Entrevistas

Publicado em 01 de Maio de 2008 às 00h:00

Entrevista: Ahmed "Babyface" Kaddour

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Autor Daniel Leal

Imagens: Arquivo pessoal

*Entrevista originalmente publicada em 01/05/2008

Nascido em Beirute, no Líbano, Ahmed Kaddour (20-2-1, 9 KO’s) nem sempre se dedicou ao boxe. Quando criança, jogava futebol, esporte que acabou largando, pois seu time sempre perdia os jogos. Aos 7 anos, Ahmed decidiu começar a treinar boxe. Sua primeira luta veio após apenas 2 meses de treinos, e ele venceu, conseguindo, mais tarde, entrar para a seleção nacional da Dinamarca. Daí em diante, destacou-se no cenário europeu, sendo 5 vezes Campeão Dinamarquês, e 2 vezes Campeão Escandinavo. Como amador, teve 67 lutas, com apenas 3 derrotas.
Aos 18 anos, Kaddour profissionalizou-se e após realizar 14 lutas, vencendo todas, resolveu investir num objetivo muito semelhante ao de diversos pugilistas brasileiros: ir para os Estados Unidos e tentar fazer os seus sonhos virarem realidade.
Após participação na primeira temporada do reality show “The Contender”, Ahmed apareceu para o mundo. Hoje, com 26 anos, após altos e baixos desde sua participação no programa de TV, Kaddour quer retornar por causa de seu filho Jordan Kaddour, pois deseja que este tenha orgulho do pai no futuro, e ainda sonha em se tornar campeão mundial. Morando atualmente em Paris, na França, Ahmed se mostrou muito prestativo em falar com os fãs brasileiros. Mais uma vez, o Round 13 inova e traz, com exclusividade, uma entrevista com o atleta internacional

Round 13: Você nos disse que começou no boxe após desistir do futebol. O que te levou a continuar no boxe, mesmo com todas as dificuldades?
Ahmed: Eu nunca fui de desistir, e nunca serei assim, não importa o motivo. Eu amo o boxe, e o que acontece nos seus bastidores, como problemas com promoters e outras coisas pessoais, não me fariam parar. Isso é apenas o que pessoas fracas fariam, e eu não sou assim. Agora, tendo um filho que eu amo demais, eu retornarei ainda mais forte, e não irei parar até atingir o meu objetivo, que é se tornar um campeão mundial. É só uma questão de tempo.

R13: Antes de entrarmos no assunto “The Contender”, conte-nos um pouco sobre sua vida desde o Líbano até a ida para os Estados Unidos.
Ahmed: Eu nasci no Líbano em 1982. Meu país ainda estava em guerra, e o meu pai quis se mudar para um lugar melhor, onde pudéssemos ter uma vida melhor, ter educação e nos tornar alguma coisa em nossas vidas, coisas que não aconteceriam no Líbano. Eu estudava na Dinamarca e era bem inteligente, acreditem ou não. Estava um ano adiantado na minha classe. Recebi o diploma de mecânico, e tornei-me algo que jamais seria em meu país. Naquela época, eu estava na Seleção Nacional de Boxe, e era muito difícil conciliar os estudos com os treinos. Então, após terminar os estudos, eu estava apenas treinando e planejando ir aos EUA, buscar maiores oportunidades. Foi o que eu fiz, mas as coisas não deram tão certo quanto eu esperava.

R13: Você vem usando o apelido de “Hollywood”. Você prefere este ou “Babyface”? A propósito, por que “Babyface”?
Ahmed: Eu prefiro “Babyface”, porque este sou eu. Eu sou legal fora dos ringues, mas, quando a luta começa, eu sou um pesadelo. Eu não sei exatamente o porquê de “Babyface”, mas quando comecei a lutar, todas as garotas me chamavam assim. Acho que foi daí que o apelido pegou.

