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Publicado em 16 de Setembro de 2015 às 04h:59

Entrevista: Felipe Moledas

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Autor Daniel Leal

Imagem: FMA

No dia 15 de Agosto, como não cansamos de repetir, ocorreu o maior evento de boxe dos últimos anos no Brasil. Além da disputa entre Acelino Freitas e Mateo Veron, aconteceram interessantes preliminares. Em uma delas a torcida não parava de gritar um nome: Felipe Moledas.

Moledas (9-0, 7 ko's) bateu a Renato Pedro após 4 assaltos, e o público santista não cessou ao ovaciona-lo durante os 12 minutos de enfrentamento. Felipe não só é um lutador local, é um treinador de muita gente na baixada santista, daí vem tanto carinho do público presente na Arena Santos.

Desde 2008 ele toca seu projeto da “Boxe Evolution”, que atua em 6 academias em Santos, tendo ainda um centro de treinamentos próprio. E a Equipe Round13 não poderia deixar de conhecer esse trabalho e saber mais sobre esse grande nome do boxe santista.

Com vocês, Felipe Moledas:


Imagem: Round13

Round13: Como você iniciou no boxe? Como ele entrou na sua vida?

Moledas: Bom, eu sempre gostei de boxe, acompanhava boxe junto com meu pai, as lutas do Mike Tyson, as lutas dos anos 90 e os filmes do Rocky Balboa, pra quem nasceu na década de 80 são memoráveis, né? Só que na época, não existiam as academias de boxe, em Santos, aqui na baixada, na região, as que tinham eram bem escondidas, o Memorial era bem entocado, não tinha divulgação, então eu não conhecia nenhuma academia de boxe. Um dia eu voltando do trabalho, eu vi uma academia que era embaixo da arquibancada da Portuguesa Santista tinha sido transferida pra praia, Academia da Praia, ai eu vi lá “Boxe”, meu olho já brilhou. O professor Parecido Costa falou comigo, e no outro dia fui fazer uma aula, e não parei mais.

Round13: Quantos anos você tinha?

Moledas: 19. Hoje em dia quem começa com 19 anos já é um pouco tarde né. As categorias de base estão mais desenvolvidas, com essa idade os caras já chegam com 80 lutas.

Round13: E no amador, qual foi sua trajetória?

Moledas: Eu comecei a treinar por treinar, meu treinador na segunda semana viu que eu tinha um certo potencial e me chamou pra participar da Forja dos Campeões, no começo eu tinha uma certa resistência, comecei a treinar com o pessoal de competição e comecei a me desenvolver bem com os atletas mais antigos e fui pra Forja, com 3 meses de boxe. Na primeira luta ganhei por nocaute, na segunda também por nocaute, a terceira também, e na quarta eu perdi, na semifinal, para o “Mimi” que era atleta do Corinthians, bem mais experiente que eu, por decisão dividida, ele veio da Bahia com muita experiência na base e lutou como estreante. Eu lutei como amador mais de 10 anos, fui campeão paulista, bi campeão dos jogos abertos do interior, luvas de ouro, diversos outros campeonatos, e ai fui pra seleção da olímpica marinha em 2009, quando ela montou aquela seleção dos atletas do boxe, mas ai já estava dividindo a vida de atleta, dando aula, e a faculdade, tava me formando em Educação Física… Eu comecei a viajar bastante, e deixei outros professores dando aula aqui. Quando eu voltei, optei por deixar de viajar e me concentrar mais dando aula, e já estava fazendo uma transição de atleta pra treinador, e deixei o amador para virar profissional, já que tinha essa comodidade de poder lutar aqui, e acho que todo atleta amador tem esse sonho de virar profissional.

Round13: E como você iniciou aqui, na Evolution? Qual foi sua trajetória até aqui?

Moledas: Em 2008 eu tive umas experiências não muito boas com academia de boxe em sociedade, e tudo mais. Eu tinha uma equipe com um amigo meu, ai não deu certo. Eu fui dar aula numa academia mais voltada pro fitness, e como eu tinha ingressado na faculdade, apareceu a oportunidade de dar aula na própria faculdade, na FEFIS, e lá eu montei minha própria equipe. Optei por dar o nome “Evolution” porque eu acho que o nome significa “evolução” né, e no boxe é uma evolução tanto de técnica fundamento, qualidade física, enfim, ai lancei a “Boxe Evolution” em 2008, e começamos a desenvolver um trabalho mais voltado para qualidade de vida, as portas foram se abrindo, e nosso trabalho começou a ser olhado com outros olhos aqui, não com o boxe que você vai treinar e se machucar, mas além dos fundamentos, embasado na teoria de treinamento esportivo, e fomos convidados para outras academias, e fomos crescendo.

Round13: E ai vocês vieram pra cá?

Moledas: É, eu sempre quis ter um lugar que juntasse a atividade de lutas com treinamento funcional e tive a oportunidade de alugar aqui, quando tava procurando um lugar pro boxe. Tive a oportunidade de alugar as duas salas e pensei “se eu não montar aqui, nunca mais eu vou montar e vou perder esse espaço”. Ai montei a “Evolution” que tem todo o DNA da “Boxe Evolution”, mas que atua com outras modalidades. Tem ginástica funcional, Muay Thai, Jiu-Jitsu, etc.


Imagem: Arquivo Pessoal

Round13: Você lutou a maioria de suas lutas em Santos, qual a vantagem disso pra você?

Moledas: Primeiramente lutar com a torcida à favor, né? Eu tenho um grande publico aqui em Santos, sou bem conhecido aqui, por ser treinador também. Pra minha imagem lutar aqui é muito bom e pra atrair novos alunos e ter mais torcida à favor, que é muito bom, cara!

