Entrevistas

Publicado em 01 de Julho de 2010 às 09h:28

Entrevista: George Arias

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Autor Luigi F. & Denis N.

Imagem: Round 13

Há 18 anos atrás, no ano de 1992...

Pai, quero treinar boxe, quero ser lutador. Você sabe como posso começar? – perguntou o jovem George Arias, então com 17 anos.

Se você quer treinar, tudo bem. Mas vai treinar pra ser campeão. E vai ser do meu jeito. – respondeu Santo Arias, pai e futuro treinador do garoto que escreveria seu nome na história dos pesados do boxe brasileiro.

Anos se passaram e chegamos a 2010. Com uma estrutura de dar inveja a muitas academias especializadas, George treina e dá aulas num espaço montado na casa de seu pai. Ringue, sacos, aparelhos de musculação, vestiários e equipamentos de boxe se encontram no local, na Vila Medeiros, em São Paulo, capital.

Tudo começara muito antes de 1992. Santo, ex-pugilista da década de 60, teve em seu currículo a conquista do tradicional torneio Forja de Campeões em 1962, na categoria dos meio-médio-ligeiros. Era brigador, tinha volume de golpes e gostava de trocar com os adversários. Após fazer poucas lutas como profissional, e começar a perceber algumas sequelas que a nobre arte vinha lhe trazendo, Santo sofreu um acidente, conheceu sua esposa e parou com as lutas.

30 anos depois, seu filho pediria para tentar a sorte no mesmo esporte que fizera parte de sua vida.

O boxe é a arte de bater e não receber. Se bater e receber, não serve”, fala Santo ao Round 13 pouco antes da entrevista começar. Hoje no 3º ano do curso de Direito na Faculdade Santa Rita, o pai de George tem plena consciência que pôde guiar a carreira de seu filho da maneira que julgava ser a correta.

E deu certo.


Pai e filho: Santo e George Arias. Imagem: Round 13

O começo não foi dos melhores. Com uma carreira amadora irregular, com apenas 8 vitórias em 18 combates feitos, George Arias se profissionalizou em 1996. A partir daí, as coisas tomaram um rumo diferente. E falaremos dele praticamente por toda a entrevista, tamanha a quantidade de histórias interessantes que o pugilista e seu pai têm a contar.

Campeão brasileiro desde 1998, George já participou de mais de 20 lutas válidas pelo cinturão nacional, marcando seu nome como o principal pesado brasileiro após Adilson Rodrigues, o popular “Maguila”.

São 18 anos de histórias, vitórias, derrotas, alegrias e tristezas. A única coisa que jamais deixou de fazer parte da trajetória de George é a vontade de se superar e de perseverar nos momentos mais difíceis. Com ele e com seu pai não tem conversa, não tem média. Tem que ser do jeito certo.

O objetivo, como o da maioria dos atletas de destaque do boxe brasileiro, é o título mundial. E, para isso, ambos sabem que é necessário muito trabalho.

Aos 36 anos, o pugilista é o protagonista de mais uma entrevista do R13. Com vocês, o campeão brasileiro da categoria máxima, George Arias.


Equipe Round 13 com George e Santo Arias. Imagem: Round 13

Round 13: O boxe sempre esteve presente em sua vida, já que sei pai e treinador, Santo Arias, foi pugilista. Conte um pouco sobre esse seu início de convívio com o boxe.
George Arias: Tudo começou porque eu queria ser alguma coisa no esporte. Então eu comecei tentando jogar bola, mas era muito ruim, perna de pau demais. Aí eu pensei: “Todo time precisa de um goleiro”. Fui tentar catar no gol, mas também não deu. Tentei basquete, vôlei, mas não rolou, esporte com bola não é comigo. Minha mãe havia guardado as coisas do meu pai, que havia sido lutador na década de 60, foi treinado pelo pai do Eder Jofre, chegou a ser campeão da Forja dos Campeões, que é um torneio bastante tradicional. E aí, como eu também sempre gostei de uma briguinha na escola, resolvi ir pro boxe. Um dia cheguei em casa e contei ao meu pai que queria ser lutador, perguntei se ele sabia de alguma academia para eu treinar. Ele, então, por saber da necessidade de se tomar cuidado nessa carreira para preservar a integridade física do atleta, resolveu ser o meu treinador, e falou: “Se você quer treinar, tudo bem. Mas vai treinar pra ser campeão”. Na época não tínhamos uma estrutura legal, academia, nem nada, começamos do zero. Eu tinha um espaço na minha casa, peguei umas coisas do meu pai que estavam guardadas, como saco de pancada, luvinha, puxa, montei tudo e começamos a treinar lá mesmo, num espaço 5x5. O começo foi bem difícil. O sonho inicial era ser campeão da Forja 30 anos após o meu pai conquistar o mesmo título. Não deu certo, mas a gente continuou persistindo, meu pai sempre me incentivou, disse pra continuar trabalhando, treinando, que uma hora ia dar certo, uma hora a gente chegaria lá. Sofria uma derrota, no dia seguinte de manhã eu já estava treinando de novo, e assim as coisas foram acontecendo.

