Entrevistas

Publicado em 11 de Novembro de 2008 às 00h:00

Entrevista: Luan Krasniqi, Cisse Salif e Raphael Zumbano

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Autor Daniel Leal

Imagens: Arquivo Round13

*Entrevista originalmente publicada em 11/11/2008

O pesado alemão Luan Krasniqi (30-3-1, 14 KOs) disputa, neste sábado, o título inter-continental da OMB, contra o invicto ucraniano Alexander Dimitrenko (28-0, 18 KOs). Aos 37 anos, essa pode ser uma das últimas oportunidades para o lutador europeu disputar um mundial, chance essa que passou muito perto em 2005, quando ele enfrentou Lamon Brewster pelo cinturão da OMB, atualmente em poder de Wladimir Klitschko.

Mas, aonde o Brasil entra nessa? O pesado Raphael Zumbano (16-4-1, 15 KOs) foi chamado para participar da equipe de treinamento do alemão, e viajou para a cidade de Rottweil, na Alemanha, onde passou a treinar com Krasniqi. Lá também se encontravam outros pugilistas conhecidos, como o ex-campeão mundial dos cruzadores pela AMB, Firat Arslan (29-4-1, 18 KOs), o pesado Cisse Salif (23-11-2, 21 KOs), de Mali, que já enfrentou lutadores como Taras Bidenko e Odlanier Solis, além do letão Edgar Kalnars (18-15, 9 KOs).

Graças ao esforço do próprio Zumbano, o Round 13 conseguiu entrevistar Krasniqi, que foi muito atencioso e conversou sobre seu início, suas principais lutas e sobre o que espera para a luta do dia 15, em Düsseldorf, na Alemanha. Também fizemos algumas perguntas para o Cisse e para o Zumbano, que falaram sobre como vêm sendo os treinamentos e sobre suas próprias carreiras. Com vocês, mais uma entrevista internacional feita exclusivamente pelo Round 13. Confiram!

Round 13: Primeiramente, gostaríamos que você falasse um pouco sobre como começou no boxe, e contasse sobre a experiência de ter enfrentado o cubano Felix Savón, um dos maiores atletas olímpicos da História, na semi-final dos Jogos de 1996, em Atlanta.
Luan Krasniqi: Eu comecei no boxe quando tinha 16 anos. Foi um começo muito bom. Ganhei o título regional rapidamente , e então entrei para a seleção alemã em 1994. Ganhei então o título alemão pela primeira vez e um campeonato internacional em Londres. A primeira vez que enfrentei Felix Savón foi no Campeonato Mundial de Berlim, em 1995. Após derrotar Wladimir Klitschko, eu cheguei nas finais contra o Savón. Perdi essa luta. Um ano depois nos encontramos novamente nos Jogos Olímpicos em Atlanta. Eu sofri um corte e o médico parou a luta. É meio frustrante lembrar desse combate. Mas as Olimpíadas foram demais. Encontrei Muhammad Ali lá, e fiquei profundamente impressionado. Nunca esquecerei esse momento. Em 1997 me profissionalizei e assinei um contrato com a Panix Promotion, onde eu era parceiro de sparring do Lennox Lewis.

R13: Sua primeira derrota profissional ocorreu em 2002, contra o polonês Przemyslaw Saleta, por nocaute técnico no 9º round. Na época, você tinha 20 vitórias. Menos de um ano depois, você nocauteou o mesmo Saleta no primeiro assalto. Como foi vingar sua primeira derrota?
Krasniqi: Não foi uma revanche. Na primeira luta eu estava mau preparado. Eu estava de férias, quando recebi uma ligação do meu promoter, me avisando que Vitali Klitschko tinha se machucado. Ele teria a primeira luta do meu promoter, e seria televisionada na televisão alemã (ZDF). Havia a necessidade de ter uma luta entre pesos pesados. Primeiramente eu não queria entrar no ringue, porque eu teria menos de 4 semanas para me preparar, mas todo mundo me dizia que eu iria derrubá-lo até o 6º ou 7º assalto. No 8º, ele ainda estava de pé, e eu já não já não tinha mais fôlego. Por isso perdi a luta. Um ano depois eu me preparei como deveria, e venci. Portanto, acabei perdendo um ano da minha carreira. Mas isso já faz tempo.