R13: Os brasileiros te conhecem por sua participação no reality show “The Contender”. Como você avalia sua participação no programa? Apesar das derrotas, foi algo proveitoso?
Ahmed: Nada é bom quando você perde, mas tudo acontece por uma razão. Eu acho que poderia ter ido muito melhor se estivesse 100% focado. Eles me mostraram como o vilão no programa, mas o que os telespectadores viram não era o verdadeiro Ahmed. Eu estava apenas 50%, e não conseguia me focar naquilo por causa de diversos problemas, além de me preocupar muito com a minha ex-mulher ao invés dos treinos. Eu estava lá em Hollywood, saindo, bebendo e transando. E mesmo estando apenas 50%, eu causei um belo estrago nos meus adversários, é só olhar o rosto do Alfonso (Gomez) após nossa luta.

R13: Durante o programa, você era um dos favoritos, sendo assim apontado inclusive pelo treinador Tommy Gallagher. O que aconteceu?
Ahmed: Como eu disse, eles não mostraram tudo no programa. Apenas mostraram o que lhes interessava, e é assim que a TV funciona. Hollywood não é nada mais que entretenimento. Eles mostram muita merd*, e se me perguntassem se eu gostaria de participar de um outro “The Contender”, eu diria que não. Eu ainda penso ser o melhor dos participantes, e adoraria enfrentar qualquer um deles. Só que dessa vez eu estaria 120% preparado e apenas me preocupando em lutar. Eu perdi a cabeça durante o programa, e fiz coisas que não faria normalmente. Mas, como eu disse, é tudo TV, e eu aprendi bastante sobre o que fazer e não fazer.

R13: Você parecia um dos mais confiantes no programa. Você acha que isso pode ter feito de você o vilão?
Ahmed: Eu nasci num período de guerra, então, o que aqueles caras poderiam fazer pra me assustar? Eu sou confiante por tudo que já passei. Eu sou árabe, e nada pode me parar, a não ser Deus. Nesse esporte, você tem que ser forte, porque assim que você mostrar uma fraqueza, você será humilhado. Quero dizer, se você for para uma luta e não confiar em você mesmo, você não pode ser um boxeador, me desculpe. Você tem que acreditar em si mesmo, pensar em todas aquelas horas que você dedicou aos treinos, e em todas as coisas que você não pode fazer com seus amigos por causa disso, como sair e beber. Então, por que eu faria tudo isso pra, quando chegasse o dia de eu lutar, eu não confiasse em mim mesmo? É por isso que todos os lutadores devem ser confiantes.

R13: Durante o programa, você discutiu com o pugilista Ishe Smith (19-3, 9 KO’s). Como realmente foi aquilo e de que forma você encarou a situação além do que foi mostrado nas câmeras? Faria uma revanche contra ele?
Ahmed: Oh meu Deus, eu adoraria enfrentar esse cara de novo. Não mostraram o que realmente aconteceu...não mostraram quando ele falou comigo, apenas mostraram eu respondendo merd* pra ele! Antes do programa começar, estávamos todos no processo de seleção. Tinham uns 70, 80 lutadores ainda. Estávamos todos lá, na frente do hotel, e havia três grupos: os negros, os mexicanos e os brancos. Cada grupo estava sentado sozinho, e poucos eram os lutadores que se misturavam. Eu estava vestindo um terno no dia da entrevista, e então o Ishe veio para cima de mim, enquanto estava com os outros negros e disse: “Por que você usa um terno? Na Europa não existem bons lutadores, você deveria ser modelo, não pugilista”. Então, eu disse que ia nocauteá-lo ali mesmo, mas daí o pessoal da TV veio, nos separou e nos manteve longe um do outro. Após a nossa luta (Nota: Ahmed foi derrotado por decisão unânime após 5 rounds; scores: 45-50, 45-50, 46-49), o Comissário da Califórnia me disse, ele mesmo, que eu havia vencido, mas não mostraram a luta na íntegra para o público.