R13: Em sua carreira como amador, você foi campeão do torneio Kid Jofre, teve uma boa classificação no Campeonato Brasileiro e chegou a ser convocado para a seleção. Fale um pouco sobre como foi esse seu início no boxe amador.
Arias: No amador tentei alguns campeonatos, participei da Forja em 1992, o Kid Jofre também em 92, e fui derrotado nos dois logo na primeira rodada. Em 93, tentei o Kid Jofre de novo, perdi novamente na estreia. Aí meu pai percebeu que havia alguma coisa errada, e resolvemos passar o resto de 1993 e 1994 treinando, praticando outras modalidades pra melhorar meu fôlego. Treinava boxe, corria com meu pai, fazia musculação com um preparador físico do meu pai, o Roberto Verza, comecei a fazer natação também. Quando vi, treinava 6 horas por dia, fazendo 6 tipos diferentes de treino, cada um de cerca de uma hora. Comecei a fazer o kick boxing também, cheguei a disputar alguns torneios, e em 1995 voltei ao Kid Jofre, sendo campeão. No kick boxing venci a Supercopa, o Campeonato Paulista, Campeonato Brasileiro. Tentei também no Paulista de boxe, passei da primeira fase mas acabei eliminado. Depois tentei o Torneio dos Campeões, o Campeonato Brasileiro, fui somando alguns bons resultados e acabei sendo convocado pra seleção brasileira pra tentar a vaga no Pan-Americano. As coisas não andaram como a gente queria, e eu acabei passando pro profissional em outubro de 1996, após decisão do meu pai, já que passaríamos a ter mais autonomia pra trabalhar e conseguir patrocínios. Começamos muito bem, fazendo 20 lutas invicto, ganhando Brasileiro, Sul-Americano e Latino na categoria cruzador, e ganhando também o Brasileiro dos pesados. Já perto de ter uma chance por título mundial, invicto, e com 5 títulos conquistados, acabei conhecendo minha primeira derrota, dando início a uma nova fase na minha carreira.

R13: Após começar a treinar kick boxing, ganhando títulos, você chegou a cogitar a hipótese de investir em outra modalidade exclusivamente, ou então partir para um esporte que abrangesse mais lutas, como o MMA?
Arias: Não, não. Tudo foi exclusivamente pro boxe. Um amigo de infância, chamado Emerson, era lutador de kick boxing, e ele me incentivou a lutar, pois na academia eu ia bem nos treinos. Me incentivaram e meu pai acabou concordando, participei da Supercopa e venci minhas 3 lutas por nocaute, o que levantou minha moral. Depois ganhei o Paulista, e aí as coisas foram indo, continuei participando de outras competições paralelamente ao boxe. Mas a ideia era ajudar no boxe, esses torneios de kick boxing eram apenas pra me deixar mais tranquilo, pra que eu não ficasse tão nervoso quando fosse lutar boxe.

R13: Seu início no boxe profissional foi muito bom, e após algumas vitórias você já havia conquistado os cinturões brasileiro e latino (versão OMB) pelos cruzadores. Em 1998, você também se sagrou campeão brasileiro dos pesados, e começou a firmar seu nome como o principal da categoria máxima, período que coincidiu às últimas lutas e aposentadoria de Adilson “Maguila” Rodrigues. Como foi essa transição de categoria?
Arias: Na verdade, eu nunca fui muito adepto a ter que tirar peso, pois acho que isso prejudica a saúde do atleta futuramente. Fazer dietas, desidratar, eu não achava legal isso. Quando fui campeão dos cruzadores, eu já precisava perder peso pra chegar no limite da categoria, então achei melhor subir pro pesado. O campeão brasileiro, na época, era um carioca. Desafiamos ele, a Confederação Brasileira de Boxe autorizou tudo, e eu acabei sendo campeão. Cheguei a manter os dois cinturões por alguns meses, até a Confederação me obrigar a escolher em qual categoria eu iria ficar, e optamos pelo pesado, pois tem mais notoriedade, chama mais atenção do público por eu não ter tamanho de peso pesado, então, considerando tudo isso, julgamos ser mais interessante ficar no pesado mesmo.

Como era a sua relação com o Maguila? Chegou a existir alguma negociação para vocês se enfrentarem?
Arias: Quando eu era cruzador, tive um treino com o Maguila, no sítio dele, em Arujá. Depois disso, fui campeão, e em 2000, quando ele resolveu retomar as atividades dele como lutador, ele veio pra cima de mim tentar me desafiar pra defender o título contra ele nos meios de comunicação, ele foi na televisão, rádio. Eu aceitei o desafio, tive meu direito de resposta, e tudo teve uma repercussão enorme no Brasil inteiro, pois passou em programas de grande audiência. O desafio foi aceito, mas o Maguila precisaria estar no ranking, pois fazia um tempo que ele não lutava. O fato de nós não termos nos enfrentado é uma das tristezas que eu tenho. Na época, ele escolheu o Daniel Frank, era uma luta pra ele vencer, entrar no ranking, e então me enfrentar. Só que ele acabou derrotado pelo Frank, que ficou conhecido como carrasco do Maguila. Desde então, fiz mais de 20 defesas de título. Cumpri com todos os meus desafios. Claro que alguns demoraram mais pra se realizar, por problemas com empresários, pagamento de bolsa. É uma atividade profissional, existe todo um trâmite nas negociações.