R13:  Em 2007, você conquistou o título Inter-Continental da OMB, batendo Brian Minto. Porém, em setembro, acabou perdendo um combate eliminatório para Tony Thompson. Este, por sua vez, lutou contra Wladimir Klitschko esse ano, e acabou derrotado. Você acha que seria capaz de bater Klitschko, caso tivesse passado pela eliminatória?
Krasniqi: Primeiro, eu ainda não consigo entender o que aconteceu naquela luta contra o Thompson. Eu perdi claramente, mas aquele não era o Luan que eu conheço. Segundo, Wladimir fez um excelente trabalho contra o Thompson. Ele não deu a ele chance alguma. Se eu conseguiria vencer Wladimir, não é algo que eu esteja pensando. Eu perdi minha luta contra o Thompson, e isso é tudo. Mas, se você não pensar que consegue derrotar seu oponente, é melhor você nem entrar no ringue.

R13: Qual foi a luta mais difícil as sua carreira? Por que?
Krasniqi: Realmente não consigo te dizer. Após o primeiro combate contra o Saleta, passei por um mau momento, pois a maioria das pessoas que antes eu considerava como amigas me viraram as costas, e fingiram não mais me conhecer. Mas, após algum tempo, conheci outras pessoas. E nessas, eu passei a confiar. Na Alemanha nós dizemos que “Em tempos de miséria você vê quem são seus verdadeiros amigos”.

R13: O que você pensa sobre o domínio dos irmãos Klitschko na categoria dos pesados? Vê algum pugilista conseguindo superá-los?
Krasniqi: Na categoria dos pesados você precisa estar atento que sempre poderá existir um cara que pode te derrotar. É evidente que nenhum adversário deles aproveitou a chance. Mas Wladimir e Vitali são espertos o bastante para saber que, algum dia, poderá ter alguém os derrotando. Então, “dominar” talvez seja a palavra errada. Mas, bater um deles será um trabalho difícil para todos.

R13: No dia 15 você enfrenta o ucraniano Alexander Dimitrenko, que está invicto em 28 lutas. Como vem sendo a sua preparação para esse combate? Quais suas expectativas para a luta?
Krasniqi: Eu me preparei na minha cidade natal, chamada Rottweil. Aqui é silencioso e há uma boa atmosfera para treinar para a minha próxima luta. Eu sei que será um combate difícil, Sascha dará o melhor dele para me derrotar. Mas estou atento sobre isso, e farei o meu trabalho para pará-lo antes que ele me pare. Não irei permitir que ele acabe com a minha carreira.

R13: O pesado brasileiro Raphael Zumbano vem fazendo parte da equipe que treina com você para a luta contra Dimitrenko. O que você acha do Zumbano? Como você o conheceu?
Krasniqi: O Raphael é um tipo de cara muito legal fora dos ringues. Mas, dentro do ringue, ele é um lutador. Eu realmente gostei dele e da sua mentalidade. Nos sparrings, ele me fez trabalhar muito e me desafiou. Isso foi a melhor coisa que poderia ter ocorrido para meu treino.

R13: O que você conhece sobre o Brasil? Conhece algo sobre o boxe daqui?
Krasniqi: Infelizmente nunca fui ao Brasil, então tudo que eu conheço é através da imprensa e da televisão. Deve ser um país maravilhoso. As paisagens que eu vi são fascinantes e impressionantes, e o país também é enorme. Eu realmente espero que o governo resolva os problemas que o Brasil tem, assim, todos os brasileiros poderão aproveitar suas vidas.

R13: Por último, que mandar algum recado para os fãs brasileiros do boxe?
Krasniqi: Assistam ao boxe e apóiem seus atletas.

Round 13: Como está a preparação do Krasniqi para essa luta?
Cisse Salif: Ele está bem, está em forma, treinando duro. A última luta dele foi em 2007, ele perdeu, então penso que essa luta contra o Dimitrenko é como sua última grande oportunidade, afinal, ele já está com 37 anos.