R13: E naquela luta contra o Alfonso Gomez (18-4-2, 8 KO’s), o que aconteceu?
Ahmed: Ah cara, aquela luta eu tenho mais certeza ainda que eu venci! Eu realmente ganhei. Alfonso estava destruído, e não queria nem voltar à luta após 4 rounds, mas acabou ajudado pelo pai dele. Ele quase foi nocauteado. Eu tentei enfrentá-lo após o programa, mas ele não quis. Ele não quis me dar uma revanche. Apenas olhem para o rosto dele após a luta e para o meu. Ele não me machucou aquele dia. Ele até deu vários socos, mas não me machucou nada, e eu acho que ele ainda luta como um amador (Nota: os scores dessa luta não foram divulgados pelo programa).

R13: Você e Sergio Mora (20-0-1, 5 KO’s) pareciam ter um bom relacionamento durante o The Contender. Você acha que ele conseguirá tornar-se campeão mundial em sua próxima luta, contra Vernon Forrest (40-2, 29 KO’s), dia 7 de junho?
Ahmed: Sergio é um cara honesto, um grande cara dentro e fora dos ringues. Nós éramos amigos durante o programa, e até mesmo depois dele chegamos a sair em Hollywood, pois morávamos em Los Angeles. Eu conheço o Vernon muito bem do ginásio em que eu treinava em Hollywood, e acho que Sergio pode se dar bem; ele é esperto e sabe lutar de várias maneiras diferentes.

R13: Como é a sua relação com os participantes do programa hoje? Tem contato com algum deles?
Ahmed: Hoje não, não tenho mantido contato com nenhum ex-participante, apenas com o Sylvester Stallone e o irmão dele, Frank.

R13: Quem é seu ídolo como pugilista? E como pessoa?
Ahmed: Com certeza, o “Golden Boy” Oscar De la Hoya e Muhammad Ali, respectivamente.

R13: Após o The Contender, você realizou 3 lutas, vencendo duas e empatando uma. Depois disso, iniciaram-se problemas em sua vida pessoal, e você acabou preso no ano passado. Conte-nos sobre o que realmente aconteceu.
Ahmed: Quando eu tive aquele empate (Nota: contra Jesus Felipe Valverde, em 9 de Setembro de 2006), eu estava passando por problemas com a minha ex-esposa, Brandy. Eu fui preso em 12 de Junho de 2007, por supostamente ter invadido a casa dela. Mas, ela havia me dado as chaves e foi visitar a família dela no Corpus Christi. Quando ela voltou, chamou a polícia e disse que ela não sabia como eu havia entrado na casa. Tentaram me condenar, primeiramente, por 15 anos, mas eu contratei um advogado e um detetive, e mudaram a pena para invasão de propriedade. Peguei 6 meses e fui solto dia 6 de Dezembro de 2007. Eu não queria vê-la novamente, então voltei para casa para ver meus amigos e minha família na Europa. Quando eu estava nos EUA, larguei tudo na Europa por causa dela, para começar uma família. Mas aí ela me chutou. Ela é muito egoísta, e eu realmente não sei o motivo dela ter feito isso comigo.

R13: Durante esse tempo em que você esteve preso, quais eram seus pensamentos? 
Ahmed: Eu chorava todos os dias, nunca havia sido preso na minha vida. Eu estava enlouquecendo, e chegava até a falar sozinho algumas vezes. Eu estava fora de mim, e desejando que Deus me ajudasse nesse momento difícil da minha vida. Eu pensava muitas vezes o porquê dela ter feito aquilo, o que eu havia feito de errado praquela mulher. Mas só Deus sabe. Eu também sentia muita falta do meu filho Jordan, todos os dias ele era o único a me fazer ficar bem e levantar. Eu nunca o desapontaria, então, toda vez que eu estava pra baixo eu pensava nele, e isso acontecia na maior parte do tempo.

R13: Como é a sua relação com o seu filho, Jordan Kaddour?
Ahmed: Eu não o vejo faz tempo. Eu o amo demais, e sinto muito a falta dele, só Deus sabe quanto. Eu fico muito triste quando penso em como aquela mulher pode agir daquele jeito. Eu nem sei mais como é a aparência dele, a última vez em que o vi foi pelo MSN.