R13: Em 1999, numa defesa de cinturão latino, você sofreu a primeira derrota da carreira, contra o argentino Oscar Angel Gomez. Alguns meses depois, você teve a chance de se vingar, mas acabou derrotado de novo. Como foram essas lutas?
Arias: As duas lutas foram fatalidades. Na primeira eu tomei um contra-golpe numa displicência minha, meu pai sempre me disse pra ficar com a mão levantada, e eu acabei lançando um golpe e voltando com a mão baixa. Na época, eu vinha sofrendo umas críticas da imprensa, pois sempre vencia por pontos, e eu queria nocautear. Como eu tava ganhando a luta do argentino até o 5º, 6º round, parti pra cima. No 6º, eu acabei tomando uma queda, tava com a guarda baixa, tomei um golpe duro e caí. Levantei, continuei e quis devolver a queda, acabei me descuidando de novo, levei um golpe no pescoço, e acabei apagando, desmaiei. Nocaute clássico. Sabendo que eu tinha condições de ganhar desse cara, a gente pediu pra fazer a revanche lá na Argentina. Tudo estava indo bem de novo, só que ele me acertou um golpe, meu supercílio abriu. Na verdade, o supercílio abriu no 2º round, foi uma falta de sorte danada. Só que lá no 10º round, o cara tava malzão, cansadaço, com 24 de pressão, e talvez nem fosse fazer os 2 últimos rounds. Aí os caras pegaram e pararam a luta por causa do corte no supercílio, só que eu já vinha lutando 8 rounds com o mesmo corte, e não levei muitos golpes em cima, pois fui cuidando da defesa. Mas só quem estava lá pra saber como que foi, realmente pararam por parar. Não tinha por quê parar a luta sendo que só faltavam dois rounds. Tenho quase certeza que ele não aguentaria até o final. Moral da história: ele me levou os dois cinturões, o latino, que ele venceu aqui no Brasil, e o sul-americano, que eu havia levado pra defender na Argentina.


Imagem: Round 13

R13: Depois disso, você passou a lutar mais como pesado, vencendo 8 lutas seguidas em eventos realizados no Brasil. Em 2000 e 2001, porém, ocorreram mais duas derrotas, ambas no exterior, contra o argentino Marcelo Dominguez e o britânico Johnny Nelson, numa disputa pelo título mundial dos cruzadores da OMB. Qual foi a sensação de disputar um cinturão mundial? Como foi essa luta?
Arias: Essa luta com o Marcelo Dominguez foi uma luta de alto nível, ele já havia sido campeão mundial pelo CMB, e foi uma luta que eu fiz de igual pra igual, não deixei nada a desejar. Sofri uma derrota por pontos lá, mas foi uma luta bem equilibrada, tanto que era para ele ter enfrentado o Johnny Nelson pelo título mundial, só que ele se machucou, não lembro direito o que aconteceu, e aí fui convidado pra disputar o cinturão. Tudo bem que eu era o 2º no ranking, mas substituí um cara que já havia sido campeão mundial. Aí fui lá, fiz a luta com o Johnny Nelson, foi uma puta de uma emoção, e um pouco de tristeza porque a televisão não deu muita atenção pra isso. Eles só dariam atenção se eu tivesse sido campeão, mas e o fato de eu estar indo lá, disputando? Não é qualquer brasileiro que chega a uma disputa de título mundial. Fui bem, fui derrotado por pontos, mas não fui castigado, não passei aperto na luta, lutei 12 rounds e saí de rosto limpo. A maioria pode falar: “Ah, mas isso não interessa, o que interessa é ganhar”. Mas interessa sim, como a gente estava conversando agora há pouco, tem que preservar a integridade física do atleta, eu quero daqui 40 anos estar conversando com vocês da mesma forma. Lógico que eu queria ter sido campeão do mundo pra entrar na história do boxe brasileiro, eu seria o 4º brasileiro a conseguir isso, já que foi antes do Sertão ser campeão. Não deu por alguma limitação minha mesmo, porque o inglês lutava bem, mas quem ver a fita percebe que eu perdi pra mim mesmo, pois faltou volume de golpes. Desde então, venho tentando trabalhar nisso, pra poder tentar o título mundial novamente. A gente sabe que não é fácil, afinal, já são 9 anos que eu tô nessa expectativa. Nesse tempo, já tive umas 4 oportunidades de ir pra título mundial novamente, em combates eliminatórios contra o Fres Oquendo, Sinan Samil Sam, Juan Carlos Gomez, Taras Bidenko. Algumas inclusive eu acho que eu não perdi, mas faltou dar uma surra nos caras. Tem que mostrar uma superioridade técnica muito grande pra darem a vitória pro lutador de fora.

