Entrevistas

Publicado em 18 de Maio de 2008 às 00h:00

Entrevista: Alex de Oliveira

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Autor Daniel Leal

Imagens: Arquivo Round13

*Entrevista originalmente publicada em 18/05/2008

O Round13 iniciou suas atividades como um site que serviria de ponte entre o brasileiro e a nobre arte do uso dos punhos para ataque e defesa. A idéia inicial era ajudar, de alguma forma possível, o boxe á crescer dentro do Brasil.

Dar espaço para o pugilista nacional expressar-se e aparecer é algo que fazemos com carinho, ainda mais hoje, dia em que publicamos a entrevista realizada no último dia 10 de Maio, com Alex de Oliveira (10-0, 9 ko’s), campeão latino interino dos super-galos e número 13º no Ranking mundial da OMB.

Além do compêndio da conversa publicada aqui, Alex insistiu em ressaltar certos pontos. Um deles é o apoio ao atleta, que segundo ele sofre muito preconceito no Brasil por vir das classes mais baixas. “O pessoal do boxe é muito sofrido, alguns são até ex-presidiários, por que aqui no Brasil o atleta não é prestigiado. Eu tive oportunidade de viajar lá pra fora, para vários países,e lá o pugilista é um herói, é tratado como rei, tem todo o apoio necessário.”, declarou o jovem campeão.

Mas suas outras ressalvas se concentram quase que ironicamente em seu principal apoio: A Equipe do Coliseu Boxe Center.
De seu lar, a fera dos ringues só tem elogios, inclusive sobre seu sparring, Dídimo Nascimento, que vem se destacando no cenário paulista amador. Não era pra menos, com um companheiro de treino desses, os atletas que Dídimo enfrenta parecem moleza, apesar de com certeza não serem.

Gentilmente respondendo á todas as nossas perguntas, Alex mostrou-se simpático, confiante e humilde, mas, além disso, mostrou ser um cara consciente, e que sabe o que quer. Com vocês a palavra do bem encaminhado boxeador brasileiro sobre seu futuro, inspirações, lutas,o cenário do boxe brasileiro atualmente, suas expectativas, e até sobre as carreiras de seus companheiros de equipe. 

Espero que gostem tanto quanto nós!

R13: Alex, primeiramente queremos te parabenizar por todas as suas conquistas de forma tão rápida até o momento. Por isso gostaríamos de saber, quem te dá apoio atualmente para que você continue lutando em alto nível (treinadores, patrocinadores, empresários, etc)? Em qual local você vem treinando? Recebe que tipo de apoio?
Alex:Não tenho nenhum patrocínio hoje, meu empresário é o Willian Paiva, que é o criador do Coliseu Boxe Center, que também apóia atletas amadores e profissionais também; Tem o Anderson "Pantera", Dominguinhos, Jefferson, "Topete", Willian Andradas, e outros. Foi ele que me ajudou a obter essa ascensão que tive em menos de um ano.


R13: Tem alguma mensagem pra quem estiver interessado em te patrocinar?
Alex: A escassez de patrocínio é muito grande né? O seu William Paiva me dá uma ajuda, uma grana todo mês, mas não é nem um patrocínio, é uma ajuda. Eu gostaria de ter um patrocínio e quem quiser me ajudar pode mandar um email para alexoliverboxe@hotmail.com, ou entrar em contato com o Coliseu Boxe Center, com o William Paiva. 
Que eles assistam minhas lutas e por elas dá pra saber que eu tenho um grande potencial. Fazendo isso eles plantam hoje para colher amanhã, porque quando meu nome estiver em alta, será o nome deles que irá aparecer para o mundo.

R13: Como foi seu começo no boxe? Por que começou á lutar?
Alex: Foi aos 15 anos de idade, eu comecei por curiosidade. Eu assisti uma matéria, acho que em 2000, sobre o Popó, quando ele estava em ascensão, era o lutador do momento, tava em seu auge, eu vi e achei legal. Só conhecia boxe através do  Rocky Balboa. Comecei a treinar, uma semana, duas, três, quatro, amei, estou aqui até hoje, graças á Deus.

