Entrevistas

Publicado em 05 de Novembro de 2008 às 00h:00

Entrevista: Kelson Pinto

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Autor Daniel Leal

Imagens: Arquivo Pessoal

*Entrevista originalmente publicada em 05/11/2008

Kelson Pinto foi um dos grandes nomes do boxe brasileiro nos últimos anos. Teve uma excelente carreira no boxe amador. Segundo ele mesmo, foram quase 100 lutas, com apenas quatro derrotas, entre elas a eliminação na 2ª rodada das Olimpíadas de Sidney, na Austrália, em 2000. No fim do mesmo ano, o sergipano estrearia no profissional, batendo o mexicano Fernando Martinez por nocaute técnico no primeiro assalto, na casa do adversário.

E assim seguiu a carreira de Kelson. Considerado um pugilista muito técnico, o brasileiro construiu carreira impecável até 2004, quando foi derrotado pelo porto-riquenho Miguel Cotto, hoje considerado um dos melhores lutadores de todo o mundo, numa disputa de título mundial.

Após perder seus apoios, Kelson largou a carreira para se dedicar a outra atividade: formar talentos. Atualmente treinador de Laudelino Barros, Alex de Oliveira, Antonio Rodrigo Nogueira, o “Minotauro”, e Antonio Rogério Nogueira, o “Minotoro”, lutadores de MMA, a “Fera” conversou com o Round 13, e falou sobre sua carreira, histórias, sobre o adiamento da luta do Lino contra o equatoriano Hugo Aníbal Abad, e sobre a preparação de Alex para seu confronto no próximo dia 7, em Carapicuíba, frente ao argentino Diego Damian Loto. Com vocês, mais uma entrevista exclusiva do R13.

Round 13: Primeiramente, fale um pouco sobre seu início no boxe e sua carreira no amadorismo.
Kelson Pinto: Quando comecei a praticar o boxe, eu tinha 17 anos, e comecei porque tinha vontade mesmo de lutar. Na época que eu comecei, trabalhava com a minha mãe, quando então fui ser sparring do Popó (Acelino Freitas), por volta de 1995, 1996. Comecei a ganhar 100 reais, então parei de trabalhar e fui viver do boxe. Nasci em Aracaju, Sergipe, mas me mudei para Salvador com um, dois anos. Lá treinei na Academia Champion, com Luiz Carlos Dórea. No amador fiz 98 lutas, com 94 vitórias. Fui prata no Pan-Americano do Canadá, e disputei as Olimpíadas de 2000.

R13: Em 1999, você foi medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, sendo derrotado pelo argentino Victor Ortiz. Já em 2000, você foi para as Olimpíadas de Sidney, na Austrália, sendo eliminado na segunda rodada pelo uzbeque Mohamad Abdulaev. Como foi representar o Brasil em competições internacionais? Conte-nos um pouco sobre essa experiência.Kelson: Foi uma experiência muito boa, e graças a isso hoje tenho muito a passar aos meus atletas. Tenho muitas lembranças boas dessa época, mas algumas tristes também. Por exemplo, quando eu e Lino (Laudelino Barros) fomos para a final dos Jogos Pan-Americanos,, ou quando nos classificamos para os Jogos Olímpicos. Teve também em 1998, nos Jogos Sul-Americanos no Equador, onde fui campeão. Lá o Lino quebrou a mão lutando, e eu fui com ele ao hospital.

R13: Até hoje, o Brasil tem apenas uma única medalha olímpica, conquistada por Servílio de Oliveira, nos Jogos de 1968. Você consegue ver essa situação sendo modificada no curto prazo?
Kelson: No curto prazo não. Na minha opinião, os atletas têm que ganhar bem, para não passarem para o profissional. Mas, nas próximas Olimpíadas, acho que temos bons atletas, caso eles continuem no amador, já que vivem recebendo propostas para se profissionalizarem. Alguns pugilistas que foram aos Jogos desse ano podem ir bem caso sejam mantidos e tenham condições. Pô, tiveram atletas internacionais nas Olimpíadas desse ano que lutavam desde a minha época como amador. Aí a diferença de experiência é muito grande, como pode um atleta nosso ganhar, né?