R13: Após retornar ao Brasil e defender seu cinturão nacional por duas vezes, você voltou a lutar no exterior, perdendo mais 3 combates, contra Fres Oquendo, Fabrice Tiozzo e Owen Beck. Como você se sentia sendo imbatível em território nacional, porém, sem conseguir vencer no exterior? Tem algo a dizer sobre essas lutas?
Arias: No Brasil eu venho bem. Não me sinto imbatível, pois principalmente na minha categoria, qualquer golpe pode definir uma luta. Sinto que eu venho tendo um desempenho legal aqui, e o meu desempenho lá fora não tem sido o mesmo, então acho que é mais a parte psicológica minha. Quando eu conseguir acertar isso, vou começar a levar as lutas. Fui injustiçado algumas vezes, mas não adianta falar, as pessoas que tem que comentar. Tenho uma tristeza comigo mesmo de não ter o mesmo desempenho lá fora, mas venho trabalhando isso, pois é um erro meu, não um erro de técnico, auxiliar, é comigo mesmo. O que a gente vem discutindo é que a minha vontade de ganhar é tanta que acaba me atrapalhando, eu fico nervoso, travo e tal. Já aqui no Brasil, como eu tenho muito mais lutas, me sinto mais a vontade, sem contar que lá fora sempre enfrento adversários de alto nível, que estão tão bem preparados quanto eu, e aí é mais uma diferença. Venho tentando lutar mais vezes lá fora pra ir acostumando, ficando menos nervoso e me soltar. Agora falando das lutas, contra o Oquendo eu deixei a desejar no volume de golpes, mas em termos técnicos fiz uma luta boa. Sofri uma queda no 3º round, levantei normal e segui na luta caçando ele, mas deixando a desejar no volume. No 11º round, levei uma cabeçada, involuntária eu acredito, abriu meu supercílio, o árbitro não viu, e eu também não reclamei porque não vi. Só senti o impacto. Eu era o campeão latino, e ele o desafiante. Bateu o gongo, fui pro córner, chamaram o médico, ele olhou e acabou a luta. O público vaiou, mas ele encerrou a luta, e perdi por nocaute técnico. Na sequência veio o convite pra enfrentar o Fabrice Tiozzo, que era uma pedreira, ex-campeão mundial dos meio-pesados, dos cruzadores, tinha um bom record, e a gente achou que dava. Tive que tirar um pouco de peso pra lutar com 90kg, e lutei de igual pra igual com ele. Apesar da derrota por pontos, e eu acho que ele ganhou mesmo (“Não, não”, diz Santo Arias, que acompanhava a entrevista ao lado). É, meu pai acha que ele não ganhou não (risos), mas penso que ele venceu mesmo, teve mais iniciativa, não sei. Mas me portei bem dentro do ringue, e isso me animou, me mostrou que eu tinha condições. Contra o Beck, eu ganhei e não levei. Lutei bem, mas não me deram a vitória, pois ele era empresariado pelo Don King, e o Don King não tinha interesse comigo, mesmo eu tenho um contrato com ele. Mas enfim, foram lutas que se eu tivesse um desempenho um pouquinho melhor, que eu acho que dá pra ter, eu teria vencido. Foram três derrotas em sequência, o que é péssimo pra carreira de um atleta né. Tive que ser forte, perseverante, meu pai falou pra não parar de trabalhar, treinar bastante. Infelizmente, algumas derrotas fazem parte da minha vida, mas tenho que dar a volta por cima, perco hoje, mas vou vencer amanhã. E assim vou levando até hoje.

R13: Em 2003, num combate bastante parelho, você defendeu o título brasileiro contra o Luiz Aparecido dos Santos, conhecido como “Luizão”. Você venceu por decisão dividida. Como foi esse combate?
Arias: O Luizão na época tinha 5 vitórias só no BoxRec, mas dizia-se que ele tinha 12 vitórias, sendo 11 por nocaute. De qualquer maneira, ele estava invicto. Era um cara que vinha bem do amador, ganhando tudo. Ele era perigosíssimo, pois tinha uma direita muito forte, e eu vinha de uma derrota pro Beck e não queria perder de novo. Fui muito cauteloso pra não me expor e tentar ganhar. Acabei me complicando nos primeiros rounds, deixando ele trabalhar, apesar de não ter levado nenhum golpe mais duro. Ele tomou mais iniciativa nesse começo, mas cansou e eu continuei apertando, virando a luta. Acho que fui muito bem, porque ele não me acertou golpe nenhum e clinchou demais, o árbitro deveria ter descontado ponto dele umas quatro vezes. Não reclamei, não fiz nada, e fui tentando fazer meu trabalho. A partir do 6º round acertei bons golpes nele, e tenho certeza que levei a vitória sem problema algum. O jurado que deu vitória pra ele viu outra luta, mas isso acontece. Está gravado pra quem quiser assistir, e logo mais vou passar essas lutas pro YouTube, pro pessoal que gosta de boxe ter sua própria opinião. Ganhei bem e de lá pra cá acho que essa foi a luta mais difícil aqui, mas por minha culpa mesmo, tive cautela demais no começo, sendo que não precisava de tanto.