R13: Por que você saiu da seleção brasileira antes da disputa do pan-americano do Rio de Janeiro? 
Alex: Aconteceu muita coisa, desgaste físico e principalmente o psicológico. Na minha época de seleção, havia uma pressão muito grande em cima dos atletas, exigiam mais do que nós poderíamos dar. Os treinadores eram cubanos e exigiam muito, queriam impor o regime de Fidel Castro aqui para os lutadores brasileiros.Nós ganhávamos alguma coisa, existiam os benefícios, mas não era muito, além disso, quando faltávamos, mesmo se fosse para ir ao dentista ou ao médico, havia cortes. Desde 2002 eu estava na seleção e tudo isso ia acumulando até um momento que eu não queria mais, então surgiu a oportunidade de seguir a carreira profissional, foi quando eu pensei: "Ou passo para o profissional, ou procuro um trabalho comum". Graças ao meu bom Deus estou indo bem no profissional e tudo casou

R13: Foi o Willian Paiva que te procurou ou você o procurou?
Alex: Eu já conhecia ele, não houve a necessidade de procura, eu simplesmente tive uma conversa amigável e ele me ofereceu pagar o que me pagavam antes. Na verdade ele é meu "pai-trocínio" (risos). É importante ressaltar que eu não tenho contrato nenhum com ele, é tudo na base da confiança, e ele não tira nada do que eu ganho.

R13: Vamos falar de um assunto delicado, por isso pedimos desculpas desde já. Mas, em 30 de Junho do ano passado você venceu a disputa pelo título brasileiro (versão CNB) dos penas frente a Marcelo Ressurreição. por nocaute no primeiro round. Cerca de um mês depois. o Marcelo infelizmente cometeu suicídio, isso mexeu com você de que forma?
Alex: Eu fiquei triste por ser um colega meu que, além de ter lutado com ele, era meu amigo, assim como o Carlinhos (Furacão) é, e vários outros lutadores são, eu fiquei triste por isso, não pela derrota. Já pensou se todo mundo que sofre uma derrota na vida, que perde o emprego, a namorada, resolve se matar? Eu fiquei triste por ele não ter tido capacidade de se recuperar, não ter fé e nem Deus no coração pra dar a volta por cima.

(Pergunta dos Leitores) Na sua luta com Carlinhos "Furacão", que em minha opinião vinha levando uma pequena vantagem, num momento da luta, uma intervenção do Árbitro lhe possibilitou golpear a Furacão sem que este estivesse em guarda, pois entendia que o comando fora de "Stop". Este golpe abalou e levou Furacão à lona e a partir dali você dominou a luta, culminando com aquele golpe e KO espetacular. Pergunto se você tem consciência da enorme vantagem que levou num momento atípico da luta?
Alex: Eu tive a vantagem de um ponto ali, pela queda dele, que eu nem sei se ele se jogou ou sentiu o golpe, mas o que aconteceu foi o seguinte: Faltando 30 segundos para o fim do round bateram na cadeira atrás, eu nem ouvi, mas o Carlinhos entendeu que era o gongo, e baixou a guarda na minha frente, o que eu iria fazer? Eu tive a reação que qualquer lutador teria ai eu joguei uns golpes nele, o juiz não tinha falado "stop" também, pegaram dois golpes nele, ai ele caiu. Na verdade não sei se caiu, ou se jogou.

R13: Ainda dentro do Brasil, quem resta para você? Giovanni Andrade e você fariam uma grande luta a nosso ver, existe essa possibilidade?
Alex: O Giovanni Andrade seria uma boa luta pra mim mesmo, mas, no caso, se não me engano, meu empresário já tentou fazer essa luta. Pra lutar aqui no Brasil, o melhor na categoria era o Carlinhos, campeão de tudo, latino, brasileiro, paulista, sul-americano, etc. Então acho que no Brasil não resta mais ninguém. Resta agora defender meu título e procurar novos horizontes

R13: Você pretende segurar seu título latino e depois ir para o mundial, ou buscar logo os títulos mundiais?
Alex: Tem que defender o título (latino) pra ter oportunidade de disputar o mundial. Eu estou em 13º do mundo (OMB) e até chegar a primeiro tem que lutar muito, tem muito chão. Ou então, se eu entrar nos dez primeiros o campeão pode me chamar pra lutar, ai eu aceitaria tranqüilo, uma oportunidade única.

