Entrevistas

Publicado em 23 de Outubro de 2009 às 01h:00

Entrevista: Marcelino Novaes

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Autor Luigi F.

Com uma história bem diferente das que estamos costumados a ouvir quando fala-se sobre pugilistas brasileiros, Marcelino Novaes (7-3-1, 5 KOs) é o nosso primeiro entrevistado no ano de 2009. Após construir uma belíssima carreira como amador, onde, segundo o próprio boxeador, foram 147 combates, com 135 vitórias, sendo 96 por nocaute, e 12 derrotas, Marcelino se profissionalizou tardiamente, apenas aos 34 anos de idade. Alguns anos depois, foi para Las Vegas, nos EUA, onde mora até hoje. Numa das entrevistas mais completas já realizadas pelo Round 13, Marcelino contou um pouco sobre diversas histórias que vivenciou durante os anos em que lutou, como a conquista da medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de 1999, a disputa com Vitor Belfort pela vaga de peso pesado da seleção brasileira em 2000, o sonho de ir às Olimpíadas, seus problemas e dificuldades extra-ringue na terra do Tio Sam e várias outras coisas. Como a entrevista fala por si só, uma introdução mais completa não é necessária.

Com vocês, Marcelino Novaes, o “Robocop” brasileiro.

Round 13: Primeiramente, conte um pouco sobre como o boxe entrou na sua vida. Você praticou desde criança?
Marcelino Novaes: Minha história é um pouco longa, mas comecei no boxe inspirado com o filme do Rocky Balboa. Fiquei fascinado com o filme, com os treinamentos, e sempre pensava que queria ser grande como eles. Anos mais tarde, aos 12 anos, eu sempre brigava na escola. Aos 10, eu havia praticado judô, mas, como ia dizendo, comecei no boxe como hobby mesmo, lutava como médio-ligeiro, com 71 kg. Gostei muito dos treinos, e por coincidência, na minha escola tinham alguns alunos que praticavam boxe e dominavam tudo, tinham o respeito de todos. Comecei a treinar e não parei mais. Naquela época, a infra-estrutura oferecida era ainda menor, e no início eu não tinha o intuito de participar de torneios internacionais. Em pouco tempo, no meu colégio, ficaram sabendo que eu estava treinando, e esses alunos começaram a mexer comigo, querendo arrumar confusão. Eu era bem mais novo, a maioria tinha cerca de 18 anos, e um dia, na hora do lanche, tentaram roubar meu boné. Nessa discussão, acabamos brigando e me dei muito bem. A partir daí, nunca mais brigaram comigo e passei a ter o respeito de todos. Percebi que o boxe estava no meu sangue, eu treinava muito.

R13: E depois disso, como tudo continuou?
Marcelino: Bom, meu primeiro treinador foi o Luiz Carlos Fabre, muito conhecido pela forma técnica com que lutava. Aos 18 anos, eu parei com o boxe por motivos pessoais, retornando somente em 1993. Na época, eu estava com 102 kg, e meu treinador me fez perder 13 kg, para atingir 91 kg e poder atuar como pesado, onde ele pensava que eu me daria melhor. Meu ideal era lutar apenas um ano no amador para readquirir um bom condicionamento físico, e depois já me profissionalizaria. Porém, na medida em que comecei a conquistar títulos, o meu técnico, Messias, achou que eu tinha condições de participar das Olimpíadas de 96. Desde então, participar de uma Olimpíada passou a ser meu maior objetivo. Participei da seleção brasileira por 7 anos consecutivos, participando de diversos campeonatos, mas infelizmente não consegui ir para uma edição dos Jogos Olímpicos. Eu treinava pelo Centro Olímpico do Ibirapuera, e depois fui para o Corinthians, após o Pan de 1995, em Mar Del Plata.

R13: E o apelido de “Robocop”, veio de onde?
Marcelino: Veio da Venezuela, em 1994, quando estávamos participando dos Jogos Sul-Americanos. Estávamos treinando na praia, e uns repórteres estavam fazendo entrevista com os boxeadores. De repente, um deles perguntou: “Quem é aquele grandão ali?”, e um deles brincou, dizendo: “Ele é o Robocop”. E assim começou, do nada. Ficou só na brincadeira, mas quando voltamos ao Brasil, estava vendo uma reportagem e aí falaram: “Marcelino Novaes – O nosso Robocop” (risos). Aí pegou de vez.

R13: Você teve uma boa carreira como amador no Brasil. Seus primeiros títulos vieram em 1994. Em 1996, você passou perto de representar o país nos Jogos Olímpicos de Atlanta, nos EUA. Como foi isso?
Marcelino: Foi muito perto mesmo, passei por quase todos, mas para conquistar uma vaga olímpica nos pesados não é nada fácil, uma vez que apenas o campeão do Pré-Olímpico consegue a vaga. Cheguei à final, e numa luta muito disputada, acabei perdendo por 2 pontos. Conquistei a prata no Pré-Olímpico de Buenos Aires, mas fiquei de fora das Olimpíadas. Ao voltar para o Brasil, foi terrível. Fiquei um mês sem sair do quarto, só pegava a comida, não tinha mais ânimo para nada.