R13: Em 2005, você conquistou sua primeira vitória no exterior ao nocautear o dinamarquês Steffen Nielsen. Como foi vencer fora do Brasil contra um adversário cuja equipe te desafiou e tinha certeza que você perderia?
Arias: O erro que a empresária desse atleta cometeu foi achar que todos os brasileiros vão pra perder e buscar dinheiro, e não é o meu caso, assim como outros no Brasil que não são o que a maioria acha. Eu treino direitinho, e treino pra ser campeão do mundo. Quando recebi o convite da Dinamarca foi faltando 4 dias pra luta, e aceitei o convite porque estava treinado e pronto pra enfrentar qualquer adversário que pusessem na minha frente. Aceitei o desafio, o cartel do cara era bom, já tinha sido campeão europeu. Viajamos pra lá, acabei indo bem, estava fortalecido psicologicamente, pois vi que dava pra ganhar. As mãos foram entrando, ele sentiu os golpes e eu venci por nocaute. Foi uma bela de uma emoção, só quem ta lá pode sentir. Até então eu só tinha sido derrotado fora do país, e pensei que agora as coisas iam alavancar. Voltamos pro Brasil contentes, e olha como é engraçado: a imprensa não vinha me dando mais atenção por causa das minhas derrotas, aí ganhei e teve gente que ligou do Brasil lá pra Dinamarca, no hotel em que eu estava, pra dar parabéns, fazer entrevista. E pô, os caras podiam ajudar também quando a gente perde, pois eu não perco porque eu quero. Mas tudo bem, faz parte, o negócio é lutar só pra ganhar.

R13: Em seguida, você encarou o cubano Juan Carlos Gomez, e perdeu por nocaute técnico no 4º round. Após vitórias no Brasil, veio mais um revés, diante do turco Sinan Samil Sam, por pontos. Como foram essas lutas?
Arias: Com o Gomez eu vinha da empolgação da vitória na Dinamarca. Em 1998, eu já havia recusado uma luta contra o Gomez por título mundial, pois achamos que não era o momento, não estava pronto ainda. Mas a empolgação me atrapalhou. Com a vitória na Dinamarca, achei que fosse nocautear todo mundo, entrei meio displicente com a defesa, que é justamente o meu forte, e comecei a trocar muito. Mesmo ele não sendo um cara que pega tão duro, levei uns contra-golpes e caí. Ele não pega nem metade do que pega um Fres Oquendo, Sinan, e isso me animou no começo, comecei a me aproximar mais pra tentar pôr a mão nele. Só que me descuidei da defesa e caí. Levantei, pois me considero um cara com um queixo bom, assimilo bem os golpes, mas esse entrou muito justo. Ao invés de tentar clinchar e enrolar pra levar a luta pro próximo round, fui pra cima pra tentar devolver, e tava sem coordenação, com as pernas meio moles ainda, acabei levando outro contra-golpe e caí novamente. Levantei mas não sabia nem onde eu tava, e o árbitro interrompeu o combate. Com o Samil Sam usamos uma estratégia de luta diferente por ele ser um cara muito pesado e com um queixo muito bom, então não adiantava ficar trocando com ele. Meu pai adotou uma estratégia de bater e andar, não parar na frente dele pra trocar nunca. E deu certo. Tiveram momentos da luta que dava pra ver, na transmissão, meu pai contando a quantidade de jabs que eu ia acertando, cheguei a certar mais de 20 num round só. Foi uma luta que eu fui bem, mas não levei, perdi por pontos, mas me animei pela boa performance. E aí torna voltar pro Brasil, torna levantar cedo no dia seguinte e torna treinar e começar tudo de novo.

R13: Após perder para Taras Bidenko, você enfrentou o britânico Audley Harrison. Muitas pessoas, inclusive nós, achamos que você venceu essa luta, mas acabou prejudicado por lutar na casa do rival. Como você encarou isso?
Arias: Primeiro, contra o Taras Bidenko, foi uma luta bem equilibrada, mas pra ganhar lá fora tem que ter algo a mais. Contra o Audley eu tive mais certeza ainda que eu tinha ganho, pois eu melhorei o volume de golpes, e fiz o suficiente pra ganhar dele, só que não levei. Ainda bem que o Round 13 pontuou e achou que eu ganhei, a Confederação pontuou e achou que eu ganhei, lá fora, na televisão, também acharam que eu ganhei, e assim vai. Infelizmente perdi de novo, voltei ao Brasil, e agora vamos ver quando vai ser minha próxima luta fora. Todas essas derrotas só serviram de experiência pra tentar não perder mais e aprimorar o meu boxe pra tentar ganhar desses caras e manter o meu título no Brasil. Todas as lutas que faço aqui são frutos de desafios que eu recebo e cumpro com a defesa, inclusive contra adversários com cartel menor que o meu, como foi o último. Aceito meus desafios, mas isso depende de como foram feitos. Às vezes fazem desafios verbais na televisão e na hora de assinar o contrato o cara quer que eu pague pra ele lutar. Está no regulamento da Confederação: o campeão brasileiro tem que ganhar, no mínimo, 20 salários mínimos. A empresa que vai me contratar, ou o empresário do meu adversário, tem que montar um contrato com esse valor mínimo, ou então combinar por menos. Depende muito. Por exemplo, na minha primeira luta com o Daniel Frank, cada um se virou com a sua bolsa. Quando não sai acordo, é por causa disso, está no regulamento. Por que você acha que todo mundo quer ser campeão? Se não for assim, meu adversário vai ter a vantagem financeira.