R13: Como foi estrear no profissional lutando no México, contra um adversário que já tinha certa experiência?
Kelson: Eu estava muito querendo passar para o profissional, pois queria melhorar de vida, coisa que o boxe amador não te permitia. Eu lembro que estava tranqüilo, pois já tinha lutado muito e tinha uma certa experiência. Estava treinando nos EUA, e ficou acertado que eu faria uma preliminar de Popó na Inglaterra. Mas, de última hora, chegaram e me falaram que eu lutaria no México.

R13: Conte um pouco sobre o seu início no profissionalismo.
Kelson: Nas minhas primeiras lutas eu só queria saber de nocautear. Hoje eu posso parar para pensar e conversar sobre isso com meus atletas.

R13: Mas essa postura apresentou resultado, afinal, somente duas das suas vitórias não vieram por nocaute...
Kelson: Pensando bem, eu acho que não. Eu nunca havia tomado uma contagem, aí chegou contra o Cotto (Miguel Cotto), eu caí e não consegui me acertar novamente. Nunca havia passado sufoco em minhas lutas, eu sempre levava vantagem. Na verdade, me faltou experiência para suportar aquela queda.

R13: Em 2003, você derrotou o norte-americano Richard Savage, que já havia até mesmo disputado um título mundial, por nocaute no 2º round. Até então, você já tinha feito algumas lutas fora do país, e vinha desenvolvendo bem a sua carreira. O que passava na sua cabeça? Quando chegou a pensar que poderia ser campeão mundial?
Kelson: Eu sempre pensava que poderia ser campeão, sempre treinava com vontade de ser campeão, treinava forte, muito forte mesmo. Contra o Miguel Cotto, se eu pudesse apostar, apostaria até minha vida, de tão confiante que eu estava.

R13: Ainda em 2003, você derrotou Emanuel Augustus, conhecido por suas firulas e esquivas um tanto quanto exageradas. Como foi essa luta?
Kelson: Essa sim foi uma boa experiência para mim, eu precisava ter feito outras lutas como essa. Eu costumava ter dificuldade em atingir o peso, às vezes precisava perder uns 10 kg. Aí, quando chegava após a pesagem, eu comia demais, e no dia da luta eu só almoçava. E nesse dia contra o Augustus eu estava de barriga cheia, sem fazer digestão, o que estava me incomodando muito. Mas eu sempre busquei o nocaute, busquei a luta desde o início. Ele não chegou a ficar fazendo aquelas graças, ele lutou bem normal. Me lembro que nesse dia o Oscar De La Hoya estava lá, porque eu era um pugilista da Golden Boy Promotions.

R13: Antes de enfrentar Miguel Cotto, você chegou a negociar com Zab Judah? Como foi essa negociação?
Kelson: Olhe, foram muitas negociações. Uma delas, realmente, foi com o Zab Judah. Mas tiveram outras, como por exemplo com Ricky Hatton e com o DeMarcus Corley. Eram por títulos, mas vocês sabem como é né, isso é negociação de gente grande. Contra o Hatton eu estava indo para a Inglaterra, porém peguei uma virose daquelas, aí não tinha como lutar. Me lembro que as passagens chegaram na terça, a gente viajaria sábado, mas aí fiquei doente e não fui.

R13: Finalmente, em 2004, você enfrentou o porto-riquenho Miguel Cotto. A luta foi realizada em Porto Rico, e foi válida pelo cinturão vago dos super-leves pela OMB. Você acabou nocauteado no 6º assalto. Como foi tudo isso?
Kelson: Muito triste para mim, muito mesmo. Minha preparação e estadia foram das melhores, na época eu estava com a Golden Boy. Eu treinei para lutar com ele andando para trás, mas na luta acabei indo buscar o nocaute. Depois que caí pela primeira vez, não consegui mais me consertar. Eu nunca tinha caído, não tinha essa experiência. Mas me lembro de querer continuar, um atleta pode tudo, quer tudo. Por isso é necessária a presença de um treinador. Mesmo caindo um monte de vezes, eu queria lutar, eu queria estar ali lutando mesmo sem poder.

R13: Lutar na casa do adversário é complicado. Durante a luta, você chegou a reclamar com o árbitro de alguns empurrões. Você acredita que se o combate tivesse ocorrido num local neutro, o resultado poderia ter sido diferente?
Kelson: Não. Eu estava muito confiante, muito. Ele não atrapalhou em nada, perdi porque tinha que perder.