R13: Mesmo não indo aos Jogos de 1996, você continuou lutando como amador. Mesmo com quase 30 anos de idade na época, por que você não preferiu se profissionalizar?
Marcelino: Eu nunca encontrava um manager que não estivesse interessado apenas em ganhar dinheiro, e sim em fazer carreira. Muitos managers não estão preocupados com o lutador, eles querem apenas arrumar grandes lutas, ganhar muito dinheiro, sem se preocupar com a nossa condição. Temos muito material humano no Brasil, mas infelizmente os lutadores profissionais não têm bons dirigentes, que se preocupem com o atleta antes de pensar no dinheiro. Muitos vão pra fora pra fazer a famosa “escadinha”, pois não tem a devida instrução e acabam se envolvendo em lutas desfavoráveis para eles mesmos. Isso é muito triste, pois muitos pugilistas que poderiam desenvolver e crescer no mundo profissional acabam tendo uma carreira curta demais, ou então, por não encontrarem bons profissionais do ramo, permanecem tempo demais no amadorismo, como no meu caso. Sempre fiz tudo sozinho, eu morava no Morumbi, em São Paulo, e treinava em Santo André. São 45 km de distância. Eu acordava as 4h30 da manhã, e o treino começava as 6h. Até as 7h, fazíamos apenas a parte física. Aí eu voltava para São Paulo para dar aulas na Fórmula Academia, almoçava por lá, e depois retornava a Santo André, para fazer o treino técnico às 15h. Fazia sparring e manopla. Depois voltava para São Paulo para dar mais aulas e fazer natação. Nem eu sei como aguentava tanto (risos), mas me virava com tudo. Nunca tive patrocinador para pagar minhas contas mesmo com o cartel amador que sempre tive. Muitos me davam tapinhas nas costas, falavam que eu ia ser campeão mundial, mas ninguém botava a mão no bolso e me ajudava a conquistar o sonho que sempre tive. Não era fácil, mas sempre corri atrás dos meus objetivos, treinava de 6 a 8 horas por dia. Eu não queria ser apenas mais um no profissional, e como as lutas no profissional são marcadas de forma aleatória, sendo que às vezes se fica um ano sem lutar, permaneci muito tempo no amador. A carreira profissional tem que ser planejada, projetada, e ter lutas, já que essa é a maior fonte de renda. Não se pode esquecer que um lutador é um ser humano, tem compromissos, contas, dívidas, desejos, planos e sonhos.

R13: Você continuou a se apresentar e ganhar medalhas em competições nacionais e internacionais. Em 1999, você foi aos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, na mesma delegação que tinha grandes nomes da história recente do boxe brasileiro, como Kelson Pinto e Laudelino Barros. Nessa competição, você conquistou o bronze, após perder por pontos na semi-final para o cubano Odlanier Solis. Como foi representar o Brasil numa importante competição internacional e poder retornar ao seu país com uma medalha? Como foi a competição em si?
Marcelino: Foi muito mais do que eu esperava. Foi maravilhoso, a competição em si, foi um sonho. Não tenho o que reclamar da organização. Eu havia lutado contra o Solis em 1998, quando havia sido campeão do torneio Verão Vivo. Nos enfrentamos novamente na semi-final do Pan, e aí, como eu já tinha vencido ele por pontos um ano antes, e era o único pesado a ter nocauteado na competição em 1999, o que ele deveria fazer? Boxear. Ele lutou muito, foi excelente, não o encontrei por toda a luta, pois ele não parava na minha frente. Ele não me deu chance alguma e me derrotou por pontos.


Marcelino com a medalha de Bronze do Pan de 1999. Arquivo pessoal.

R13: Bom, agora a questão que não podemos deixar de falar. Você era o titular da seleção brasileira há vários anos quando estávamos perto dos Jogos de Sidney, em 2000. Porém, uma grande pressão da mídia para que o país fosse representado pelo campeão de MMA Vitor Belfort começou a ser feita. Mesmo com outras pessoas “na fila” por uma chance de disputar com você a vaga de representante do Brasil no Pré-Olímpico, o Belfort teve uma chance. A luta era para ter acontecido no Brasil, mas acabou sendo realizada em abril de 2000, em Cuba, durante uma preparação da seleção. O que você tem a contar sobre essa história? Como você se sentiu com essa situação?
Marcelino: Se falava muito sobre o Vitor Belfort. Como eu sempre estava treinando em muitas academias em São Paulo, toda vez que encontrava um lutador de jiu-jitsu eles falavam que o Vitor iria para os Olimpíadas. E eu dizia: “Espera aí, ele vai vírgula. Primeiro ele tem que passar uma pedra chamada Marcelino Novaes, e depois disso ele terá uma montanha chamada Pré-Olímpico. Só depois disso vocês poderão afirmar isso aí”. Dizia isso pois o boxe é muito diferente do MMA, pois no MMA, se você for um bom lutador e tiver boas vitórias, chega a disputar um título mundial rapidinho. No boxe amador, o caminho é muito mais duro. Armaram para mim, disseram que lutaríamos no final de 99, e quando eu estava em Cuba, em 2000, me preparando para o Pré-Olímpico, adivinha quem estava lá? O Vitor Belfort. Ele fez todo um treinamento especial, tinham coisas que ele só treinava escondido, e eu não sabia de nada. O técnico que me treinava há anos estava dando toques para ele sobre o que fazer para ganhar de mim. Eu só fui descobrir dois ou três dias antes da nossa luta, estava tudo combinado, só eu não sabia. Mas superei a pressão e esperei pelo momento. Estavam todos babando por ele. O Kelson, assim como quase todos os lutadores da seleção, ficou ao meu lado. Me senti muito mal, traído. O Vitor estava em quarto exclusivo, tinha várias regalias, tinha personal trainer, era um ídolo e muito querido por todos. Na hora da luta, muitos cubanos queriam que ele ganhasse mesmo. Além dos treinadores, muitos atletas cubanos também torciam por ele, e do meu lado só restaram meus amigos que treinavam comigo e me conheciam.