R13: Depois disso, você só lutou no Brasil, vencendo 4 lutas, sendo 3 pela via rápida. Quais são seus planos para o futuro imediato? O que pretende para o ano de 2010?
Arias: Eu pretendo manter meu título brasileiro, que é uma coisa que eu gosto, quero batalhar pra manter esse título enquanto eu for atleta, vencendo em cima do ringue. Aliado a isso, quero ir pra um título mundial. Mesmo estando com 36 anos, sei que não é inviável, tenho boxe pra estourar ainda, preciso lutar e vencer mais fora. Sou conhecido lá fora como um cara duro, que oferece resistência, e quero mudar esse panorama, chegar lá e ser bastante superior para ir subindo nos rankings. Ano passado não lutei fora porque as negociações que houveram não foram legais pra mim. Como eu vivo desse esporte, tenho que trabalhar pra ter uma bolsa adequada ao que é justo no evento. Por exemplo, na minha luta contra o Oquendo, ele era o desafiante e ganhou 80 mil dólares, e eu, campeão, ganhei 20. Nunca vi isso, o campeão ser menos valorizado que o desafiante, sendo que ainda temos que pagar os impostos lá fora. Em 2009 optamos por só lutar lá fora se houvesse uma proposta adequada financeiramente, o que não ocorreu. Com minha idade e meu cartel, posso lutar com qualquer um. A gente não escolhe adversário. Se desafiarem, eu luto. Minha preocupação é comigo mesmo, tenho que lutar e ganhar, e quem quer ser campeão do mundo tem que lutar com qualquer um.


Imagem: Round 13

R13: Hoje em dia, temos outros pugilistas que atuam com destaque na categoria máxima do boxe brasileiro, como Fabio Maldonado, Raphael Zumbano, e até o Pedro Otas, que apesar de estar se apresentando como cruzador, já lutou como pesado e chegou a estar próximo de lutar contra você. Existe algum adversário daqui que você ainda gostaria de enfrentar? Se sim, por quê?
Arias: A ideia é manter o título brasileiro lutando bem, fazendo um bom papel. Então não posso dizer que gostaria de lutar com fulano de tal, pois eu quero o título mundial. Aí sim, eu gostaria de lutar com o Wladimir Klitschko, com o Vitali, ou com o David Haye. Essas são as lutas que me interessam, tenho 36 anos, pretendo lutar até os 40, então tenho mais 4 anos pra chegar ao título. O título brasileiro já é uma realidade, eu só quero cumprir com os desafios. Então o Maldonado me desafiou, eu quero lutar. Se o Zumbano desafiar, vou querer lutar também. O Otas não mais pois ele voltou pro cruzador, mas na época ele desafiou, aceitei, saiu nos jornais, televisão, mas ele acabou baixando de categoria. É um cara com um boxe legal, luta muito bem, é até conhecido como Rocky Marciano. Na verdade, nenhum brasileiro tem preocupação em lutar comigo, as vezes as lutas não acontecem por interesse econômico. Por exemplo, o Maldonado tá lutando MMA, ganha bolsas melhores lá do que no boxe, então essa luta só não aconteceu ainda por conta dessa diferença econômica. Assim que conseguirmos excelentes patrocinadores para que ambos tenham uma bolsa adequada, a luta sai, pois ele já desafiou verbalmente e eu aceitei. O Zumbano, que já treinou umas vezes comigo e também é um ótimo lutador, não desafiou ainda, e se fez isso, foi só verbalmente também, pois não me lembro agora. Por escrito não existe nenhum desafio hoje. Sou campeão brasileiro por 4 confederações, das 5 principais. Tem brasileiros bons pra se enfrentar, teriam boas lutas para o público, elas vão acontecer, mas ainda não sei quando. Hoje meu objetivo é, no dia 31 de julho, lutar no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, num evento que contará com lutas de diversas modalidades. Além do boxe, vai ter MMA, muay-thai e karatê kyokushin, uma modalidade muito forte. O evento está sendo organizado pelo Francisco Filho, campeão mundial de karatê. Talvez tenha televisão, ainda estão negociando. Não sei meu adversário ainda, estou em negociação com uns 3 ou 4 argentinos para defender meu cinturão sul-americano, mas tenho pouco patrocínio. O argentino que mais me interessa é o Omar Basile, que é campeão latino e está rankeado na OMB. Ele me interessaria pois se eu vencer, ganho o latino, e entro no ranking. Mas ele quer muito dinheiro, então precisaria de apoio de empresas pra conseguir trazê-lo.