R13: Durante o amadorismo, você havia derrotado o Cotto por duas vezes. O que aconteceu de diferente em 2004?
Kelson: Confiança demais.

R13: Analisando a luta, percebe-se que o Luiz Carlos Dórea, assim como as outras pessoas que estavam no seu córner, pedia para você atacar o lado direito do porto-riquenho. Como todos sabemos, Cotto foi vítima de um acidente de carro em 2001, e por pouco não teve a carreira interrompida de forma precoce. Você acha que, caso tivesse conseguido seguir essas orientações, poderia ter vencido?
Kelson: Não. A orientação também era para que eu boxeasse, e eu não fiz nada disso. Tudo que tem que acontecer, acontece, então não adianta eu ficar me lamentando hoje em dia.

R13: Como foi retomar a carreira após essa derrota?
Kelson: Pra mim foi muito difícil, pois eu tinha perdido a gana de ser campeão, a vontade de treinar. Eu ainda conseguia me imaginar sendo campeão mundial, mas eu havia treinado muito praquela luta, quando eu perdi a casa caiu.

R13: O que você achou da primeira derrota sofrida pelo porto-riquenho, em julho, para o mexicano Antonio Margarito?
Kelson: O Margarito é um grande lutador, ele é lento, mas pega muito. O Cotto é bom, enquanto o Margarito é muito experiente. Eu estava assistindo à luta com o Lino, e ele disse que o Cotto ia vencer. E eu falei que se o Cotto parasse de andar, seria nocauteado.

R13: E se houver uma revanche?
Kelson: Bom, se houver uma revanche, acho que o Miguel vai treinar muito pra não ficar parado na frente dele. Eu apostaria no Cotto.

R13: Sua segunda derrota profissional veio em 2005, contra Vince Phillips. Como foi essa luta? 
Kelson: Essa luta eu estava quase matando ele, acertei um upper e acabei cortando ele. Aí ele chegou e falou que foi uma cabeçada. Eu estava com uma sapatilha muito ruim nesse dia, caía todos os rounds. Porém, no segundo, teve um golpe dele que realmente entrou e abriram contagem. Mas com o negócio do corte, pararam a luta e deram a vitória pra ele após o 5º assalto.

R13: Você e Popó chegaram a treinar na mesma época, e com o mesmo treinador. Como era e como é a sua relação com o ex-campeão mundial? Havia rivalidade?
Kelson: Nós treinávamos juntos. Eu sempre viajava com ele pra treiná-lo, quase todas as lutas dele eu estava. Quando ele lutou com o Casamayor (Joel), por exemplo, eu chegava a fazer 10 rounds de sparring com ele lutando como canhoto. Sempre tivemos uma boa relação. Olhe, eu sempre treinei muito duro, e ele também, e nossos sparrings acabavam sendo mais duros que uma luta. Mas, não chegava a ter uma rivalidade, pelo menos não pra mim, porque eu estava querendo ser campeão, não ficar arrumando inimigos na academia. Quanto a isso, não sei a opinião dele, porque ele já era veterano, experiente, não posso falar por ele nada sobre isso.

R13: E com o Dórea?
Kelson: Ótima, sempre treinei com ele.

R13: O que fez você se aposentar?
Kelson: Eu perdi os patrocínios e os apoios, então resolvi começar a dar aula. Aí depois deu problema na minha voz, e eu resolvi parar de vez. Fiz alguns exames, eles não mostraram relação entre isso e o boxe, mas é claro que foi por causa do boxe (o problema).

R13: Mesmo com essa seqüela, o que significa o boxe pra você?
Kelson: Tudo na minha vida. Não troco o boxe por nada, e fico feliz, pois hoje a minha função é formar atletas.

R13: Você e Lino foram juntos para as Olimpíadas de 2000. Como é, hoje, ser treinador dele?
Kelson: (risos) É mesmo, ele sempre foi muito meu amigo. Mas não é só amigo, ele é meu compadre, amigão mesmo. Hoje em dia brigo muito com ele por ser o treinador (risos). Nossa relação é ótima, ele é amigo mesmo, nos falamos quase todos os dias.