R13: Como foi a luta? Descreva.
Marcelino: Foi o evento mais esperado por todos que estavam ali em Cuba. Não cabia mais ninguém na academia. Lutamos e derrubei ele por duas vezes, sendo que ele demorava mais do que 10 segundos para retornar, ou seja, se fosse oficial, seria nocaute técnico. Como estava tudo armado, a luta continuava. Mesmo assim ganhei por pontos, algo como 6 a 2. Depois teríamos que lutar novamente no México, onde eu estava pronto e esperando, pois já estava a par da situação. Mas ele não apareceu e ficou por isso mesmo, acho que ele desistiu de tentar.


Marcelino Novaes x Vitor Belfort - Cuba/00 - Arquivo pessoal.

R13: E como ficou o clima por lá depois da luta?
Marcelino: No dia seguinte falei um monte de verdades para eles. Disse que não éramos amigos de boteco, que havíamos treinado juntos por muitos anos e como é que eles tinham sido capazes de fazer aquilo comigo. Falei tudo na cara deles, não sou de mandar recado. Os técnicos na época eram o Ulisses Pereira, o João Carlos e o Francisco “Paco” Garcia, mas o Francisco estava contra tudo aquilo.

R13: Muito se comenta nos bastidores sobre o potencial do Belfort para o boxe. Ele chegou até mesmo a lutar boxe como profissional, em 2006, quando venceu por nocaute no primeiro assalto. Tendo dividido o ringue com ele, como você vê isso? Ele teria mesmo potencial caso quisesse ter investido numa carreira na nobre arte?
Marcelino: Teria sim. O boxe é diferente do MMA, mas ele é técnico sim, teria muito potencial no boxe.

R13: Após garantir a sua vaga, mais uma vez você bateu na trave no Pré-Olímpico, ficando em 2º lugar e não conseguindo ir aos Jogos de 2000. O Kelson afirmou que a final contra o canadense Mark Simmons foi um grande duelo, e que você merecia ter ganho, mas deram a vitória a ele. Segundo o próprio Kelson, ele já gostava de você, mas a partir desse dia passou a ser seu grande fã. Como foi isso?
Marcelino: Até o Simmons sabe que perdeu a luta. Foi a melhor luta que fiz em minha vida, não tenho dúvidas de que fui o vencedor. Eu já havia enfrentado ele no Pré-Olímpico para Atlanta, mas nessa luta, lutei como nunca antes. Todos os rounds quando eu voltava para meu córner, meu técnico perguntava como eu estava, eu dizia que estava bem, e ele falava que não tinha o que falar para mim, pois eu estava perfeito. A única preocupação era caso eu cansasse, mas não aconteceu, eu estava num estado de espírito que nem eu sei como. Foi incrível. Perdi a luta por pontos, mas não chorei, pois sei que ninguém poderia ter feito melhor. Lutei com o coração. Quando eu desci, muitos lutadores me cumprimentaram e falaram que eu havia lutado como um campeão do mundo.


Laudelino Barros, Marcelino, Kelson Pinto e Claudio Aires. Arquivo pessoal.

R13: Como foi ver as outras categorias tendo 2 pugilistas classificados para os Jogos, e, bem na dos pesados, você ficar fora dos Jogos por ter ficado na 2ª posição? Não compensava tentar baixar o peso para lutar entre os meio-pesados?
Marcelino: Foi triste. Eu pesava 96 kg, e tirava 5 kg para lutar. Mas se fosse baixar para meio-pesado, teria que tirar 14 kg, que para mim era demais, muita diferença de peso.

R13: E como era o seu relacionamento com os pugilistas da sua geração?
Marcelino: Maravilhosa, sempre me dei muito bem com todos. Tenho grandes lembranças e muitas saudades. O Kelson era um atleta que com poucos anos de experiência conquistou a vaga pras Olimpíadas. A técnica dele era demais, você não tem ideia. Foi um enorme prazer ter treinado com ele e ter conhecido um profissional sem igual como ele é. Eu o presenciei lutando na final de um Sul-Americano contra o adversário do próprio país, e ele fez os torcedores aplaudirem ele de pé. Já o Lino era quase do mesmo peso que eu, então treinávamos juntos sempre que possível, correndo ou fazendo sparring. Ele sempre me surpreendeu pela dedicação e pelo empenho nos treinamentos, é um ótimo atleta que não está tendo o apoio que merece.

