Pós-Luta

Publicado em 18 de Dezembro de 2016 às 04h:14

Em noite lamentável, Hopkins é, literalmente, jogado para fora do ringue

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Autor Daniel Leal


Era para Bernard Hopkins se despedir do boxe na noite de hoje em Inglewood, Califórnia. O que aconteceu foi o contrário: O esporte expeliu o veterano. Profissional, Yamaguchi Falcão fez seu trabalho nas preliminares, mesmo com seu oponente não querendo fazê-lo.
(Imagem: HBO Boxing)

A noite era para ser de festa para Bernard “B-Hop/The Alien/The Executioner” Hopkins (55-8-2, 32 ko's) no Forum, em Inglewood, Califórnia. O problema foi que o outro convidado chamava-se Joe Smith Jr. (23-1, 19 ko's), atual campeão Internacional dos meio-pesados pelo Conselho Mundial de Boxe, e não foi avisado disso, ou resolveu, simplesmente, estragar a comemoração.

Em um momento triste de clara demonstração que, por melhor que um atleta seja, por mais imbatível que possa parecer, o tempo é sempre implacável, o estadunidense teve pouco, ou nada, a comemorar. Se em um passado não tão distante Hopkins lidaria facilmente com Smith, próximo de completar 52 anos de idade esta já não é mais a realidade.

As coisas não começaram bem para o veterano. Em um primeiro round de estudos de sua parte e agressividade do oponente, Smith Jr. foi quem conseguiu conectar os melhores golpes, inclusive fazendo com que Hopkins tivesse que utilizar seu jogo de pernas nos momentos finais. A situação só melhorou para B-Hop ao final do segundo assalto quando começou a encaixar alguns overhands. O supercílio esquerdo de Joe acabou aberto por uma cabeçada, o que o prejudicou momentaneamente.

Bernard tinha raros lampejos de seu reconhecido talento, enquanto seu jovem contendor buscava sempre a potência como arma, além dos golpes no corpo. O “Executioner” tentava mostrar sua técnica, mas muitas vezes aplicava golpes sem força alguma, apesar de demonstrar bons reflexos. Sua movimentação também mostrava-se prejudicada.

No quinto giro, “The Alien” se viu vítima de cada vez mais diretos de direita. Duro, não sentia, ou demonstrava não sentir, a maioria deles. Porém, no oitavo intervalo, já não foi possível esconder o quanto acabou afetado pelo poder de punch de seu adversário. Sentindo o cheiro de sangue, Smith aplicou bela sequência de cruzados, empurrando Hopkins do corner para as cordas e então das cordas para fora do ringue. Em queda livre, Bernard bateu a cabeça no solo.

Tentativas desesperadas de ajudar o lutador foram feitas, sem a anuência do árbitro, conforme manda o regulamento. Não conseguindo voltar em 20 segundos, tempo máximo para quem cai do quadrilátero, o legendário boxeador ainda tentou inventar a desculpa de uma torção de tornozelo e de um empurrão, visivelmente querendo justificar sua derrota. Os replays, porém, desmentiram este argumento e Smith Jr. foi declarado, com justiça, o vencedor do confronto.

Um fim melancólico para alguém que, com razão, havia chamado Joe Smith Jr. de “comum” nas coletivas de imprensa, ao passo que se adjetivava como “especial”. Hopkins nunca havia sido nocauteado, mais uma razão pela qual talvez não deveria ter tentado despedir-se. Sua derrota de novembro de 2014 para Sergey Kovalev seria um adeus muito mais honroso, como sua carreira merecia.

Obrigado pelas memórias, Bernard, menos por essa...

Já o brasileiro Yamaguchi Falcão (12-0, 6 ko´s) provou hoje do amargo gosto de uma luta mal marcada por seus promotores. Ele venceu German Perez (11-3-3, 3 ko's), mas não da maneira que todos gostariam. Yamaguchi, no entanto, não teve responsabilidade nisso, pelo contrário, nosso pugilista talvez tenha sido o maior prejudicado.

Primeiramente, Perez se apresentou à balança cerca de oito quilos à cima do peso, demonstrando total falta de comprometimento. Tentou-se o duro recente adversário de Esquiva Falcão, Josue Obando, como novo nome, mas não houve tempo hábil para a apresentação dos exames aceitos pela comissão atlética da Califórnia.

“Guchi” então teve de aceitar encarar Perez, totalmente fora de forma e muito mais pesado, em disputa não-valida pelo cinturão Latino do CMB e que seria de grande importância para seu rankeamento na entidade. O que já estava ruim ficou pior, pois o “atleta” a sua frente não durou nem meio minuto. Torceu o tornozelo (nenhuma surpresa, dada sua nítida falta de preparo físico), tomou uma sequência e o árbitro interrompeu o confronto ao ver o sinal de desistência do mexicano.

Falcão soma então sua 12ª vitória no boxe profissional, mas não conseguiu nem impressionar, nem impulsionar sua carreira. Fez seu papel e pode até ter ganho pontos junto à Golden Boy Promotions por ter mantido o combate, mas, por culpa da falta completa de profissionalismo de seu oponente, não pôde brilhar como era esperado e como merecia.

O trabalho de Yamaguchi vem sendo bem-feito e já se especula uma nova apresentação dele nos EUA já em Fevereiro. Nada mais justo que a Golden Boy Promotions, que falhou feio na escolha e falta de monitoramento da situação de Perez, compense o medalhista olímpico pelo que aprontaram hoje. De uma coisa há certeza, de todos os envolvidos, somente Falcão tem o direito de não estar envergonhado pelo ocorrido.

Em outra preliminar importante da noite o ucraniano Oleksandr Usyk (11-0, 10 ko's) venceu Thabiso Mchunu (17-3, 11 ko's) por nocaute técnico no oitavo round e defendeu seu cinturão dos cruzadores pela OMB. Após começar melhor, o desafiante africano foi sendo sublimado pelo tamanho e técnica de Usyk, que derrubou-o duas vezes para garantir o êxito.

O evento teve transmissão simultânea, e ao vivo para o Brasil, através da Fox Sports e do SporTV 2.

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