R13: E o que você conhece do Dimitrenko?
Cisse: Dimitrenko é um cara bom, ele solta muitos golpes, mas acho que o Krasniqi tem chances.

R13: E o que você está achando do brasileiro Raphael Zumbano?
Cisse: Ele é um cara legal, é novo e um bom lutador. Ele está treinando bem aqui. Meu único conselho para ele é pra que ele esteja sempre treinando duro, sempre esteja preparado, pois o boxe é um negócio no qual o atleta tem que estar sempre pronto. Você tem que estar sempre preparado, pois, se chegar uma proposta, você as vezes poderá não ter um tempo pra entrar em forma e ficar preparado. Um exemplo que eu dou é de quando enfrentei o Odlanier Solis, recebi o convite de última hora, e só fui porque estava bem.

R13: Você também deve lutar nesse evento. O que você espera?
Cisse: Eu estou em forma, mas devo treinar mais se a luta realmente fechar. Eu corro durante a manhã, e a tarde estou fazendo apenas 4, 5 rounds de sparring com o Krasniqi, o que não ainda não é o suficiente para ficar preparado para uma luta de 10 assaltos. De qualquer forma, acho que iremos aumentar isso na próxima semana. (Nota R13: a declaração de Cisse foi feita há duas semanas)

R13: Algum recado para os fãs brasileiros do boxe?
Cisse: Bom, o que eu ouço sobre o boxe brasileiro é que falta apoio, e aí tem muitos atletas que estão migrando do boxe para o MMA, por causa do dinheiro. O meu recado é para os fãs apoiarem o boxe e incentivar seus atletas. Abraço, e obrigado.

Round 13: Como foi receber o convite para treinar na Alemanha?
Raphael Zumbano: Fiquei muito feliz, porque vi que a maior empresa de boxe do mundo na atualidade, a Universum, via alguma coisa boa em mim, caso contrário não estariam me convidando para treinar pela segunda vez, ainda mais em lutas tão importantes. A primeira vez, foi para uma defesa de um título mundial da AMB, e agora, para um desafio ao título inter-continental da OMB.

R13: O que você tem achado dos treinamentos?
Zumbano: As principais diferenças são a qualidade dos sparrings e a quantidade, pois, fora isso, não vi muito diferença de treinamento não. Enquanto no Brasil nós treinamos, no meu caso, com sparrings de meio-pesado, ou até mesmo categorias menores, eles, graças ao apoio, podem ter 3 ou 4 sparrings do mesmo peso, de qualidade, e com estilos diferentes, tudo para poderem se preparar 100% para uma luta.

R13: Como o Krasniqi está? Você acha que ele consegue vencer a luta contra o Dimitrenko?
Zumbano: O Luan tem uma coisa muito importante e que pode pesar muito a seu favor, principalmente em uma luta como esta, que é a experiência. O Luan não luta há um bom tempo, enquanto o seu adversário está em plena atividade. Mas vejo o Luan com boas condições de ganhar essa luta sim. É pra isso que estamos trabalhando duro aqui, para que ele saia vencedor. O Luan pode lutar com qualquer um dos atuais campeões mundiais. Não sei se ele venceria, afinal, no boxe tem muitas coisas envolvidas. Não é só o dia da conta que conta, e sim toda a trajetória até ela. Além disso, o cara pode estar muito bem, mas na noite da luta passa mal, ou coisa parecida, e aí toda a preparação vai pelo ralo. O Luan, bem preparado, conseguiria enfrentar qualquer um.

R13: Alguns meses atrás, você já havia treinado com o Ruslan Chagaev. Qual a diferença entre os treinamentos?
Zumbano: Os treinamentos basicamente são os mesmos, mesmo porque eles são da mesma empresa, a Universum. Devem ter algum padrão de treino, embora cada um tenha o seu treinador. Na minha opinião, a diferença é o estilo de cada lutador, e o treino varia de acordo com isso. Por exemplo, você não pode dar um treino pra um cara de 25, 30 anos e querer que um de 40 tenha o mesmo desempenho. Tanto o Chagaev naquela época, quanto o Luan agora, estava muito bem para a luta. Aprendi coisas diferentes em cada treino, pois cada um tem seu estilo.