R13: O Lino disse que aprendeu muito com você, porém, que pensa que você demorou demais para se profissionalizar. Você começou no profissionalismo em outubro de 2001, aos 34 anos. Seu primeiro combate foi contra Edson Arantes do Lino, e você venceu após seu oponente ser desclassificado. Como se sentiu na estreia? Concorda com o Lino Barros que demorou demais para abandonar o amadorismo?
Marcelino: Concordo, mas, como disse, demorei não porque desejasse, mas sim porque em primeiro lugar eu tinha o sonho de ir para uma Olimpíada. Fora isso, nunca tinha apoio de ninguém, sempre tive que dar aulas para me manter. Eu sonhava em ter um manager com objetivos profissionais para abandonar o amadorismo. É só assistir ao filme do Rocky, ele mostra exatamente o que se passa com o boxe profissional quando se tem um manager que só está interessado em fazer dinheiro rápido. Me senti cheio de sonhos a serem conquistados após a estreia, me senti bem, mas inseguro. E essa insegurança não era devido a minha idade, e sim por não ter um patrocinador, como sempre me foi sonhado. Não temos apoio.


Marcelino Novaes x Edson Arantes do Lino - São Paulo, Brasil/2001 - Arquivo pessoal.

R13: Após tantos anos como amador, foi difícil se acostumar às disputas profissionais?
Marcelino: É diferente. Quando se está no amador, sempre tem uma equipe, amigos que treinam juntos e tudo mais. No profissional, se está quase sempre sozinho, só você e seu treinador, não tem mais várias pessoas treinando com afinco pelo mesmo objetivo.

R13: Você seguiu lutando somente no Brasil, até que no ano seguinte teve a chance de lutar na sérvia, contra o local Zoran Manojlovic. Como foi sofrer a primeira derrota no profissional? Conte um pouco sobre essa história.
Marcelino: Foi terrível, pois fiquei doente uma semana antes da luta. Não sei muito bem como aconteceu, mas fui a um churrasco e quando comi um pedaço de carne, a mesma ficou parada no meu esôfago e não saia mais. Fiquei soluçando constantemente por alguns dias. Fui parar no hospital e mesmo assim não resolveram o meu problema, foi muito estranho o que aconteceu. Fiquei muito ruim mesmo, mas não queria perder a oportunidade. Hoje pensando, eu não deveria ter ido. Acabei indo, e mesmo sabendo que não estava nas melhores condições, acabei combatendo. Durante a luta, meu adversário me jogou algumas vezes na corda forçando a minha lombar, teve até uma vez que ele se jogou em cima de mim, quase me derrubando do ringue. Tive uma grave lesão na lombar, e ao retornar para a luta, eu não conseguia mais andar em linha reta, estava completamente desalinhado, parecia bêbado. Nesse momento ele pegou um soco embaixo do meu braço e me fez cair, não dá nem pra acreditar. Levantei mas não conseguia ficar parado por causa da lombar, e o árbitro decretou o fim da luta.

R13: Depois da derrota para o sérvio, você venceu o Eduardo França por pontos. Logo depois disso você já se mudou para os EUA?
Marcelino: Foi. Antes tentei lutar contra o Daniel Frank, mas não consegui. O tempo acabou ficando curto devido a minha viagem e não teve luta.

R13: E qual foi o motivo de ter ido aos EUA?
Marcelino: Foi devido a um contato que tive com um empresário daqui dos EUA depois de minha luta no Pré-Olímpico do México. Ele me viu lutando, ficamos em contato por anos e ele ficou muito interessado em me ver lutando por aqui. Fechamos contrato e vim pra cá em junho de 2003, mas chegando aqui, não foi nada do combinado, tive muitos problemas e só consegui a documentação para lutar em 2004.

R13: E sua estreia nos EUA?
Marcelino: Fiz minha estreia por aqui em março de 2004 contra o ex-campeão mundial amador Michael Simms. Foi outra armação. Eu iria lutar contra outro adversário, mas chegando ao evento, me disseram: “Ou você luta contra ele ou não irá lutar”. Minha luta a princípio era de 4 rounds, contra um adversário mais velho, e de repente me fizeram a proposta de lutar com o campeão mundial por 6 rounds. Aceitei o desafio e fiz um lutão, ganhei os 5 rounds, levava ele pras cordas e batia forte, ninguém esperava por isso sendo que eu estava com 37 anos. No último assalto, todos estavam desesperados com o que estava acontecendo. Ele me deu um jab que pegou dentro do meu olho, eu comecei a piscar, mas continuei lutando. Então ele começou a dar uma sequência de golpes e mesmo comigo contra-golpeando, o árbitro encerrou a luta. Foi ridículo e todo mundo vaiou muito. Depois disso, o Simms nunca mais lutou no pesado.

R13: Como foi se adaptar a um país novo?
Marcelino: No começo foi muito difícil, porque eu não havia feito curso de inglês, não tinha amigos, ficava muito sozinho. Com o tempo fui me adaptando. Meses depois comecei a me relacionar com uma norte-americana, e aí tive que aprender a língua na raça. Dois meses depois me casei, ela se comprometeu a me ajudar a me legalizar, mas depois que casamos foi tudo diferente. Eu estava tendo bons momentos no boxe por aqui, pois estavam falando muito de mim. Fiz sparring com o Samuel Peter, que era o campeão mundial na época. Até então, ninguém me conhecia. Fiz sparring com ele na Top Rank, e ficaram impressionados comigo, fazia sparring de igual para igual com todo mundo. Fiz 5 lutas em 5 meses, cheguei a lutar duas vezes no mesmo mês, me adoraram por aqui.