R13: A sua guarda é muito elogiada, e você tem um bloqueio bastante efetivo. Como foi o desenvolvimento dessa habilidade? Existe alguma relação nisso com o fato de você ter vindo da categoria cruzador, e, portanto, precisar de uma boa forma de se defender de pugilistas naturalmente maiores e mais pesados que você?
Arias: Isso vem desde o início. Entrei no boxe em 1992, como médio-ligeiro, pesava 69kg, 70kg. Desde o começo, quando eu falei pro meu pai que eu queria treinar boxe, meu pai falou: “Tudo bem, você vai treinar, mas vai ser do meu jeito”. A gente já quebrou vários paus aí porque eu quero ir pra cima do meu adversário e trocar golpes, não tenho medo de lutar, meu medo é lutar mal e perder. Meu pai sempre me fez cuidar da defesa, pois na época em que ele lutava, fazia sparring com lutadores de várias categorias, ia pra porrada e não tinha medo. E chegou uma época que ele começou a gaguejar, começou a não lembrar direito das coisas e tal. Então, quando pedi pra ele me treinar, tudo isso veio à tona na memória dele, o que fez com que ele sempre fizesse eu me preocupar com a defesa para não ter sequelas. A intenção é justamente preservar a minha integridade física. Já treinamos isso há 18 anos, mas confesso que ainda quero melhorar minha defesa. Como eu não tenho estrutura pra peso pesado, essa preocupação aumentou mais quando eu subi do cruzador, pois se entrar uma mão, a gente sabe que cai. A lógica é bater ou antes ou depois, e vocês podem ver que tanto o Wladimir, quanto o Vitali, fazem isso. Você não vê eles sendo castigados. É um boxe feio, eu sei, mas o ideal é preservar a integridade. A ideia agora é trabalhar uma forma de trocar golpes com os caras e me defender ao mesmo tempo, usando toda a habilidade que eu desenvolvi nesses anos e trazendo mais emoção pro público. Vamos ver na próxima luta, no Ibirapuera, como é que vai ser.

R13: Como é a sua forma de treinamento? Você comentou que treina bastante tempo e distância, sem fazer tanto sparring. Como é isso?
Arias: Meu pai adotou isso desde o início da minha carreira, trabalhar bastante a defesa, e sem fazer tanto sparring, pra me preservar. Eu achei um absurdo no começo, treinar sem fazer sparring. Mas ele insistiu, quis que eu ganhasse primeiro distância, tivesse um bom reflexo, agilidade, movimentação, e fazendo escolinha de ataque e defesa. Essa escolinha é um pouco mais intensificada aqui no meu treino, e te trás mais potência pra atacar e mais habilidade pra se proteger, melhorando reflexo e distância, uma vez que ou você só ataca, ou só defende. Isso veio dando certo, desde o amador até hoje, sofri poucos golpes duros, só sofri dois nocautes clássicos. Isso pra mim é ótimo, pois vou terminar a minha carreira de rosto limpo, apesar de ser feio (risos).

R13: Como é sua rotina?
Arias: Me formei em Educação Física na FIG, em 2005. Até então, eu só treinava. Depois, diminui meus treinos para 3 períodos. Fazem 5 anos que treino 3 vezes ao dia e dou aula a noite. Sou professor de Educação Física, trabalho também como personal trainer e dou aula em duas academias. Durante o dia, sou atleta, faço minha alimentação certinha, descanso, e procuro sempre ver vídeos de possíveis futuros adversários.

R13: A categoria dos pesados foi bastante criticada nos últimos anos devido a baixa qualidade dos combates válidos por títulos. Hoje em dia, esse cenário mudou um pouco, e temos 3 campeões mundiais que podem proporcionar combates interessantes: Wladimir Klitschko, campeão pela OMB e pela FIB, Vitali Klitschko, campeão pelo CMB, e o David Haye, campeão da AMB. Para você quem é o melhor lutador da categoria máxima no mundo?
Arias: Acredito que o Haye seja o melhor deles, apesar de ter visto poucas lutas dele. A maneira de boxear dele é mais vistosa. Porém, se fosse para eu escolher um adversário, escolheria um dos Klitschko, pois acho que eu teria mais chances de vencer. Entre os dois, escolheria o Wladimir, pois acho o volume de golpes dele muito pequeno, enquanto o Vitali é mais agressivo. Eles não estão acostumados a receber muitos golpes, e o Wladimir já caiu algumas vezes quando recebe golpes mais potentes. Acho que a tática seria ser agressivo, melhorar meu volume de golpes pra encurtar a distância e atacar, tentar evitar que eles clinchem em excesso. Mas, apesar de tudo, nenhum dos 3 me agrada muito. Eu sempre falo que se tivesse um Joe Frazier hoje em dia, os 3 teriam muitos problemas.

R13: Hoje em dia é muito difícil ver dois boxeadores brasileiros de ponta se enfrentando. Alguns dizem que não é interessante arriscar, outros dizem que não há bolsas interessantes. O que você acha dessa situação?
Arias: No caso da minha categoria, temos hoje dois atletas com cartéis muito bons, o Maldonado, que está invicto, e o Raphael Zumbano. Eles são novos. E aí as pessoas ficam: “Por quê que o Zumbano não luta com o Arias? Por quê que o Zumbano não luta com o Maldonado, ou o Maldonado comigo?”. Como campeão brasileiro, eu falo que estou pronto para lutar, e aceito lutar contra qualquer adversário que faça o desafio, desde que o regulamento seja seguido. Nesses casos, faltam empresários para promover. Com o Maldonado está tudo certo verbalmente, falta resolver patrocínios, bolsas, e ele também tem outras coisas engatilhadas por causa da carreira do MMA. Já com o Zumbano depende só dele, se ele fizer um desafio, eu aceito. Tentamos já fazer essa luta, mas por questões econômicas acabou não acontecendo. Acredito que nenhum dos dois tenha medo. A gente quer lutar. Existe esse mito, tanto na minha categoria, quanto em outras, de perder a invencibilidade, ou manchar o cartel, mas isso não prejudica a carreira, pois quem quer ser campeão do mundo, não pode estar preocupado em se vai perder aqui no Brasil ou não. Se o cara quer só ganhar dinheiro, aí sim ele não quer perder aqui pra ganhar mais dinheiro numa bolsa lá fora. E, se o cara for assim, ele nunca vai ser campeão do mundo, pois ele só está no boxe pra ganhar dinheiro, sendo que o dinheiro é consequência.