R13: Conhecendo a estrutura de outro país, no caso a Alemanha, estamos realmente muito distantes? E a diferença entre pugilistas daqui e os de fora, é muito grande?
Zumbano: Muito distante mesmo. Imagine montar um time de futebol entre amigos de rua e jogar contra a seleção brasileira. Tá certo que do jeito que estão, pode haver uma encrenca (risos), mas é muita diferença sim. Aqui eles têm uma coisa que no Brasil não temos: investimento. Todo mundo quer ganhar, mas gastar ninguém quer. Vejo muito talento no Brasil, mas sem apoio não adianta nada, infelizmente. Mesmo sendo um esporte individual, o que conta muito hoje é quem está te ajudando e conduzindo a sua carreira. Pra você ver, aqui na Universum não existem somente alemães, não. Temos argentinos aqui, como o Marcos René Maidana e o Billi Godoy. Temos condições de nos tornar uma potência em qualquer esporte, desde que seja feito investimento, mas investimento certo. Não é só investir, tem que se pensar muito onde e como se investirá.

R13: No Brasil, muitos reclamam da falta de experiência de muitos lutadores que lutam sempre em nosso país, e, quando saem para enfrentar estrangeiros, acabam perdendo por não terem experiência. Você acha que treinamentos como os que você realizou podem ser uma boa saída para esse problema?
Zumbano: Sem a menor dúvida. Já diz o ditado: “Se você não pode com ele, junte-se a ele”. Eu tive a sorte de cair nas graças da Universum, caso contrário, não estaria tendo essa oportunidade. Se você perguntar pra 10 lutadores, 15 vão dizer que queriam uma oportunidade desta. Mas isto não é só mérito meu não, é mérito das pessoas que me ajudam a treinar, como meu treinador Miguel de Oliveira, meu preparador físico Renato Ventura, meus empresários Ângelo Lopes e Nicollini Hernandez, e a todas as pessoas ligadas diretamente ao boxe brasileiro, como o Antonio Bernardo, Newton Campos, Reinaldo Carrera e Edu Mello, pois sempre foram pessoas que estiveram ao meu lado me aconselhando e apoiando.

R13: Sua próxima luta será dia 14, contra Rodrigo Lima. Quais as suas expectativas?
Zumbano: Espero uma luta dura, mesmo porque conheço o adversário, pois já enfrentei ele no amadorismo, vencendo por pontos. Sei que não é um adversário bobo, e muito menos um cara que se entrega só porque levou um golpe mais forte. Ele não está no auge na forma física dele, mas tem uma coisa a seu favor, que eu já disse ter muita importância antes: experiência. Mas eu também estou muito bem, e espero ganhar essa luta, se possível por nocaute, mas mesmo que seja por 0,000001 pontos de diferença vale. O importante é ganhar mesmo, e acho que não poderia estar mais bem preparado que agora após um longo período de treinamento, como este que estou tendo.

R13: Já estamos em novembro. Pretende algo mais ainda para esse ano?
Zumbano: Sim, muitas coisas, mas, como eu disse, tudo depende de investimentos. Tenho que chegar ao Brasil, fazer essa luta do dia 14, ganhar, e aí sim pensar no que fazer e como fazer. Eu e minha equipe temos muitos planos, o que temos que fazer é colocá-los em prática, e isto que é o difícil, não por nós, mas sim por investimento.

R13: Por último, algum recado para os fãs?
Zumbano: Queria aproveitar e dizer aos fãs de boxe que continuem a apoiar o boxe, porque nosso esporte já sofre de muitas coisas, e mesmo assim conseguimos sobreviver. Então, vamos todos nos unir em prol do boxe e fazer ele voltar ao lugar de onde ele nunca deveria ter saído. Abraços a todos do Round 13, e aos leitores também, e, como já estamos no fim do ano, desejo à todos um excelente Natal e um próspero Ano Novo, cheio de alegrias e conquistas a todos. Abraço e obrigado pelo espaço.

Agradecimentos: Raphael Zumbano

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