R13: Nos EUA, você obteve duas vitórias, duas derrotas e um empate. Conte um pouco sobre como foram seus principais momentos dentro do ringue na terra do Tio Sam.
Marcelino: Estando casado e não tendo ajuda da minha ex-mulher, tudo ficou mais difícil. Meses depois do casamento, tive um acidente de carro muito sério e machuquei o meu braço esquerdo. Tive uma lesão séria, mas como não falava inglês, não fui atrás de meus direitos. Eu não conseguia mais nem dar um jab, mas mesmo assim continuei treinando. Uma semana depois, meu manager me disse que tinha uma luta e queria saber se eu iria lutar. Perguntei à minha ex o que ela achava, e ela disse que eu deveria aceitar a luta porque precisávamos do dinheiro, não se importando se eu estava bem ou não. E eu fui burro o suficiente para aceitar mesmo sabendo que não estava em condições. Enfrentei o Teke Oruh, ele estava invicto, e nos segundos finais do primeiro round, eu o derrubei com um direto, foi maravilhoso. Se eu lhe desse mais um tapa, ele cairia, mas acabou salvo pelo gongo. Meu braço estava doendo muito, e eu queria acabar com a luta o mais rápido possível, então voltei para o segundo round com toda a garra para acabar logo. Em uma troca de golpes, o tendão do meu bíceps esquerdo rompeu. Mesmo assim, continuei até o final da luta, perdendo por um ponto na decisão. Muitos acharam que eu ganhei a luta, mesmo com o braço esquerdo daquele jeito, mas o Oruh se virou bem, se movendo bastante e me agarrando a todo instante. Saí dali para um hospital, e uma semana depois tive que fazer uma cirurgia com um especialista. Só poderia voltar a treinar depois de 10 meses a um ano. Após seis meses, eu já estava me sentindo bem, mas minha vida de casado estava um inferno e eu não conseguia mais voltar a treinar como antes. Com isso, parei de lutar, porque não posso subir num ringue fora de forma. Muitos empresários me dizem que conseguem lutas para mim a hora que quiser, mas não posso arriscar a minha integridade física por dinheiro, minha saúde não tem preço. Fui muito reconhecido por aqui, estava com grandes planos, mas, infelizmente, não aconteceu o que eu esperava. Recebi várias propostas aqui, mas o problema é que sou muito honesto. Vim para cá com um manager novo na área, em quem depositei toda a minha confiança. Eu não falava inglês, então ele fazia todo o contato, viemos com muitos sonhos e objetivos. Muitos empresários me ofereceram mundos e fundos quando comecei a treinar nas academias aqui, e todos prometiam me ajudar se eu desse as costas ao meu manager. Recusei várias propostas porque, na minha cabeça, jamais viraria as costas para quem está no mesmo barco, ele havia deixado família e amigos no Brasil assim como eu, fez tudo para que eu pudesse vir para os EUA, e aí quando eu estava aqui, tudo certo, iria virar as costas para ele e fazer contato com outro empresário? Isso não existe na minha cabeça. É a mesma coisa mostrada no filme do Rocky, muitos empresários poderiam ter me dado a ajuda que eu precisava naquele momento, mas recusei devido a minha idoneidade. Ele aprontou feio comigo. Confiava nele, e quando comecei a me relacionar com minha ex-mulher, como eu não falava inglês, ele se aproveitava para dizer a ela barbaridades sobre a minha pessoa, falou tantas coisas que a minha relação com ela ficou tão insustentável que nosso casamento não durou nem dois anos. Ele dizia a ela que eu só queria me casar para conseguir os documentos para ficar lá, e depois daria um pé na bunda. Sabe como é, mulher é muito insegura, nosso relacionamento virou um desastre. Ela disse que se casaria comigo independente de eu gostar dela ou não, mas eu não faria isso com ninguém. Eu gostava dela, mas não amava, apesar de nunca ter dito o contrário. Só disse que não queria voltar porque ainda não era o momento, e que se desse certo, ficaria o resto da minha vida com ela. Mas logo depois do casamento percebi que não aguentaria uma mulher como ela em minha vida. Ninguém merece passar pelo que passei, mas só Deus sabe o caminho pelo qual temos que passar para aprender a entender e enxergar a vida de outra forma. Fui bem no sparring com o Samuel Peter na época em que ele era o número 1 do mundo, e eu nem era conhecido. Falo tudo isso porque me orgulho de ser o profissional que sempre fui, não apenas como atleta, mas sim como homem. Meu pai era um homem muito simples e sempre, mesmo com a sua simplicidade, me mostrou o caminho do bem. Ele sempre me dizia que podemos ser o que for, mas temos que ser homens o suficiente para nunca termos que baixar a cabeça para ninguém. E foi devido a esse caráter que não dei as costas ao meu manager quando tive oportunidade. Quando me lesionei em minha última luta, ele nunca mais me ligou para saber se eu precisava de alguma coisa. Nunca mais falei com ele e também nem quero mais saber, entrego na mão de Deus.

