender coisas novas, e isso acaba dando resultado. Estou trabalhando melhor minha forma muscular e tomando suplementos. Tenho agora até terapeuta (risos).

R13: Temos apenas 4 campeões mundiais. Você vê algum dos pugilistas de nosso atual quadro conquistando um cinturão? Quem são nossas maiores esperanças?
Adaílton: Carlinhos Furação é um bom lutador, muito bom tecnicamente, é um craque, mas acho que ele não tem “bago”. Alex vai pra frente, mas não é tão técnico. Ele é muito briguento. Josenilson, lá da Bahia, é bom, vai pra frente, em breve deve lutar fora do país. Tem o Wilson Tsunami, adoro aquele moleque, ele é bom. Outro é o Aldimar Santos de São Caetano, mas é brigão como o Alex. Nas categorias mais pesadas tem o Ratinho, o Marcos André e o Lino.
O Lino na Europa é complicado, eles têm muitos lutadores bons nos pesados.

R13: Gostaria de agradecer alguém específico que te apóia e/ou ajuda (patrocínios, amigos, etc)?
Adaílton: MaxMuscle de SCS, NeoNutri, né, todo o pessoal que tem me dado um apoio aí. Também quero agradecer ao meu sparring Aldimar e ao Josenilson, que é um cara show de bola.

R13: Algum recado para os fãs, ou alguma consideração final?
Adaílton: Agradeço a oportunidade ao Round 13, e gostaria de mandar um abraço pra todos que participaram aí da entrevista. Fiquei de olho lá no site e fiquei muito contente com o retorno. Muito obrigado pela chance. Aproveito para dizer que vocês não irão se decepcionar, e que o meu sonho é chegar lá. Não quero mais nada, não importam minhas derrotas nem nada. Só quero estar lá, cara a cara com um campeão mundial algum dia, disputando um título. Aí sim tenho certeza que consigo trazer o cinturão para o Brasil. Valeu!

Agradecimentos,
Max Muscle SCS - atendimento@maxmuscleabc.com.br
Academia Square – São Bernardo do Campo, SP

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