R13: Você foi crescendo muito rápido e com menos de 10 lutas figurou no ranking da OMB. Tão jovem e com menos de um ano e meio no boxe profissional, esperava ascensão tão rápida?
Alex: Na realidade não, porque o boxe profissional brasileiro é muito lento e exige uma política muito grande entre os dirigentes, pois existem muitas confederações/associações de boxe, então existe uma política muito grande em que um impede o outro de fazer lutas, mas quem acaba perdendo somos nós, atletas, e quando isso acontece é muito chato, você tem que lutar com um, lutar com outro, como o "Pantera", que foi campeão latino aqui, pelo Conselho, ano passado. Na ocasião, o Boselli (presidente da CBBoxe) mandou uma carta pro cara do Conselho Mundial,que eu não sei o porquê, mas o título do Anderson não foi válido, ele lutou mas o título não valeu. Então, esse tipo de coisa gera muita dificuldade pro atleta, não pela capacidade, mas pela administração. E isso é mais de dirigente, promotor. Porque o que acontece: Um quer fazer evento, e é um querendo queimar o outro, um querendo ganhar em cima do outro. "Se você vai ganhar e eu não vou ganhar, então não vai ter".

R13: Você sente que já está pronto para lutar contra desafios estrangeiros?
Alex: Eu iria, principalmente pelo título mundial, se alguém me oferecesse à oportunidade eu iria sem pensar duas vezes.

R13: Não seria muito cedo pra você aceitar lutar num cenário desses?
Alex: Pela minha idade eu tenho capacidade de disputar um título mundial, mas no futuro disputar outro, eu tenho 22 anos, tenho muito chão pela frente, então eu iria sim.

R13: Você já tem prevista alguma data para defender seu titulo latino?
Alex: Não, tá em especulação aí até o final do mês de eu defender meu título, mas não tenho certeza.

R13: Contra algum outro lutador nacional?
Alex: Não, um argentino.

(Pergunta dos leitores) No ano passado você se manteve muito ativo,fez 8 lutas,nesse ano espera manter um ritmo similar?
Alex: Eu dei até já uma diminuída no ritmo. Esse ano, em cinco meses fiz só duas lutas. Uma foi por pontos, contra o Edilson Rio, em 6 rounds, e a outra ganhei no primeiro round, por nocaute, faz um mês. Agora tá previsto até o final do mês pra eu lutar. Vai dar uma diminuída no ritmo de luta, até porque não preciso lutar mais tanto. Eu fiz oito lutas rápido, faz umas cinco/seis lutas esse ano, o ano que vem mais umas seis lutas, tá bom, seis lutas por ano. 

R13: Com 22 anos de idade e já rankeado internacionalmente, em quanto tempo você espera possuir um cinturão mundial?
Alex: A previsão é difícil porque não depende só do lutador. Tem empresário, tem promotor, tem tudo, então isso é o que dificulta mais. Então tem que aguardar. Eu especulo que até o final do ano que vem eu deva estar disputando um título.

R13: Você tem algum promotor de confiança que possa te encaminhar?
Alex: Quem tá fazendo minhas lutas é o Antonio Bernardo, ele que fez minha luta com o Carlinhos, ele que me rankeou na OMB, então ele que tá sendo um cara de confiança pra mim. Ele que vai trazer o argentino

R13: Quando entrevistamos o Ratinho, ele citou o seu nome como uma das promessas do Brasil para o futuro. Além de seu sparring, Dídimo Nascimento, tem alguém que você acha que mereça ser considerado uma promessa?
Alex: O próprio Marcus Oliveira, o Ratinho. Ele é um talento, talento nato! Pega duro, tem uma determinação muito grande, que é o mais importante - é 60% da preparação.Tem o Jô, de Santana do Parnaíba.Tem o Edélson na Bahia, tem Daniel, que também é baiano,enfim, tem vários atletas subindo agora que precisam de apoio para serem campeões, muitas promessas. Só que atualmente, a promessa maior que eu acho é o Ratinho.

R13: E o Pantera?
Alex: Ah sim, o Pantera, tava esquecendo da minha casa (risos). Ele tá pra disputar o latino, mas dele a gente nem precisa falar mais, vocês já conhecem né?