R13: Quem são seus grandes ídolos no boxe?
Arias: Bom, isso eu sempre falo e falei em todas as entrevistas, meu pai é meu ídolo, pois tudo que eu tenho hoje, tudo que aprendi, é fruto dele. Nunca treinei com ninguém, nunca tive outra indicação nem nada. Comecei do zero e foi ele quem me construiu aos poucos. É uma maneira de boxear que me deu o título brasileiro, sul-americano, latino, me levou a nº 2 do mundo. Estamos no caminho certo. Alguns lutadores também são inspirações, como Cassius Clay, Evander Holyfield, Mike Tyson, Julio Cesar Chavez, Shane Mosley, Pacquiao, Floyd Mayweather Jr., mas ídolo mesmo só o meu pai.

R13: Hoje em dia, quais são os lutadores que você mais gosta de ver lutar?
Arias: Peso pesado não tem nenhum. Das outras categorias, gosto do Floyd Mayweather Jr. Ele é meio malinha, mas se movimenta bem, defende bem. Pacquiao eu não curto muito. Ele é um batedor, mas não vejo nele o uso de muitos conceitos do boxe. Boxe é ataque, defesa, técnica e eficiência, quem consegue reunir tudo, tem um boxe mais vistoso. O Mayweather é o que eu mais gosto mesmo hoje em dia, apesar da conduta dele fora dos ringues não me agradar, ele é arrogante, mas boxeia legal.

R13: O que o boxe significa para você?
Arias: Olha, eu fiz um texto (Nota R13: em azul escuro, logo abaixo da resposta) uma vez pra um blog de um menino do Rio de Janeiro. Montei naturalmente, após um treino, e no final concluí que o boxe é sentimento.

“O que dizer de uma modalidade que é tão apaixonante, onde desde pequeno já brincava com luvas de meu pai, que foi um lutador na década de 60? Uma modalidade que exige muita concentração, treino físico e uma força espiritual muito grande. Boxe é a arte de atacar e defender, é algo extraordinário, um esporte que faz você crescer, desenvolver seu intelectual, criar habilidades, planejar, resolver situações adversas e inesperadas. Um aprendizado que você leva para o dia-a-dia fora dos ringues, uma modalidade que permite que você se conheça, e sabendo disso, aprenda a conhecer os outros, ter respeito e ser humilde. O boxe é chamado de nobre arte, pois antigamente, em 1800, o pugilato, assim chamado na época, era praticado somente pelos nobres. Em minha opinião, nos dias de hoje chamo de nobre arte porque para praticar essa modalidade você precisa saber e entender que conseguirá vitórias, mas também virão as derrotas, e é nestas derrotas que você terá que ser nobre, conseguir reconhecer que faltou algo, que precisa levantar cedo no dia seguinte e treinar mais, tentar buscar a perfeição, se livrar da maior quantidade de erros possíveis para conseguir alcançar o máximo no esporte e ser campeão do mundo. Boxe pra mim é isso: SENTIMENTO.”

R13: O que falta para o Brasil ter mais campeões mundiais? Existe algum lutador do atual cenário que você crê que tenha capacidade de conquistar um cinturão?
Arias: Precisa ver como os caras estão treinando, se estiverem preocupados com os conceitos do boxe, tem condições de chegar. Temos o Laudelino Barros, Alex de Oliveira, Jackson Júnior, Ratinho, Gaspar, que tem um boxe bonito pra caramba. Eles têm condição, se tiverem estrutura, podem chegar lá. Mas tem que estar preocupados em se aprimorar. Existem outros, mas os que me vieram à cabeça foram esses. Faltam empresários para incentivarem esses atletas, pagar um verba para que eles treinem, e possam ter uma estrutura, com nutricionista, dentista, fisioterapeuta. Um bom exemplo é o seu Edu Mello, que vem fazendo um trabalho bacanérrimo, dando estrutura para vários lutadores. Faltam mais empresários como ele. O que mais precisa é de ajuda das empresas, pois do Governo é muito difícil. Mas instituições privadas poderiam dar uma força maior. Existe a lei do incentivo fiscal, foi aprovada, mas pro esporte profissional não. Talvez seja possível patrocinar algum evento pelo menos, mas, de qualquer forma, já é alguma coisa, pois tudo começa no amador.

R13: Agradecimentos? Algum recado para os fãs?

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