Round13: E como foi lutar no evento “Popó vs. Veron”, dia 15 de agosto?

Moledas: Foi uma experiência muito legal. Quando eu comecei em 99/2000, o Popó era campeão, e atrás do ringue da academia tinha um pôster do Popó com o Alexandrov, na luta do mundial, e eu sempre fui muito fã dele e nunca tinha imaginado em lutar numa preliminar sua, era uma coisa muito distante. Então pra mim foi um sonho, ainda mais participar de um grande evento, o show que foi esse, aqui no Brasil, um evento desse porte é raro, apesar de o Memorial vir fazendo grandes eventos junto a Golden Boy, como foi o do Yamaguchi (Falcão), que eu participei também das preliminares, mas essa luta do Popó foi muito legal, porque foi em Santos, luta de um ídolo e a torcida toda à favor.


Imagem: Arquivo pessoal

Round13: A sua torcida lá impressionou todo mundo. Ficou evidente que o pessoal em Santos te conhece e gosta de você, isso te causa que tipo de sentimento, de estar lá e a galera gritando seu nome? Você ouve isso? Porque tem cara que diz que não ouve nem o treinador (risos)… Isso influencia você no ringue?

Moledas: Ah, sim, eu consigo escutar bem, e olhar o treinador, sem perder o foco da luta, por ser treinador, talvez isso possa ajudar também. E é muito emocionante cara, você lutar e ver as pessoas que estão ali, tão torcendo, é um pouco indescritível, você estar ali e as pessoas que te acompanham no dia a dia chegam lá e começam a gritar seu nome, é muito legal.

Round13: Você chegou a treinar com o Popó, com a equipe? Como foi esse período?

Moledas: Treinei pouco. Ele ainda fez alguns treinos aqui na academia, mas eu acabei não treinando, porque o horário de treino deles era o horário que eu dava aula, e ai acabei não querendo misturar, abandonar as aulas aqui, apesar que ia ser muito importante pra minha experiência profissional como atleta, e até como treinador de observar o treino de um campeão do mundo, mas eu acabei não indo não. Fiz alguns treinos com o Vitor (Freitas) aqui, mas lá não, porque eles treinavam à noite, o Popó preferiu fazer a parte física pela manhã e o treino a noite, e é o horário de pico aqui, optei por não deixar a academia na mão.

Round13: A luta com o Renato Pedro foi mais dura do que você imaginava?

Moledas: Na verdade assim, foi uma luta dura, já sabia que era um adversário duro, o histórico dele, lutou com todo mundo, todos falam que ele é difícil de ser nocauteado. Teve um problema que ele tava um pouco à cima do peso, porque era pra eu lutar com o Edilson “Pânico” Rios, em cima da hora não deu certo, não sei porque, pegaram ele de surpresa e pra não perder a oportunidade de lutar no evento, eu lutei. Mas não foi uma luta fácil. Eu queria fazer uma luta de 6 rounds, mas foi de 4 rounds, então eu imprimi um ritmo mais forte e ele se defendeu bem.


Imagem: Ivan Storti

Round13: Tendo feito 9 lutas, aos 35 anos, um cinturão brasileiro (dos super-penas, versão ANB), o que mais você almeja no boxe?

Moledas: Cara, eu quero disputar um título internacional. Um Fedebol, um latino, enfim, um título internacional.

Round13: Alguém já te propôs isso alguma vez?

Moledas: Já, mas o custo não é barato, e eu ainda não tenho essa possibilidade, mas tô buscando. O dólar tá alto e você tem que trazer um adversário de fora, bem rankeado, a bolsa não é barata, tem a taxa do título, então acaba não saindo barato, mas eu tô buscando até o começo do ano que vem disputar um título internacional.

Round13: Já te propuseram lutar lá fora?

Moledas: Sim, já tive duas propostas. Uma não fui porque meu cartel tinha poucas lutas ainda, 5 só, e o promotor não aceitou. E a outra agora, pros Estados Unidos, não se concretizou porque meu visto ainda está saindo esse mês e não me mandaram todos os detalhes, e eu não vou pra lutar às cegas, por que profissional é assim, você tem que analisar, fazer treinamentos específicos, não tô morrendo de fome pra ir lá ganhar 5 mil dólares, quero ir pra ter chance de ganhar, não pra passear.


Felipe Moledas (e) e seu treinador, Michel (d) - Imagem; Arquivo pessoal

Round13: Tem algum recado que você queira mandar pra quem te lê agora no Round13?

Moledas: Eu queria dar uma ênfase pro cara que me ajudou, o Michel, ele que vem me ajudando nos treinamentos, de um ano pra cá. Meu treinador morreu em 2003 e de lá pra cá eu treino sozinho, muitas vezes em casa com o saco de pancada, sem ninguém. Eu me considero um guerreiro por todos os feitos que eu alcancei no boxe, treinando sozinho, muitas vezes nem sparring eu fazia. Batia saco, fazia sombra e corria, fazia a parte de preparação, exercícios com peso, que época eu nem tinha tanto conhecimento. E agora eu tenho o Michel, que me ajuda, de duas a três vezes por semana vem aqui fazer o trabalho técnico comigo, nos outros dias vou me virando sozinho. Então queria dar uma ênfase pra ajuda que ele vem me dando. E pra galera do Round13, queria mandar um abraço pra todos que torcem por mim, porque eu acho que sou um cara benquisto no meio do boxe, acho que as pessoas gostam de mim, então queria mandar um abraço pra todos que torcem por mim e acompanham a minha carreira!

Agradecimentos: Academia Evolution www.evolutiongym.com.br

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