R13: E como está sua vida hoje nos EUA? O que você faz?
Marcelino: Já fiz de tudo um pouco por aqui. Já fui pedreiro, motorista particular, segurança pessoal, pintor de casa, lavador de carro, personal trainer. Como pode ver, aqui você tem que se virar (risos). Hoje sou segurança de um Bar Lounge há dois anos. Tive uma filha em meu casamento e estou aqui por ela tentando acertar a minha situação, para que eu possa sair e entrar no país sem problemas. Não vejo a hora de voltar e encontrar todos aqueles que tanto amo, família e amigos. Hoje fazem 6 anos que moro em Las Vegas, muitas coisas aconteceram, mas posso afirmar que está sendo um grande aprendizado. Os americanos são muito diferentes, não têm o calor humano que nós, brasileiros, temos. Aqui eles são frios, não estão interessados em saber o que acontece com os outros. Minha filhota nasceu no fim de 2005, mas não a vejo desde fevereiro de 2006. Depois que me separei, também no final de 2005, não consegui mais me relacionar com ninguém, pois as mulheres daqui são muito diferentes das brasileiras. Mas em junho do ano passado conheci a Jaque, uma pessoa muito especial. Nos relacionamos há 1 ano e 4 meses, ela largou tudo no Brasil para ficar ao meu lado, me dando todo apoio que necessito. Ela é uma companheira sem igual, que merece todo o meu carinho e respeito. Nos relacionamos por internet e telefone por um ano e três meses, e há exatamente um mês ela está aqui em Las Vegas comigo enfrentando todos os desafios de quem mora em outro país, com outra cultura e idioma. Estou muito feliz em tê-la ao meu lado e espero que juntos consigamos superar todos os desafios que possam aparecer pela frente. Espero que juntos voltemos ao Brasil para firmar nossa relação diante de nossos familiares, e que depois retornemos aos EUA.

R13: Você tem contato com muitos brasileiros aí em Las Vegas?
Marcelino: Tenho com alguns lutadores de boxe. O Archak (TerMeliksetian) está em Nova Iorque, Dedé (José Albuquerque) está em Los Angeles, tem o Pipoca (Elvecio Sobral) e o Mesquita (Antonio Mesquita) que estão aqui em Las Vegas, o Juliano Ramos, que mora na Flórida.


Archak TerMeliksetian, Marcelino, Antonio Mesquita e Cleiton Conceição. Arquivo pessoal.

R13: Todos reclamam e falam que faltam muitas coisas no boxe brasileiro, como investimento e estrutura. Você experimentou os dois lados da moeda. É realmente absurda a diferença entre a preparação dos brasileiros e dos estrangeiros?
Marcelino: Não em termos de amador. Na seleção brasileira estamos muito bem estruturados, fazendo muitos intercâmbios. Já no profissional, o que acontece é o seguinte: aqui tem vários lutadores profissionais. Com isso, em qualquer lugar você encontra lutadores de nível para treinar ou fazer sparring. E também é muito fácil encontrar um manager para programar lutas. No Brasil, é difícil encontrar adversários de nível técnico para treinar e ao mesmo tempo difícil se manter lutando. Quando eu treinava aí, tinha que atravessar a cidade para fazer sparring com alguém de nível. Muitas vezes eu ia à casa do George Arias fazer sparring às 6h da manhã, acredita? (risos).

R13: E como eram essas sessões de sparring com o Arias?
Marcelino: Era coisa de louco, acordava às 4h30 para ir a casa dele na Vila Maria fazer sparring antes do dia ter amanhecido. Mas sempre gostei de fazer sparring com pessoas de nível, e o George Arias era um adversário que tinha a melhor guarda que eu já tinha visto. Era muito difícil aplicar golpes limpos nele devido ao excelente bloqueio que ele e o pai dele (Santo Arias) desenvolveram. Sempre que treinávamos, além de ter que estar em ótimo preparo físico, você tem que trabalhar muito em seu ataque e defesa devido a dificuldade de se conseguir aplicar os golpes. Não tem nada melhor do que treinar com alguém que lhe ofereça dificuldades, porque só assim que você conseguirá se aprimorar tanto física, quanto tecnicamente. Se você quer ser o melhor, você tem que treinar com os melhores. Sempre gostei de treinar com pessoas de alto nível, assim como era com Lino Barros, Fábio Maldonado, Kelson Pinto.


George Arias e Marcelino. Arquivo pessoal.

R13: E como foi ser sparring do maior nome brasileiro da categoria máxima, Adilson “Maguila” Rodrigues?
Marcelino: Foi uma ótima experiência. O Maguila tinha 3 sparrings antes de mim, mas ninguém o encarava, pois todos tinham medo da pegada dele. Mas eu nunca liguei pra isso, porque pra mim se você estiver bem preparado tanto a nível técnico quanto físico, você tem que estar preparado para encarar qualquer um. Depois que eu comecei, ele dispensou os três e ficou só comigo, pois eu exigia mais dele do que os outros. Ganhei muito bem na época, e me lembro que depois de fazer o nosso primeiro sparring ele me perguntou: “Posso te largar no fim de semana?”. E eu disse: “Claro que não! Vim duro e quero voltar com dinheiro” (risos). Ele sempre me pagava após o treino, mas a experiência que adquiri é inesquecível. Podem falar o que quiser dele, mas ele era como eu, não escolhia adversários. Ele mesmo sempre dizia: “Se subir no ringue comigo, tem que estar pronto pra levar porrada” (risos). Esse era um defeito dele. Se você mete a mão em todo mundo não querendo aprender a aperfeiçoar, como é que vai encontrar lutadores de nível para treinar? Imagina, se preciso de sparrings e saio por aí arrebentando todo mundo, com quem vou treinar? Tem que maneirar, às vezes é necessário usar outras armas, como velocidade, distância, tempo e defesa. Não precisa fazer sparring e sair metendo a porrada toda hora, o boxe é muito mais que isso. O boxe é muito mais complexo do que se imagina. O esporte em si tem apenas 6 golpes, mas apesar de serem poucos, eles têm diversas formas de serem aplicados, entre velocidade, distância e tempo. Fui sparring dele por 6 meses, treinávamos 3 vezes por semana. Ele é um dos socos mais potentes da história do boxe, muita pouca gente sabe disso. Depois do George Foreman, ele foi um dos socos mais fortes, e isso é algo do qual todos nós temos que ter muito orgulho, não é verdade?