R13: O Lino iria enfrentar o equatoriano Hugo Aníbal Abad no próximo dia 22. Essa semana, o Lino nos informou que a luta foi adiada. É verdade?
Kelson: Isso mesmo. A luta foi adiada, vamos ver pra quando. Não sei se o adversário continuará o mesmo.

R13: Como é para um atleta profissional ver a luta ser desmarcada dessa forma?
Kelson: Pô, é muito ruim. Ele estava muito focado pra essa luta aí, era uma disputa de título latino, daí é adiada. É muito ruim mesmo.

R13: Como é a rotina de treinos dele?
Kelson: Pela manhã, ele faz a preparação física 3 vezes por semana, com musculação. Quando ele não faz a parte física, ele corre. Já à noite ele trabalha a parte técnica, todos os dias.

R13: Você está treinando o Lino há quanto tempo?
Kelson: Começamos em junho. Trabalhamos juntos para a última luta dele, contra o boliviano Saul Farah.

R13: Quando o Lino nos falou dessa disputa de cinturão latino, disse que ainda sonha em ser campeão mundial. Em 2004, você teve essa chance; Com toda essa sua experiência, você consegue vê-lo atingindo seu objetivo?
Kelson: Quando eu fui para a disputa do título, só queria saber de nocautear, fui com muita sede ao pote. Hoje posso ajudá-lo falando sobre isso, e passando minha experiência para ele. O Lino é um grande lutador, e está bem preparado. Grandes lutadores não vão com tanta sede assim à uma disputa, e creio que o Lino ainda pode tirar vantagem de sua experiência, afinal, creio que esse seja o maior fator de um lutador.

R13: Já o Alex de Oliveira luta nessa sexta, dia 7, contra o argentino Diego Damián Loto. O que você espera pra esse combate?
Kelson: Eu acho que o Alex vence, ele está bem.

R13: Quando você acha que o Alex estará pronto pra lutar fora do país? 
Kelson: Já na próxima luta acho que ele esteja bem pra lutar fora.

R13: E o que você espera para o futuro dele?
Kelson: Chegar ao título mundial. Hoje ele está bem pra lutar contra qualquer um, acho que mais algumas lutas e ele já estará pronto, talvez daqui um ou dois anos.

R13: Por falar em disputa de mundial, você vê algum outro brasileiro chegando lá nos próximos anos?
Kelson: Infelizmente, temos poucos nomes para o futuro, e eu treino com dois grandes, o Lino e o Alex. Tem o Ratinho (Marcus Vinícius de Oliveira), que bate muito forte, tem também o Carlinhos Furacão, porém ele tem problemas com o peso. O Alex é uma ótima aposta para o futuro, assim como o Edelson Silva. Tinha também o Archak TerMeliksetian, um grande lutador. Mas não gosto de ficar falando em quem pode chegar, tem que ter mais apoio.

R13: Mas falta talento ou investimento?
Kelson: Com certeza falta investimento. Do nosso Brasil podem sair grandes campeões, desde que exista investimento. Tudo na vida tem que ter investimento, qualquer coisa que você faça é um investimento.

R13: Se você pudesse mandar um recado para os dirigentes do boxe brasileiro e para as pessoas que podem mudar alguma coisa de verdade, o que você diria?
Kelson: Bom, minha idéia não ajuda muito, pois sou apenas mais um. O que penso é que temos que fazer grandes eventos aqui, trazer grandes nomes para lutarem aqui. Além disso, defendo uma ajuda financeira para nossos pugilistas. Acho que essas são as principais medidas para que no futuro algo possa mudar.

R13: Atualmente você participa de um projeto social de boxe. Como funciona?
Kelson: Eu dou aula nesse projeto social, em parceria com os irmãos Nogueira. Isso acontece aqui no Centro de Treinamento deles, que fica na cidade do Rio de Janeiro. Já temos alguns bons atletas aqui, o único problema é que não ocorrem muito eventos no Rio

R13: Mais algum recado ou agradecimento?
Kelson: Gostaria de agradecer o Sr. William Paiva, pois se existissem mais pessoas que como ele ajudam o boxe, aí sim o boxe iria pra frente. Precisamos de pessoas como ele para ajudar nosso esporte. É isso, agradeço a força, e quando precisarem, estamos aí.

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