R13: Você disse ter o sonho de se tornar campeão mundial. Outros ex-participantes, como Peter Manfredo Jr (29-5, 14 KO’s) e Alfonso Gomez chegaram a disputar versões do título, mas foram derrotados [por Joe Calzaghe (45-0, 32 KO’s) e Miguel Cotto (32-0, 26 KO’s), respectivamente]. Você pensa ter chances de conseguir atingir seu objetivo? Quem você vê como grandes adversários dentro da sua categoria?R13: Como está a vida na Europa?
Ahmed: Eu amo tudo na Europa. Quando eu estava preso nos EUA, todo mundo lá me dizia para retornar. É o lugar para se viver, acreditem em mim. Eu também amo as mulheres daqui, elas são todas muito lindas (risos).

Ahmed: Posso alcançar qualquer coisa, desde que Deus me permita. É só questão de tempo. Eu luto uma luta de cada vez, e para mim, todos os lutadores são campeões. Assim, quando eu entrar no ringue, eu farei de tudo para evoluir e chegar mais próximo do cinturão de campeão Mundial. Na minha categoria (Nota: médio ligeiro), eu adoraria enfrentar Vernon Forrest (Campeão do CMB), ou até mesmo o Verno Phillips (Campeão da FIB), após algumas lutas depois do meu retorno.

R13: Quais são seus planos para agora? Está treinando? Pretende retornar contra algum lutador renomado ou ir subindo de nível aos poucos?
Ahmed: Meu plano agora é me manter focado e melhorar a minha forma física. Estou treinando, mas não com força máxima, pois não sabemos quando terei uma luta confirmada e onde ela será. Após algumas lutas, quero enfrentar bons oponentes, e então entrar na lista dos top 10 do mundo.

R13: Não seria interessante para você lutar como meio-médio?
Ahmed: Adoraria fazer isso, mas sou muito grande para essa categoria. Eu cheguei a lutar como meio-médio quando me profissionalizei, mas estou mais forte e maior, e não consigo diminuir mais o meu peso.

R13: Você tem uma boa qualidade técnica, usando a guarda peek-a-boo, porém seu estilo é muito defensivo. Como você vê isso? Não seria melhor atacar mais e defender-se menos?
Ahmed: Eu luto de todos os jeitos, depende de quem eu estou enfrentando. Às vezes luto ofensivamente, porque é o que é necessário, e às vezes faço diferente. Você não pode ter apenas um estilo de luta, pois você se torna muito previsível. Você tem que misturar estilos. Eu bato forte e sou rápido, mas isso não modifica o meu estilo, e eu penso que ser defensivo é um bom jeito de acabar com o seu oponente de vez em quando.

R13: Com quem você está treinando agora? Você se encontrou com algum antigo treinador, manager ou promoter aí na Europa? Como é o seu contato com a Top Rank hoje em dia?
Ahmed: Quando voltei à Dinamarca, vi muitos antigos treinadores, mas nenhum antigo manager ou promoter. Eu tenho um treinador aqui, mas mudarei pro meu antigo treinador Brian Mathisen assim que eu puder. Não falei com a Top Rank por muito tempo, pois estava preso, mas falei com eles enquanto eu ainda estava nos EUA, e eles me disseram que eu poderia lutar na Europa, desde que eles soubessem disso.

R13: Para você, quem é o melhor pugilista de todos os pesos atualmente?
Ahmed: “Pretty Boy” Floyd Mayweather Jr.

R13: Você tem algum lema?
Ahmed: “Se você quer alguma coisa na vida que ninguém tem, deve fazer alguma coisa que ninguém faz”. Pensem sobre isso, é verdade!

R13: Algum recado para os fãs brasileiros?
Ahmed: Gostaria de agradecer a todos pelo apoio e por mostrarem confiança e ainda acreditarem em mim. Como eu sempre disse, nunca desapontarei meus fãs, e voltarei ainda mais forte. Eu amo todos vocês, muito obrigado novamente.


MySpace do Ahmed “Babyface” Kaddour:
http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=372577951

Agradecimentos:
Michael Campbell
Paula Varella

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