R13: Vocês chegaram a se enfrentar até mesmo numa luta exibição, como foi?
Marcelino: Nessa luta apresentação, sabia que ele queria me derrubar. Eu estava muito bem preparado tanto físico quando psicologicamente, pois sabia o que ia encontrar. O ginásio estava lotado, havia muita expectativa. Assim que começou, no primeiro round, ele me perguntou: “O que você está fazendo? Você está batendo muito duro!”. E eu disse para ele não se preocupar. No segundo round continuei fazendo aquele lutão, boxeei muito, cheguei a levar ele pras cordas em várias oportunidades. No intervalo, o técnico que estava me ajudando no córner me incentivou a continuar, pois sabia que o Maguila queria me derrubar. Continuei fazendo a mesma coisa, colocando a mão dura, e no fim todos dirigentes vieram me cumprimentar, porque nem eles tinham ideia de que eu era capaz de fazer o que fiz. Fiquei muito feliz com a repercussão desse evento, mas como lhe disse, não adiantava o que eu fizesse, era muito difícil encontrar alguém que tivesse interesse em me patrocinar. Um amigo meu sempre me dizia: “O único erro do Marcelino foi ter nascido no Brasil, porque se fosse americano, a história dele teria sido diferente”. Mas Deus sabe o que faz.


Maguila e Marcelino. Arquivo pessoal.

R13: E aí nos EUA, você chegou a fazer sparring com muitos lutadores conhecidos?
Marcelino: Fiz, mas sou péssimo para nomes. Treinei com o Vassiliy Jirov, na época em que ele era campeão mundial. Foi lá em Big Bear, nas montanhas, onde grandes nomes sempre se preparam por causa da altitude. Fiz também alguns sparrings com o Samuel Peter, que foram de grande aprendizado. E teve também o Frank Mir, lutador de MMA, mas com ele não deu pra aprender nada, apenas percebi a diferença de preparo físico que o boxe necessita. Ele estava em bom preparo físico, mas na hora de subir no ringue, o porco torceu o rabo (risos). Na época, eu treinava na academia de jiu-jitsu do Ricardo Pires, que me deu o espaço para treinar sempre que eu quisesse. E o Pires era treinador do Mir. Todo dia ele me via treinando e me chamava para fazer sparring. Eu estava um pouco fora de ritmo, e falava que eu não estava em forma ainda. E ele devia pensar que eu estava com medo dele, pois perguntava a mesma coisa todos os dias. Com isso, numa quinta-feira, ele ficou me vendo treinar sozinho por duas horas, e ao fim do meu treinamento, veio fazer a mesma pergunta. Muito cara de pau, eu fiquei doido e marquei de treinarmos às 4h30 do dia seguinte, e avisei para que ele ficasse pronto, pois como eu ia de bicicleta, já ia chegar aquecido. Cheguei lá conforme combinado, e ele nem aí, fiquei lá no ringue esperando e ele enrolando, querendo ganhar tempo pensando que eu iria me cansar. Às 5h15, ele veio, eu já estava babando por ele (risos). No primeiro round fizemos um aquecimento dirigido pelo técnico dele que era apenas de uppercut. O Ricardo me disse, antes de começar, para que eu tomasse cuidado, pois ele pegava muito duro. E eu disse: “Olha, se ele pegar mais duro que o Maguila, eu aposento minhas luvas”. Na hora do sparring livre, meti a pancada, bati muito nele, teve até um momento em que ele me deu um chute quando estava acuado nas cordas, e mesmo assim eu continuei batendo. Estava programado para fazermos 5 rounds, e com isso eu queria machucá-lo bastante e nocautear apenas no último. Mas no intervalo para o 4º round ele abandonou o ringue. Eu fiquei louco, onde já se viu um profissional abandonar o ringue desse jeito. Se está programado para fazer 5 rounds, então faça os 5, independente do que aconteça, você tem que aprender a se virar nos momentos difíceis. Numa luta, se você cansar, você não vai poder parar, tem que continuar lá lutando. Depois disso, encontrei ele várias vezes, mas nunca mais ele me chamou para fazer sparring (risos). Eu tenho várias histórias mesmo, mas não sou de ficar inventando. Até mesmo o Mesquita quando chegou aqui há 4 anos ficou orgulhoso pois disseram a ele que eu era um pesado que merecia respeito por ter feito frente a muitos boxeadores daqui. Eu treinava na academia do Jonny Tacos, sempre encontrava profissionais de renome para treinar, e com isso o pau comia (risos).

