Pós-Luta

Publicado em 23 de Dezembro de 2017 às 05h:03

Mais que um mundial, Rose venceu uma guerra!

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Autor Daniel Leal

Na noite desta sexta-feira, Rose Volante se tornou a primeira mulher brasileira campeã mundial por uma das quatro grandes entidades regentes do boxe. Para isso ela venceu Brenda Carabajal, o árbitro, os jurados, a torcida em Jujuy, na Argentina, e o descaso da mídia brasileira. (Imagem: Montagem R13)

Ao entrar na academia, me deparei com Rose já terminando seu alongamento. A luta havia sido fechada poucos dias antes, mas ela já estava pronta, próxima do peso, inclusive. Há dois meses a paulistana estava morando em Santos, litoral de São Paulo, aonde treinava diariamente sob os cuidados de Felipe Moledas.

Era muito difícil para ela o deslocamento para conseguir treinar com seu “pai”, Tony Gomes, o que somada a rotina de trabalho, tornava tudo estafante demais. Com ajuda da Memorial, do empresário Pepe Alstult, conseguiu conciliar a manutenção do trabalho com Tony e a nova equipe de Moledas.

Surgira a oportunidade de pelejar com Brenda Carabajal (13-4-1, 9 ko's), em Jujuy, na Argentina. A primeira coisa que perguntei a ela naquele dia foi: “Você viu o vídeo dela?”

“Qual?” - respondeu.

“Aquele da água no cabelo”- disse-lhe.

Rimos, pois ao se digitar o nome de adversária na busca do YouTube, o vídeo em maior destaque era um em que Carabajal fazia tudo, menos boxear. A lutadora posava para a câmera como se fosse uma modelo e em certo momento jogavam-lhe água na cabeça, em uma tentativa um tanto frustrada de fazer a atleta parecer “sexy”.

A invicta brasileira, com um cartel agora de 13-0, sendo sete vitórias por nocaute, sorriu e me disse que havia estado com a futura oponente em uma oportunidade anterior. Já na época do amadorismo, Brenda era uma “estrela”, uma espécie de sub-celebridade boxística argentina. Tinha até alguém exclusivamente para lhe fazer a mão, ou seja, suas bandagens, antes do treinamento em que estiveram juntas, na ocasião. Foi por isso que, ao final de nosso diálogo naquele momento, alertei-a que ela tinha que bater muito na rival para vencê-la por lá. Rose prontamente me corrigiu: Tem que bater “mucho”.

Contratada de um dos maiores promotores argentinos, Carabajal tem muito mais imagem do que boxe. Isso ficou claro logo no primeiro round da luta desta sexta-feira, quando, assustada com o ímpeto e poder de punch de Volante, logo foi ao solo após um cruzado que sequer entrou por completo.

No segundo assalto, a hermana beijou a lona novamente. Valente, o que é um fato, conseguiu retornar e aguentar de pé a surra que lhe foi imposta durante a maior parte do tempo em frente à atônita plateia de San Salvador de Jujuy, cidade aonde nasceu. Mesmo se recuperando e, eventualmente, levando alguma vantagem no número de golpes, nem por um segundo “La Pumita” conseguiu impôr-se perante a lutadora tupiniquim.

Estava claro, inclusive ao se ouvir os comentaristas da Tyc Sports, emissora responsável pela transmissão do evento, que o que se esperava de Rose era esta ser “mais um desconhecido vindo do Brasil”, o que, em geral, significa que o referido atleta, no máximo, estava ali para não perder de muito, ou até mesmo se jogar ao primeiro soco e trazer seu pagamento pra casa, como já fizeram tantos. Assim que terminou o intervalo inicial, no entanto, era nítida a falta de fôlego dos âncoras. “La brasileña sabe pelear”, falavam, em tom assustado.

Esse tipo de surpresa ocorreu pois estes não fizeram a lição de casa. Bastava ver que Maria Maderna, adversária em comum de ambas, havia sido batida mais facilmente por Volante. Bastava ver suas lutas, as quais nós mesmos havíamos transmitido e estão disponíveis na internet, e saberiam que “The Queen” era mais forte, aguerrida, rápida e feroz.

Foi com essa dura lição que Carabajal voltou derrotada para seu lar. Sem preocupar, ou sequer colocar em riscos o domínio de Rose, que andou para frente o tempo todo e, quando estava “arreando” a adversária com golpes no corpo, viu o árbitro argentino, malandramente, acusá-la de acertar abaixo da linha de cintura para impedir que continuasse aplicando a tática que funcionava corretamente. Não tem problema, seguiu-se o bombardeio, até o soar final do gongo.

Em nossa papeleta, e na dos próprios comentaristas locais, 97-91 para Volante, inferindo que, mesmo sem os dois knockdowns aplicados, venceria tranquilamente a contenda. No entanto, as coisas não funcionam assim na Argentina, lugar aonde nunca se deve duvidar da capacidade dos envolvidos em mudar intencionalmente os resultados. As marcações oficiais ficaram em absurdos 95-93 e 94-93 para a brasileira e completo e descarado assalto de 94-94, empate. Em resumo, mesmo surrando Brenda a noite toda, se não tivesse derrubado-a duas vezes, Rose amargaria uma derrota descabida nos pontos.

A Argentina, de fato, é um lugar inóspito para boxeadores estrangeiros. Ir lá, e voltar com um cinturão mundial, é como capturar o mesmo de dentro de um vulcão em erupção. Foi o que fez Rose Volante.

Ela obrigou os hermanos a lhe darem a vitória. Obrigou os jurados a engolir seco que uma brasileira era agora a campeã OMB das pesos-leves, cetro que estava vago e que fora planejado para ser entregue à Carabajal. Não se intimidou com a atuação do árbitro, ignorando-o com suas advertências, por vezes, propositadamente exageradas e salvadoras. E fez tudo isso lidando com o pouco caso da mídia esportiva.

Nesta noite em que os canais pagos de esporte no Brasil passaram reprises de UFC, compactos de surfe, V.T.s de jogos do campeonato inglês e francês de futebol, dentre outras programações “imperdíveis”, uma brasileira estava fazendo história, tornando-se a primeira campeã de nosso país por uma das quatro entidades que regem o pugilismo internacional. E estes veículos, que recebem mensalmente de seus assinantes, não fizeram o menor esforço para levar ao ar a luta no Brasil, ainda que os direitos de transmissão da mesma estivessem sendo oferecidos DE GRAÇA, segundo o que nos foi passado. Vai ver eles não acreditavam em Rose Volante, tal qual os nossos vizinhos ao sul. Vai ver eles também não fazem a lição de casa.

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