R13: E a casa aqui, o Coliseu, é cheio de talentos também, enquanto a gente estava aqui passou o Geladeira (Hamilton Ventura), o Lino que eu não cheguei á ver mas o pessoal falou que ele estava aí...
Alex: É, o Lino vai fazer mais umas duas lutas aqui e depois vai pros Estados Unidos, vai morar lá.

R13: Ah é? E ele vai treinar lá, lutar, etc?
Alex: Isso, ele vai treinar, lutar e creio que logo ele vai ter uma oportunidade ao título mundial dos cruzadores. Ele perdeu a luta na Alemanha, eliminatória pelo título, mas ele vai disputar outra no final do ano, lá nos EUA.

R13: Em sua opinião Alex, quem é o melhor lutador lá fora atualmente?
Alex: Na minha categoria acho que é o Israel Vasquez. Em todas as categorias, os melhores são o Mayweather e o Cotto. Uma luta entre os dois seria maravilhosa.

R13: Tem algum lutador em que você se inspira?
Alex: Não, eu faço uma mescla de todos os lutadores, pois cada um tem uma qualidade diferente. Tem Roy Jones, tem Trinidad, Mike Tyson, Mayweather, Pacquiao, Juan Manuel Marquez, Juan Manuel Lopez.

R13: E das antigas? Tem algum em que você se espelha?
Alex: Eu não acompanhei o boxe antigamente. Mas tem Sugar Ray Leonard, (Iran) Barkley, mas eu gosto de cara "pauleira", eu gosto muito do Joe Frazier, ele era muito agressivo, George Foreman também. Eu gosto muito de caras assim.

R13: Tem uma foto dele (Foreman) aqui não é?
Alex: Tem, ele veio aqui, o Barkley também veio. O Tyson era pra vim, mas naquela noite em que ele foi preso, no dia seguinte era pra ele ter vindo (risos). Aqui é uma academia comentada. O Pantera, o Lino, estiveram todos lá (no exterior) com eles.

R13: O Kelson Pinto mostrou muita garra contra o Cotto, mas acabou derrotado, mesmo após se levantar de vários knockdowns e até ganhar um round. Você acha que o lutador brasileiro tem muita garra, mas precisa de técnica?
Alex: Eu acho que o Brasileiro tem garra e técnica, o que falta é estratégia. Nós lutamos muito com o coração, com garra, determinação, mas não tem estratégia.

R13: Falta frieza?
Alex: Isso, eu mesmo não entro com estratégia. Eu posso pensar antes, mas chega lá em cima eu faço tudo ao contrário, o que vem na minha cabeça, não tem estratégia nenhuma (risos). Isso pode me prejudicar ainda, mas eu venho treinando bastante isso. A gente vai amadurecendo aos poucos, por exemplo: Eu aprendi muito fazendo doze rounds contra o Carlinhos, eu nunca tinha passado de 5, e fiz doze, aprendi muito com isso.

R13: Algum recado para os seus fãs que vão ler a entrevista no Round13?
Alex: O único recado que eu tenho pra mandar é: Estude (risos). Pra galera ir estudar. E pro pessoal que pretende entrar nessa carreira (pugilismo): Muito treino, dedicação e que pratiquem mais o esporte, a chamada nobre arte. É um esporte muito bom, muito legal e não é violento como o pessoal pensa. Pro pessoal que quiser me patrocinar, estou aberto aos patrocínios. Queria mandar um abraço pro pessoal da minha cidade natal, Santa Cruz da Vitória, na Bahia

R13: Mais alguma mensagem?
Eu gostaria de agradecer ao Paulo Godoy, empresário, que dá uma força pra mim nas últimas lutas que eu venho fazendo, e o Ciro Bauman, que é outro colaborador, não só meu, mas do boxe paulista, ela dá uma colaboração fora do normal. E o próprio William Paiva, aqui do Coliseu Boxe Center, a filha dele, Renata Paiva que é diretora, dona Helena Paiva que é a mulher do seu William... São três pessoas aqui do Coliseu que sem elas isso não existiria.

Um abraço Alex, muito obrigado pela atenção. Um futuro brilhante te espera!

Agradecimento: Coliseu Boxe Center

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