R13: Vendo de fora, quem para você são as grandes esperanças do boxe nacional hoje em dia? Consegue ver alguém sendo campeão mundial
Marcelino: Bom, meu grande amigo George Arias, que detém o título de campeão brasileiro há vários anos, mas que infelizmente não consegue se impor a nível mundial. Eu acho que devido à dedicação dele, ele mereceria muito mais. O Lino Barros é outro que tem muito a mostrar, mas fica difícil devido a falta de uma estrutura melhor. O Mesquita Neto, que tem um cartel invejável, mas que infelizmente não se dedica da forma que deveria, mas que com certeza, se dedicasse um pouco mais de seu tempo, estaria entre os melhores do mundo. Resumindo, acho que são poucos os que poderão chegar a algum lugar sem ter o apoio necessário. Quanto aos novos nomes, fica difícil para falar, pois não estou no Brasil acompanhando de perto.

R13: Para você, quem são os grandes nomes da categoria dos pesados hoje em dia no mundo? E no Brasil?
Marcelino: No mundo é o Wladimir Klitschko. No Brasil, não vejo ninguém melhor do que o George Arias, não apenas pela forma física, mas também pelo nível técnico. É um excelente ser humano e amigo.

R13: Quem foram seus ídolos no esporte?
Marcelino: No Brasil, Acelino Freitas, Kelson, George Arias e Peter Venâncio. Internacionalmente, o Evander Holyfield e o Mike Tyson. Muitos dizem que o Tyson não tinha técnica, mas aí eu perguntava: “Por acaso ele dá soco de olhos fechados?” (risos). O soco pra ser bem aplicado tem que se ter noção de distância, espaço e tempo. E pela estatura dele, ele fazia o correto, se mexendo muito e aplicando golpes com muita eficiência. É claro que ele não tinha a qualidade técnica do Holyfield, mas não podemos desmerecê-lo. Sempre gostei muito do nível técnico do Evander.


Marcelino e Evander Holyfield. Arquivo pessoal.

R13: E na vida?
Marcelino: Meu pai. Uma pessoa que saiu da roça, do interior de Vitória da Conquista, na Bahia, veio para São Paulo tentar a vida e tem 4 casas pagas. Para mim, com toda a simplicidade dele, ele é o meu herói.


Marcelino e seu pai, em São Paulo/Brasil - Arquivo pessoal.

R13: O que o boxe significa para você?
Marcelino: Para mim o boxe é tudo. Está no meu sangue. Eu amo esse esporte e o vejo com outros olhos. As pessoas que não conhecem o que o boxe tem por trás enxergam o boxe apenas como uma forma agressiva. Mas os que conhecem conseguem ver a parte física e técnica, que é o mais bonito.

R13: Todos sabemos que o Brasil é um dos maiores celeiros de atletas do mundo, e no boxe não é diferente. O que fazer, na sua opinião, para mudar o atual cenário em que nos encontramos? O que falta?
Marcelino: Falta mais divulgação a nível internacional, pois é através da divulgação dos atletas que podemos conseguir mais apoio. E, tendo mais apoio na mídia, com certeza teremos mais investimentos no esporte. O boxe amador está bem acompanhado, mas o profissional, apesar de alguns investidores, ainda deixa a desejar devido ao pouco espaço oferecido pela mídia. E fico feliz de estar sendo entrevistado hoje, mesmo estando fora dos ringues, sendo que o pequeno espaço que hoje existe é apenas para aqueles que estão em atividade. Eu estive na mídia, mas não estou mais há algum tempo. É aquele negócio: enquanto você está fazendo sucesso, todos te adoram. Depois, você é apenas mais um.

R13: Você pretende continuar trabalhando com o boxe hoje em dia de alguma outra forma, sem ser como lutador?
Marcelino: Sou personal trainer, mas não sou puxa saco. Gosto de treinar aqueles que têm objetivos e sonhos, não gosto de quem faz corpo mole. Se você quer chegar a algum lugar no esporte, você tem que suar a camisa, tem que dar o sangue.

R13: Agradecimentos? Algum recado para os fãs?
Marcelino: Sou grato à Bad Boy, que me patrocinou por 9 anos consecutivos, ao meu grande amigo Bubi, que me ajudou a viajar a Cuba para treinar em 1999, e a muitos outros que sempre me deram um apoio, de uma maneira ou outra, quando eu estava no amador. Já no profissional, tive um grande incentivador, e que quando eu não tinha mais para onde correr, ele, que chegou a ser meu aluno, estava lá me apoiando sempre que precisava: é o Sérgio, muito conhecido como Bré. Meu recado é: se você tem um sonho, vá em busca dele. Nada é impossível. O futuro depende do que você faz hoje. Cuide de seu corpo e de sua saúde. E quando se tem 3 razões para lutar, amor, fé e esperança, você conseguirá superar todos os obstáculos. Quero também agradecer pelo espaço que estão oferecendo aos atletas para que cada um possa expor suas dificuldades e experiências pelas quais tem passado em sua longa jornada esportiva. Sou muito grato pelo espaço a mim dedicado, e se estou sendo entrevistado hoje, depois de tantos anos fora do esporte, é porque meu passado fala por mim. Então, comece a plantar hoje para que possa fazer uma boa colheita no futuro. Muito obrigado.

Site oficial do Marcelino Novaes, com diversos artigos e fotos: http://www.marcelinonovaes.hpg.com.br/

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